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Teoria literária e formação do leitor.
Rosemary Santos Canazzaro (UFMS)

Introdução.

Os estudos no campo da Teoria Literária, a partir dos anos 80, passaram a priorizar os problemas da recepção dos textos.

Elemento fundamental dos estudos, o conceito de texto tem suscitados calorosas discussões no meio acadêmico.

Para Platão e Fiorin:

o texto não é um aglomerado de frases ” e “ todo texto contém um pronunciamento dentro de um debate de escala mais ampla ”. (Platão e Fiorin, 1996, p.11,13).

 

Segundo o semiólogo italiano Umberto Eco,

um texto na sua superfície lingüística, representa uma cadeia de artifícios de expressões que devem ser atualizadas pelo leitor ”, e que uma obra de arte é “ uma mensagem fundamental ambígua, uma pluralidade de significados que convivem num só significante ”. (Eco, 1996).

 

Um signo entende Eco, não é alguma coisa que esta no lugar de outra coisa

mas é aquilo que sempre nos faz conhecer algo mais ”. (Eco, 1991, p.60)

 

Existem inúmeras portas de entrada dentro do texto. Ele contém um “ pharmakon ” que é considerado extremamente perigoso aos leitores.

Pharmakon : - remédio = texto compreendido, êxtase intelectual provocado no leitor; veneno = não lido.

Este “ pharmakon ” é a opinião do autor que está dentro do texto (elementos não ditos) e que é difícil de ser descoberto, porque está criptográficamente elaborado, surge na estrutura da escritura que pretende entorpecer ou alegrar a memória do leitor em virtude do grau de verdade a ser descoberto.

Partindo do principio de que todo texto necessita de interpretação, Eco distinguiu dois elementos interpretativos, a linguagem necessariamente comum a autor e intérprete e a organização do pensamento (texto) estranho ao intérprete, jogando com a dicotomia parte/ todo, entende que a compreensão da parte só é possível a partir do todo, que por sua vez só é

acessível a partir das partes.

Usualmente,

um código pode produzir muitas mensagens em sucessão e essa mensagem constitui um texto cujo conteúdo é um discurso em diversos níveis ”. (Eco, 1997, p.48)

 

Como não existe um significado fixo e imutável (transcendental ou vinculado ás intenções do autor), a atividade interpretativa nunca esgotará o significado de um texto.

O autor prevê construir diferentes tipologias de leitores: um leitor ingênuo que dá conta de uma interpretação semântica e um leitor-modelo que dá conta de um processo de sentido do mundo possível plasmado no discurso.

Em um texto intitulado Lector in Fabula, Eco sustenta que o leitor manteria uma relação dialética com o autor de uma obra, pois seria ele o co-participante do processo de construção de um texto, pois todo texto conceberia um leitor-modelo capaz de cooperar com o autor da obra, o texto está, pois, entremeado de espaços brancos, de interstícios a serem preenchidos.

O leitor-modelo é criação de um autor-modelo, pois esse último, ao gerar um texto, move-se como um jogador de xadrez que prevê os lances de outro jogador, prever o próprio leitor-modelo não significa somente esperar que ele exista, mas significa também mover o texto de modo a construí-lo.

A interpretação ocorre quando respeitamos a coerência de um texto, ou seja, quando temos em vista o mundo possível de um texto e o léxico de uma época. O leitor interpreta o texto, mas o próprio texto, através de sua cartografia, procura levar ao seu interprete o sentido que preconiza.

Eco recorre a Peirce e sua teoria do significado e dos interpretantes, para falar de limites: toda expressão deverá ser interpretada “ ad infinitum ”, o que equivale dizer que um texto remeterá a outro texto, que por sua vez o remeterá a outro, até o infinito, tal qual o hermetismo. A verdade de um texto se espelha no não dito, e somente quando se esgotarem todas as interpretações, essa verdade, poderá ser percebida.

Interpretar um signo é prever idealmente todos os conceitos possíveis onde ele pode ser inserido e que é tido como ideal.

