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A vertente da cosmogênese na obra de Manoel de Barros
Maria Aparecida Ferreira de Melo Souza (UFMS)
A linguagem de Manoel de Barros ocupa uma mensagem de permanente instigação, possibilitando várias interpretações e reflexões, revelando máscaras do eu poético que se referem às linguagens artísticas, orais e simbólicas, materializadas pelas sensações espirituais e psíquicas, extraídas do escavamento da palavra/arte. O ato de criação literária flui por meio das conexões psíquicas e espirituais, percepções que circulam os princípios demarcados pelas origens das coisas envoltas às significações literárias. Institui-se, na produção manoelina, uma projeção arquitetural da palavra que se expressa num grande tema primordial, a cosmogênese. Os discursos poéticos contêm implicações reflexivas que interagem com um locus primordial, o Pantanal, de onde o poeta efetiva o seu ato criador e por meio da memória reinventa as cenas do cotidiano. Um exemplo é a presença do personagem avô, nas obras Livro sobre nada ( 1996) 1 e Retrato do artista quando coisa (1998) 2. Notamos a intencionalidade da poética em estado de aprendizagem quando a visão cosmogônica ocorre com a ajuda da recuperação das coisas imprestáveis e insignificantes circundando o avô:
Meu avô sabia o valor das coisas imprestáveis.
Seria um autodidata?
Era o próprio indizível pessoal.
( Livro sobre nada, 1996, p. 27)
Aprendo com abelhas do que com aeroplanos.
É um olhar para baixo que nasci tendo.
É um olhar para o ser menor, para o
insignificante que eu me criei tendo .
[...]
Ainda não entendi por que herdei esse olhar
para baixo.
Sempre imagino que venha de ancestralidades
machucadas.
Fui criado no mato e aprendi a gostar das
coisinhas do chão –
Antes que das coisas celestiais.
Pessoas pertencidas de abandono me comovem:
tanto quanto as soberbas coisas ínfimas.
( Retrato do artista quando coisa , 1998, p. 27)
Explorando-se o vetor simbólico de coisas insignificantes ou “joões-ninguém”, registra-se no Livro de pré-coisas ( 1985) 3, o esboço bizarro do personagem Bernardo, um ente que atravessa os reinos animal, vegetal e mineral, resultando numa demanda espiritual panteísta que se inscreve no campo cultural da cosmogênese.
Porque já desde nada, o grande luxo de Bernardo é ser ninguém.
Por fora é um galalau. Por dentro não arredou de criança.
[...]
Era um ente irresolvido entre vergôntea e lagarto.
Tordos que externam desterro sentavam nele. Sua voz
era curva pela forma escura da boca [...]
Era a cara de um lepidóptero de pedra. E tinha
um modo de lua entrar em casa.[...]
( Livro de pré-coisas , 1985, pp. 48, 57)
De acordo com Alfredo Bosi 4 o estado de “magma” é uma elaboração poética que tende à realização do espessamento da linguagem, pois ela se projeta nos conteúdos que mantêm contato com os materiais dos reinos vegetal e animal. Bernardo é exemplo disso, pois possui a sensação da “coisa indefinida”, um ente “irresolvido entre vergôntea e lagarto”, com cara de “lepidóptero de pedra”. Essas informações geram a propulsão de um imaginário que se hibridiza pelo concurso da linguagem biológica dos três reinos: animal, vegetal e mineral, transfigurando uma alegoria recomposta pela figura de Bernardo, um ser meio árvore (vergôntea) e meio lagarto, imagens permeadas de sensações crípticas geradas por uma borboleta petrificada. Encontramos, no personagem, estados de metamorfose, alusões aos mitos cosmogônicos, aos elementos totêmicos que envolvem os mistérios hierofânicos. Assim os seres materializam as suas funções por meio de manifestações mágicas; por intermédio da própria natureza uníssona e pela efetivação transgressora, impregnada de um panteísmo irradiador. Para se obter a compreensão teórica dessa análise, utilizamos os excertos de Mircea Eliade, da obra O sagrado e o profano 5:
[...] A partir da mais elementar hierofania – por exemplo, a manifestação do sagrado num objeto qualquer, uma pedra ou uma árvore – e até a hierofania suprema, que é, para um cristão, a encarnação de Deus em Jesus Cristo, não existe solução de continuidade. Encontramo-nos diante do mesmo ato misterioso: a manifestação de algo ‘de ordem diferente' – de uma realidade que não pertence ao nosso mundo – em objetos que fazem parte integrante do nosso mundo ‘natural', ‘profano'.
