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Constituição de uma subjetividade plural na poesia de Raul de Leoni
Mario Cesar Newman de Queiroz (UFRJ)

Nenhuma edição de Luz Mediterrânea reproduziu novamente a primeira (1922), a única em vida de Raul de Leoni, a que deve ser tomada como texto base, nem as recentes e bem cuidadas edições organizadas por Fernando Py (Pirilampo, 1987), por Edith Marlene de Barros e César Olímpio Ribeiro Magalhães (Academia Petropolitana de Poesia Raul de Leoni, 1995), por Pedro Lyra (Topbooks, 2000) e por Sérgio Alcides (Martins Fontes, 2001), nas quais o decisivo ponto de interrogação do título do Poema “Superstição?” é reinstituído 1, além da correção das gralhas: “brocardos” erradamente, em vez de “brocados”, no poema “Florença” e de “crepúsculos” erradamente, em vez de “escrúpulos”, no soneto “Platônico”. Todas as edições desconsideram o aspecto de sucessivos casulos em que se inserem os poemas. O livro não é poema após poema passando-se de página em página. A apresentação em casulos-poemas havia escapado de mim também quando elaborei minha dissertação de mestrado (1995-97) sobre Luz mediterrânea . Nele cada poema, por menor que seja, é precedido de uma página em que consta apenas o título do poema. Depois do poema segue-se, também numa página, isoladamente, uma pequena vinheta, um pequeno desenho fechando o “casulo”. Ao que se seguirá uma nova página contendo apenas o título do poema seguinte, a formar um novo casulo, como ambiente em que se produz um apartamento das impurezas, como um casulo, onde o poema pode reinar impoluto, livre mesmo da interferência gráfica, visual dos títulos. Compreende-los como casulos é ainda a maneira de entendê-los em consonância com o movimento geral de canto às formas que se metamorfoseiam presente no livro.

Parece-me que nós estamos tão acostumados com os hipertextos e, anteriormente, com os experimentos da poesia concreta como um fato nosso contemporâneo, que nos esquecemos que um livro como Un coup de dés de Mallarmé foi concebido no final do século XIX, que Machado de Assis em Memórias Póstumas , publicado em 1881, faz dois capítulos terem significação apenas com as palavras do título e pontuações, explorando o contexto e a mancha gráfica dos textos, que não prestamos atenção neste aspecto tão peculiar do livro de Raul de Leoni. Tão acostumados estamos com nosso “cronos-centrismo”, com nosso pensar a história a partir do nosso tempo, que fácil nos é pensarmos Mallarmé, por exemplo, como “antecipador” de tendências nossas e não repararmos que ele desenvolvia uma percepção estética bastante forte em sua época e que perdura até hoje.

Esse caráter pouco econômico da primeira edição de Luz mediterrânea , no entanto, não é comum hoje nem o era à época, por isso ele nos parece não gratuitamente reforçar o caráter anti-unitário porém mais orquestral da composição de Luz mediterrânea , falar mais da diversidade e da multiplicidade de cosmovisões possíveis em simultaneidade e contigüidade que de uma síntese entre elas.

A crítica sempre demonstrou dificuldade em lidar com a presença de Raul de Leoni, como caracterizá-lo, em qual período histórico situá-lo, como avaliar sua inquietude plácida? Publicado seu único livro em 1922, sem ligações com o grupo modernista, mas sem desconhecer os movimentos seus contemporâneos da arte européia, e vindo a morrer em 1926, aos 31 anos de idade, Raul de Leoni passou a ocupar um entre-lugar na história da literatura brasileira. Classicizante mas não precisamente um típico parnasiano; trazendo a questão de criar uma imagem de sujeito em sua poesia mas não um típico simbolista brasileiro; ora usando versos de métrica livre e brancos, ora usando rima e métrica com rigor e crítico dos arroubos de Marinetti contra a tradição, tampouco o seria um modernista, problema que as qualificações de “fronteiriço”, “pre-modernista”, “decadista”, “penumbrista” mais apontam para a dificuldade de compreendê-lo do que para uma compreensão. E, quando visto de mais perto, como diz Pedro Lyra “o problema maior será quanto à sua fisionomia estética, sobre a qual seus críticos divergem de modo patético e irreconciliável” 2. No entanto, novamente tem-se palavras ou expressões que funcionam como remédio para lidar com o seu caráter indefinido, “sínteses”, “ecletismo”, “descentramento”, quando não se aplica a uma dessas expressões um qualificativo como “estranhas sínteses”. Contudo, foi sempre lembrado e louvado por poetas como Manuel Bandeira, Ribeiro Couto, Drummond e tem-se mantido no gosto do público conquistando sucessivas gerações e edições.

