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A poesia de Paulo Leminski e a explicitação do programa marginal
Vanessa Sebben (UFPel)
Setores da juventude dos anos setenta e da intelectualidade, depois de viverem a problemática da década anterior, encontram um lugar de contato, definido pela recusa e descrença das linguagens e significações dadas pelo sistema, exatamente num momento em que a política cultural oficial fomenta a produção artística. Esta classe, justamente por buscar uma atuação em circuitos artísticos alternativos, foi precursora do estalo "marginal", ou seja, uma manifestação, não somente literária, de recusa aos pressupostos do engajamento populista e vanguardista, manuseada através de subversivos modos de edição e distribuição artesanal.
Numa linguagem que faz registros ambíguos e irônicos da experiência de vida revelando nisto um certo senso crítico, que permite a interferência do coloquial no literário, que apregoa a poetização da própria vivência e, principalmente, que manifestamente rejeita a técnica, os poetas marginais constróem seu programa despreocupadamente, e, dentre eles, ressalte-se o curitibano Paulo Leminski, um dos mais expressivos de seu tempo.
Foi nos idos dos anos sessenta que Paulo Leminski estréia publicamente como poeta, numa linguagem que combinava elementos oriundos da estética concretista. Mas a sua poesia veio a ser reconhecida depois de, nos anos setenta e com a repressão ditatorial, o poeta ter sofrido o grande impacto dos novos valores culturais e libertários.
O presente trabalho visa, centralizado na análise estrutural de um corpus de poesias de Paulo Leminski (extraído das obras Distraídos Venceremos e Melhores Poemas ) 1, demonstrar que o poeta reitera, em muitos momentos de sua obra, o que é "ser marginal", expressando nos versos muitas características desta nova proposta: uma poesia pura, sem sentimentalismos; uma negação das estruturas consagradas; a poética da momentaneidade; o jogo lúdico das palavras; uma crítica da realidade do povo, dentre outras.
Leyla Perrone-Moisés, ao tecer comentários acerca da poesia de Paulo Leminski no ensaio intitulado "Leminski, o samurai malandro" 2, assim observa acerca da estrutura formal mais presente em sua obra:
"Leminski pingou um poema em nosso olho e passou. Passou rápido, porque ele morava no olho do furacão. A vida era intensa, mas a poesia era paciente trabalho de linguagem. Leminski não caía no logro da expressividade ou da inspiração. Ostentando as insígnias da contracultura, ele era um poeta culto, que conhecia o seu ofício e o levava a sério, num gabinete cheio de vida e de desordem.
‘A forma breve, por ele cultivada, oferece grandes riscos. O breve pode ser apenas pouco, o menos obtido por subtração. O grande poema breve é a concentração sem perda, o máximo no mínimo. Leminski conhecia essa arte e colhia o poema com o golpe certeiro na espada zen ."
A insígnia mestra detecta, com muita precisão, uma das características mais presentes nos poemas no que diz respeito ao aspecto formal, qual seja, a brevidade das formas. Isso é uma grande virtude do gênero, haja vista que o poeta consegue condensar temas, muitas vezes complexos, em pouco mais de alguns versos, num arranjo lúdico com as palavras.
Primeiramente, cabe ressaltar que, com raras exceções, as poesias têm versos livres, como reflexo de afirmação de novos ideais estéticos, numa quebra com as formas rígidas e tradicionais do passado. Mas o importante mesmo, quando se tratava de poesia marginal, era estruturar as formas de modo que se tornasse evidente o "despropósito", ou seja, o descompromisso com o enquadramento da obra a escolas literárias, a programas políticos "didáticos", e, mais fortemente, à poesia das academias.
Algumas poesias do corpus que vêm ao presente trabalho para ilustrar esta proposta são "Iceberg", "O mínimo do máximo" e "Razão de Ser"; nesta última, por exemplo, fica evidente a atitude "descompromisso", e tal poema, certamente, recai ao autor como um dos mais representativos de sua obra, uma vez que, com informalidade e uma certa quebra de decoro, o poema trata de valores existenciais com um certo padrão de complexidade, trazendo ainda elementos que perfazem a proposta marginal.
Com relação aos quatro primeiros versos, "Razão de Ser" denota um tom intransigente do eu-lírico ao tratar sobre a necessidade de escrever, como se esta atitude fosse uma resposta, em tom invocador, ao sistema institucionalizado/acadêmico de poesia:
“Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
[...]”