O homem ocidental moderno experimenta um certo mal-estar diante de inúmeras formas de manifestações do sagrado: é difícil para ele aceitar que, para certos seres humanos, o sagrado possa manifestar-se em pedras ou árvores, por exemplo. [...] Uma pedra sagrada nem por isso é menos uma pedra; aparentemente (para sermos mais exatos, de um ponto de vista profano) nada a distingue de todas as demais pedras. Para aqueles a cujos olhos uma pedra se revela sagrada, sua realidade imediata transmuda-se numa realidade sobrenatural. Em outras palavras, para aqueles que têm uma experiência religiosa, toda a Natureza é suscetível de revelar-se como sacralidade cósmica. O Cosmos, na sua totalidade, pode tornar-se uma hieofania (ELIADE, 1993, pp. 17, 18).
Observando a permanência da temática da viagem nos textos de Barros, enquanto um movimento de caminhada, podemos associá-la ao desempenho de Bernardo envolvido à natureza de simbologias cósmicas. Nisso, brota a intenção artística dos efeitos de uma linguagem que tende à magia, configurando-se no arquétipo do peregrinante, que traz em si a possibilidade do exercício da transmutação, inerente ao processo de metamorfose.
Bernardo escreve escorreito, com as unhas, na água,
O Dialeto-Rã.
[...]
Bernardo conversa em rã como quem conversa em
Aramaico.
Pelos insetos que usa ele sabe o nome das chuvas.
Bernardo montou no quintal uma Oficina de Transfazer
Natureza.
( O guardador de águas, 1991, pp. 20, 21) 6
Desde criança ele fora prometido para lata
Mas era merecido de águas de pedras de árvores
de pássaros.
Por isso quase alcançou ser mago,
( Retrato do artista quando coisa , 1998 [sic], p.45)
A sustentação das interfaces cosmogônicas da poética de Manoel de Barros apresenta-se de maneira intensa no Livro de pré-coisas , no subtítulo de “Cenários”, que espelha a ambientação nativa atravessando os sentidos da animização de “um rio desbocado”, na prosopopeização do cavalo que possui capacidades humanas, semelhantes ao ser “fecundador e libidinoso”. Nota-se a presença dos elementos que têm a propriedade de produzir performances mágico-objetais, mobilidades impregnadas de efeitos ilusionistas:
Cavalo que desembesta. Se empolga. Escouceia árdego de sol e cio. Esfrega o rosto na escórea. E invade, em estendal imprevisível, as terras do Pantanal.
Depois se espraia amoroso, libidinoso animal de água, abraçando e cheirando a terra fêmea.
[...]
E emprenhou de seu limo, seus lanhos, seu húmus – o solo do Pantanal.
Faz isso todos os anos, como se fosse uma obrigação.
Tão necessário, pelo que tem de fecundante e renovador, esse rio Taquari, desbocado e malcomportado, é temido também pelos seus ribeirinhos.
Pois, se livra das pragas nossos campos, também leva parte de nossos rebanhos.
Este é um rio cujos estragos compõem.
( Livro de pré-coisas , 1985. In: “Um rio desbocado”, pp. 19, 20)
A procura da cosmogênese interpretada pelo eu poético parece desejar reviver a tradição da mitologia grega por intermédio das simbologias míticas que referendam os atos de criação, no exemplar encontro amoroso dos deuses Gaia e Urano. A injunção realiza-se com a imagem de Urano (Céu) fecundando Gaia (Terra), uma simbiose mítico-corporal que deu origem a outros seres mitológicos, resultando numa exploração de significância arquetípica que deixa vestígios nos desdobramentos criativos da poética manoelina.
