![]() |
![]() |
[ VOLTAR ] |
Intertextualidade: utopia e discurso ecológico no poema ‘Paraíso’, de José Paulo Paes
Heloisa Neto Campos Leão (Fasar–MG)
PARAÍSO
Se esta rua fosse minha,
eu mandava ladrilhar,
não para automóvel matar gente,
mas para criança brincar.
Se esta mata fosse minha,
eu não deixava derrubar.
Se cortarem todas as árvores,
onde é que os pássaros vão morar?
Se este rio fosse meu,
eu não deixava poluir.
Jogue esgotos noutra parte,
que os peixes moram aqui.
Se este mundo fosse meu,
eu fazia tantas mudanças
que ele seria um paraíso
de bichos, plantas e crianças. 1
CANTIGA DE RODA: Se essa rua fosse minha
Se essa rua, se essa rua fosse minha,
eu mandava, eu mandava ladrilhar.
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante,
para o meu, para o meu amor passar.
Nessa rua, nessa rua tem um bosque,
que se chama, que se chama Solidão.
Dentro dele, dentro dele mora um anjo,
que roubou, que roubou meu coração.
Se eu roubei, se eu roubei teu coração.
Tu roubaste, tu roubaste o meu também.
Se eu roubei, se eu roubei teu coração,
é porque, é porque te quero bem.
(Autor desconhecido)
“Os textos dialogam entre si: Freqüentemente, o entendimento que temos de um texto depende do conhecimento que temos de outros textos, isso porque muitos autores, ao escreverem, fazem uso da intertextualidade , ou seja, aproveitam idéias, fragmentos ou expressões que fazem parte de outros enunciados, dando-lhes nova contextualização. Assim, quanto maio for o nosso conhecimento sobre os diversos textos que constituem a história da comunicação humana, mais aptos estamos a ler satisfatoriamente os enunciados que nos circundam”. 2
Ao ler o poema “PARAÍSO”, de José Paulo Paes, percebe-se a presença de outro texto, a cantiga de roda “Se essa rua fosse minha...” que mantém uma relação intertextual com a mesma, projetando além da voz do autor do poema, outras vozes que ressoam, provenientes de discursos alheios. As diferentes vozes que se fazem presentes no percurso do poema misturam-se de tal modo com a do produtor que, às vezes, não se percebem com nitidez os seus limites.
Em todo poema Paraíso aparecem os pronomes possessivos meu e minha (primeira pessoa do singular) no início de cada estrofe, deixando transparecer o sentimento de posse do eu lírico. O poeta está impulsionado a realizar as transformações, entretanto, tem consciência que essas não dependem apenas dele, mas do coletivo. É um sentimento complexo, é um estado afetivo diante da necessidade de mudar o caos ocorrido no ecossistema, comprovando mais uma vez, que a poesia não é um conhecimento teórico da vida humana, mas imita nas ações e sentimentos, realizações e virtudes, relações positivas e negativas entre os seres humanos e a natureza.
A cantiga de roda apresenta-se mais sentimental, apontando a utopia vivenciada pela criança, enquanto o poema de José Paulo Paes apresenta-se com uma preocupação social, utiliza-se o discurso ecológico de forma expressiva em cada verso e denuncia a angústia e inquietação causada pelo progresso tecnológico ao homem moderno. O eu lírico explora causas e efeitos dos atos do homem em relação ao planeta Terra, paraíso . Esse que o homem usa, negligenciando a vida vegetal e animal.
A cantiga de roda é uma produção poética popular, de autor anônimo, portanto emprega-se a modalidade popular e coloquial da língua.Tanto na cantiga de roda como no poema utilizam o pretérito imperfeito do subjuntivo: fosse e pretérito imperfeito do indicativo: mandava . Entre esses tempos verbais não há uma correspondência rigorosa, mantendo assim, em todo o poema a forma popular adequada ao tipo de língua escolhido.