O problema central da dificuldade crítica reside em dois pontos sucessivos, o primeiro deles é o foco de Luz mediterrânea estar centrado na questão da produção de uma imagem do sujeito que se manifesta nas poesias, mas de forma às vezes dissimulada num eu teatralizado, como na série de 4 sonetos de “História de uma alma” ou no nietzschiano poema “E o poeta falou”, e mais sistematicamente na relação com a palavra “alma”, de freqüência bastante elevada – 67 vezes em livro de 44 poemas. O segundo ponto, complementar do primeiro, é que este sujeito se caracteriza por fugir das nossas concepções mais comuns de constituição de subjetividade, aquelas que nos são, dentro de um olhar de Clément Rosset, naturais. Este ponto, por si, embora complementar do primeiro, ajuda a mascarar aquele, a torná-lo impreciso. O fato somente tende a se agravar quando a crítica analisa superficialmente as indicações de opções filosóficas, assim, se pensa estar muito superficialmente o poeta a contrapor tão somente nomes de doutrinas antagônicas para produzir um efeito de antagonismo, entre Nietzsche e Platão, por exemplo. A verdadeira dificuldade crítica ao analisar a obra de Raul de Leoni está em entender o sentido profundamente inovador e instigante de uma obra que enuncia antagonismos sem reduzir as partes em conflito, nem em sínteses, nem umas às outras, na constituição de uma imagem de eu.

Logo ao primeiro contato com Luz mediterrânea vemos que há ali um forte desejo de união de todas as coisas, mesmo as mais diversas, as mais contrárias. Os poemas de Luz mediterrânea parecem buscar unir forças diversificadas e até mesmo contraditórias, ou, vistos de outra maneira, apontar a unidade subjacente às aparências díspares. Esta característica já podia ser observada na “Ode a um poeta morto”, publicada em 1919, em homenagem a Olavo Bilac. Nela a alma do poeta morto é elogiosa por ser um cântico do diverso a partir de uma “voz superior da natureza” e de “uma idéia sonora do Universo”. Desejo de unir, manifesto numa situação imaginária, o sentir e o pensar, no poema “Maquiavélico”, “Há horas em que minha alma sente e pensa,/ Num tempo nobre que não mais se avista,/ Encarnada num príncipe humanista,/ Sob o Lírio Vermelho de Florença”. E vemos esse desejo se manifestar, mais evidentemente, no poema “Instinto”, “Ó soberano intérprete de tudo,/ Invencível Édipo, eterno e mudo/ De todas as esfinges da Existência!”; e, numa formulação metafísica, no poema “Unidade”, “E o que deslumbra o olhar é perceber/ Em todos esses seres incompletos/ A completa noção de um mesmo ser”.

Antagonicamente, também vemos em Luz mediterrânea o elogio da pluralidade, presente na associação entre o pensamento do eu lírico leonino e cidades que funcionam como paradigmas da diversidade, em “Pórtico” com uma cidade grega do período da decadência, e em “Florença” com esta cidade no período do renascimento. Cidade que harmoniza em si múltiplos contrários, mas amável, antes de tudo, por ser indefinida e múltipla, “Amo-te assim, indefinida e vária!/ Casta e viciosa – gótica e pagã,/ Harmoniosa entre a Acrópole e o Calvário”.

Descartes, como nunca dantes ousara o mais racionalista dos filósofos, associa a imagem do eu à do pensamento. Não, sinto; não, faço; não, cheiro; não, projeto uma luz no solo quando me deparo com o sol; mas, sim, eu penso, eu sou. Igualmente, nunca dantes se fundara a existência na solitude do eu. E de Descartes aos nossos dias a convicção de uma unidade do sujeito como indivíduo adquire “tônus” de rocha, clareza de cristal. O poeta ao associar a imagem de seu pensamento à imagem de cidades, "espaço por excelência da diversidade” 3, ainda mais dessas paradigmas da diversidade, vai contra a construção da subjetividade como unidade. O “eu-cidade” constituído por Raul de Leoni é manifestação da pluralidade. No poema “Noturno”, podemos ler, “Sofria toda a humanidade em mim”; e, no poema “Do meu evangelho” vemos como mais uma vez vem a afirmar essa pluralidade de um eu que se abre em multidão, a tal ponto que chega a se afirmar a sua história com a “lenda da Humanidade”, “a própria história do Mundo”.