Na seqüência das análises da obra Livro de pré-coisas , no subtítulo “Agroval”, podemos constatar os liames da poética sinestésica transpondo-se aos elementos rastejantes, em que “pululam vermes de animais e plantas”. Subjaz nas descrições um erotismo criador, uma gênese cósmico-telúrica representada pela atividade criadora, no seu aspecto fecundador inteirando-se ao gênero feminino. Percebe-se que toda sorte de microorganismos, insetos e parasitas agregam-se e são engolidos por um ventre, ou por um seio que expele os seres e os enterra. Dessa absorção desponta o símbolo genesíaco/gerador que o poeta sul-mato-grossense assim recompõe:
Por vezes, nas proximidades dos brejos ressecos, se encontram arraias enterradas. Quando as águas encurtam nos brejos, a arraia escolhe uma terra propícia, pousa sobre ela como um disco, abre com as suas asas uma cama, faz chão úbere por baixo, – e se enterra . Ali vai passar o período da seca. Parece uma roda de carreta adernada.
Com pouco, por baixo de suas abas, lateja um agroval de vermes, cascudos girinos e tantas espécies de insetos e parasitas, que procuram o sítio como um ventre.
Ali, por debaixo da arraia, se instaura uma química de brejo. Um útero vegetal, insetal, inaugural. A troca de linfas, de reima, de rumem que ali se instaura é como um grande tumor que lateja.
Faz-se debaixo da arraia a miniatura de um brejo. A vida que germinava no brejo, transfere-se para o grande ventre preparado pela matrona arraia.
( Livro de pré-coisas , 1985. In: “Agroval”, pp. 21, 22)
Notamos que a inspiração autoral versificadora busca as significâncias simbólicas referentes ao texto bíblico do Gênesis ao interpretarmos os poemas “A Borra” e “Ninguém”, que fazem parte da obra Ensaios fotográficos 7. Os versos questionam a origem dos seres, que tentam alojar-se nos conteúdos da exploração temática da cosmogênese. O resultado de tamanha convergência metafórica repete-se na palavra “comunhão”, entretanto a impossibilidade de reaver ou de comungar com o todo universal permite apenas ao eu poético perceber os vestígios, as sobras de algo remoto. Nesse estado de contingência, as imagens literárias investem-se nos “andrajos”, trapos de vestes, roupagens alegóricas que indicam as circunstâncias de um mundo ou de um paraíso perdido. De maneira sugestiva vê-se a tentativa de se efetivar um elo entre o ser “ninguém” e a “comunhão com o começo do verbo”:
Prefiro as palavras obscuras que moram nos
Fundos de uma cozinha – tipo borra, latas, cisco
Do que as palavras que moram nos sodalícios
Tipo excelência, conspícuo, majestade.
Também os meus alter-egos são todos borra,
ciscos, pobres-diabos
( Ensaios fotográficos , 2000. In: “A Borra”, p. 61)
Falar a partir de ninguém
Faz comunhão com borra
Faz comunhão com os seres que incidem por andrajos.
Falar a partir de ninguém
Ensina a ver o sexo das nuvens
E ensina o sentido sonoro das palavras.
Falar a partir de ninguém
Faz comunhão com o começo do verbo.
( Ensaios fotográficos , 2000. In: “Ninguém”, p. 25)
Caso consideremos as explicações teológicas da Igreja Católica, veremos que “No princípio” significa a interpretação do lugar ocupado pelo absoluto, onde está o poder criador – denominado Deus. O “Verbo” carrega as possibilidades das ilações aos contextos da linguagem grega e, portanto, contém as significâncias que remetem a “razão”, a palavra. O Verbo é a instância cosmológica que mantém o sentido do eterno –, daquele que sempre foi e será. Segundo as definições encontradas na obra Convite à Filosofia, de Marilena Chauí, a cosmologia conserva as preocupações com o cosmos, categoria que o fundador da Filosofia, Tales de Mileto, concebia ao palmilhar o desvelamento do conhecimento racional. Os versos de Barros, que ora transcrevemos, parecem aludir a essa gênese bíblica e filosófica:
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
[...]
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer
nascimentos –
O verbo tem que pegar delírio.
( O livro das ignorãças , 1993. p. 15)
Depois que iniciei minha ascensão para a infância,
[...]
