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A poesia em narrativas infantis contemporâneas
Flávia Brocchetto Ramos (UCS/UNISC)
Marli Cristina Tasca (UCS)

“a poesia tem a função de pregar a prática da infância entre os homens ”

(Manoel de Barros)

 

Narrativa para a criança não é mais sinônimo de conto de fadas, pois as margens do gênero estão se dissipando. A estrutura canônica dos contos infantis cede lugar para narrativas poéticas, em que a novidade da linguagem, aliada à ilustração, gera múltiplas possibilidades de leitura. A produção cultural contemporânea utiliza-se de diferentes sistemas de linguagens, combinando-os e modificando-os, a fim de dar conta do universo simbólico atual. Este texto pretende discutir o processo de construção de sentido presente em duas narrativas poéticas: Exercícios de ser criança , de Manoel de Barros 1 e Os bolsos do mundo , de Fabiana Tasca Perin 2. Serão enfocados elementos poéticos presentes tanto na linguagem verbal como na visual - e ainda aqueles provenientes da interação entre ambas - como fatores constituintes da literatura infantil publicada no final do século XX, a qual pode ser destinada a um interlocutor curioso e perspicaz, independente da idade deste sujeito.

 

1 A poesia: um exercício de ser criança

 

El hombre es un ser que se ha creado a sí mismo al crear un lenguaje”

(Octavio Paz)

 

A expressão poética guarda íntima associação com a infância, sobretudo pela sua proximidade com o jogo e por ensejar a exploração da linguagem e do mundo, próprias desta fase singular da vida humana. Atentando para a identidade entre a poesia e a criança, têm sido recorrentes as narrativas destinadas ao público mirim que se apropriam de recursos poéticos para promover a perspectiva infantil e seu universo. A obra Exercícios de ser criança , de Manoel de Barros e ilustrada a partir de bordados sobre desenhos de Demóstenes, é constituída de duas narrativas poéticas, destinadas ao público infantil: “O menino que carregava água na peneira” e “A menina avoada”. Ambas privilegiam a perspectiva da criança, manifestando experiências, descobertas e sabedorias dos pequenos. Neste estudo, a análise centra-se apenas na primeira história.

“O menino que carregava água na peneira” é contado, em terceira pessoa, por um narrador desconhecido que apresenta um garoto como protagonista, referindo-o como o personagem preferido dos seus livros de leitura. Manifesta profunda identificação com o menino e suas vivências, sugerindo também a interação que permeia o ato da leitura.

A passagem do tempo é marcada apenas pelos avanços do protagonista no processo de auto-conhecimento. As ações verbais inicialmente no presente quando o narrador fala do seu amor pelo livro, deslocam-se para o passado. O presente situa a história no ato da leitura, mas, ao longo da trama, o narrador afasta-se dessa contextualização e enfoca a vida o processo de autoconsciência do menino. O deslocamento no tempo passa desapercebido, pois o leitor é absorvido pelo sujeito que conta, que dele se apropria, fazendo-o transcender àquela referência. Esta informação passa de foco a horizonte do mundo revelado.

A predominância dos verbos de ação que têm como sujeito o menino (em torno do qual se movem os demais aspectos do enredo) centraliza-o no universo da narração, conferindo-lhe posição de destaque e denotando sua independência e potencialidade para aprender, transformar, criar e ser. Algumas vezes, os contornos dos membros e faces das crianças ilustradas não são nítidos, fundindo-se à paisagem, o que sugere a comunhão entre o infante e o objeto por ele percebido, qual seja, o ambiente circundante.

Por sua vez, a ação de “carregar água na peneira”, que individualiza o protagonista, remete, simbolicamente, ao caráter de inutilidade subjacente ao ludismo e à criatividade infantis, via de regra associados à dependência econômica atribuída às crianças, uma vez que as mesmas não participam dos processos de produção.

Ao privilegiar a beleza e a imprescindibilidade das trocas simbólicas para a meninice, a narrativa denuncia a negação do status infantil na sociedade contemporânea, que entende a puerícia como etapa preparatória para a adultez, devendo ser superada o mais cedo possível. Ao mesmo tempo, na medida em que permite ao menino a apropriação da palavra, autorizando-o a realizar pequenos milagres por meio do uso do elemento escrito, a obra independiza a meninice, concedendo-lhe o poder de viver experiências alheias e de transformar realidades pela linguagem. A relação entre a criança e a linguagem também remete ao poder mágico da palavra que cria e recria o mundo. Os espaços que a obra reserva ao leitor, a exemplo da interação proposta entre o personagem e a língua, sinalizam a autonomia admitida para a criança, conferindo-lhe existência social e prevendo sua ativa atuação na construção dos saberes.

