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“Busca”: uma prosa poética
Jane Christina Pereira (PG-UNESP)
As pedras limosas, por onde a tarde ia aderindo,
tinham a mesma exalação de água secreta,
de talos molhados, de pólen,
de sepulcro e de ressurreição.
(Cecília Meireles)
Para Bosi, “se no fim do trajeto a imagem parece ter ultrapassado o discurso, a transcendência se fez também em sentido contrário: para levar a figura à plenitude, foi necessário desatar a corrente das palavras”. (1977, 35) Assim como Goethe, o estudioso considera que a idéia, na imagem, permanece infinitamente ativa e inexaurível.
é numa forte imagética que a busca do homem por si mesmo se delineia no conto a ser analisado, cujo titulo, “Busca”, já encerra, paradoxalmente, todo o sentido e toda a dúvida. Imbuído de um espírito contemplativo e amorfo, Vicente, o narrador protagonista, suporta uma tarde de domingo, num niilismo memorialístico e devora seus personagens numa narração essencialmente lírica. Na medida em que a luz o ilumina, os outros personagens se reduzem a sombras, imagens, a sua verdadeira natureza de seres de linguagem, como num mito da caverna interior. Vicente aparece sempre em relação direta com um outro ser, que ele persegue e as máscaras da ausência remetem à busca de si mesmo. Sob tal perspectiva, essa narrativa não apresenta um tempo marcado, pois ela não se constrói na lenta tomada de consciência de toda uma vida, ela está a serviço de uma busca, a de instantes privilegiados, que vai da espera ao encontro.
Sem reflexões complexas sobre a vida, um chefe de solda tem as profundezas de sua vivência simplificadas pelo meio social e vasculhadas pela expressividade do texto joãoantoniano: “Derramei, fiquei olhando a água no cimento. Aquilo estava precisando duma escova forte. Começo de limo nas paredes. Sujeira. Quando voltasse daria um jeito no tanque. As manchas verdes sumiriam”.
Metaforicamente, como a água no cimento, ele olha passivo a sua vida seca de boas emoções, de alegrias, de sonhos... O limo nas paredes desenham a secularidade viciosa e monótona do seu cotidiano: a água repetida na cimento que se torna lodo.
Encurralado, num “domingo tão chato”, no qual “depois do almoço as coisas ficam paradas, sem graça”, ele tenta fugir, quer sair de casa, quer andar e, sem ânimo, buscar algo indefinido dentro dele. As coisas paradas, sua vida sem graça e seus ânimos frouxos se arrastam consonantes a um discurso lírico que também se arrasta numa sintaxe monótona. Composta por coordenadas (escolha peculiar de João Antônio), que dão a medida e o ritmo de um pensamento cheio de lembranças, vazios e tristeza, por repetições do verbo andar e de gerúndios, por predicados repletos de adjetivos escuros, a expressividade desse arrastar-se é realçado no contraponto com dois momentos em que a narrativa se colore pela poesia da infância. Todavia, o clima que reveste o conto é sempre o da melancolia, que segundo Edgar Allan Poe é o mais legítimo de todos os tons poéticos.
Segundo Tadié, se reconhecermos, com Jakobson, que a poesia começa nos paralelelismos, encontramos, na narrativa poética, um sistema de ecos, de retomadas, de contrastes que são equivalentes, em grande escala, das assonâncias, aliterações e rimas. No trabalho estilístico de João Antônio, os paralelismos vêm dar a medida dos múltiplos contrastes da personalidade do narrador. Esses arranjos poéticos estão por todo o texto, numa recorrência tão intensa que os significantes se abrem num labirinto de significados. Um dos exemplos dessa construção pode ser constatada no momento em que, Vicente, na busca de si, do seu passado, do tempo perdido, no seu andar sem saber por onde, entra “por uma rua que não conhecia” depara-se com um menino e por algum momento evade-se numa infância feliz:
Olhava para tudo, jardins, flores, mangueiras esquecidas na grama, gente de pijamas estendidas nas espreguiçadeiras. A bola de borracha subia e descia no muro. Um menino veio. O que eu adoro nesses meninos são os cabelos despenteados. Chutei-lhe a bola, que ela corria para mim. Transpirava, botou a mão no ar agradecendo.
_ Legal.
Ele disparou, vermelho do sol.
Aqui, o som sibilante do s sugere as vozes do vento nos cabelos despenteados da criança e as consoantes nasais m, n se harmonizam com a idéia de suavidade, doçura e delicadeza da cena lúdica descrita pelo narrador. Além disso, a fluência silenciosa da luz do sol que é desenhada pela repetição das constritivas laterais l, lh e pelo colorido movimento das vogais, associada às oclusivas p, q, t, b que dão a medida do movimento da bola e do menino, proporcionam uma motivação bem apreensível da imagem. Tal apreensão é também reforçada por vocábulos que radiam desenhos vivos, alegres do seu momento: “jardim”, “flores”. “adoro”, “cabelos despenteados”, “transpirava”, “agradecendo”, “disparou”, “vermelho de sol”. Surpreendido na sua opacidade e vazio, tudo é cor, calor, ação, enfim, pulsação de vida.
