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Apontamentos para um sublime tropical: transcendência e circunstancialidade histórica nos prólogos de Gonçalves Dias
Marcos Machado Nunes (UFRGS/UERGS)
Durante o Romantismo, a produção literária respondeu a um ambiente social e político instável com uma aguda consciência histórica. No Brasil, é conhecida a relação entre o processo histórico da autonomia da ex-colônia portuguesa e o Romantismo como amplo conjunto de iniciativas literárias marcadas pelo empenho no sentido de demarcar os contornos de uma identidade própria na nova nação. É igualmente conhecida a contradição representada pelo uso de formas, valores e instituições de origem européia para a construção da nova literatura.
Em nosso projeto de doutoramento, do qual é parte este trabalho, procuramos dar conta de um ponto em que essa contradição se apresenta de forma intensa, embora não muito explícita: as poéticas do sublime. Intensa porque diz respeito a algo que está muito próximo do centro da estrutura de valores que fundamenta o cânone do Romantismo europeu e se apresenta também no Romantismo brasileiro com características muito próprias, integrado às múltiplas formas sob as quais se tentou consolidar um projeto coletivo das elites intelectuais brasileiras de construção da identidade nacional. Não muito explícita porque, embora “sublime” seja — sobretudo como adjetivo — uma expressão reiterada no vocabulário romântico brasileiro, não houve uma reflexão que nos dê testemunho da consciência de que esta palavra também abrigava — como conceito — parte do que nossos românticos estavam fazendo nos seus textos.
Da descrição de um “algo mais” indefinível no discurso à designação da “obsessão [...] da infinitude natural” ou subjetiva, à postulação da indeterminação da própria linguagem e da representação, o sublime é uma categoria com trânsito em vários campos discursivos, descrita em tratados teóricos ou relatos da experiência (real ou imaginada).
Como a etimologia latina já prenuncia, e Longino enfatizará em seu tratado de retórica datado do século I d.C, o sublime implica um deslocamento, um trânsito entre o dentro e o fora, o alto e o baixo. Esse movimento é, para Longino, o que faz o ouvinte ou leitor sair de si mesmo. A palavra usada pelo autor grego para designar esse movimento é ekstasis . Esse movimento se dá em um eixo vertical. Ali ele assume a forma de uma elevação. Essa elevação pode ter um conteúdo religioso, moral, humanista, político, etc. O sublime é, antes, uma forma adaptada ao longo da história da cultura a diferentes conteúdos. Uma elevação que rompe um limite é uma transcendência.
A ruptura do limite requer esforço, luta, e representa, em geral, uma transgressão. A dificuldade vem acompanhada de um patos, de uma ansiedade (no sentido de medo e desejo simultâneos) e de um trauma. A mente humana torna-se o palco de uma contradição: prazer e ao mesmo tempo dor, numa vertiginosa oscilação, marcada pela indeterminação e pela complementaridade. Em algumas versões do sublime, o prazer supera um desprazer, que, no entanto, é necessário a sua realização; em outras, ambos são concomitantes. A dor e a ruptura podem ser interpretadas como uma intensificação, uma sobrecarga das capacidades humanas, um excesso ameaçador que pode estar latente na indeterminação, na obscuridade, na imperfeição, na incompletude ou na sugestão, enfim, no agon entre a infinitude e a totalidade, no esforço da redução do infinito a uma totalidade. Essa agonia se multiplica em diversas formas de dicotomia e descontinuidade, reforçando “variadas formas de alienação [...] — entre o familiar e o novo, o humano e o natural, o inferior e o superior” 1. O próprio conceito se apresenta desdobrado em sucessivas dicotomias: sublime retórico x sublime natural, empírico x transcendental, unidade x ausência de fechamento, objeto x mente, sentidos x razão, diminuição do sujeito x engrandecimento do sujeito, sensível x ideal, liberdade x moralidade.