Roman Jakobson dá como

definição semiótica de um símbolo como sendo sua tradução em outros símbolos ”. (p.84)

 

Roland Barthes nos mostra que:

Saussure definiu como signo a união de um significante e de um significado (...). O plano dos significantes constitui o plano de expressão (mensagem sem fim) e o dos significados o plano de conteúdo ”. (p.43,50)

Peirce distingue duas subclasses diferentes quanto á ordem entre o significante e o significado: as imagens e os diagramas. Na imagem, o significante representa as qualidades simples do significado, enquanto que no diagrama a semelhança entre o significante e o significado, concerne apenas ás relações entre suas parte (...) os diagramas são icônicos, naturalmente análogos à coisa representada . (Jakobson, p.105)”.

 

Eco afirma que as imagens textuais se desprendem da interpretação do receptor como parte de uma grande estratégia de inferências e abduções.

Podemos quase dizer que a abdução é o momento de intuição que ocorre etapa por etapa, até chegar a uma conclusão, uma busca do sentido racional de sinais, indícios e signos, servindo, portanto para enriquecer o código.

A primeira vista, a abdução parece mais um livre movimento da imaginação nutrido de emoções (como uma vaga intuição), em vez de um processo normal de decodificação. Peirce acentua esta sua natureza emotiva. A hipótese substitui uma concepção singular por um complicado nexo de predicados atribuídos ao sujeito... há agora uma sensação particular típica do ato de pensamento pelos quais esses predicados parecem ser inerentes ao sujeito. Na inferência hipotética esse sentimento tão complexo é substituído por um sentimento simples de grande intensidade... Analogamente, os diversos sons emitidos por instrumentos musicais de uma orquestra atingem o ouvido e o resultado é uma emoção musical especial, totalmente distinta do próprio som ... Ela constitui o mais evidente exemplo de PRODUÇÃO DE FUNÇÃO SÍGNICA ”. (Eco, 1997, p. 12).

 

Finalizando a abdução consiste numa razão ou raciocínio que se realiza mediante uma inferência, que busca chegar a um patamar de significação, onde o leitor deve ler o mundo como um grande texto construído a partir de inúmeras linguagens.

No uso do texto, o autor cria uma estratégia de cooperação entre a intenção do autor/ emissor, do leitor/ receptor e do próprio texto em si.

Barthes salientou que,

“Geralmente, ler é decodificar: letras, palavras, sentidos, estruturas, o que é incontestável; mas ao acumular as decodificações, visto que a leitura é por direito infinita, ao retirar o mecanismo de segurança do sentido, ao por a leitura em roda livre, o leitor é tomado numa versão dialética; finalmente não decodifica, supercodifica, não decifra, produz, amontoa linguagens, deixa-se infinitamente e incansavelmente atravessar por elas: é essa a travessia”. (Barthes, 1984, p.36)

 

Uma travessia que busco agora como leitor-modelo ordenar da forma a seguir na análise de “ O Ritmo Dissoluto ” de Manuel Bandeira.

Contemplar : relacionamento objeto/ texto, (várias leituras).

Duvidar : relação com o enigma do discurso, (nesta fase analisei o titulo em relação ao conteúdo).

Explorar : várias entradas no texto, (títulos dos poemas, simbologia, comparativos com outras formas de arte)

Decompor : verso a verso, estrofe a estrofe, (observar semelhanças e diferenças entre eles)

Coletar : descobrir efeitos intencionais, (os 24 poemas de O Ritmo Dissoluto podem ser comparados ao Sistema Serial Dodecafônico).

Conectar : unir os símbolos (analogia entre o sistema serial e os poemas de Manuel Bandeira)

Refletir : o que o autor esta insinuando, (a descoberta do poema de maior êxtase e o de oposição a ele).

Sintetizar : figuratividade do texto, (busca de gráficos e figuras que definam o texto analisado).

Harmonizar : figuratividade, imagem, diagrama, com a percepção de estética do autor.

Contextualizar : verificar os limites das regras impostas pelo período literário e transgredidas pelo autor ao compor seu texto, (Bandeira adquirira em O Ritmo Dissoluto uma

voz própria assim como a música contemporânea onde o indivíduo busca uma nova música).

Símbolos: No sentido freudiano da palavra, o símbolo exprime, de modo indireto,

figurado e mais ou menos difícil de decodificar, o desejo ou os conflitos. Cada símbolo é uma porta que pode nos levar a lugares secretos. As ricas sugestões que esses símbolos evocam nos introduzem em um jogo, no jogo de O Ritmo Dissoluto.

