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Memória da infância à brasileira: dos oito aos oitenta.
Cláudio Celso Alano da Cruz (UFSC)
Para Cecília, que tem oito anos.
Para Norma, que tem oitenta.
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
“Meus oito anos”,
Casimiro de Abreu
-Você deve calar urgentemente
as lembranças bobocas de menino.
- Impossível. Eu conto o meu presente.
Com volúpia voltei a ser menino.
“Intimação”,
Carlos Drummond de Andrade
1. Lendo os versos acima poderíamos ser tentados a pensar que o menino na poesia brasileira precisou de mais de cem anos para começar efetivamente a falar “por conta própria”. De 1859, ano de Primaveras , única coletânea de versos publicada por Casimiro de Abreu, até 1979, ano em que surge o último volume das memórias em versos de Drummond, o Boitempo III ( Esquecer para lembrar ), exatos 120 anos se passaram. Desse ponto de vista, teria se cumprido todo um ciclo, fazendo falar, de forma plena, aquele que, por princípio, não tem voz: o infante. Cabe lembrar a significação etimológica da palavra infante: “o que não fala” ( in – fans ). Neste sentido, diríamos que o infante “amadureceu”, o que remete, por sua vez, ao Menino antigo ( Boitempo II ), segundo volume da série, de 1973, que deu seqüência ao primeiro, publicado em 1968 com o título de Boitempo . Assim que, ao contrário de Casimiro, que morreu pouco tempo depois dos seus “oito anos” tão queridos, Drummond irá concluir as suas “memórias da infância” quase aos oitenta anos. Mas sem dúvida que muito antes, na verdade desde o seu primeiro livro, já lá apontava aquele pequeno Robinson do poema “Infância”, que poderíamos chamar aqui de “Meus oito anos” drummondiano. Dada a centralidade dessa composição para a matéria tratada no presente ensaio, transcrevo-a por completo:
Infância
Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
Comprida história que não acaba mais.
No meio- dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.
Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu ...Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro ... que fundo!
Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé. 1
Voltarei a esse poema, claro, e por mais de uma vez. Fica aqui apenas o registro inicial de que a trilogia Boitempo 2, a rigor, iniciou-se bem antes, e teve em 1979, com a publicação do último volume, apenas, digamos assim, o seu momento de pleno amadurecimento. Uma tese discutível, reconheço, mas que talvez contenha uma certa verdade, pelo menos, ao se pensar o conjunto dos poemas drummondianos por dentro, naquilo que ele possa ter de mais essencial no que diz respeito à formação do sujeito ao longo do tempo, em relação ao poeta mineiro correspondendo a praticamente todo o século XX.
2. Casimiro de Abreu aparece-nos como o ponto de fuga incontornável para qualquer reflexão sobre memórias da infância na literatura brasileira, em especial – mas não só – com o poema “Meus oito anos”. Oh! souvenirs! printemps! aurores! , é o verso de Vitor Hugo que o poeta romântico brasileiro escolheu como epígrafe para o seu mais famoso poema. Lembranças, primaveras, auroras, tudo coisas românticas “que os anos não trazem mais”, como diz o próprio poeta. Ocorre que trazem, e esse foi todo o trabalho de Proust, um escritor muito pouco romântico. Proust que, nas trilhas abertas por Bergson, pensará a memória de um ponto de vista bastante diverso daquele adotado pelo romantismo. Sua investigação, realizada de forma radical na Recherche , estabelece o paradigma por excelência para qualquer pesquisa sobre a memória no âmbito da literatura.
