![]() |
![]() |
[ VOLTAR ] |
“Ifigênia”, “Cassandra” e “Electra”:aspectos da tragédia grega na poesia de
Sophia de Mello Breyner Andresen.
Maria da Conceição Oliveira Guimarães (UFRN)
A tradição de um povo é preservada na medida em que se resgatam os agentes identificadores dessa tradição. Um desses agentes é a manifestação literária, conjunto de obras isoladas, que quando se torna objeto de estudo, ganha vida, integrando-se ao conjunto de uma literatura universal identificada sensivelmente pelo traço que a une àquela. É nesse sentido que a poética irisada de Sophia de Mello Breyner Andresen integra-se à tradição grega como agente unificador entre o ontem e o hoje. Os poemas, Ifigênia, Kassandra, Electra impõem a compreensão do enredo das tragédias de Ésquilo, Sófocles e Eurípides. Exigirá para tanto que se leve em conta as peças, “Electra” e “ As Coéforas” da trilogia Oréstia, e requer também que se avance em direção à tragédia do ciclo troiano, integrando num mesmo conjunto lendário, duas tragédias de Eurípides, “Ifigênia em Áulis” e “As troianas”.
“Ifigênia em Áulis” ilustra aqueles que são sacrificados em benéfico da glória de um povo. Narra-se a entrega de Ifigênia em holocausto à deusa Ártemis, imolada pelo pai como condição para que os deuses permitissem a partida das tropas dos aqueus para a guerra de Tróia. A obra é um profundo julgamento da natureza humana em seus aspectos particulares, comum ao gênero trágico em Eurípides. O discurso de Ifigênia, que fala a sua mãe, na obra de Eurípides se assemelha ao discurso da Ifigênia do poema breyneriano.
Tomei neste momento a decisão final
de me entregar à morte, mas o meu desejo
é enfrentá-la gloriosa e nobremente,
sem qualquer manifestação de covardia.
Pondera, então, comigo, minha mãe querida,
na fama que me há de trazer esta atitude.
A Grécia inteira, nossa generosa pátria,
dirige neste instante os olhos para mim;
dependem só de mim a viagem da frota
e a extinção de Tróia, e de mim depende
eliminar de vez a possibilidade
de os bárbaros tentarem novas agressões
contra as mulheres gregas e futuros raptos
em nossa terra amada, depois de expiarem
a vergonha de Helena levada por Paris.
O fruto de meu sacrifício será este:
propiciando uma vitória a nossa pátria
conquistarei para mim mesma eterna fama.
(Eurípides: versos 1936-1953)
Esse momento de dignidade e coragem da mortal filha de Clitemnestra, está inscrito no campo do sagrado, próprio do discurso mítico. Todavia, o discurso poético da autora em “Ifigénia” no livro Coral, subverte-se num discurso poético que se inscreve no campo de propriedade dos humanos, num tempo presente, portanto profano, mesmo que retome um passado mítico.
Para além do fato mítico-religioso, a Ifigênia “cantada” pela poetisa também reflete uma imagem que simboliza um ser dócil e que aceita passivamente sua imolação. Como mulher mítica se assemelha às deusas vulneráveis, a exemplo da deusa Core que simboliza, justamente, a oposição do arquétipo da mulher decidida e altiva. A Ifigênia do discurso breyneriano não reage, não discute, não questiona, não se impõe como ser sócio do contexto, apenas aceita o destino que lhe é conferido. É um ser que, como requer o mito, apenas obedece ao destino, todavia carrega em si categorias da condição humana, como o não enfretamento de seu fado. Numa leitura moderna, encontra-se em Simone de Beauvoir um esclarecimento em relação à submissão ao Outro: “Nenhum sujeito se coloca imediata e espontaneamente como inessencial; não é o Outro que se definindo como Outro, define o Um; ele é posto como Outro pelo Um definindo-se como Um. Mas para que o Outro não se transforme no Um é preciso que se sujeite a esse ponto de vista alheio.” 1
Como um ser dependente do decreto inviolável do Fado, a Ifigênia breyneriana se deixa cair aos pés do vencedor, aos pés do Outro. A serenidade e a vitória de Ifigênia residem num devotamento em que o Um (Ifigênia) só existe para que o Outro (povo grego) se afirme. Aqui, opera-se a separação entre Sujeito(Ifigênia) e Objeto(povo grego), traduzido pela passividade da heroína, embora motivada pela glória. É Ifigênia, o Sujeito da história, quem sofre a ação para que o Objeto dessa mesma história, alcance seu objetivo e seja enaltecido.
Ifigénia levada em sacrifício,
Entre agudos gritos dos que a choram,
Serenamente caminha com a luz,
E o seu rosto voltado para o vento,
Como vitória à proa de um navio,
Intacto destrói todo o desastre.