Ritmo : o ritmo é a essência da poesia em que se agrupam os valores de tempo combinados por meio de acentos, num verso ou numa frase musical, movimento com sucessão regular de elementos fortes e fracos. Diz o Littré que o som é aquilo que a audição percebe devido ao efeito de movimentos vibratórios rítmicos. Dois mil anos antes de Pitágoras e Lassus; os chineses conheciam uma música, levada a um verdadeiro ponto de perfeição. Em 2.697 antes de nossa era, um dos ministros do soberano chinês, estabeleceu a oitava em doze semitons que chamou de doze lius.

Dissoluto: separado , desunido , devasso, libertino, corrupto. Esses adjetivos me levam até Dionísio que do ponto de vista da psicanálise simboliza a ruptura das inibições, das repressões, dos recalques, simboliza as forças de dissolução da personalidade.

Silêncio : O silêncio é o 1ºpoema de O Ritmo Dissoluto, a abertura da criação de Bandeira.

O silêncio e o mutismo tem uma significação muito diferente. O silêncio é um prelúdio de abertura a revelação, o mutismo, o impedimento à revelação, seja pela recusa de recebê-la ou de transmiti-la, seja por castigo de te-la misturado à confusão dos gestos e paixões. Segundo as tradições, houve um silêncio antes da criação, haverá um silêncio não final dos tempos. Deus chega à alma que faz reinar em si o silêncio... e não penetra naquele que se fecha e se bloqueia no mutismo .” (Chevalier, 833; 834).

 

Música, harmonia dos números e do cosmo: O recurso á música, com seus timbres, suas tonalidades, seus ritmos é um dos meios de se associar à plenitude da vida cósmica.

A música contemporânea (séc. XX e séc. XXI) ainda está em gestação, nesta fase o individuo busca uma nova música.

Na escala musical um dos padrões mágicos importante é o duodenário, ele representa as doze notas possíveis da escala e todos os arquétipos relacionados ao número doze: os signos do zodíaco, os apóstolos, os meses do ano solar, as horas do dias e às doze horas da noite, simboliza o universo no seu curso cíclico espaço temporal.

Assim como a música contemporânea em O Ritmo Dissoluto,

o poeta adquirira uma voz própria, criara uma linguagem, abrira um novo caminho... uma nova forma de unir as palavras, de lhes dar outra vida, outros sentidos, com um jeito ainda não usado de substantivar as coisas.” (Nota preliminar, Antônio Olinto).

 

Bandeira expressa no processo de organização dos títulos dos poemas uma figura comparável, esteticamente, ao valor musical da “série” descoberta por Schoenberg, purificado por Webern. Webern emprega três recursos fundamentais , a saber: o silêncio , a dispersão da matéria sonora e a descontinuidade do discurso musical. Busquei no espaço gráfico entre as palavras do título a minha primeira análise gráfica e que possui uma ligação com a Música Serial. ( fig.1 )

Título dos poemas

Fig.1

 

O silêncio

O menino doente

Balada de Santa Maria Egpiciaca

O espelho

Na solidão das noites úmidas

Felicidade

Murmúrio d'água

Mar bravo

Carinho triste

10º Bélgica

11º A vigília de Hero

12º Os sinos

13º Madrigal melancólico

14º Quando perderes o gosto humilde da tristeza

15 º Estrada

16º Meninos carvoeiros

17º Sob o céu todo estrelado

18º Noturno da mosela

19º Gesso

20º A mata

21º Noite morta

22º Na rua do sabão

23º Berimbau

24º Balõezinhos

 

Segundo a análise do gráfico ( fig.1 ) o 14º poema é o ponto mais alto alcançado ( 6

espaços ), o êxtase, a vibração maior e, em oposição a ele o 19º poema.

O Sistema Serial Dodecafônico consiste na ordenação primária de todos os doze sons da escala cromáticos, dispostos numa seqüência escolhidos pelo próprio compositor.