Assim, aproximando o absurdo do “carregar água na peneira” ao fazer poético e à infância, o narrador concebe-a como o nascedouro dos “despropósitos” que sustentam a atividade poética. Já a poesia é entendida como um exercício de completude do indivíduo e do mundo, através do lúdico.

A poesia, em sua íntima relação com o jogo e o ludismo, segundo assinala Huizinga 3, também supõe, a exemplo do universo infantil, a necessidade de um movimento catártico e um distanciamento com relação à utilidade material. Verifica-se, assim, a identidade entre a infância, o jogo e a poesia, anunciada no início da narrativa e sustentada ao longo da mesma.

Deste modo, a linguagem poética do texto, ao mesmo tempo em que estabelece mediação entre o sujeito narrador e o mundo narrado e entre a obra e o público leitor, veicula o acesso da criança ao fazer poético. Através deste, a personagem vivencia a catarse, como uma projeção do sujeito, simbolizada pela água que escorre da peneira.

À medida que se apropria da linguagem como brinquedo, o garoto vai desvendando o alcance das palavras e o prazer que delas advém e, conduzido pela mãe (que atribui sentido às suas manifestações), descobre-se poeta. O processo de descoberta do menino é espontâneo e guiado pelo seu desejo. E, assim como no desenho, o garoto é levado pelas suas criações, que produzem um movimento na sua vida. A ilustração de um possível moinho recupera a noção de ciclo, ao passo que, na seqüência, as demais invenções projetam-no para o alto e para a frente, denotando sua consciência. O moinho parece ser o marco da experiência efetiva e, ao mesmo tempo, da progressão do protagonista, também denotada pela mudança de posição do corpo, que se coloca para frente. A experiência com a linguagem é tomada, assim, como possibilidade de alteração dos rumos da travessia.

Ao revelar-se capaz de perceber seu próprio crescimento, o sujeito infantil mostra-se, progressivamente, mais ciente de si mesmo e dos elementos que o constituem, enquanto vai adquirindo consciência do ambiente que o circunda. Este, por sua vez, funde-se ao imaginário infantil que o reinventa no uso da palavra, transparecendo apenas nos elementos que o personagem elege para seus prodígios e na sugestão das ilustrações.

A idéia que permeia tais imagens é a do universo pueril transgredindo, com a magia e o encantamento que lhe são inerentes, a seriedade e o apagamento das vivências adultas. O texto verbal dialoga com esta idéia, ao manifestar a preferência do garoto pelos vazios, que podem ser entendidos como espaços de descoberta, invenção e liberdade, opondo-se ao “cheio”, constituído pelo que já está dado e finalizado e, portanto, limitado.

Linguagem verbal e ilustração interpenetram-se nas páginas, compondo um texto enriquecido simbolicamente que, ao conjugar os códigos, promove o prazer estético. Por vezes, as imagens invadem o escrito, tonalizando-o. Em outros momentos, a disposição do escrito aproxima-se do desenho e assume uma dimensão visual. O movimento dado às palavras converge para o sentido que as mesmas carregam: a descoberta de que escrever é o mesmo que carregar água na peneira, metáfora mediada pelo desenho, aparece em espiral assim como “Você vai carregar água na peneira a vida toda.”, porém as espirais estão em sentido contrário, sinalizando a sua reversibilidade da escrita poética, a exemplo de um ciclo que não se fecha sobre si mesmo e, de imediato, recomeça.

Percebe-se, na matriz da narrativa construída pela palavra e visualidade, a presença da oposição que cria imagens, uma vez que nem sempre os dois suportes sugerem o mesmo conteúdo, e é da junção de ambos que nasce o sentido. Conforme sustenta Octávio Paz 4, o texto poético desafia o princípio da contradição, ao enunciar a identidade dos contrários, que passam a coexistir em relação dinâmica, construindo o absurdo que, ao violar as leis da lógica, compõe a imagem poética. Assim, contrapondo a sugestão de “tentativa frustrada” que se associa ao “carregar água na peneira”, ao efetuar tal ação, o garoto torna-se capaz de modificar-se a si mesmo e ao meio, conforme sua vontade. Pode-se, assim, entender que transportar água na peneira enseje o ato de semear. Ao passar pela peneira, a água se transforma e transforma o solo. Surge a palavra plantada.

