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Dom e hospitalidade : o poema inabitável ou Em torno da epígrafe que convida a este texto.
Olivier Allain (UFSC)
Um ato de hospitalidade só pode ser poético .
Jacques Derrida 1
Começamos com uma apropriação: retomamos a Anne Dufourmentelle a epígrafe que inicia seu texto chamado “convite”, uma espécie de texto-convite portanto, que se desenvolve em página paralela ao “texto-convidado”, este assinado por Jacques Derrida. Haveríamos desde já de tentar definir, justificar o que tal coisa, um texto-convite, poderia querer dizer? O presente texto, o texto-presente, já não implicaria uma aquiescência, uma resposta, uma resposta de hóspede? Nos apropriamos da sentença como se fosse dela [de Anne Dufourmentelle], como se ela fosse a primeira hospedeira, deste nosso convidado de “segunda mão”.
Em todo caso, neste pequeno texto (ainda estaremos falando da epígrafe) novamente convocado, parecece-nos inscrever-se uma potência, uma força diferencial da qual poderia, porque não, partir a questão da hospitalidade (ou a hospitalidade como questão, ou ainda questão da questão). Potência epigráfica ou epigramática: o dicionário indica para o verbete “epígrafe”, além do sentido de título ou tema de um assunto, o valor de inscrição (nos perguntaríamos: uma inscrição “mais inscrita” que as outras?), sendo a epigrafia “o estudo das inscrições” e a tudo isso acrescentaríamos ainda o epigrama, “poesia breve e satírica”, diz também o dicionário, e epigramático, aquilo que se refere ao epigrama ou aquilo que é satírico. No movimento desta cadeia que se oferece a nós, estamos tentados também a forçar o prefixo, epi , derivando-lhe o surgir, o irrompimento que evoca do e no gramático.
Tal movimento leva-nos, talvez de forma um pouco diferencial em relação ao título (pois a epígrafe muitas vezes ainda conserva a assinatura do outro – embora possa ser falsificada, o que pode modificá-la, satirizá-la, até mesmo tirá-la do lugar mas sem comprometer seu movimento), leva-nos então a renomear isso que chamamos pleonasticamente de força epigráfica e epigramática desta inscrição como “poética”, ou seja, já abrindo a forma para sua indefinição. Surgimento do poema no texto, na prosa, um poema em prosa, na via dupla que se traça no deslocamento do poema para o epigramático da epígrafe, isto é, tanto no em que remete a uma forma como ao em da interioridade, de um irrompimento, uma inoculação, de uma invasão.
Objetar-se-ia, é claro, que uma epígrafe situa-se ainda no limiar do texto, entre o já intitulado e a sua prosa, no umbral, no “ pas de la porte ”, negação e limiar de um acolhimento 2. Não deixa de ser, todavia e por um lado, um modo de entender, aqui realmente mais geograficamente dentro do texto, o enunciado radical de Derrida de que a hospitalidade precede a propriedade 3. Primeiramente porque sua acolhida já tem efeitos contaminadores, digamos, e afeta toda a produção que lhe segue. Por outro lado, talvez daí mesmo, desta fronteira reconhecida e transgredida, venha este suplemento de irrupção de satírico e de poético, ainda ronda na epígrafe. Pois este outro que arrancamos do seu texto (diríamos, como sinônimo, de seu contexto) ocupa justamente uma dupla posição: convidado e convite, conviva e “convidante”, “convidador”. Concentração máxima de sentidos como o é o verso para Ezra Pound, a epígrafe é simultaneamente convite porque tem valor de enigma ou porque tem valor de enigma torna-se convidativa. Enigma entendido, pelo menos no caso da epígrafe em questão, como combinação de traços estranhos que suplementam uns aos outros em excesso, perigoso suplemento, de onde emerge uma questão.
