![]() |
![]() |
[ VOLTAR ] |
Bandeira escreve uma história para a poesia brasileira
Maria Barjute S A Bacha (UFMG)
“Cada um encontrou nos antigos o que desejava ou precisava,
principalmente a si mesmo”.
Schlegel
Consagrado poeta modernista, Manuel Bandeira foi também prosador. Escreveu autobiografia e biografias, cartas, crônicas, discursos, ensaios, roteiro de viagem e organizou antologias diversas de poesia. Como historiador, publicou os livros Noções de História das Literaturas (1938), Literatura Hispano-Americana (1949) e, ainda, a pouco estudada Apresentação da poesia brasileira , 1 (1946), objeto principal deste trabalho.
Com base na produção historiográfica mencionada, procuro, nesta fase da pesquisa, distinguir alguns valores que presidem a historiografia de Bandeira, considerando, sobretudo, que trata-se de um caso singular em nossas letras; provavelmente esta e´a oportunidade única de estabelecer uma possível relação entre o historiador e o poeta.
Os autores eleitos para compor a história da poesia brasileira de Bandeira são, em sua maioria, aqueles que podem ser enquadrados, cronologicamente, na produção do período colonial, iniciada por Anchieta, até os últimos modernos da geração de 45, como João Cabral, por exemplo. Geralmente, são poetas que conjugam, harmoniosamente, a “força da inspiração” e o domínio de uma “técnica”. Esta técnica, apreendida de modo gradual, sofre modificações, transformações, é permanentemente, reinventada. Para o poeta historiador, o poético torna-se perceptível a partir da recusa da cópia servil das coisas, da lógica prosaica, da retórica eloqüente. A criação poética é tratada como a conquista de um “estágio mais elevado de emoção”, de uma “sensibilidade mais aguçada do estético”, além de exigir o hábil manejo da linguagem. A poesia deve ser constituída de uma expressão “essencial”, resultante de um intenso e cuidadoso trabalho de depuração do sentimento e da forma.
A maestria técnica de um determinado poeta, porém, não pode ser confundida com o formalismo prejudicial ao “lirismo expressivo”; ao contrário, o elevado grau de lirismo, de poeticidade de determinados versos é proporcional ao grau de elaboração formal, de fatura técnica.
Contribui, de forma significativa, para a obtenção desse apuro técnico, o cultivo das formas concisas de expressão. O prolixo, o rebuscado, o saturado, o jogo retórico, o ornamento são traços de uma linguagem sistematicamente recusada pelo poeta historiador. Comprometido com os valores do seu tempo, Bandeira sugere que a linguagem deve ser concisa; nesse sentido, privilegia o trabalho do poeta que depura as formas de expressão, que diz muito, em poucas palavras. O poema, breve ou extenso, deve apresentar, segundo Bandeira, uma linguagem fundada na expressão do primordial e do imprescindível
A busca da exatidão, da adequação das palavras às diversas circunstâncias é outro traço sublinhado por Bandeira, na sua historiografia da poesia brasileira. Observa-se, entretanto, que a expressão “ exatidão” associa-se , na obra bandeiriana, com pertinência, adequação lúcida no uso de uma expressão. Esta forma, por sua vez, é produto da habilidade do poeta para lidar com as palavras e não depende da clareza do conteúdo a ser transmitido. Este, aliás, pode ser enigmático ou até mesmo obscuro, conforme adverte Bandeira, ao tratar, por exemplo, de alguns poetas das escolas simbolistas e modernistas.
O ritmo, a pausa, a repetição, a rima, enfim, os recursos sonoros têm uma importância maior para o poeta historiador. A musicalidade de “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias, por exemplo, é um dos motivos sublinhados para justificar a inclusão do poema na história de nossa poesia Situação semelhante ocorre quando Bandeira estuda as “melodiosas” liras de Gonzaga, as “doces e delicadas modinhas” de Silva Alvarenga, os “jogos sonoros” de Castro Alves, as “sugestões rítmicas” de Cruz e Sousa, etc. O apreço do historiador Bandeira pelo elemento fônico de um poema apenas reitera a declaração que aparece no Itinerário de Pasárgada : ali, a certa altura da autobiografia poética, Bandeira afirma que compõe versos porque não sabe fazer música.
Evocar formas, sugerir imagens, esboçar visões é, também, um valor que Bandeira privilegia nas obras que elege e julga para compor a história da poesia no Brasil. Atento para a importância do elemento visual no século XIX, volta-se para os poetas que exploram tal recurso e, nesse sentido, distingue os simbolistas, Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens.