Eurípides dá preferência a personagens humanos com sentimentos conflitantes e intensos. Assim é a Cassandra retratada em “As troianas” que elucida os horrores dos vencidos no pós-guerra. A peça se desenrola fora das muralhas de uma Tróia destruída e com seus despojos divididos entre os aqueus comandados por Agamêmnon. Lá se encontram as mulheres de Tróia, inclusive Cassandra filha de Príamo, cativas e espólio de guerra. Cassandra, sai de uma das tendas, dançando, trazendo as insígnias de sacerdotisa de Apolo. Imagina, em seu delírio, celebrar suas próprias bodas diante do santuário de Apolo. Seguirá para Micenas como escrava e amante de Agamêmnon, porém antes vaticina sua morte e a dele. Belos e proféticos versos saem de sua boca:
“Coroa minha fronte vencedora, mãe,
e regozija-te com minhas núpcias régias.
Conduze-me ao esposo meu e se pareço
Medrosa ou relutante, usa a força e leva-me.
Se Apolo é deus e tem poderes, Agamêmnon,
o rei, terá em mim esposa mais funesta
que Helena; fá-lo-ei morrer e arruinarei
a sua casa e raça como ele a minha,
vingando assim meu pai e meus irmãos finados.”
(Eurípides: versos 422-429)
É no soneto intitulado “Kassandra”, do livro Dia do Mar que Sophia faz uma incursão pela sina imposta à lendária profetisa grega, infeliz amada de Apolo. Nesse soneto percebe-se o poder divinatório da profetisa através das metáforas utilizadas pela autora. Cassandra adivinhava, via acontecer, pois “ o futuro vermelho transbordava”/ “Através das pupilas transparentes.” Todavia, mesmo tendo o poder adivinhatório dado por um deus, somente a esse deus cabia fazer com que suas premonições tivessem credibilidade. Note-se que na primeira estrofe subjaz, entre as palavras homens, barcos, batalhas e poentes , uma obediência, um rebaixamento servil, uma subserviência e uma sujeição ao poder divino. Fato esse corroborado no último terceto quando o eu lírico manifesta o sofrimento da profetisa: Mas não deteve a lei que me levava, /Perdida sem saber se caminhava/ Entre os deuses ou entre a humanidade.
Há que se notar, entretanto, que é um personagem com toque de sentimentos conflitantes e nos quais harpejam emoções fortes.
Homens, barcos, batalhas e poentes
Não sei quem, não sei onde delirava.
E o futuro vermelho transbordava
Através das pupilas transparentes.
Ó dia de oiro sobre as coisas quentes,
Os rostos tinham almas que mudavam.
E as aves estrangeiras trespassavam
As minhas mãos abertas e presentes.
Houve instantes de força e de verdade
Era o cantar de um deus que me embalava
Enchendo o céu de sol e de saudade.
Mas não deteve a lei que me levava,
Perdida sem saber se caminhava
Entre os deuses ou entre a humanidade.
Contraposição entre deuses e humanos é o conjunto de disposições empregado pela poetisa, assistido por um o tecido vocabular próprio, que nos detém na fronteira do entendimento divergente entre o sagrado e o profano. Confissão evidente da existência dupla dessas divisões que transcende à imanência das palavras e se lança como denúncia da força do Um e do Outro que em determinadas vicissitudes contém, reprime e refreia. Cassandra é sagrada (possui dom da mantéia), e profana, pois reúne em si e ao mesmo tempo, a serva, a força, o silêncio elementar da verdade, tagarelice e mentira (ninguém crê em suas palavras), e finalmente, é a presa de seu próprio destino e sua perda.
Sófocles, que dá maior ênfase à participação de humanos de caráter elevado e menos intervenções divinas em suas peças, concebe a sua “Electra” com misto de obscuros presságios, de angústias sem fundo, da presença fantasmática de um morto não vingado, cujo túmulo domina o cenário e cuja presença rouba a cena dos demais protagonistas. Electra, o seu irmão e o seu pai surgem assim, irremediavelmente unidos não só por laços genealógicos, mas pelo sofrimento aviltante que a vida lhes destinara: a humilhação dos filhos é um reflexo da morte ignominiosa do pai; o assassínio de Agamêmnon, a causa inexorável do luto dos filhos e da sua vida infortunada. Os repetidos lamentos da infeliz filha de Agamêmnon ajustavam-se à peça de Sófocles:
“Que poderia eu fazer senão chorar?
Choro na solidão do palácio paterno
enquanto a festa impiedosa realiza-se,
mas o meu pranto não me traz alívio algum.
(Sófocles: versos 271-274)
E aqui se impõe um parêntese. A compreensão desse enredo estabelece que se retome a primeira tragédia da trilogia Oréstia. Nesta, n arra-se à volta do rei atrida a seu palácio, onde sua mulher o espera com rancor no coração. Assim, logo que Agamenon desembarca vitorioso da Guerra de Tróia, Clitemnestra, ajudada pelo amante Egisto, lança sobre ele uma rede que o imobiliza e assassina a ele e a Cassandra.
É este o gancho que se estabelecerá com a segunda peça, As Coéforas. Sete anos após esses acontecimentos, Orestes, que era menino por ocasião do assassinato de seu pai, e que fora então afastado de Argos por sua irmã Electra, retorna, chegado à idade de homem, para reconquistar seus direitos e vingar a morte de seu pai.