As formas de realização discursiva mais evidentes do sublime são a hipérbole e, em menor grau, o polissíndeto. São essas figuras os traços deixados no discurso da experiência (concreta ou imaginária) da intensidade e do excesso. No ápice dessa experiência, contudo, um bloqueio traumático castra o fluxo do discurso e a representação se intensifica e se anula ao mesmo tempo sob a forma da fragmentação ou, no extremo, de um silêncio significante. Além de todas as dicotomias, está o consenso de que a experiência do sublime vai além dos demasiadamente humanos limites da linguagem e da representação: trata-se de uma experiência que não encontra equivalentes no discurso. Ela só poderá ser comunicada pelo uso de figuras capazes de ocultar a própria figuração 2.
Em um esquema um tanto rígido, embora abrangente o bastante para ser elucidativo, Weiskel divide o percurso da experiência do sublime em três momentos: a) um primeiro, em que a relação do sujeito com o mundo objetivo e consigo mesmo segue em um fluxo contínuo; b) um segundo, em que, por uma intensificação no mundo objetivo ou no interior do próprio sujeito, o fluxo é rompido, estabelecendo-se a descontinuidade que é transposta pela delegação de sentido metafórica; e c) um terceiro, de retorno ao fluxo, que, agora alterado pelo sentido da própria experiência da descontinuidade, já não será o mesmo.
A leitura da poesia e da prosa de Gonçalves Dias a partir da poética do sublime flagra um poeta situado na passagem entre o espírito moralizante próprio dos gêneros públicos (oratória religiosa e jornalismo político) e da poesia retórica das primeiras décadas dos 1800 e uma nova atitude voltada para a consolidação da literatura a partir de valores autônomos. Uma atitude, ressalte-se, não uma plena consciência. O programa poético dos prefácios aponta em direção à grandiosidade da poesia religiosa, onde, contudo, os traços da circunstancialidade geográfica e histórica (o novo Brasil) são abolidos 3.
Propomos centrar o foco das ambigüidades da obra de Gonçalves Dias nas suas aspirações à transcendência. A partir de um projeto poético que coincide com a ideologia romântica de que fala Jerome McGann 4— a qual se constitui nas alegações da possibilidade da revelação poética indicar uma realidade transcendente além da realidade corruptora da história —, apontamos para as oscilações e incertezas que resultam da dificuldade de compatibilizar esse projeto poético com o projeto de afirmação da identidade nacional.
É possível identificarmos nos três prólogos redigidos por Gonçalves Dias (aos Primeiros e aos Últimos cantos e a Leonor de Mendonça ) alguns elementos que nos permitam abordar alguns aspectos de uma teoria implícita da sublimidade.
No prólogo a Leonor de Mendonça , vemos que, para Gonçalves Dias, os prólogos devem exercer uma espécie de mediação apaziguadora entre a intencionalidade do autor e o juízo crítico do leitor, sendo meramente redundantes os prefácios às obras já canonizadas. Depreende-se daí uma consciência do caráter programático dos prólogos: “Direi [no prólogo a Leonor de Mendonça ] pois, não o que fiz, mas o que prometi fazer” 5. O caráter programático, contudo, surge em função da consciência de uma profunda fissura entre o conteúdo e a forma.
Ao colocar-se como uma mediação entre a intenção e a realização, os prólogos testemunham a distância que separa esta daquela, caracterizando a expressão literária como uma experiência marcada pela descontinuidade, pelo abismo entre a intenção e a realização. “A imaginação tem cores que se não desenham; a alma tem sentimentos que se não exprimem; o coração tem dores superiores a toda a expressão.” 6. Há, entre a materialidade da obra e a intenção do gênio, um abismo semelhante à “distância que vai do ar a um sólido, do espírito à matéria” 7. Para Dias, os juízos estéticos realizariam um confronto entre as idéias do leitor e a materialidade da escolha do autor.