Sem buscarmos nos estender mais, neste tocante das grandes temáticas, ou linhas de força que percorrem Luz mediterrânea , antes de chegarmos a um ponto decisivo de nossa análise, salientamos que outros dois movimentos antagônicos entre si agem na construção da imagem do sujeito heteróclito de Raul de Leoni. Uma que é um elogio à busca da verdade na profundidade; outra que, também em relação com a profundidade, tenta prevenir o leitor dos perigos das buscas nas profundezas. Tenta dissuadir-nos a viver à superfície das coisas. Pois ir ao profundo significa sofrer: esta é a vertente propriamente epicurista da poesia de Raul de Leoni. Assim, podemos ver o elogio da profundidade na alma que se guarda no fundo como uma pérola dentro de uma ostra, “Mas inda assim, poluída e atormentada,/ Ocultando puríssimos segredos,/ Guarda o sonho das pérolas no fundo”, no poema “Serenidade”; e, no poema “Egocentrismo”, “Vai pelos próprios passos, num assomo/ De quem procura por si próprio o fundo/ Da eterna sensação que as cousas têm!”. Ou, como num poema cujo título nos remete a Nietzsche,

Sei de tudo, desci ao fundo amargo

Das idéias, das cousas, das criaturas,

Sofri as leis humanas e divinas...

Pensei, senti, vivi profundamente

Todas as grandes realidades vivas

E encontrei as verdades cristalinas

Do universo visível e aparente

No coração das horas fugitivas...

Mas, em sentido oposto, no poema “Sabedoria”, a orientação para que vivamos à superfície das coisas, dos momentos e das sensações, “Não sofras mais à espera das auroras/ Da suprema verdade a aparecer:/ A verdade das cousas é o prazer/ Que elas nos possam dar à flor das horas”.

Pode-se flagrar, então, um movimento de pensamento presente no livro de Raul de Leoni que torna efetivamente difícil, numa rápida visagem, tecer um juízo critico sobre tal obra, porque ora os poemas falam efetivamente de unidade, ora elogiam a multiplicidade, ora afirmam a unidade do mundo, ora, sua pluralidade. Ora seus poemas vêm inspirados de platonismo, ora, em posição diametralmente oposta, inspirados de nietzschianismo, assim como de epicurismo e cepticismo, parecendo contradizer-se de um poema para outro. No entanto, é a constatação de um quinto grande tema, um quinto movimento, que nos permite uma visão mais clara sobre esse conjunto cada vez mais estranho: é o tema da metamorfose, da transformação.

Onde podemos flagrar a linha de força da metamorfose atuando de forma mais evidente é no soneto “Confusão”.

Alma estranha esta que abrigo,

Esta que o Acaso me deu,

Tem tantas almas consigo,

Que eu nem sei bem quem sou eu.

 

Nele a alma já no primeiro verso se apresenta como elemento perturbador. Se há toda uma tradição filosófica, religiosa, cientifica e poética a apontar a alma como essência isso não se dá aqui. Há uma incompatibilidade da alma tratada no poema com o modelo esperado de alma, por isso ela é estranha; e ,logo, evidenciar-se-á como duplamente estranha, pois tanto é outra relativamente ao modelo de alma, quanto é outra em relação a si mesma. No segundo verso chama atenção a origem de onde provém a alma do poeta, ela não será uma emanação divina, uma centelha do fogo de Deus, uma parte da inteligência suprema, parcela da grande Alma do Mundo, como se pode ver no Timeu de Platão, ela é fruto do acaso, tornado ali substantivo próprio, a opor-se também à relação intrínseca da essência com a necessidade. A alma fruto do acaso livra-se da fatalidade e insere-se naquele reino trágico do artifício enunciado por Clément Rosset como não sendo resultado...

de nenhum principio: não é, então, natureza, mas um resultado altamente imprevisível de um jogo de circunstâncias, cujo intercruzamento fortuito pode constituir tanto a carruagem como o cachorro. 4

 

E o filósofo pouco mais adiante dirá também, “ao reino do acaso -- onde nada é necessário e onde tudo é, em certo sentido, possível” 5 , razão pela qual a alma do poema, no leque indefinido das possibilidades, traz consigo tantas almas diferentes em confusão. Pois não tem de si uma forma natural e necessária, mas a possibilidade de devir sempre outra, comprometendo toda formação de identidade.

Diante desse drama de identidade a voz poética buscará um personagem da mitologia grega para configurar metaforicamente sua própria imagem.

Jamais na Vida consigo

Ter de mim o que é só meu;

Para supremo castigo,

Eu sou meu próprio Proteu.