Esta irreverência é marca da estética marginal, que se vê como poesia pretensamente fora dos padrões, e inclusive fora do mercado editorial. Já com relação aos quatro versos seguintes, o eu-lírico fala da motivação para escrever, que lhe é inerente e independe de artificialismos, ou mesmo de requisitos técnicos. Tal é o espelho principal da estética marginal, que se quer livre de conjuntos e valores culturais medidos e estabelecidos.
Vejamos, ainda, que o eu-lírico menciona que as estrelas no céu lembram-lhe letras no papel, como se o fazer poético fosse um simples "captar" imagens no ar, ainda vivas, fazendo-as "aterrissar" no papel, e, tal como a noite cai sobre as cidades, o poema simplesmente anoitece no "eu-lírico":
“[...] Escrevo porque amanhece,
e as estrelas lá no céu
lembram letras no papel,
quando o poema me anoitece.[...]”
Para reforçar a idéia de que o fazer poético lhe é natural, o eu-lírico ilustra, a partir dos quatro últimos versos, exemplos de atitudes do reino animal ("A aranha tece teias./ O peixe beija e morde o que vê."), comparando-se a elas, como se o ato de escrever se limitasse à simplicidade de captar a matéria-prima da pura experiência vivida. Os dois últimos versos fecham o poema retomando a atitude rústica e informal com que iniciou o poema ("Eu escrevo apenas./Tem que ter porquê?"). A pergunta não encerra propriamente uma dúvida, e sim a famosa "quebra de decoro", arma de choque da atitude marginal.
O "escrever apenas" é o arauto da poesia marginal, é o que a livra da composição estruturada. Por escreverem "ao acaso", os poetas marginais driblam não só os moldes técnicos de produção literária, como o todo o universo do esforço e do trabalho na composição. O comportamento deste grupo de intelectuais vinha pela linha da anti-institucionalização lato sensu , como destacou Heloísa Buarque de Hollanda no seu artigo Arrumando a casa , publicado na "Coluna B" do Jornal do Brasil, no dia 15 de Janeiro de 1983. 3
Também no poema "Iceberg", sugestivo título para a temática do antilirismo, é apregoada uma negação às estruturas tradicionalmente consagradas, de maneira contundente e crítica:
“ICEBERG
Uma poesia ártica,
claro, é isso que desejo.
Uma prática pálida
três versos de gelo.
Uma frase-superfície
onde vida-frase alguma
não seja mais possível
Frase, não. Nenhuma.
Uma lira nula,
reduzida ao puro mínimo,
um piscar do espírito
a única coisa única.
Mas falo. E, ao falar, provoco
nuvens de equívocos
(ou enxame de monólogos?).
Sim, inverno, estamos vivos.”
A ideologia que transparece já na própria forma da poesia mostra que a intenção marginal está centrada em escrever sem nenhum critério pré-estabelecido, sem a vã inspiração dos sentimentos. Uma poesia “antilirismo”, tão ausente de calor humano que se aproxime, fisicamente, ao gelo, a um iceberg . A caracterização desta poesia está explícita nos adjetivos “ártica”, “pálida”, apregoando a “única coisa única”, o substancial, o superficial, o essencial, expurgando os adornos do sentimentalismo puro.
O que se verá, não apenas em Iceberg, é que Leminski põe em prática a “poesia ártica”, pois de fato verifica-se uma poesia muito direta, algo de fácil entendimento, mas não exatamente “fria”, porque no verso "Mas falo. E, ao falar, provoco/nuvens de equívocos/(ou enxame de monólogos?)" a conjunção adversativa "mas" faz uma ressalva sobre a "frialdade" dos versos poéticos. Assim, apesar de ser apregoada a lira reduzida ao mínimo, é por meio deste mínimo do espírito do poeta que ele "fala" de seus sentimentos, e que, apesar do frio, tanto o poeta quanto o inverno transmitem calor e beleza, ou seja, estão "vivos".
Notamos que o eu-lírico expressamente apregoa a lira nula, tal é o seu temor em ser mais um poeta que usa esquemas prosaicos, acadêmicos. Afinal, como o mesmo conclui no poema "O mínimo do máximo",
“[...]
Se não pego isso
que me passa no íntimo,
importa muito?
Rapto o ritmo. “
o essencial é transmitir o essencial, com brevidade e com o mínimo de lirismo: “apenas o mínimo/ em matéria de máximo.”
Praticamente todas as poesias do corpus aqui analisado possuem uma característica que lhe são muito próprias no campo da sonoridade: apesar de o esquema rítmico variar de verso em verso, as poesias, em si mesmas, seja pelo jogo de palavras, seja pela harmonização dos sons, possuem um ritmo muito coeso, quase que um balanço musical.