No prefácio aos Últimos cantos , datado de 1850, podemos ver como o mundo da subjetividade, definido por um desejo, é caracterizado pela incomensurabilidade, pela indeterminação, pela obscuridade, pelo patos e pelo terror, numa fórmula que condensa os atributos tradicionais do sublime:
Desejar e sofrer — eis toda a minha vida neste período; e estes desejos imensos, indizíveis, e nunca satisfeitos, — caprichosos como a imaginação, — vagos como o oceano, — e terríveis como a tempestade [...] 8
A questão que se coloca é típica da transcendência romântica. Não há aqui a revelação, a saturação de significado, mas a obscuridade do excesso e da instabilidade dos significantes. Como aprisionar na linguagem essas formas inconstantes, obscuras e ameaçadoras do desejo?
Do mesmo ano em que assina o prólogo a Leonor de Mendonça , 1846, é o prólogo à primeira edição de seus Primeiros cantos . Ali a consciência do abismo entre a matéria poética e o espírito criador faz entrar em cena um terceiro personagem no drama da transcendência: o malogro grandioso de que fala Longino. “O esforço - ainda vão - para chegar a tal resultado é sempre digno de louvor; talvez seja este o só merecimento deste volume.” 9 O “resultado” aludido é atingir a “Poesia grande e santa”. Somos convidados a comparar o incomparável com o esforço por atingi-lo. O mesmo topos encontra uma expressão bem menos enfática no prefácio aos Suspiros Poéticos e Saudades : “Valha-nos ao menos o bom desejo, se não correspondem as obras ao nosso intento” 10.
Essa consciência da inviabilidade da expressão do infinito da subjetividade — que é, para Paul de Man 11, central para o Romantismo europeu — parece apequenada, descartada. Ela não é levada às suas últimas conseqüências. A distância entre o incondicionado e a matéria não se acomoda a um patos inibidor, cujas conseqüências seriam a orientação radical do discurso poético no sentido da sua negação, da sua não realização, ou seja, da fragmentação ou da incompletude. Ao contrário, sua função é antes dramatizar — e ao mesmo tempo servir como um critério de comparação — uma outra forma de intensificação da experiência e elevação do sentido. Observe-se essa passagem, ainda do prólogo aos Primeiros cantos :
Com a vida isolada que vivo, gosto de afastar os olhos de sobre a nossa arena política para ler em minha alma , reduzindo à linguagem harmoniosa e cadente o pensamento que me vem de improviso, e as idéias que em mim desperta a vista de uma paisagem ou do oceano — o aspecto enfim da natureza. Casar assim o pensamento com o sentimento — o coração com o entendimento — a idéia com a paixão — cobrir tudo isto com a imaginação, fundir tudo isto com a vida e com a natureza, purificar tudo com o sentimento da religião e da divindade, eis a Poesia — a Poesia grande e santa — a Poesia como eu a compreendo sem a poder definir, como eu a sinto sem a poder traduzir. 12
Como é possível “afastar os olhos de sobre a nossa arena política” ao mesmo tempo em que se entrega ao propósito de fundar uma literatura cuja identidade se constrói em torno da afirmação de sua autonomia, o que é, em última instância, um projeto político? Sobretudo na medida em que essa autonomia cultural pressupõe e contribui para a construção da autonomia política da nova nação. O próprio título dos Primeiros Cantos já acusa esse propósito fundador; sua ambigüidade nos permite entrever, sob a alegação de tratar-se de um projeto individual, ao mesmo tempo, o projeto coletivo encoberto (primeiros cantos de um poeta? de uma nação ou literatura nacional?). Esse falso paradoxo constitui um uso retórico do individualismo. O paradoxo é falso porque deixa entrever um projeto político maior do que a mesquinha “arena política”. A negação dessa esfera micro se dá em função da valorização de uma esfera macro de atuação. O individualismo é afirmado (“para ler em minha alma”) como condição necessária para a realização do empreendimento coletivo que transcende um âmbito de atuação familiar e de pequeno alcance.