Já que ainda não saímos do limiar da nossa porta de entrada da questão, demoremo-nos aí mais um pouco. Nesta demeure , diria Derrida, não como simples habitação mas como demora, atraso. Na frase, ou no verso: um ato de hospitalidade só pode ser poético , temos dois ecos do restritivo só . Este só , é, sem dúvida, não restritivo mas, ao contrário, suplementar: ao ato de hospitalidade acrescenta-se, identifica-se o poético (isso não é surpresa, a pungência da assertividade do enunciado evidencia-se com o emprego do restritivo). Com isso, abre-se, adia-se a fronteira da hospitalidade em direção a outra coisa, estamos tentados a dizer a outra coisa que não ela, talvez exatamente porque o acréscimo feito denuncia as restrições praticadas à hospitalidade. Talvez, também, encontre-se aí um convite, um apelo, uma tentativa de reinscrever a hospitalidade na iminência do pensamento, já que ela não parece mais limitar-se a um campo, o da ética, o da filosofia, e transborda para o “poético”, nome que a rigor, já o frisamos, só tende à indefinição.
Segundo eco do dito restritivo, um ato de hospitalidade só pode ser poético. Um tal ato não poderia ser mais do que poético. Apenas isso. Tratar-se-ia então, num primeiro tempo, de desconstruir a inteireiza deste ato, a inquestionabilidade da hospitalidade que se pratica, de seu agente e paciente, do dom inequívoco do acolhimento. Já se esboça, aliás, no grupo nominal “um ato de hospitalidade” toda uma problemática: o que é isso? O próprio convite – algo de ordem perfeitamente imaterial, abstrata, lingüística, um ato de fala – não seria um? Donde vem ele e para onde, para quem vai? Entrevê-se aí um inempírico intranquilo e inapaziguável.
Mas é justamente no momento do desconforto do que Derrida nomeia por ipseidade, o si, o em-si, a intimidade, em suma, para onde se chama o outro, o estrangeiro, nesse momento é que somos chamados a nos debruçar sobre toda a complexidade que este “só pode ser poético” parece implicar, porém vela. Vela e guarda. A impotência, a perda contida no dom de hospitalidade que “não pode ser mais do que poético”, vela e guarda o avesso da entrada na questão, isto é, o que é esse poético, arrancado, invadido, expropriado de seus gêneros para vir qualificar, para vir assombrar, obsedar a questão da hospitalidade. Ana Cristina César satirizava, diga-se de passagem, no seu poema “Primeira Lição”, os genéricos da poesia: “Os gêneros da poesia são: lírico, satírico, didático, épico, ligeiro.” 4
Não poderemos evitar por muito mais tempo abordar uma das questões fundamentais que, de forma paradoxal, liga os dois problemas, hospitalidade e poesia: trata-se de uma radical ambivalência cujo indecidível leva infalivelmente ao risco. Derrida lembra que o étimo hostis coloca num mesmo espaço de hospedagem e ao mesmo tempo que ele, simultaneamente, o seu contrário, o “hostil” (neste sentido é ambivalência radical), o que, em outros termos, sugere uma indecidibilidade semântica (porém não podemos dissociar o semântico do ético e do político) de um tal ato de hospitalidade, ambivalência encravada na própria linguagem, ambivalência que no entanto se pensa, se investe a partir daquilo que poderíamos chamar provisoriamente do próprio da poesia, a saber a indecidibilidade semântica, o deslize metafórico e metonímico. Resumindo, um impossível desafiando a ética (e toda escolha entre bem e mal) e ao político (como espaço de formação que oscila entre fraternidade/fratricídio, amizade/inimizade), é lançado desde o campo daquilo que se vislumbrou entender como poético.