Outro aspecto interessante na questão da sonoridade é o uso de rimas, uma vez que tais foram extremamente dispensadas do jogo poético a partir dos modernistas. Leminski abusou deste recurso sonoro, e cremos que não só movido por um nítido prazer auditivo, como também pela pretensão de se fazer mais próximo do público leitor, já que a musicalidade provoca uma atração aos ouvidos do povo.
Para bem exemplificar o jogo sonoro criado pelo poeta, destacamos o poema intitulado Além Alma (Uma grama depois) :
“Meu coração lá de longe
faz sinal que quer voltar.
Já no peito trago em bronze:
NÃO TEM VAGA NEM LUGAR.
Pra que me serve um negócio
que não cessa de bater?
Mais parece um relógio
que acaba de enlouquecer.
Pra que é que eu quero quem chora,
se estou tão bem assim,
e o vazio que vai lá fora
cai macio dentro de mim?”
Em primeiro lugar, salta aos olhos a métrica do poema, qual seja, a popularesca redondilha maior . Este metro é mais simples do ponto de vista das leis métricas, pois os acentos podem recair em qualquer das sílabas do verso; por isso predomina nas quadrilhas e canções populares. Daí inferimos que o poema marginal deseja "soar" aos ouvidos do povo, pois à medida em que se assemelha à métrica popular, mais distante estará da elaborada métrica tradicional.
Essa observação condiz também no que tange às rimas, que são do tipo alternadas, sugerindo a formação em quadras. Trazendo o que há de mais comum em matéria de sonoridade na poesia, a leitura do poema já identifica a pretensão do eu-lírico de se fazer popular, com ritmo de cantiga, para ser "cantado" e não apenas lido, para ser popularizado, e não ser entendido como mais um intelectual das academias.
O metal “bronze” mencionado no poema, dá porte de dureza do eu-lírico em relação às questões de cunho sentimental, ou então de participação nas questões sociais. Daí que Leminski demonstra, na sua poesia, o não-envolvimento, não se apaixonando por causas políticas. Prefere manter-se apaziguado com a poesia, não a utilizando como instrumento de embate social.
A poesia de Leminski não foge à regra de toda a composição que se diz marginal, uma vez que ela exprime uma situação de vida experimentada de modo muito imediato, como que vizinha aos acontecimentos. Por isso, a espontaneidade da linguagem, na medida em que a poesia se apropria de termos pertencentes à oralidade, no que promove uma relação simpática com o leitor, e, inclusive, a absorção de ditos populares. Em se tratando de palavra, tudo é pretexto para brincar, porém, ao mesmo tempo, para vir sobrecarregado de ideologia, afastando a concepção já difundida de que os poetas marginais não tinham poder de fogo. Senão, vejamos:
“TATAMI-O OU
DEITE-O
de colchão em colchão
chego à conclusão
meu lar é no chão”
Este hai-cai, tipo de poema japonês composto de 17 sílabas distribuídas em três versos que consiste na anotação poética e espontânea de um momento 4, parodia o tom sério e moralizador da campanha do governo militar "Brasil: ame-o ou deixe-o", de cunho altamente ideológico em torno das noções de patriotismo e ordem, que foi difundido como slogan a partir do golpe do AI-5, em 1968. É visível que o eu-lírico parodia a frase, ironizando o amor patriótico. Podemos entender que a ordem é lute contra a situação ou não aja, sendo que o eu-lírico transmite a sua escolha, qual seja, a de não-envolvimento com as questões revolucionárias (“meu lar é no chão”). O poeta marginal, "desbundado", exime-se da participação, limitando-se a tirar uma lição poética e bem humorada do caos.
Como conseqüência da edição do AI-5 em fins de 1968, e do Decreto-Lei 477, no início de 1969, que punham fim às prerrogativas individuais em nome do ‘interesse e segurança nacionais', o nosso cenário cultural ganha uma imagem de território devastado. O grito da intelectualidade já ecoa amedrontado, e bem ciente da impossibilidade de multiplicação de debates políticos que passassem do apenas arrebatamento, para serem efetivos na realidade. A crise de confiança diante da esfera oficial transborda por toda a sociedade civil brasileira. São estes sentimentos que transparecem pela estética marginal, principalmente nos poemas de Paulo Leminski.
