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O signo poético e sua auto-referência
Estela Campos de Oliveira (UEG – FAFICH)
Márcio Araújo de Melo (UFMG)
flor do lácio sambódromo
lusamérica latim em pó
o que quer
o que pode
esta língua?
Que palavra é essa que a poesia contemporânea tanto exalta e que parece compor-se de modo técnico e auto-suficiente, como se tivesse vida, decisão e autodeterminação em si mesma, independentemente do autor? E que se mostra além das próprias necessidades ou tendências elementares que constituem o modo natural da vida humana e de suas manifestações sociais?
Carlos Drummond de Andrade nos recomenda na Procura da Poesia :
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Drummond nos desilude de buscar material poético em tudo aquilo que constitui para nós os elementos básicos de construção de vida: não buscar a poesia nem nos acontecimentos, nem nos sentimentos, nem nos prazeres, nem na natureza, nem nos expedientes de vaidades e mentiras, nem em nada, tudo é do que é natural e efêmero. Só deixa lugar para a palavra como instauradora da palavra, como geradora de si. Mas de que se sustenta ela, aparentemente sem referência? Nutri de sua própria essência e gozo? A uma delas ele define com uma expressão ampla e forte, de caráter emblemático — a palavra “em estado de dicionário”:
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados , mas não há desespero,
Há calma e frescura na superfície intacta.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
No “estado de dicionário”, na “superfície intacta” “estão paralisados” os poemas. Estão imóveis, ainda invisíveis, intocados, em estado bruto , daí com todas as possibilidades virtuais: o “estado de dicionário” é a possibilidade inesgotável de aplicação da palavra a quaisquer contextos, a quaisquer (inéditas) imagens, e, logo, a todas as variantes de sugestões e descobertas de sentidos. Da figura estática da palavra presa abrem sua mobilidade, seu terreno movediço e sua máscara sem rosto. A esse estado de dicionário talvez também pudéssemos denominar de estado da palavra pura.
Intrigante mais que todas são estas duas estrofes finais:
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
Tem mil faces
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
Rolam num rio difícil e se transforma em desprezo .
Mesmo que haja o convite para que se contemple e repare as mil faces da palavra na noite, tudo nessas estrofes carrega as palavras para a insignificação, a insonoridade, o silêncio, a obscuridade, a distância, a indiferença, e mais até, para o desdém.
Que lugar de ausência, de indiferença e de neutralidade é esse?
Com certeza esse não é o signo que Derrida afirma ter-se imposto desde um século e que, arrogantemente, transforma a escritura em forma primeira, plena presença, desvinculada do ser, opondo-se ao que vigorou no período clássico, na época medieval, enfim, em todo o período metafísico e de infinitismo cristão. Nesse período o signo pressupunha sempre a presença do logos , o apelo do ser, a absoluta presença em si que o signo jamais pode alcançar, que permanece como a diferença, mas que exatamente por isso se mantém como sua referência primeira, como a possibilidade geral e essencial da palavra, a alteridade que propõe a referência de verdade e de significação a todo significante. Todo signo só pode remeter-se de interpretante a interpretante porque tem como possibilidade última de sentido o logos , essa verdade apenas inteligível, áfona, insonora, de que toda explicação é apenas uma pré-significação, cuja revelação palavra alguma atinge e que é fonte insondável para toda fonte...
Toda palavra é portanto segunda em relação à plena presença do logos . Toda escritura é metafórica mas guarda diante de si a infinidade do logos , seu caráter de significação inesgotável ( estado da palavra pura ). Mesmo a verdade que se projeta na alma ou a verdade de leis naturais e espirituais em que se apóiam certas formas de cunho sagrado, como citações bíblicas ou textos de inspiração altamente espiritual são ainda metafóricas, e jamais tocam o caráter insondável e inesgotável do logos .
No entanto, como quer Derrida , o signo que se propõe nesse último século quer fazer da escritura a plena presença, de sentido primeiro, de fonte primordial, de verdade em si, ainda que se produza como técnica, ou artifício. Ora, retirado dessa profundidade significante do logos , o signo, segundo o autor de Gramatologia , se quebra, perde seu eco de profundidade, de projeção inesgotável, de infinidade. Torna-se, digamos, não essencial, raso, avesso ao caráter de poço sem fundo que confere ao que se busca através da palavra sua premência investigativa, fazendo-se impermeável à elementaridade primeira da questão: o que é?. É a inatingibilidade do logos que permite o entendimento primeiro de conceitos fundamentais, como a concepção do sensível e o inteligível, do finito e infinito, do empírico e o transcendente, do ideal e não ideal, do universal e não universal.