Dito isso, parece que ainda não disse nada. Para dizer o impossível a que se quer chegar, Derrida invoca uma hospitalidade incondicional, que se pensa numa relação sem relação com uma hospitalidade condicionada, aquela que atende ao outro sob n condições:
Se nos detemos um pouco mais sobre esse dado significativo, pode-se notar mais um paradoxo ou uma contradição: esse direito à hospitalidade oferecido a um estrangeiro “em família”, representado e protegido por seu nome de família, é ao mesmo tempo o que torna possível a hospitalidade ou a relação de hospitalidade com o estrangeiro, o limite e o proibido. Nessas condições, não se oferece hospitalidade ao que chega anônimo e a qualquer um que não tenha nome próprio, nem patronímico, nem família, nem estatuto social, alguém que logo seria tratado não como estrangeiro, mas como mais um bárbaro. Já fizemos alusão a isso: a diferença, uma das sutis diferenças, às vezes imperceptíveis entre o estrangeiro e o outro absoluto, é que este último pode não ter nome e nome de família; a hospitalidade absoluta ou incondicional que eu gostaria de oferecer a ele supõe uma ruptura com a hospitalidade no sentido corrente, com a hospitalidade condicional , com o direito ou o pacto de hospitalidade. Falando assim, e uma vez mais, nós estamos considerando uma pervertibilidade irredutível. A lei da hospitalidade, a lei formal que governa o conceito geral de hospitalidade, aparece como uma lei paradoxal, perversível ou pervertedora. Ela parece ditar que a hospitalidade absoluta rompe com a lei da hospitalidade como direito ou dever, com o “pacto” de hospitalidade. Em outros termos, a hospitalidade absoluta exige que eu abra minha casa e não apenas ofereça ao estrangeiro (provido de um nome de família, de um estatuto social de estrangeiro, etc.), mas ao outro absoluto, desconhecido, anônimo, que eu lhe ceda lugar , que eu o deixe vir, que o deixe chegar, e ter um lugar no lugar que ofereço a ele, sem exigir dele nem reciprocidade (a entrada num pacto), nem mesmo seu nome. 5
É preciso desdobrar mais um pouco este conceito radical para que reluzam as interfaces aspiradas com a literatura. Pedir aquilo que não se pode pedir, ou dar asilo, abrigar, dar (simples e imaterialmente), para além do risco, risco de violação do direito, da privacidade, risco de abrigar o bárbaro, um absoluto estrangeiro, incompreensível. Risco ainda de contaminação, de que o dom se volte contra o doador, de, ao mesmo tempo que se chama para dentro o outro, expor para fora a sua propriedade. Frágil, a sua intimidade, o seu lar. Vê-los questionados, in-guardados embora não se pare de velá-los. Não mereceria, aliás, este velar uma análise mais aprofundada? Sua relação com o velar do morto e com o véu, por exemplo?
Não à toa, não deixaremos de mencioná-lo agora, o mesmo Derrida descreve o “decorar”, um traço do poema, como se este fizesse um pedido de velamento, de ser guardado, em meio à “festa em luto”: “Eu sou um ditado, profere a poesia, decore-me, recopie-me, vele-me e guarde-me, olhe-me, ditada, sob os olhos: trilha sonora, wake , traço de luz, fotografia da festa em luto ” 6 [último grifo nosso]. Pareceria que o velamento do hospedeiro, bem como a interpelação do poema, não pedem mais que a própria possibilidade de se fazer o dom. Não se trata, todavia, de um dom qualquer, palpável, material (é “trilha sonora, wake [rastro deixado na água pelo barco] traço de luz” etc., coisas que não coisas, que não deixam marca sólida). Atingimos aqui um ponto sensível de nosso estudo: desenha-se simultânea e subterraneamente à hospitalidade, à poesia, talvez até se propague em todo o próprio pensamento radical, uma lógica do dom
Anne Dufourmentelle citando Jacques Derrida. Anne Dufourmentelle convida Jacques Derrida a falar da hospitalidade. Trad. Antonio Romane. São Paulo, Escuta, 2003. 135 p.
Derrida não cunha exatamente esta expressão, fala em “ pas d'hospitalité ” jogando com a ambivalência do “ pas ” em francês, como negação, recusa, e o “ pas ” como passo, passo além. Idem. p. 67.
Enunciado retomado e analizado por Luiz Fernando Medeiros de Carvalho no ensaio “Hospitalidade e propriedade: em torno de um narcisismo residual”. Em torno de Jacques Derrida. Evando Nascimento; Paula Glenadel. [Org.] Rio de Janeiro, 7Letras, 2000. 244 p.
“ Cenas de Abril ” . A teus pés. 2 ed. São Paulo, Ática, 1999. 151 p.
Anne Dufourmentelle... Op. Cit. p. 24-25.
DERRIDA, Jacques. “Che cos'è la poesia”. Inimigo rumor , 10. Rio de Janeiro, Helias, 2001, p. 113.