Há nessa passagem um movimento narrativo: o poeta afasta os olhos da “arena política” para sua alma, onde descobre que os pensamentos se traduzem em uma “linguagem harmoniosa e cadente” — definição técnica, banal da poesia — à qual vão se agregando idéias despertas pela natureza, paixões, que se fundem na imaginação, onde são purificadas pelo sentimento da divindade e temos... a Poesia. Não mais a poesia definível de onde partimos, mas a “Poesia grande e santa”, além de toda definição, total e infinita ao mesmo tempo. É um movimento narrativo cumulativo, difícil. Mas ao final somos recompensados: saímos da banalidade para a sublimidade. Lembremos sobretudo que a subjetividade mediadora da revelação da “Poesia grande [sublime] e santa” é, tal como no prefácio aos Últimos cantos , uma infinitude. A infinitude subjetiva prefigura uma grandiosidade coletiva ainda maior, revelada através dela e graças a ela.
É interessante a comparação com outros textos de igual natureza contemporâneos a este prólogo. A comparação, por tornar manifesta a recorrência de padrões discursivos, salienta o paradoxo do individualismo que se propaga sob as mesmas características em diversos indivíduos. Ela flagra o propósito coletivo sob a máscara de um drama que se apresenta individual.
Vejamos o texto “Algumas palavras sobre este livro”, prefácio às Modulações poéticas , de Joaquim Norberto, de 1841. O contraste pronunciado entre a serenidade melancólica das gradações do texto de Gonçalves Dias e as acumulações e hipérboles de Joaquim Norberto não encobre as proximidades estruturais e semânticas dos dois textos. No prefácio de Norberto, um poeta anuncia que está publicando “algumas páginas de poesia”, que correm o risco de se perder no vazio de um ameaçador “turbilhão dos partidos que se debatem, ora vencidos e se esforçando por vencerem, ora vencedores e entoando o hino do seu triunfo” 13, resultando numa indiferença coletiva com relação à literatura. O rumor infernal das pequenas contendas políticas se “mescla aos gemidos da pátria”, pois nessa arena mesquinha “a mediocridade, a intriga, a imoralidade, o egoísmo, a corrupção, a irreligiosidade e o desamor da pátria cavam abismo à pátria” 14. Através da natureza, da reação subjetiva ao seu “espetáculo”, descobre-se um turbilhão interior de “imagens poéticas e cadência” cujo significado é a revelação da vocação poética. E o poeta não reflete como o espelho mimético, mas irradia como a lâmpada hiperbólica do oceano de luz do sol. Já não habita a terra, mas o céu. Alçou-se para a esfera superior em que passará a eternidade cantando “a pátria, a religião e a natureza”, deixou para trás (ou abaixo) o mundo em que via “a política absorver todas as atenções” 15.
O poeta recua, ou antes desdobra a sua trindade, e reconhece a necessidade de cantar outros temas. Contudo, torna a salientar a centralidade da pátria, que é concebida como única via para atingir o absoluto, identificado que é, aqui, com o Deus da religião.
O componente político elevado à condição de categoria transcendente deixa a marca de seu processo de sublimação: nem sempre houve uma pátria. Se ela está perto do Senhor, e é através dela que se pode ascender a ele, nem sempre ela esteve lá. Sua existência está marcada pela dupla natureza de ser um ente além da história e que, contudo, nasceu da história pelo “triunfo da sua independência”. A independência é um fato político que projetou uma categoria humana para além do humano, do histórico. Mas a polítca, como vimos, é o “pélago” em que afundam as vocações poéticas. A política pode conduzir tanto ao elevado radiante como ao profundo obscuro. A sublimação e a demonização fazem com que a independência e a consolidação da autonomia — processo marcado por contradições e embates — não sejam encaradas como fatos históricos integrantes de um mesmo processo histórico. Para Joaquim Norberto, há uma forma superior da experiência política que se ergue acima do cenário político concreto e se confunde com valores transcendentais absolutos, além da história e suas determinações.