O outro momento iluminado e colorido se fixa também numa imagem lúdica:
Uma criança passou-me, deu-me um tapinha no joelho. Achei graça naquilo, sorri, tive vontade de brincar com ela. Ficamos nos namorando com os olhos. Ela chegou, conversamos (...) O sorveteiro com o carrinho amarelo. Paguei-lhe um sorvete de palito, e ficamos eu e a menina até os aventais muito brancos, de a empregada surgirem na praça.
O tratamento dado ao primeiro verbo preposicionado introduz a imagem metafórica da criança atravessando-o. Como se a infância lhe voltasse, tem vontade de brincar, vê cores, graça, sorri, enamora-se dela. Esses lampejos poeticamente alegres da infância, que por contraponto realçam a sua melancolia de então, ligam-se a um tempo em que “fazia passeio a Santos, uma porção de coisas”, “se divertia”, “a semana começava menos pesada, menos comprida”, enfim, ligam-se a um tempo em que pai vivia:
Desde que papai morreu, esta mania. Andar. Quando venho do serviço num domingo, férias, a vontade aparece (...) Ás vezes, penso que poderia recomeçar os passeios.
__Que horas tem trem para São Paulo?
Meia hora não esperaria.
A busca por si mesmo, é matizada por memórias de momentos paternalmente vitais, de uma alegria que não existe mais. Tem o impulso de recomeçar os passeios de outrora, mas não recomeça nunca, nada; é sempre o mesmo: sem graça, vazio, oco. Os gerúndios pululam no texto, figurando, através de sons prolongados, uma procura constante dentro de si: andando, caminhando, analisando, começando, convalescendo, namorando, procurando, carregando, gestando, parecendo, descendo. Os sentimentos, o estado mais recôndito de Vicente se entrelaça com a paisagem, o estado da atmosfera. Sua busca, sempre interna, menospreza tudo o que o cotidiano poderia lhe oferece:
Chateza na tarde. Ia para os lados do Piqueri. Havia bebericado conhaque num boteco, jogado uma partida de bilhar com Luis. Fingira atenção nas tacadas, um capricho que não é meu. Sorrira, pegara no giz, insinuara apostas. Mas por dentro estava era triste, oco, ânsia de encontrar alguma coisa. Não paredes verdes de tinhorões e trepadeiras, nem bola sete difícil, nem Lídia, nem...
A gradação do “não” para a repetição do “nem”, desembocando em reticências revelam o infinito desinteresse pela sua realidade presente. A saudade do pai, da infância, da juventude vem patentear a sua evasão no tempo e realçar sua maturidade vazia: “Tempo-será das crianças no jardim público. Sentei-me num banco, cigarros se sucediam. Uma porção de lembranças – tempo de quartel, maluqueiras, farras, porres.” A expressão “tempo-será” condensa toda a dicotomia interna de Vicente, que se encerra em passado feliz e presente vazio, sem um futuro. Um hífen e um homem de hoje que não se conecta com o de ontem. O verbo no futuro ligado ao substantivo tempo, como que formando uma coisa só, denotam um tempo futuro só pertencente às crianças, só elas podem gozar do tempo. Para ele tudo é parado, sem horas, sem avanço, seu tempo-fôra. Assim, quando descreve ações do presente este se torna passado remoto: “fingira, pegara, insinuara”, revelando uma sensação que está fora dele, longínqua demais para senti-la.
Nessa mesma confluência entre forma e conteúdo, o espaço representado no conto se harmoniza com o espaço da linguagem que encarna as figuras se livrando, assim, do papel subordinado, do papel de moldura e acessório. Tornado personagem, o espaço tem uma linguagem, uma ação, uma função. Sua casca abriga a revelação:
O golpe, dor, choque, sangue, escuridão, zoeira, lona. Cara na lona, eu jamais esqueceria! (...) Não enxergava nada. Provavelmente a mão do juiz subia (...) Eu não vi nada. Não continuei. Deixei o ringue, larguei uma vontade que trazia desde moleque e que era tudo. Campo do Nacional, treinos à noite, ótimo Freitas, a turma, campeonato amador... Minha vida sem aquilo acabaria (...) Operador. Asneira. Tudo dando para trás o campeonato amador chegou e me encontrou convalescendo. (...) Eu me olhava no espelho e parecia estar diante duma devastação.