A recorrência do movimento em espiral nos bordados ratifica tal noção, uma vez que o ponto de chegada nunca coincide com o ponto inicial da atuação, havendo um deslocamento com relação a este. Ensejando o autoconhecimento, a participação do adulto na promoção de trocas simbólicas com os pequenos mostra-se determinante para que os estes protagonizem a conquista da sua identidade, uma vez que é o olhar materno, neste caso, que significa e nomeia a atividade do menino, permitindo-lhe, assim, experienciá-la completamente e “ser” através dela.

 

2 O olhar: bolso da poesia

“poesia é a redescoberta da novidade perene da vida nas pequenas/grandes coisas do dia-a-dia”

(José Paulo Paes)

 

Ao lançar perspectivas inovadoras para determinado objeto, as narrativas contemporâneas buscam apropriar-se do elemento poético, através do qual os significados do objeto enfocado e da palavra podem ser transgredidos e atualizados. Esta proposta dialoga com o olhar infantil, para o qual o mundo constitui uma perene novidade a ser investigada e ajustada, conforme convém ao jogo simbólico e à construção da realidade.

A obra Os bolsos do mundo , escrita por Fabiana Tasca Perin e ilustrada por Joana Puglia, é um texto cuja poeticidade se constitui através da conjugação entre os suportes verbal e visual. A prosa poética e as imagens dialogam entre si para, de forma inusitada, apresentar os espaços do mundo que se destinam a guardar algo, atributo que lhes confere a categoria de “bolsos”. Contrapondo-se a estes, são propostos os bolsos do homem, dentre os quais, privilegiam-se os pertencentes às meninas e aos meninos.

A exemplo dos elementos que se encaminham em direção à pupila, a ilustração da capa convida o leitor a adentrar no livro. Todavia, tal apreensão se faz, primeiramente, de forma limitada, uma vez que o conhecimento do desfecho da narrativa auxilia o receptor a apropriar-se da imagem em nível mais profundo. A solução do enigma advém da interpenetração entre o código visual e verbal.

A poeticidade, assim, sustenta-se em sua íntima relação com o jogo, contendo aspectos como a brincadeira e a inutilidade material e, ao mesmo tempo, supondo limites que, enquanto estabelecem a tensão pelo desejo da descoberta, possibilitam a catarse pela apropriação do sentido buscado 5. Os bolsos, tomados como matéria para o poético, extrapolam o limite espacial do papel em que estão expressos e o próprio tempo da leitura, ao evocar os jogos de presença e ausência, tão recorrentes na infância. Ao transgredir a acepção usual, o texto toma como regra para o brinquedo lingüístico a noção de continência dos objetos e seres, sem a qual não se constrói o sentido.

Ao longo da narrativa, palavra e visualidade se conjugam, acompanhando o dinamismo das novidades mostradas pelo significado revelado. Nas primeiras páginas, a ilustração privilegia apenas a imensidão do mundo. Mas o texto verbal já anuncia a presença dos bolsos, assinalando-os como precedentes ao seu uso pelo homem e instigando o leitor, que supõe uma identidade entre as duas linguagens, a buscá-los escondidos na paisagem. A visualidade expressa, primeiramente, o cenário que, somente na página seis, fica habitado por crianças e um cão, centralizados na página. Pode-se entender que está evocada a criação do mundo, em dois atos que sugerem, primeiramente, a divisão entre o céu e a terra e, após, o surgimento dos organismos mais complexos, entre os quais o homem e suas criações.

A representação dos bolsos do mundo, que se sucedem através das páginas seguintes, constitui recortes ampliados (e enriquecidos com alguns detalhes) daquele primeiro cenário, denotando que os bolsos já estavam presentes, na página e no mundo, exigindo apenas um olhar mais atento para os perceber como tal.

Na segunda metade do livro, a história toma outro foco, pois o narrador passa a falar dos bolsos que o homem inventou, centrando-se no conteúdo dos bolsos infantis, diferenciando os das meninas daqueles dos meninos, em virtude dos objetos que guardam.

Embora a palavra referende os conteúdos distintos dos bolsos, conforme as particularidades que interessam a cada um dos sexos, as crianças estão, visualmente, muito próximas e o posicionamento do corpo também aponta para a familiaridade dos infantes, que interagem na mesma brincadeira, colocando em jogo também suas individualidades. Assim, os braços e pernas da menina, na página ímpar, direcionam-se para a direita, enquanto os membros do menino, na outra página, voltam-se à esquerda e o movimento de virar a folha sugere o vai e vem da bola que está no ar (Figura 1). O leitor também participa da brincadeira porque cabe a ele a ação de movimentar a página 6.