A projeção do significante sobre o teológico, sobre a infinidade divina com que o logos se comunica é, ainda segundo Derrida, eterna e talvez jamais termine, por representar, acrescentemos, uma categoria universal que o espírito humano não pode dispensar: o desejo de nomear, de instaurar o significado.
E no entanto, se a concepção do signo, do ponto de vista lingüístico, se distancia da plena presença do ser, a poesia parece não poder decididamente fazer o mesmo. Não que ela o faça por uma intencionalidade clara, puramente lógica e volitiva, mas porque o apelo da poesia parece não poder liberá-la desse domínio insondável do logos . Parece que, fora daí, ela perderia seus fundamentos e sua razão de ser.
Vejamos, novamente, as duas últimas estrofes de Procura da Poesia , que se mostram particularmente intrigantes, e onde o caráter oculto, indiferente e inatingível se coloca perfeitamente:
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
Ermas de melodia e conceito
Elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
Rolam num rio difícil e se transformam em desprezo .
As palavras têm “mil faces secretas” “sob a face neutra”, são indiferentes a respostas, não há melodia, nem conceito, sendo portanto alheias à sonoridade e às idéias logicamente construídas e conclusivas; se escondem na noite, estão impregnadas de sono e de umidade noturna (mas também, supomos, da fecundidade dessa deusa ricamente obscura), conseqüentemente mal despertas como botões ainda guardados em si mesmos, distanciadas dos movimentos do mundo, correndo indistintas em águas de rio (que, como nos lembra Heráclito, nunca percorremos duas vezes, porque são sempre outras e renascentes).
O alheamento das palavras em seu, assim digamos por aproximação, habitat original , em sua obscura projeção sobre seu Éden primordial, não instrumentalizadas por qualquer texto oral ou escrito — não instauradora do real; não pronunciada —, nessa pureza estática e individualizada, cujo nome apenas poderia rememorar a presença do ser, e o seu alheamento, mais que isso, seu desdém pela revitalização que nela busca o poeta se mostra em duas palavras inequívocas: “sem interesse” e “desprezo”.
Mas que chave é essa de que fala o poema? Ela mesma parece não carregar mais que a nudez oculta do ser, seu caráter profundamente enigmático, seu transbordamento para além de qualquer referência, qualquer marca material, qualquer atributo claramente definido. Remete-nos a algum entendimento especial da palavra, a qualquer especificidade com que se possa identificá-la? Por que, de que vale uma chave, se não se sabe que qualidade de elemento vedado ela abre? Ou esta indefinição justamente quer dizer que, tendo-a, ela sempre achará meios de se adequar prodigiosamente a algumas palavras? Ou acabaremos por aprender a usá-la de modo postiço, captando-lhe algum misterioso reflexo e projetando-o sobre essas frias palavras registradas na língua ou no dicionário? Ou será ela apenas um instrumento iniciador, delicado, raro e de certo modo dadivoso, portador de uma graça — a partir do qual quem o possui aprende a escrever a palavra marcada de feixes de luz como o é a poética? Tão desnuda de qualquer descrição, tão somente nome, e ao mesmo tempo apontada como algo único, inconfundível, sem réplicas — a chave —, que força será essa, não designada, miraculosa, e a única capaz de conter a revelação da palavra?
Aí mais uma vez nos colocamos nesse espaço especial que aponta para o logos , na pureza estática dos nomes, que a si mesmos mal podem se dizer e significar, mas que rememoram a presença inatingível, plena e jamais revelada do ser. São palavras permanecendo como apelo indomável, fome que se impulsiona além da muralha, muito além do que se pode imaginar e inteligir, para um horizonte que a palavra ser não consegue exprimir, mas sobre o qual insiste em continuar emitindo luzes e sugestões epifânicas. Para além da muralha nada se vê, mas se pressente o absoluto que cumularia todas as necessidades e desejos, sobretudo os mais informuláveis, as questões mais entranhadas no corpo e no espírito, ou no fundo primordial da existência, e por isso mesmo, mais carentes de expressão; e se pressentem todas as famintas evasões do homem, todas as possibilidades quer do ser, quer do signo, e de todos as suas significações, dizíveis e indizíveis. Para além das muralhas Fedro, com seu Phármakon (remédio e veneno), conduz Sócrates ao desejo, ao logos , à procura de sentido.