Se o tema da infância , enquanto matéria literária, surge com Rousseau 3 e o Romantismo, e vem, como se sabe, carregado de idealizações, irá desenvolver ao longo do tempo uma trajetória que se desviará em muito daquilo que parecia indicar em seus inícios. Se o poeta inglês Wordsworth ainda pode escrever que “o menino é o pai do homem” 4 , num ambiente poético marcadamente romântico, um século depois a psicanálise destruirá qualquer ilusão a respeito desse suposto paraíso infantil. Mas a idéia fundamental de Wordsworth presente naquele verso não deixa de conter em si uma antecipação de Freud. Seja como for, essa vinculação entre o menino e o homem será muito pouco explorada por Casimiro de Abreu, até porque ele morreu pouco mais do que um menino. Drummond, no entanto, teria tempo suficiente para isso.
O poeta fluminense foi dos mais populares, senão o mais popular durante o século XIX, exercendo poderosa influência e sendo responsável por uma legião de poetas casimirianos, nenhum dos quais significativo. Os grandes casimirianos só irão se manifestar no século XX, em especial entre os modernistas. A começar pelo primeiro deles, cronologicamente falando: Manuel Bandeira. Bastaria “Evocação do Recife” para colocá-lo entre os principais casimirianos brasileiros. No seu livro Itinerário de Pasárgada , uma espécie de autobiografia intelectual, ele nos fornece o “mapa do tesouro” da sua pasárgada poética:
Dos seis aos dez anos, nesses quatro anos de residência no Recife , com pequenos veraneios nos arredores – Monteiro, Sertãozinho de Caxangá, Boa Viagem, Usina do Cabo - construiu-se a minha mitologia, e digo mitologia porque os seus tipos, um Totônio Rodrigues, uma D.Aninha Viegas, a preta Tomásia, a velha cozinheira da casa de meu avô Costa Ribeiro, têm para mim a mesma consistência heróica das personagens dos poemas homéricos. A Rua da União, com os quatro quarteirões adjacentes limitados pelas ruas Aurora, da Saudade, Formosa e Princesa Isabel, foi a minha Tróada; a casa do meu avô, a capital desse país fabuloso. Quando comparo esses quatro anos de minha meninice a quaisquer outros quatro anos de minha vida de adulto, fico espantado do vazio destes últimos, em cotejo com a densidade daquela quadra distante. 5
“Evocação do Recife” pode ser visto como uma espécie de “Meus oito anos” do Modernismo, constituindo-se na expressão cabal desse período mítico destacado por Bandeira. Tal poema foi composto a pedido de Gilberto Freyre, autor de Casa-Grande & Senzala , livro que traz como subtítulo “Formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal”. Na verdade, em suas origens, o projeto era mais modesto, e Freyre tinha em mente apenas a formação do menino brasileiro. Pensava em escrever uma história do menino no Brasil. Podemos ler em seu diário íntimo de 1924:0
Revelo a J.L. do Rego o meu segredo: o livro que, nos meus raros momentos de ânimo, desejo escrever. Um livro sobre a minha própria meninice e sobre o que tem sido nos vários Brasis, através de quatro séculos, a meninice dos vários tipos regionais de brasileiros que formam o Brasil. Mostro-lhe as notas que já tenho sobre o assunto. Peço-lhe que guarde segredo. 6
Esse trecho de diário, por sua vez, esclarece muito sobre a obra Menino de engenho , de José Lins do Rego, e a dívida que seu autor tinha para com o mestre de Apipucos. Dívida que, aliás, o romancista paraibano sempre fez questão de declarar. O fato é que Gilberto Freyre acabou não realizando a sua tão desejada História da vida de menino no Brasil , conforme um dos títulos pensados em 1922, ainda que o leitor de Casa-Grande & Senzala não deixará de lembrar as inúmeras passagens em que afloram trechos inteiros do que seria essa história dos curumins brasileiros, não só vermelhos, mas também negros e brancos. Cabe lembrar aqui o outro título pensado por Freyre, no mesmo ano de 1922, para o seu sonhado projeto: À procura do menino perdido . A vinculação proustiana é evidente, num título pensado, aliás, no ano da morte do grande romancista francês.