Autor moderno que herda parte do legado romântico, Bandeira concede um lugar privilegiado para a polêmica em torno do nacional. Nascer, ou não, no Brasil, fazer o registro do local, do pitoresco, da tradição cultural é expediente que não assegura o caráter de nacionalidade a uma obra. Ao incluir Bento Teixeira em sua historiografia, Bandeira assinala que a Prosopopéia não apresenta nenhum valor literário, “quer pelo conteúdo”, “ quer pela forma,” a obra do período colonial é apontada como um “ canhestro decalque das dicções camonianas” .
Para Bandeira, a nacionalidade de uma poética reside no domínio da língua culta e do popular, na possibilidade de inventar dicções e criar identidades próprias. Nesse sentido, a sua história da poesia brasileira trata das manifestações iniciais de nativismo, do surgir das primeiras academias e, ainda, resgata vozes remotas dos que primeiro se esforçaram para criar uma poética fundada em certos princípios de brasilidade. A concepção de nacionalidade adotada pelo poeta historiador admite, nessa perspectiva, a inclusão de alguns nomes tidos como menores, de alguns textos que foram esquecidos, dos que foram considerados estranhos ou estrangeiros.
Bandeira ressalta, nos poemas que escolhe e julga, a importância do traço estético, sem contudo, recusar uma avaliação de ordem ética ou ideológica. A poesia condoreirista do Romantismo brasileiro, por exemplo, não tem algum mérito por tratar de questões humanitárias ou ter vínculos com os ideais da tradição humanista. A produção poética dos românticos brasileiros que advogam a causa dos negros, dos injustiçados, dos oprimidos tem lugar na historiografia bandeiriana porque apresenta um rigoroso trabalho de caráter estético.
Outros valores que explorados na Apresentação da poesia brasileira , de Manuel Bandeira, merecem destaque. No entanto, esta exposição restringe a matéria e o recorte do essencial torna-se insuficiente. Apesar disso, é pertinente focalizar aquilo que diz respeito ao novo, ao que está intimamente ligado ao projeto modernista e que tem, no próprio poeta historiador, uma de suas principais vozes.
Para compreender o que pensa Bandeira acerca do novo, faz-se necessário voltar à 1946 – data de publicação da Apresentação da poesia brasileira . Nos primeiros dias de março daquele ano, o então crítico, e bastante jovem, Antonio Candido escreveu o artigo “Crítica de poeta” para o Diário de São Paulo fazendo uma apreciação do volume recem- publicado. Depois de algumas palavras de elogio, o jovem questionou a inclusão de autores consagrados na história da poesia brasileira composta por Bandeira.A seguir, distinguiu como mérito do trabalho a inserção de autores pouco conhecidos ou esquecidos, como Augusto dos Anjos e Sousândrade. Reivindicou, ainda, a inclusão de novos poetas na obra, justificando que tal atitude ampliaria, certamente, os limites do cânone de poesia produzida no Brasil.
Poucos dias depois, Manuel Bandeira endereçou uma significativa resposta ao jovem Antonio Candido. O novo, observou o poeta historiador, associa-se com a surpresa, com o inesperado, ou, ainda, com o estranho e com o desconhecido. O novo, explicitou Bandeira, é um valor privilegiado pelo nosso tempo; não deve ficar restringido ao presente porque ele está também no passado, na poética que inova, que resiste ao tempo e permanece.
Poucos anos depois, a obra Formação da Literatura Brasileira 2, da autoria de Antônio Candido, apresentou e, ainda apresenta, no capítulo destinado às referências bibliográficas, uma nota de registro sobre a importância da Apresentação da poesia brasileira 3, de Manuel Bandeira: sua leitura, desde então, torna-se imprescindível para quem deseja conhecer a história da produção poética no Brasil.
Atentos para esta advertência, autores como Alfredo Bosi, Massaud Moisés e, inclusive, o próprio Antonio Candido passam a compor a história da poesia no Brasil tomando por referência a própria historiografia, provavelmente a única, composta por um grande poeta.
As obras e os textos de Manuel Bandeira utilizados neste trabalho estão reunidos em dois volumes, com o título de Prosa e Poesia. Rio de Janeiro, Aguilar, 1958.
CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira . Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Ed. da Universidade de São Paulo, 1975.