Em “As coéforas”,uma peça na qual o cenário é dominado pelo túmulo de um pai, sepultura essa que se transformará quase que numa personagem; uma peça em que domina, avassaladora, a angústia; em que a ação dramática move-se ao redor de um matricídio, empreendido por um filho, mas insuflado pela filha possuída de um ódio profundo à mãe; uma peça, finalmente, que contém uma estrutura que consagra aos filhos o cumprimento de um matricídio. Electra, ao redor do túmulo de seu pai, derrama a água lustral e começa a espargir as libações sobre o túmulo e diz:
“Estou sendo tratada como escrava, Orestes
foi despojado de seus bens, enquanto eles
agora tripudiam insolentemente
sobre os bens valiosos que tu conquistaste
com tanta valentia! Que um feliz acaso
traga de volta Orestes! Eis a minha súplica;
ouve-me, pai! Concede-me que eu seja sempre
mais sensata que minha mãe e tenha as mãos
muito mais inocentes! São estas as preces
referentes a nós, mas quanto aos inimigos
imploro que afinal venha juntar-se a mim
um homem para te vingar, bastante forte
para matar teus assassinos, pai querido,
em justa retaliação (seja-me dado
juntar às minhas súplicas por bons eventos
imprecações de males contra os inimigos!).”
(Esquilo: versos 184-199)
À Electra, filha de Agamêmnon e Clitemnestra, coube toda a sorte de aflições enquanto seu pai permanecia na guerra de Tróia. É em Geografia que encontramos o poema “Electra”, gesto elogioso da poetisa à dor e à altivez da filha de Agamêmnon.
O rumor do estio atormenta a solidão de Electra
O sol espetou a sua lança nas planícies sem água
Ela solta os cabelos como um pranto
E o seu grito ecoa nos pátios sucessivos
Onde em colunas verticais o calor treme.
O seu grito atravessa o canto das cigarras
E perturba no céu o silêncio de bronze
Das águias que devagar cruzam seu vôo.
O seu grito persegue a matilha das fúrias
Que em vão tentam adormecer no fundo dos sepulcros
Ou nos cantos esquecidos do palácio
Porque o grito de Electra é a insónia das coisas
A lamentação arrancada ao interior dos sonhos dos remorsos
[e dos crimes
E a invocação exposta
Na claridade frontal do exterior
No duro sol dos pátios
Para que a justiça dos deuses seja convocada
Se a figura mítica de Electra afirma-se como imagem portadora de traços auráticos que a transformam em objeto de culto e de paixão aos olhos dos filhos ultrajados, essa aura passa a existir também como princípio constitutivo do próprio texto poético de Sophia Breyner. Percebemos que, de núcleo temático, a dor se transforma em elemento significante do texto em que se plasmam sofrimento e esperança. Assim, o poema se transforma num corpo em que dimensões de seu tecido verbal apontam para um processo em que encarna o desespero pela concretização da justiça exigida pela dor numa ritualização e sacralidade que a leitura deve recuperar. A ênfase ao lamento de Electra no texto poético da autora é a ritualização que convoca a justiça e atua como um pedido aos deuses: seu grito “ ecoa nos pátios sucessivos”, “atravessa o canto das cigarras”, “perturba no céu o silêncio de bronze das águias”, “persegue a matilha das fúrias...” “Porque o grito de Electra é a insônia das coisas”. Grito de justiça em que, a sacralidade está investida da convocação da justiça dos deuses: “ Para que a justiça dos deuses seja convocada”.
Com os tragediógrafos, o velho tema dos filhos de Agamêmnon conheceria, assim, uma configuração dramática original, em que o debate com o passado se exprimia em cena pela ação de figuras individualizadas, que encarnavam a tensão trágica entre o mito e a realidade. Assim, também parece possível que, pelo menos em Sophia Breyner, o mito grego serve de apoio a uma leitura de nosso tempo. Sejam eles representativos de uma inocência primeira, ou marcados pela perda desta, fato é que hoje, embora em diferentes esferas, os mitos permanecem ordenando os tempos modernos.
BIBLIOGRAFIA
ANDRESEN. Sophia de Mello Breyner. Obra poética I. 3. ed. Lisboa: Editorial Caminho, 1995.
______. Obra poética II. 4. ed. Lisboa: Editorial Caminho, 1999.
_____. Obra poética I. 3. ed. Lisboa: Editorial Caminho, 1999.
BEAUVOIR, Simone. O Segundo sexo : os fatos e os mitos. Tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.
ÉSQUILO. Oréstia: Agamêmnon, Coéforas e Eumênides. Tradução do grego e notas de Mário da Gama Cury. 6. ed., Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
EURÍPIDES. As troianas . Tradução do grego e notas de Mário da Gama Cury. 6. ed., Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
_______. Ifigênia em Áulis. Tradução do grego e notas de Mário da Gama Cury. 3. ed., Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.
SÓFOCLES. Ifigênia em Áulis. Tradução do grego e notas de Mário da Gama Cury. 4. ed., Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.
BEAUVOIR, Simone. O Segundo sexo : os fatos e os mitos. Tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.