Apesar de inexistir um programa propriamente marginal, em todos os poemas selecionados podemos reconhecer elementos que caracterizam o que seja este modo de fazer poesia, eis aí a presença da metalinguagem. Em alguns, o poeta coloca de forma mais explícita:
“Marginal é quem escreve à margem,
deixando branca a página
para que a paisagem passe
e deixe tudo claro à sua passagem.
Marginal , escrever na entrelinha,
sem nunca saber direito
quem veio primeiro,
o ovo ou a galinha.”
Neste poema, o eu-lírico define o que seria uma atitude marginal, ou seja, a de escrever “à margem”, “na entrelinha”, deixando a página incólume das palavras. Depreende-se disso uma auto-definição extremamente modesta do poeta marginal, que, além de se colocar à margem dos caminhos de manifestação cultural mais importantes, escreve de forma tão clara que sua linguagem é a própria paisagem que “passa” sobre o papel.
Também o poeta marginal é definido como um ser sem demasiadas pretensões filosóficas, pelo que se infere da leitura dos versos “sem nunca saber direito/ quem veio primeiro,/ o ovo ou a galinha.” É exaltada a pequenez em valor positivo, o que, no espaço ético, se manifesta nos atributos da modéstia e da humildade, de acordo com Pedro Lyra.
Em se tratando de poesia marginal, a proposta que se depreende a partir da leitura dos poemas de Leminski é a de poesia nova, de novo modo de fazer poesia, de uma ‘reconstrução' que antes significa construir novamente, só que sem planilhas e métodos; sem pré-programas, nem pré-avisos. O que acaba por se compreender desta “renovação” do modo de escrever poesia é que os métodos tradicionais, ou propriamente acadêmicos, se revelam como “[...] permanência de algo superado e, por isso, indesejado, bloqueando o espaço para o aparecimento e a afirmação do novo. Aí ele se define como velho, decadente, ultrapassado e provoca um certo repúdio à consciência do sujeito.” 5
Como explica Philadelpho Menezes 6, quando se trata das experimentações vanguardistas, há um íntimo entrelaçamento entre as artes em geral e o cotidiano. Sob influência desse cotidiano, que muitas vezes apresenta uma negação de todos os valores oficiais de cultura, a arte de vanguarda passa a privilegiar a realidade mundana empírica. É, de fato, o que verificamos na poesia de Leminski: impõe-se como valor moderno a linguagem das ruas, tendo em vista que suas poesias recuperam a fala cotidiana e a linguagem anti-literária. E esse valor acaba por não se restringir tão só à linguagem, como também a se alastrar na reviravolta dos valores filosóficos e morais de comportamento.
Com a análise do corpus, podemos constatar que Leminski destaca em seus poemas um espaço de resistência cultural, o qual é um dos mais fortes aspectos da poesia marginal. Em pleno vazio, os jovens põem em pauta os impasses gerados no quadro do "milagre econômico" e desconfiam das linguagens legitimadas do poder e do saber. A própria atitude marginal era a da incompatibilidade com a forma rotineira de vida, marcada pelo profundo conflito entre valores e comportamentos representativos do mundo oficial.
A marginalidade, no espectro das poesias de Leminski, significa uma atitude de desacordo relativamente a um conjunto de valores e normas bem medidos e estabelecidos. A poesia marginal, portanto, somente reflete a des-ordem , querendo reger-se por suas próprias leis. Ser marginal significa mais do ser “à margem” de toda a conjuntura social, alheio aos fatos; antes de mais nada, a poesia marginal tem o seu poder de combate: a desordem é a sua estratégia.
LEMINSKI, Paulo. Distraídos venceremos . São Paulo: Editora Brasiliense, 4 ª ed., 1991.
LEMINSKI, Paulo. Melhores Poemas de Paulo Leminski/ seleção Fred Góes, Álvaro Marins, 2.ª ed. São Paulo: Global, 1996.
PERRONE-MOISÉS, Leyla. Inútil Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
"(...) É assim que aproveitando os ecos das últimas eleições, me proponho "arrumar a casa", discutindo "ao vivo", numa primeira conversa, com Carlos Alberto Messeder Pereira, autor da volumosa tese Retrato de época: poesia marginal, anos 70. (...)" http://acd.ufrj.br/pacc/literaria/poemao.html
GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons e ritmos . São Paulo: Ática, 6 ª ed., 1990.
LYRA, Pedro. Conceito de poesia. Série Princípios – São Paulo: Ática, 1986, p.19
MENEZES, Philadelpho. A Crise do Passado . São Paulo: Experimento, s/d.