Schoenberg se propunha a dar continuidade à tradição através do Serialismo, utilizando a série de modo à:

“Compor como antes”, ou seja, “como os grandes compositores germânicos”, dos quais aprendeu: “a emancipação com relação aos tempos do compasso” e “o pensamento contrapontístico” (Bach); “ a desigualdade do comprimento das frases ”, “ o agrupamento de caracteres heterogêneos numa só entidade temática ”(Mozart), “ a arte de prolongar, mas também de encurtar brutalmente, segundo as necessidades em causa ”(Beethoven), “ o parentesco de conceber temas e motivos enquanto entidades autônomas, o que permite uma superposição dissonante em relação a certas harmonias ”(Wagner), “(...) a irregularidade do número de compassos, extensão e condensação das frases ”(Brahms). Leibowitz, p. 41-2

 

A descrição da Musica Serial é análoga aos poemas de Bandeira.

O número é o engodo do mistério

Os números, que aparentemente servem apenas para contar, forneceram, desde os tempos antigos, uma base de escolha para as elaborações simbólicas, pois, além de quantidades, exprimem idéias e forças.

Os números como os nomes, quando são enunciados, deslocam forças que estabelecem uma corrente, como um riacho subterrâneo, invisível, mas presente. (Dicionário de símbolos).

No título do livro de Bandeira encontramos dois espaços entre as palavras:

O – ritmo – dissoluto

1 + 1 = 2

O número dois é símbolo de oposição e conflito. Exprime um antagonismo que de latente se torna manifesto; que pode ser de ódio quanto de amor, o bem e o mal, á vida e a morte. A representação desses dois contrários é feita pelo yin e o yang que são a análise e a imagem das representações espaço temporais. Exprime-se através de um círculo dividido em duas metades iguais por uma linha sinuosa. A linha mediana pode representar o traçado de uma hélice evolutiva, exprime o ciclo do destino individual e suas duas extremidades correspondentes ao

nascimento e a morte. ( fig.2 )

Fig. 2

O Ritmo Dissoluto = 15 letras

1+5 = 6

Seis: Selo de Salomão

Para Allendy, o senário marca essencialmente a oposição da criatura ao Criador, em um equilíbrio indefinido; que vem a ser a origem de todas as ambivalências de seis. Pode enclinar-se para a direção à união com Deus, mas também à revolta.

No Apocalipse, o número seis teria uma significação de número do pecado.

O seis é um número nefasto e esse dia é também o dia da morte, pois, o sexto dia, para os maias, pertence aos deuses da chuva e da tempestade.

Bandeira oferece em seu livro 24 poemas que é igualável aos 24 anciãos que designam o desenrolar do tempo da história humana. O número exprime a relação dos ciclos permanentes, é a roda dos renascimentos são o desenrolar da vida de Bandeira. A Bíblia conhece 24 classes de sacerdotes, 24 classes de cantores, 24 anciões do Apocalipse com seus 24 acentos.

24 poemas

2 + 4= 6

Segundo a numerologia devemos fazer a soma dos números, voltamos mais uma vez ao número seis, reforçando ainda mais sua simbologia no livro de Manuel Bandeira.

O autor nos apresenta seis títulos sem a existência de espaços gráficos com apenas uma

palavra. ( Selo de Salomão, fig 3 ).

1-Felicidade

2-Bélgica

3-Estrada

4-Gesso

5-Berimbau

6-Balõezinhos

Fig. 3

            1

2                   6

3 5

         4

 

Referências:

BANDEIRA , Manuel – Poesia Completa e Prosa . Editora Aguilar, Rio de Janeiro, 1967.

BARTHES, Roland – O rumor da língua . Edições 70, Tradução de Antonio Gonçalves. Lisboa, 1984.

Chevalier , Jean - Dicionário de símbolos . Editor José Olympio, 15ªedição, Tradução: Vera da Costa e Silva, Raul de Sá Barbosa, Ângela Melim, Lúcia Melim. Rio de Janeiro, 2000.

ECO, Umberto - Semiótica e filosofia da linguagem . Editora Ática, São Paulo. 1991. Os limites da interpretação . Editora Perspectiva, São Paulo, 1995.

JAKOBSON, Roman – Lingüística e comunicação . Editora Cultrix, São Paulo, 2000.

LEIBOWITZ, René - Schoenberg . Perspectiva, São Paulo, 174 p., 1981.

PLATÃO e FIORIN – Para entender o texto . Editora Ática, São Paulo, 1996.