Para Vicente, o espaço da luta se restringe ao ringue, foge à vida. Isso é delineado pelos substantivos da primeira frase, que pela força da sucessão acaba por adjetivar o seu nocaute existencial. Depois dessa devastação não lhe sobra nada, é oco. Não tem como escapar da falência interna:
Os lados da City, tão diferentes, me davam umas tristezas, leves. Essa que sinto quando como pouco, não bebo, ouço música. Ou fico analisando as letras dos antigos sambas tristes - dores-de-cotovelo, promessa, saudade...
Essas coisas.
A vida lhe fecha o cerco com suas opções, quando não medíocres, tristes. Só a cumplicidade dos sambas antigos pode lhe confortar na sua inevitável tristeza. Em meio a memórias e andanças, a busca continua:
Andando tão devagar. Procurava alguma coisa na tarde. O vento esfriou. Não sabia bem o quê, era um vazio tremendo. Mas estava procurando (...) Domingo chato, mole, balofo, parecia estar gestando alguma coisa.
Uma idéia extravagante:
-Preciso cortar à escovinha. Assim escondo os começos de cabelo branco.
Metaforicamente, o domingo gestou-lhe, num processo velado, perene e malemolente desenhado pelas nasais, a idéia de paternidade, a de uma esposa, logo a de extirpar os cabelos brancos num recomeçar: “A garotinha no jardim público poderia ser filha minha. Este pensamento agradou-me, jogou-me uma ternura. Cortar à escovinha, que idéia! Lídia maneira, pequenina, talvez dessa boa mulher".
Assim como na música o tema sempre remete a outro, a imagem do círculo, da estrutura circular do conto figura um tempo que é submetido a uma dialética do mesmo e do outro. Tadié elucida tal processo considerando que uma frase idêntica, um momento idêntico são sempre diferentes porque estão colocados em outro lugar do texto e com a carga de tudo o que os precede: o desenrolar rítmico se faz sob a forma de espiral. Nesse sentido, este é um conto-caracol, cuja concha se enrola sobre si mesma ao mesmo tempo em que progride docemente. O círculo se fecha, o final do texto retoma o início, mas filtrando-o. Tudo de novo, renovado, recomeçado: “Julguei muito necessário recomeçar os passeios a Santos, a Campinas... Eu e mamãe. Talvez as semanas começassem melhores, menos compridas. Segunda-feira, não parecendo já o cansaço de quarta...”
A idéia de ser pai iluminou a sua escuridão, poderia, de novo, reviver a alegria da sua infância, se passaria a limpo num filho. O seu círculo vital estaria completo: nascer, crescer, procriar e morrer. Aqui, a mudança do homem quer dizer renunciar a sê-lo e enterrar-se na inocência animal, libertar-se do peso da sua história.
Vicente começa a sua busca caminhando com o sol forte a bater-lhe na cara, agora vem a lua lhe acariciar no seu conforto existencial. O sol vai, a lua vem. Os cabelos brancos vão e vem a esperança. O círculo se fecha numa explosão imagética, que devolve a Vicente seus olhos primeiros, agora apenas ofuscados pela beleza do lusco-fusco crepuscular.
Agora o sol descendo por completo. Uma lua em potencial, lá em cima, ganhava tons, parecia uma bola de ocre. Enorme, linda. Meus olhos divisaram no fundo de tudo o Jaraguá, mancha grande meio preta, meia azul...
Meus olhos não precisavam. Era hora eu que as coisas começavam a procurar cor para a noite.
Lembrei-me de que precisava passar a escova no tanque.
O limo, a que se refere no início da narração e que seria agora extirpado, revela o fim da sua busca. Numa poesia que volta para o mesmo lugar de onde partiu, seus pensamentos agora vêm limpos do “limo” – acúmulo de amargura, desalento, sofreguidão. A idéia de ser pai devolve-lhe a poesia alegre, interditada na infância.
Perspicaz é João Antônio quando promove a duração de algo, mais fugaz que a ação, o pensamento e mais instantâneo e duradouro que o retrato, as imagens destes; tudo suportado pelo lirismo, único recurso capaz de promover a “disposição anímica” ideal para que o momento epifânico de Vicente fosse universal.
Bibliografia
ANTÔNIO, João. Malagueta, Perus e Bacanaço . Record: Rio de Janeiro, 1982
BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia . São Paulo: Cultrix, 1977
MARTINS, Nilce Sant'anna. Introdução à estilística . T.A. Queiroz: São Paulo, 2003
PAZ, Octavio Paz. O Arco e a Lira . Trad. Olga Savary. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 1982
STAIGER, Emil. Conceitos fundamentais da poética . Trad. Celeste Aída Galeão.Tempo Brasileiro: Rio de Janeiro, 1975
TADIÉ. Jean-Yves. Le récit poétique. Paris: Presses Universitaires de France, 1978