Nos contos de fada, sempre que temos a expressão “Era uma vez”, mergulha-se num mundo de fantasias, onde tudo pode acontecer: príncipes que viram sapos, bruxas malvadas que se vingam de moças indefesas. Na língua, o modo subjuntivo também nos permite adentrar em um mundo imaginário, o das hipóteses e das possibilidades. Dessa forma, o modo subjuntivo tem um papel decisivo nessas situações: é a porta de entrada a esse mundo utópico. “Se essa rua fosse minha...”, ”Se eu fosse assim...”, “Se um dia eu for...”, “Querem que eu seja. ”
Observa-se no poema “Paraíso” a presença da palavra “SE” no início de cada estrofe, proporcionando a participação do leitor no mundo imaginário do eu lírico. O que não deixa de ser sedutor e lúdico ao receptor sensível à poesia.
O paraíso imaginado pelo eu lírico seria com ruas sem carros, com matas e rios preservados, um mundo em que o ser humano vivesse totalmente integrado à natureza. Ao conhecer o mundo imaginado do eu lírico, pode-se fazer uma suposição a respeito do seu mundo real, provavelmente, perigoso e poluído.
O ser humano não se prende apenas ao mundo concreto e presente. Ele tem a maravilhosa capacidade de levantar hipóteses, de supor o que pode acontecer, de se imaginar em determinados contextos, de criar mundos imaginários. Não somente os poetas, mas os físicos já não hesitam em proclamar que “não há outro caminho para atingir a realidade a não ser através da imaginação”, como afirma o físico brasileiro Mário Schenberg. 3
A linguagem poética é algo concreto e representa uma maneira especial de ver o mundo e escrevê-lo, propiciando mais uma forma de expressão da liberdade.
Essa linguagem realiza-se através da imaginação do poeta. É, inicialmente, despertada pelo impulso de inserir suas próprias palavras na fenda lingüística encontrada na melodia. Uma vez inseridas, as palavras gradativamente se harmonizam com o próprio poema, deixando o poeta livre para expressar-se discursivamente entre o utópico e o real. Nesse momento de criação, o poeta em sua atividade deixa interagir o seu mundo emocional e a realidade numa postura de intensa busca interior diante dos conflitos sócio-políticos iminentes, ocorrendo assim, o fenômeno da intertextualidade .
Para Bakhtin, (2000),
”O modo de existência da linguagem é o dialogismo, pois em cada texto, em cada enunciado, em cada palavra ressoam duas vozes: a do “eu” e a do “outro”. O “eu” só existe em interação com o “outro”, porque o ser significa ser para o outro e, através dele, para si mesmo”. 4
Percebe-se, dessa forma, que o discurso do poeta remete a um sujeito, um Eu (eu lírico) que se coloca como fonte de referências pessoais, temporais, espaciais e, ao mesmo tempo, indica que atitude está tomando em relação àquilo que diz e em relação ao outro. Assim, o leitor ao ouvir a fala do outro, aprende a moldar a própria fala no momento da interação verbal, pois todos os níveis das atividades do ser humano relacionam-se com a utilização da língua, seja falada ou escrita. Ocorrendo assim, a identificação do interlocutor com o discurso manifestado por meio da língua escrita e realizar a reflexão, podendo tomar atitudes ou não diante das possibilidades de mudanças propostas pelo autor do poema.
Há lugar para reflexão, apesar do discurso do eu lírico ser questionador, e esse deseja respostas para os fatos que se sucedem com rapidez: ladrilhar, matar, brincar, derrubar, morar, poluir, pois o que importa é sensibilizar, causando o impacto entre o imaginário e a realidade.
Os autores Dooley e Levinsohn (2003:40) afirmam:
“Para entendermos como é construída uma representação mental, precisamos conhecer não só o conteúdo do discurso e os conhecimentos relevantes e expectativas culturais do ouvinte. Precisamos também reconhecer alguns processos gerais de cognição humana, como, por exemplo, saber como as pessoas percebem, guardam e têm acesso às informações. Embora esses processos em si não possam ser diretamente observados, eles são refletidos na organização do discurso e na maneira como essa organização é sinalizada.” 5
POEMA
“Se esta mata fosse minha”
(...)
“Se este rio fosse meu”
(...)
“Se este mundo fosse meu”
(...)
CANTIGA
“Se essa rua, se essa rua fosse minha
Eu mandava, eu mandava ladrilhar.