Tornemos ao prefácio dos Suspiros poéticos e saudades , intitulado “Lede”. A relação desse texto com o projeto geral do Romantismo brasileiro de construir a autoridade cultural a partir da qual a literatura se consituiria como o referencial identitário da nacionalidade é bem mais estreita do que a dos prólogos de Gonçalves Dias. A presença de uma mesma estrutura de projeção da poesia para as categorias transcendentais da moral e da religião pode servir como um elemento extratextual para a nossa leitura do projeto poético de Gonçalves Dias, tal como ele se encontra esboçado nos prólogos.
No prefácio de Magalhães, é afirmado que “O fim deste Livro” (os Suspiros poéticos e saudades ) “é elevar a Poesia à sublime fonte donde ela emana” 16. A renovação apocalíptica da literatura, que integra e ajuda a realizar a renovação das identidades coletivas e subjetividades individuais, coincide com a elevação, uma depuração que é a libertação da “Poesia das profanações do vulgo” 17. “A Poesia, este aroma d'alma, deve de contínuo subir ao Senhor” 18; ao descobrir o caminho para cima (postulando, ao mesmo tempo, a necessidade de subi-lo), Magalhães está “indicando apenas no Brasil uma nova estrada aos futuros engenhos” 19. A descoberta dessa senda, que torna a nova poesia possível, “É um novo tributo que pagamos à Pátria” 20. Temos assim uma concepção da relação da história com a literatura que é programática. O que não significa, naturalmente, que vai ser plenamente realizada. A poesia é capaz de projetar (deslocar, se empregarmos o vocabulário de Jerome McGann) para um cenário além da história um drama político concreto, fazendo um convite à visão, a partir das grandes perspectivas, de uma ação que está ocorrendo em um teatro muito mais amplo.
As ambigüidades inerentes à relação da transcendência com os usos políticos da representação da natureza retornam no prefácio dos Últimos cantos , de 1850. A ansiedade com relação à adequação de seu projeto poético ao projeto coletivo se encontra sob a forma de um humilde desejo de saber “Se minhas pobres composições não foram inteiramente inúteis ao meu país” 21. O litotes, a afirmação pela negação (“não foram inúteis”) é uma marca retórica de uma posição discursiva antagônica às hipérboles do sublime. Ele também não coincide com a simplicidade da Bíblia. Não raras vezes ele é a marca da ironia. A “Poesia grande e santa” se dobra humildemente a uma idéia ainda maior do que ela nessa breve passagem. Uma outra, do mesmo prólogo, nos coloca diante dessa mesma posição de negação da transcendência e nos põe diante da ambigüidade de uma estética da transcendência associada a representações da particularidade temporal e espacial:
Minha alma não está comigo, não anda entre os nevoeiros dos Órgãos, involta em neblina, balouçada em castelos de nuvens, nem rouquejando na voz do trovão. Lá está ela! — lá está a espreguiçar-se nas vagas de S. Marcos, a rumorejar nas folhas dos magues, a sussurrar nos leques das palmeiras: lá está ela nos sítios que os meus olhos sempre viram, nas paisagens que eu amo, onde se avista a palmeira esbelta, o cajazeiro coberto de cipós, e o pau-d'arco coberto de flores amarelas. Ali sim, — ali está — desfeita em lágrimas nas folhas das bananeiras — desfeita em orvalho sobre as nossas flores, desfeita em harmonia sobre os nossos bosques, sobre os nossos rios, sobre os nossos mares, sobre tudo que eu amo 22