Para aquém dessa muralha, o poeta consulta as palavras, não aquelas já atuando em seu contexto, mas as que se mantêm estáticas em sua virtualidade, em seu estado de dicionário , as palavras selando seu poço profundo, as palavras que prometem ainda o que nunca disseram, que desvelarão o ser. Elas se acumpliciam com os acontecimentos de água, em seus acontecimentos aparentemente iguais e sem fim, elas nada revelam, mas contêm intactas possibilidades e promessas de florescimento, elas são o véu poderoso sobre tudo o que para além delas espera ser revelado. Como não crer nelas? Como não admirá-las nessa eterna gravidez?
Em O Poema e a Água de João Cabral, reencontramos esse caminho da poesia para algo, para um apelo que a ignora, que permanece incomunicável e inatingível.
As vozes líquidas do poema
Convidam ao crime
Ao revólver.
Falam para mim de ilhas
Que mesmo os sonhos
Não alcançam.
..........................................
Os acontecimentos de água
Põem-se a se repetir
Na memória.
“As vozes líquidas do poema” jamais se resolvem em algo de contorno plenamente definido, a que se possa referir como a um ser de marcas arrematadas e estáveis, materialmente duradouro e reconhecível pelos sentidos e pelo espírito.
O poema guarda com a água a identificação do que é fluido, inconcluso, tomando a forma do que o contém mas que está sempre pronto a se moldar segundo outras possibilidades, que “vivem de nunca chegar a ser”, como diz um verso de Cecília Meireles, que nem se opõe ao auto-abandono porque guarda essa íntima mobilidade, como sua liberdade e sua infinitude; que flui com os momentos e as passagens, que não se interrompe para sempre nas formas dos caminhos, que jamais se enrijece, que é sempre ela mesma, mesmo quando a julgam aprisionada.
A inatingibilidade da presença primeira do poema é o que permanece infenso a todo jugo, alheio a toda transformação, incomunicável a todo conhecimento, inexpugnável a toda tentativa de interferência — a natureza da água e a origem do poema permanecem encastelados atrás de muralhas que se sabe existirem, mas que jamais se podem alterar.
De todo modo, a esperança e a possibilidade é tudo de que o homem precisa para sustentar sua pertinácia, sua inata capacidade de luta, de obstinar-se rumo à auto-superação e à construção da vida segundo desígnios que ele quer , pelo menos em parte, deter nas próprias mãos. O que homem mais precisa não é a posse, mas a possibilidade de empenhar-se por ela. Até porque a plena revelação talvez estancasse a melhor energia do homem e nenhuma posse material ou espiritual pudesse satisfazê-lo, senão momentaneamente. O grande prêmio da posse é a consciência de que a conquista é possível, está em potência, suspensa pelos fios do equilíbrio. Mas tudo o que nos importa, assim como à palavra poética, é a imensidão que nos resta possuir, ainda que apenas pela compreensão ou reconstrução interior, a vitória virtual e sem fim.
Por certo o homem precisa dessa grandeza prometida e sempre esquiva para manter-se alerta, à altura da esfinge, talvez seja esta sua grande riqueza ( Decifra-me ou te devoro ). Talvez nada supere ou satisfaça inteiramente suas expectativas, ele, o animal insaciável, precisando sempre do intacto enigma para além das muralhas... Faminto de um absoluto que não se soubesse absoluto, ou esse já não o seria, enquanto idéia que se definisse à sombra oposta de uma noção de medidas...
Por isso mesmo os acontecimentos de água, as vozes líquidas do poema o convidem ao crime, à bala — ao ato extremo, inexplicável, ilógico, ou de uma lógica inatingível (para que matar quem não mais sentirá nem saberá de sua morte, pelo menos no plano puramente terrestre?) último, definitivo, irreversível, estancador da vida e de suas buscas sem respostas. Porque se nem os sonhos podem alcançar as ilhas que os chamam — porque não há localização, nem formas características, nem marcas que as identifiquem, porque só têm o nome ilhas que não se sabe quem são, cuja existência apenas se admite mágica, inexplicável, conformadamente...
A busca do poema, de seu sentido primeiro e sempre virgem, é uma repetição, como os acontecimentos de água — outra, e outra, e mais outra, sempre a mesma e outra, no ir e vir diferente e tão parecido, tão interminável. Como as nuvens de Cecília Meireles, que vivem de nunca chegar a ser...
Freud se perguntou certa vez o que queria a mulher, para se referir ao mistério de seus desejos e essência. Também aqui é o caso de se perguntar, a propósito do silêncio longínquo da palavra poética: o que quer o poema? E o que querem mesmo o homem e a mulher que o escreve? Quais de suas chaves buscam a chave da poesia?