Lá onde a gente pode ver o próprio feto do verbo –
ainda sem movimento.
Aonde a gente pode enxergar o feto dos nomes –
ainda sem penugens.
( Tratado geral das grandezas do ínfimo, 2001. In: “Ascensão”, p. 41)
A inserção do “Verbo” corresponde à criação/criatura, por conseqüência essa injunção remete ao inconsciente, onde estão depositados ou recalcados os desejos espirituais do artista. Semelhante é a circunstância proposta pela demiurgia poética de Manoel de Barros, sentindo uma vontade impulsionante ao gerar as imagens representadas pelas palavras. Por meio de um princípio de correlações cosmológicas, o poeta é um verdadeiro Criador , no sentido abrangente do termo, porque remete à escritura primordial formalizada no livro publicado em 1937, Poemas concebidos sem pecado . Ao reatarmos essas consonâncias de intervenção milagrosa, temos a sensação de relembrar o nascimento de Jesus, que fora concebido sem pecado, conforme os relatos da Bíblia . Nas Sagradas Escrituras 8, o Messias fora gerado por Maria sem a união carnal da atividade sexual, portanto uma natividade de concepção sem pecado. Os primeiros poemas de Manoel de Barros foram produzidos em meio à pureza, à virgindade do poeta, que, como iniciante, compara o ato criador poético à concepção do próprio filho de Deus: sendo um ato de criação no qual se presentifica a origem dos seres, o Todo.
Prefiro as linhas tortas, como Deus. Em menino eu
sonhava de ter uma perna mais curta (Só pra poder
andar torto)
[...]
Eu seria um destaque. A própria sagração do Eu.
( Livro sobre nada , 1996. p. 39)
[...]
Experimento o gozo de criar.
Experimento o gozo de Deus.
Faço vaginação com palavras até meu retrato
aparecer.
Apareço de costas.
Preciso de atingir a escuridão com clareza.
Tenho de laspear verbo por verbo até alcançar
o meu aspro.
Palavras têm que adoecer de mim para que se
tornem mais saudáveis.
( Retrato do artista quando coisa , 1998, p. 21)
À medida, enfim, que vamos analisando a obra manoelina somos fisgados pelas injunções nostálgicas, retornos à infância, elementos primaciais que aderem às emoções, ao cultivo das emoções introspectivas. Instala-se uma lógica que nos orienta para o sentido de escavamento e, por isso, a busca original da palavra fica vinculada às imagens dos conteúdos, consubstanciados às figuras emblemáticas e míticas, verticalizações emotivo-existenciais que se aprofundam na origem das coisas. Tentamos resumir, neste artigo, o que comprovamos em nossa dissertação de mestrado intitulada “Manoel de Barros: uma interpretação poética e simbólica das interfaces espirituais”, ou seja: como o escritor sul-mato-grossense realizou suas provocantes intervenções, desalojando os princípios originais do conhecimento e da cultura universal. Do entrelaçamento entre os eventos da natureza com seres humanos e com seres inanimados ficou demarcada a presença do personagem Bernardo interagindo com o ambiente pantaneiro, que funciona como um locus primordial para um exercício por meio do qual o eu poético executa uma reflexão em torno da origem de tudo e de todos – a cosmogênese.
Barros, Livro sobre nada , Rio de Janeiro: Record, 1996, p. 27.
Barros , Retrato do artista quando coisa , Rio de Janeiro: Record, 1998, p. 27.
Barros, Livro de pré coisas, Rio de Janeiro: Record, 1985, pp . 48,57.
Bosi, Leitura de poesia, Ática, São Paulo, 2001.
Eliade, O sagrado e o profano. Martins Fontes, São Paulo, pp. 17-18, 1993.
Barros, O guardador de águas . Rio de Janeiro: Record, 1998, pp. 20,21.
Barros, Ensaios fotográficos. Rio de Janeiro: Record, 2000, pp.25, 61.
Cf. as Sagradas Escrituras sobre o mistério da anunciação: Eis que um anjo lhe apareceu em sonho e disse : “José [...] não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará a luz um flho a quem porão o nome Jesus” (Mat. 1, 20-21).