Essa passagem liga a estrutura experiencial e discursiva do sublime a um dos temas mais recorrentes do autor: a nostalgia, produto de “desejos imensos, indizíveis, e nunca satisfeitos” 23. A referência ao sublime é, portanto, uma mediação retórica, uma longa perífrase. A passagem inicia com uma duplicação do sujeito: o sujeito contempla a experiência da sua desintegração (para um certo olhar interior, sua alma está “desfeita”) pela identificação com algo que lhe é externo. A duplicação se dá pela projeção ao exterior, pelo deslocamento (para dentro) do hiato entre o interior e o exterior. Na tradição teórica do sublime, essa projeção se chama, desde Longino, êxtase. Nas leituras seculares dessa tradição, metáfora. A essa projeção, no entanto, é negado, aqui, em um primeiro momento, o sentido ascendente da elevação (a alma não está nas montanhas), assim como a indeterminação formal (não está oscilando na névoa) ou a intensidade dinâmica (do trovão). Há uma ambigüidade sintática que nos permite atribuir essa posição à metade “não projetada” do sujeito cindido: a alma “não está comigo, [ e também ] não anda entre os nevoeiros...”, quer dizer, sozinha no alto; ou “não está comigo, não anda [ comigo ] entre os nevoeiros...”. Nesse último caso, “Lá está ela!” implica um olhar para baixo, descer os olhos desde os cimos etéreos da cidade imperial (a referência é à Serra dos Órgãos, em Petrópolis) e ver a alma ali em baixo, espreguiçada numa praia. O “ali” anula a distância entre o centro do poder do Império e a província (a praia referida é parte da Bahia de São Marcos, no litoral maranhense).
Numa longa acumulação, a negação da elevação constitui o que lemos antes como um desvio da transcendência, não uma alternativa ou sequer um abrandamento. A acumulação vai pondo em cena a paleta da “cor local”, do pitoresco, numa tensão entre o exotismo, familiaridade e desfamiliarização. O exótico é apresentado como o familiar pela imaginação que vai aos poucos, revelando um novo nível de estranhamento produzido pela “reflexão”:
Idéias e fatos há que diariamente nos passam por diante dos olhos sem que nunca atentemos neles; nós os reputamos coisa corrente e sabida por todos, que por vulgar nos não pode parecer sublime. Mas sobre essa idéia ou fato, que em nossa memória entesouramos como substância de flores em favo de abelhas, a reflexão trabalha sem descanso, desbasta-o, e tanto se exercita sobre ele, que depois estranhamos de o ver brilhante, belo e muito outro do que a princípio se nos antolhara. 24
A sobrecarga de sentido concomitante à revelação da desfamiliaridade do familiar exótico. Com a revelação apocalíptica, a alma está “desfeita”. O sujeito se dissolve numa identidade coletiva (“ nossas flores”, “ nossos bosques”, “ nossos rios”, “ nossos mares”) totalizante (“sobre tudo”). Não se pode determinar o alcance da pluralização: se está se referindo ao sujeito do discurso e seu interlocutor, a ambos mais a comunidade provinciana, se a todo o corpo social da nação: “sobre tudo que eu amo”. O sublime, pelo excesso de significado atribuído pelo sujeito, segue, assim, um movimento de dissolução do sujeito (marcado subretudo pela gradação verbal: “espreguiçar”, “rumurejar”, “sussurrar”, e daí ao apassivamento: “desfeita”) no objeto natural cuja marca é o fato de ser possuído por um sujeito coletivo maior (que totaliza a ambos, sujeito e objeto). A ritualização da dissolução é uma nova cena da origem. Ao eliminar a barreira que separava o sujeito do mundo objetivo e permitia, pela oposição, a afirmação de uma identidade subjetiva, a identificação possibilita a constituição da delimitação em novos termos. Será possível a construção de uma nova subjetividade que leva consigo (em caráter “meta”, se quisermos nos reportar às fases do momento sublime de Weiskel) os traços da experiência da dissolução.
NOTAS:
WEISKEL, Thomas. O sublime romântico: estudos sobre a estrutura e a psicologia da transcendência. Trad. de Patrícia Flores da Cunha. Rio de Janeiro: Imago, 1994, p.36.
HERTZ, Neil. O fim da linha : ensaios sobre a psicanálise e o sublime. Trad. de Julio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Imago, 1994, p.38-39.