No decorrer da narrativa, são contrapostos os bolsos do mundo e do homem, que se distinguem não apenas pelo que guardam. Os bolsos do mundo contêm elementos previsíveis, mas o mesmo não se dá com os que pertencem ao homem, cujo conteúdo não está acessível a todos, idéia que abarca um sentido paralelo ao “guardar”: o “esconder”. Além disso, quando se rompem os bolsos do homem, o que estava contido se perde, afasta-se do campo de visão e do controle de quem deseja retê-lo, enquanto que, quando fura um bolso do mundo, os seus elementos se mostram, aparecem aos olhos humanos.

Apesar das disparidades entre os bolsos do mundo e do homem, a obra surpreende ao sugerir a fusão deles, apresentando o maior bolso do mundo no homem: seus olhos, que podem guardar todo o mundo. Verifica-se, assim, a união dos contrários, apontada por Octávio Paz 7 como aspecto constitutivo da expressão poética.

O mesmo se dá com relação à palavra e à ilustração usualmente distanciadas entre si. Aqui os limites são rompidos, pois a palavra se apropria do movimento proposto pela ilustração, ao mesmo tempo em que esta se transforma, por vezes, em palavra. Mais do que a coexistência dos pares opostos - o mundo e o homem, as meninas e os meninos, o texto verbal e o visual – os mesmos nutrem-se mutuamente, de modo que, conservando sua pluralidade, submetem-se à interação e à unidade.

Ratificando esta idéia, nas páginas 26 e 27, o fio que sai do bolso do menino vai compor o texto verbal e a outra extremidade se encontra no bolso da menina, unindo, explicitamente, as crianças de ambos os sexos, a palavra e a ilustração e o céu e a terra, extremos que se apresentaram, no início da narrativa, divorciados. A religação dos reinos assinala a harmonia entre eles como também a relação da criança com elementos aparentemente antagônicos.

Percebe-se como a ilustração ilumina a palavra e acrescenta possibilidades de significação, compondo, com o verbal, um único fenômeno, apreendido pelo interlocutor. Alia-se, desta forma, a novidade do tema e da palavra, a proposta inovadora da ilustração, que mobilizam o leitor para a construção do sentido e promovem sua identificação e o prazer estético.

 

3 Infância e poesia: identidade construída no jogo

Histórias de princesa ainda povoam o imaginário infantil. Porém, além destas, publicam-se narrativas que mimetizam o modo poético como a criança se relaciona com o universo. Tais textos priorizam o poético e, por meio da linguagem verbal e visual, sintetizam a infância. A criança brinca com a natureza e denomina seres pela função que desempenham, chamando-os de bolsos, ou almeja o impossível para o pensamento racional que é carregar água na peneira. A ilustração contribui para desvelar e produzir os sentidos.

O ludismo, presente no modo como a criança apreende a realidade, também está presente na literatura. Atualmente, o jogo na literatura infantil não se manifesta apenas pela palavra, mas também na relação criada entre as linguagens. O fenômeno percebido pelo leitor resulta da conjugação dos códigos, de modo que ele deve desenvolver habilidades para produzir sentido a partir da interação com diferentes linguagens. Se a leitura se restringe a apenas um código, fica limitada.

Otavio Paz 8 afirma que, enquanto o sentido, na prosa, constitui-se de modo mais horizontal, pois as ações são dadas na seqüência, na poesia, a significação vai se constituindo em círculo, a partir do sentido das palavras, gerando um impacto no leitor. Nas narrativas em questão, em que há o predomínio do poético, as linguagens e suas possibilidades são evidenciadas, propiciando um texto cujo ludismo é ainda mais acentuado e intensificando o caráter artístico da literatura infantil, de acordo com o estatuto do gênero.

Figura 1

 

 

BARROS, Manoel de. Exercícios de ser criança. Rio de Janeiro: Salamandra, 1999.

PERIN, Fabiana Tasca. Os bolsos do mundo. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2003

HUIZINGA. Homo ludens. São Paulo: Perspectiva, 1993. p. 133.

PAZ, Octávio. O arco e a lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982, p 120.

Huizinga, op. cit. p. 133–150.

RAMOS, Flávia Brocchetto Ramos, PANOZZO, Neiva Senaide Petry. “O processo de construção de sentido na narrativa infantil”. In. Anais do V Congresso Internacional de Educação. São Luís, junho 2004, p. 420

op. cit., p. 120

op. cit.