 

Cabe ressaltar que o uso das figuras mitológicas greco-latinas em Raul de Leoni é bastante escasso, tendo em viste- a natureza classicizante de sua poesia. Mas aqui o referencial mítico assume o centro do poema, a imagem metafórica de Proteu lança luz sobre o drama desse eu que, votado para o saber, não consegue capturar sua própria imagem.

Proteu na mitologia greco-latina era um Deus marinho que possuía o conhecimento dos acontecimentos do passado, do presente e do futuro, por essa razão buscavam os heróis capturá-lo para que vaticinasse-lhes suas sinas. Mas Proteu, mesmo incapaz de cometer um ato lesivo, invariavelmente escapava-lhes, pois uma vez capturado desdobrava-se em uma sucessão de metamorfoses que findavam por dar-lhe fuga. Ao definir-se na figura de Proteu o eu leonino está afirmando a sua capacidade de metamorfosear-se constantemente, mas ao definir-se como seu próprio Proteu afirma a incapacidade de sua consciência de formar uma imagem de si mesmo, de capturar-se em sua própria singularidade. “De instante a instante, a me olhar,/ Sinto, num pesar profundo,/A alma a mudar...a mudar...”

Esse sentir-se seu próprio Proteu, todavia, é uma experiência dolorosa. Conforme Nietzsche, as experiências de individuação e de desindividuação são dolorosas, mas é exatamente delas que advém a sabedoria dionisiaca. Por isso o olhar que captura apenas a forma, o olhar este sentido apolíneo, surge aqui para tentar capturar o principio de individuação, porém, sem sucesso, ele presencia apenas a mudança e o desacordo consigo mesmo no parecer da visão, “Parece que estão, assim,/ Todas as almas do Mundo,/ Lutando dentro de mim...”

As imagens da metamorfose e da pluralidade se aproximam, porque efetivamente só se torna possível a metamorfose onde a pluralidade instaurou-se a proliferar possibilidades. Na afirmação desse Eu-Proteu, que teria a alma sempre a mudar, a voz leonina esclarece a diversidade de linhagens filosóficas, de que fala a critica, presente em sua poesia. Nessa imagem moderna e mitológica do Eu-Proteu é que Raul de Leoni melhor cristaliza a importância da metamorfose em Luz mediterrânea , seu papel fundamental no livro, e a união desse tema com a pluralidade, e do mesmo modo com as outras linhas de força. Num outro poema, “A alma das cousas somos nós”, Raul de Leoni passa essa imagem de um eu metamorfoseante do caso isolado “Confusão” para o coletivo dos homens, em ambos os casos, contudo tem-se a imagem de um sujeito que é, ato simultâneo, ator e espectador de si mesmo, num “fazer-se-vendo”. Ação coerente com a ação de diluição de uma subjetividade individualizante, personalizante, conforme Gilles Deleuze encontra na obra de Pierre Klossowski 6, em que pôr-se fora de si, multiplicar-se em seu olhar, é forma de assegurar a perda da própria identidade, de dissolver o eu.

Por isso, além da fórmula do eu-Proteu, o sujeito desses poemas pode ver a imagem do seu pensamento na forma plural das cidades. Tal como os grandes temas da unidade, da pluralidade, da profundidade, da superfície e da transformação, todos se remetem a este da formação da subjetividade, imbricam metafísica e subjetivação para afirmar a construção de um eu que, na diversidade de orientações, combate a forma basilar dos naturalismos modernos – fundados na assunção dos pressupostos subjetivos – e, coerentemente, finda por ser plural, heteromorfo, um pluri-sujeito.

 

Notas:

- Nas edições feitas pela Livraria Martins, de São Paulo, as mais difundidas, da 4ª (1946) à 12ª, o título do poema no índice e no texto está sem o ponto. Quanto à questão da posição dos títulos encimando os poemas ou isolados em página própria, não passou despercebida por Pedro Lyra, conforme podemos ver em sua “Nota sobre as edições e o texto” mas parece não ter dado a isto valor significativo na composição do livro.

- LYRA, Pedro. Um instintivismo hedonista. In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea e outros poemas . Rio de Janeiro: Topbooks, 2000. p.22.

LINS, Ronaldo Lima. Nossa amiga feroz . Rio de Janeiro: Rocco, 1993. p.31.

- ROSSET, Clément. A antinatureza . Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989. p.52.

- Ibid., p.53.

- DELEUZE, Gilles. Logique du sens . Paris: Minuit, 2002. p.328-29.