Outro escritor do grupo nordestino de Gilberto Freyre que será fortemente influenciado por Proust é o alagoano Jorge de Lima, que, ainda na década de 1920, irá dedicar ao criador da Recherche um dos poucos textos ensaísticos que escreveu 7. Mais importante, no entanto, é constatar aquela presença em vários de seus poemas, particularmente os que compõem o livro O mundo do menino impossível , publicado em 1928. Ainda entre os nordestinos, não poderíamos deixar de citar o Graciliano Ramos de Infância , mesmo que essa obra tenha sido composta num tom bem diverso, como se o autor estivesse transitando entre Proust e Kafka.
Mas não só no nordeste a penetração do romancista francês se dá de forma quase imediata e vigorosa. Os modernistas gaúchos, também na década de 1920, estarão lendo Proust. Em especial, o grupo que girava em torno da Globo, misto de livraria e editora que acabaria por lançar, duas décadas depois, a tradução completa da Recherche ( Em busca do tempo perdido ), em 7 volumes. Sendo que os quatro primeiros foram traduzidos por Mário Quintana, o mais destacado poeta do modernismo gaúcho, também podendo ser visto como um casimiriano muito especial 8. “Memória” e “infância” estão na base da sua poética, e dessa conjugação ele sempre soube tirar efeitos interessantes do ponto de vista da construção poemática. Quero dizer: na oficina poética de Quintana quem sempre mandou parece ter sido mesmo o menino.
Mas talvez tenha sido Augusto Meyer, o líder de todos eles, que mais tenha se imbuído de Proust, ao publicar, em 1949, sua autobiografia, intitulada Segredos da infância. 9 Nesse mesmo ano de 1949, com O continente , Erico Veríssimo iniciava a publicação do seu vasto painel sobre a sociedade gaúcha e brasileira, cobrindo um período que vai de 1745 a 1945. Embora em chave muito diversa, Erico não deve ter ficado imune aos “sortilégios” do tempo proustiano, tão presente entre os de sua geração. O próprio título dessa sua magnum opus – O tempo e o vento - parece ser um pouco o indicativo disso.
Entre os mineiros, a madeleine proustiana não foi menos precoce e decisiva, embora pareça ter tido um desdobramento muito peculiar e, no essencial, mais tardio. O próprio Pedro Nava, em suas Memórias , descreve todo o entusiasmo dos seus companheiros de geração quando da chegada, na capital mineira, de obras literárias recém-lançadas na França, entre elas a Recherche 10. E é justamente a Pedro Nava que mais se aplica o adjetivo “tardio”, já que só na quadra dos setenta anos foi publicar os vários volumes das suas mais que proustianas Memórias .
Mas também a Drummond pode-se aplicar o epíteto de “Proust tardio”, e é o que faz Silviano Santiago no estudo introdutório à Poesia completa de Carlos Drummond de Andrade, a Edição do Centenário. De fato, só em 1968, dirigindo-se para os 70 anos, ele iniciaria a publicação da sua chamada autobiografia em versos, com o volume Boitempo , seguido, conforme já visto, de Menino antigo (1973) e Esquecer para lembrar (1979). O poeta mineiro, portanto, concluirá suas memórias poéticas quase aos 80 anos, o que vem a justificar o título desta comunicação.
Para concluir, gostaria de lembrar que Drummond era da classe de 1902, logo, teria oito anos em torno de 1910. Manuel Bandeira, por sua vez, fala do seu período mitológico como tendo ocorrido entre os 6 e os 10 anos, o que situa 8 anos como um ponto médio. Por último, cabe referir que 1910 foi um ano muito especial para toda a geração de Drummond, já que foi o ano em que, deslumbrados, muitos deles assistiram à passagem do cometa Halley pelos céus do Brasil em plena meninice. Murilo Mendes, Pedro Nava, Augusto Meyer e o próprio Drummond, entre outros, viriam a registrar em obras posteriores a magia do acontecimento, todos eles com, aproximadamente, 8 anos. Para além do acaso e da gratuidade dos números, o poema “Meus oito anos”, de Casimiro e Abreu, pode ter criado em torno do número 8 algo mais do que um simples signo matemático. Pode ter criado, no âmbito da literatura brasileira, um signo literário acoplado ao tema “memórias da infância”.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia completa . Rio de Janeiro:Nova Aguilar,2002. Edição do Centenário. p. 6.