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante,
para o meu, para o meu amor passar.”
(...)
A inda estimulando uma política defensora das matas, dos rios, dos animais e, especialmente, a raça humana representada pela criança, indefesa como o paraíso . Segundo Platão, “ Demiurgo 6 é Deus que cria o Universo, organizando a matéria preexistente”. Ao criá-lo na base do Fiat narrado no livro Gênesis, demonstra cuidado e respeito com todos os elementos que compõem o paraíso e deixa para o ápice da criação o homem e, finalmente, descansa, esperando que esse saiba “morar bem” neste lugar construído laboriosamente pelo Demiurgo, criador do paraíso .
GÊNESIS (I a II) Quando Deus iniciou a criação do céu e da terra, a terra era deserta e vazia, e havia treva na superfície do abismo: o sopro de Deus pairava na superfície das águas, e Deus disse: “Que a luz seja!” E a luz veio a ser. Deus viu que a luz era boa. Deus separou a luz da treva. Deus chamou a luz de “dia” e à treva chamou “noite”. Houve uma tarde, houve uma manhã: o primeiro dia. Deus disse: ”Que haja um firmamento no meio das águas e que ele separe as águas das águas!” (...) Deus disse: Que as águas ao céu se juntem em um só lugar e que apareça o continente!” Assim aconteceu. Deus chamou o continente de “terra”; chamou de “mar” o conjunto das águas. Deus viu que isto era bom. Deus disse: “Que a terra se cubra de verdura, de erva que produza a sua semente e de árvores frutíferas que, segundo a sua espécie, produzam sobre a terra frutos contendo em si a sua semente!”Assim aconteceu. A terra produziu a sua semente, segundo a sua espécie, e árvores que produzem frutos (...) Deus disse: Que as águas pululem de enxames de seres vivos e que o pássaro voe (...) Deus os abençoou dizendo: “Sede fecundos e prolíficos, enchei as águas dos mares, e que o pássaro prolifere sobre a terra!” (...) Deus disse: “Que a terra produza seres vivos segundo a sua espécie: animais grandes, animais pequenos e animais selvagens segundo a sua espécie”. Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou; criou-os macho e fêmea. (...) O céu, a terra e todos os seus elementos foram terminados. (...) Deus abençoou o sétimo dia e o consagrou, pois tinha cessado, neste dia, toda a obra que ele, Deus, havia criado pela sua ação. Este é o nascimento do céu e da terra quando da sua criação. (...)” 7
Na verdade, o poema se funde e combina com a cantiga, transformada num poema intertextual lírico e, ao mesmo tempo, politizado e integrado ao mundo contemporâneo e mutante. Uma vez que, o estudo da literatura tem por objetivo questionar a realidade, formulando problemas e tratando de resolvê-los, utilizando para isso o pensamento lógico, a criatividade, a intuição, a capacidade de análise crítica e a verificação de sua adequação.
Aguiar, Vera (coord.). Poesia fora da estante. Porto Alegre: Projeto, 1995. p. 113.
PAULINO, G.,WALTY, I., FONSECA M.N., CURY, M.Z. Tipos de Textos, modos de leitura . Belo Horizonte: Formato, 2001.
BECCARI, Álfio . Deus volta a habitar o universo dos cientistas. Globo Ciências, São Paulo, fevereiro l995, número 43, p.31.
BAKHTIN. Mikhail. Arte e Responsabilidade . In: STAM. Robert.Bakhtin da Teoria Literária à Cultura de Massa. São Paulo: Ed. Ática, 2000.p.17.
DOOLEY, Robert A, LEVINSOHN, Stephen H. Análise do discurso: conceitos básicos em lingüística (Tradução de Ruth Julieta da Silva e John White). Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.
Do grego demiourgós , pelo lat. Demiurgu . S.m. 1 . Hist. Filos. [ v. platonismo ]. 2. Rel. Criatura intermediária entre a natureza divina e a humana.
BÍBLIA SAGRADA. Gênesis. Cap. I - 1:31; II – 1:4 . São Paulo: Editora Ave-Maria. 103ª ed., 1996.