A solução da contradição se dá a partir da valorização dos mitos fundadores. Nossa leitura, em grande medida, requer a abertura de novos espaços no cânone da poesia gonçalvina, restituindo aos “Hinos” parte da valorização atribuída às “Poesias Americanas”.
McGANN, Jerome. The Romantic Ideology . Chicago: Chicago University Press, 1983.
DIAS, Antonio Gonçalves. Poesia completa e prosa . Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1959, p.686.
DIAS, Antonio Gonçalves. Poesia completa e prosa . Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1959, p.685.
DIAS, Antonio Gonçalves. Poesia completa e prosa . Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1959, p.685.
DIAS, Antonio Gonçalves. Poesia completa e prosa . Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1959, p.351.
DIAS, Antonio Gonçalves. Poesia completa e prosa . Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1959, p.101.
MAGALHÃES, Antonio Gonçalves de. Lede. In: SOUZA, Antonio Candido de Mello e CASTELLO, José Aderaldo. Presença da Literatura Brasileira : das origens ao Romantismo. 11a ed. São Paulo: DIFEL, 1982, p.219.
DE MAN, Paul. Intentional Structure of the Romantic Image. In: BLOOM, Harold. (Org.). Romanticism and Consciousness : Essays in Criticism. Nova York: Norton, 1970, pp.65-77.
DIAS, Antonio Gonçalves. Poesia completa e prosa . Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1959, p.101. O destaque é nosso.
SILVA, Joaquim Norberto de Souza Silva. Algumas palavras sobre este livro. In: ZILBERMAN, Regina e MOREIRA, Maria Eunice. (Orgs.). O berço do cânone . Porto Alegre: Mercado Aberto, 1998, p. 95.
SILVA, Joaquim Norberto de Souza Silva. Algumas palavras sobre este livro. In: ZILBERMAN, Regina e MOREIRA, Maria Eunice. (Orgs.). O berço do cânone . Porto Alegre: Mercado Aberto, 1998, p.95.
SILVA, Joaquim Norberto de Souza Silva. Algumas palavras sobre este livro. In: ZILBERMAN, Regina e MOREIRA, Maria Eunice. (Orgs.). O berço do cânone . Porto Alegre: Mercado Aberto, 1998, p.98.
MAGALHÃES, Antonio Gonçalves de. Lede. In: SOUZA, Antonio Candido de Mello e CASTELLO, José Aderaldo. Presença da Literatura Brasileira : das origens ao Romantismo. 11a ed. São Paulo: DIFEL, 1982, p.217.
MAGALHÃES, Antonio Gonçalves de. Lede. In: SOUZA, Antonio Candido de Mello e CASTELLO, José Aderaldo. Presença da Literatura Brasileira : das origens ao Romantismo. 11a ed. São Paulo: DIFEL, 1982, p.217.
MAGALHÃES, Antonio Gonçalves de. Lede. In: SOUZA, Antonio Candido de Mello e CASTELLO, José Aderaldo. Presença da Literatura Brasileira : das origens ao Romantismo. 11a ed. São Paulo: DIFEL, 1982, p.218.
MAGALHÃES, Antonio Gonçalves de. Lede. In: SOUZA, Antonio Candido de Mello e CASTELLO, José Aderaldo. Presença da Literatura Brasileira : das origens ao Romantismo. 11a ed. São Paulo: DIFEL, 1982, p.218.
MAGALHÃES, Antonio Gonçalves de. Lede. In: SOUZA, Antonio Candido de Mello e CASTELLO, José Aderaldo. Presença da Literatura Brasileira : das origens ao Romantismo. 11a ed. São Paulo: DIFEL, 1982, p. 220.
DIAS, Antonio Gonçalves. Poesia completa e prosa . Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1959, p.351.
DIAS, Antonio Gonçalves. Poesia completa e prosa . Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1959, p.352.
DIAS, Antonio Gonçalves. Poesia completa e prosa . Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1959, p.351.
DIAS, Antonio Gonçalves. Poesia completa e prosa . Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1959, p.685.