Em relação à designação “Boitempo” há que se tomar alguns cuidados, já que ela foi e é utilizada em mais de um sentido, seja como título de um poema, seja nomeando uma das partes da obra, seja, por fim, designando o conjunto todo dos poemas memorialísticos. Além disso, ocorreram algumas nomeações datadas, como foi o caso da edição de 1987, da editora Record, que dividiu a obra em Boitempo I e Boitempo II . Portanto, sempre que necessário para a clareza da exposição, utilizarei a expressão “trilogia Boitempo ” para referir-me ao conjunto total dos poemas, conforme o que ficou estabelecido na Edição do Centenário.
Apóio-me aqui em GAGNEBIN, Jeanne Marie. Infância e pensamento. _____. Sete aulas sobre linguagem , m emória e história . Rio de Janeiro:Imago,1997, especialmente p.177-180.
WORDSWORTH, William. Poetical works . London : Oxford University Press,1969. O verso em questão é “The Child is father of the Man”, e encontra-se num conhecido poema de Wordsworth, escrito em 1802 e publicado em 1807: “My heart leaps up when I behold / A rainbow in the sky: / So was it when my life began; / So is it now I am a man; / So be it when I shall grow old, / Or let me die! / The Child is father of the Man; / And I could wish my days to be / Bound each to each by natural piety”. Op.cit. p.62.
BANDEIRA, Manuel. Itinerário de Pasárgada . 3 ed. Rio de Janeiro:Nova Fronteira;[Brasília]:INL,1984. p. 20-21
Nas questões referentes aos “primórdios” de Casa-Grande & Senzala baseio-me em HÉLIO, Mário. O Brasil de Gilberto Freyre : uma introdução à leitura de sua obra. Recife:Comunigraf,2000, especialmente p. 55-73.
Cf. LIMA, Jorge de. Dois ensaios : Proust e Todos cantam a sua terra. 2 ed. Rio de Janeiro:Civilização Brasileira, 1934. A primeira edição saiu pela Casa Ramalho, de Maceió, em 1929. Quanto ao livro de poemas citado a seguir, saiu pela Casa Trigueiros, também de Maceió, um ano antes.
Dada a matéria tratada aqui, não é de menor importância lembrar que dos três volumes restantes, um foi traduzido por Bandeira ( A prisioneira ), em parceria com Lourdes Sousa de Alencar, outro por Drummond ( A fugitiva ), ficando o último ( O tempo redescoberto ) a cargo de Lúcia-Miguel Pereira . Ou seja, quase a totalidade da Recherche foi traduzida por três poetas modernistas de que estamos tratando. A respeito da tradução da Recherche pela Globo ver AMORIM, Sônia Maria de. Em busca de um tempo perdido : edição de literatura traduzida pela Editora Globo (1930-1950). Porto Alegre:Globo, 2001. p. 110.
MEYER, Augusto. Segredos da infância . Porto Alegre:Globo,1949.
Cf. NAVA, Pedro. Memórias/4 – Beira-mar. 2 ed. rev. Rio de Janeiro:José Olympio,1979, onde se lê, na página 97: “ ... meu irmão José Nava ocupa-se da sua ambiência [refere-se à Livraria Alves, ponto de encontro dos jovens modernistas mineiros] no trabalho em que descreve a abertura dos caixotes e o encontro num deles, dos livros que introduziram a Recherche em Belo Horizonte. O autor refere-se aqui ao principal texto, ao que tudo indica, sobre o assunto até então: NAVA, José. Brasileiros nos caminhos de Proust. In: Revista do Livro n.17, Ano V, março de 1960, p. 109-126.