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Caminhos que se cruzam: configurações do fazer poético em Lygia Bojunga Nunes
Rosa Maria Graciotto Silva (UEM-PR)

A crítica literária das últimas décadas do séc. XX tem-se voltado, significativamente, para a figura exponencial do leitor, como atestam os estudos que priorizam a linha da Estética da Recepção promulgada, principalmente, por Wolfgang Iser e Hans Robert Jauss. Esse voltar-se para o leitor, não se prende, entretanto, somente aos estudos de críticos literários, encontrando-se na pauta de escritores, como é o caso de Lygia Bojunga Nunes que, a partir das obras Livro: um encontro com Lygia Bojunga Nunes 1 (1988), Fazendo Ana Paz 2 (1991) e Paisagem 3 (1992),expondo sua trajetória pelos caminhos da literatura, revela, de forma explicita, o seu fazer poético. No plano organizacional dessas três obras, a autora busca cumprir duas metas principais: inserir o leitor no real circundante e forjar a construção do leitor caracteristicamente lygiano.

Na primeira obra dessa trilogia, Livro: um encontro com Lygia Bojunga Nunes, o foco é a própria autora que se desnuda como leitora e escritora, revelando os prazeres e os percalços de quem se dispôs a ser artesã da palavra. Já em Fazendo Ana Paz , sentindo necessidade de abordar de forma mais dramática o ato de escrever, Lygia mostra o processo de criação de uma personagem, acompanhando-a pela infância, adolescência, maturidade e velhice. Em Paisagem última obra da trilogia e objeto de nosso trabalho, a autora busca a interação autor e leitor, promovendo a mistura do mundo da escrita com o da leitura.

Publicada em 1992, Paisagem engloba duas histórias: uma que se refere ao conto Paisagem e outra que narra o processo de criação do conto e, ao mesmo tempo, o relacionamento amistoso de Lygia com Lourenço, um jovem de 16 ou 17 anos, identificado como seu leitor.

A “mistura” a que se propôs Lygia, como explicita no prefácio que antecede a narrativa, presentifica-se, desde o início, quando o discurso narrativo de Lygia funde-se com o de Lourenço:

 

[...] Dizia que ele não podia reclamar do barulho: morava numa ladeira calma no bairro de Santa Tereza, você conhece Santa Tereza ?, e me contava que o bairro era um pedaço do velho Rio, um morro de onde se via a cidade espalhada lá embaixo, sabia que aqui ainda tem bonde ?

[...] Não contava nada da mãe, dizia que o irmão é um cara legal, mas a gente não tem um troço que eu acho superimportante: a-fi-ni-da-de . 4 ( Paisagem, 1992, p. 9)

 

A fusão de vozes que permeia o texto, denunciadora da interação de afinidades entre autora e leitor, alcança o ápice quando os mesmos transmutam-se em personagens, inserindo-se no conto Paisagem :

 

Resolvi ler Paisagem de novo, por que será que o final do meu conto tinha batido tão mal no Lourenço? Fui lendo devagar, com toda atenção. Quando cheguei no pedaço que eu descrevo a paisagem e falo do barco no mar, de repente me deu a impressão que o barco estava se mexendo (indo? voltando?). Firmei a vista. Vi que o barco estava vindo pra praia. E vi que tinha gente dentro. Fiquei um pouco alvoroçada, meio confusa, não sabia se corria pra beira do mar ou se sentava no degrau da porta da casa, esperando pra ver quem é que ia chegar.

Sento.

O barco vem vindo. Uma onda pega ele e os dois aterrissam na areia. O passageiro é o Lourenço, vestido feito naquele dia, bermuda, camiseta amarela, tênis no pé. Me vê na porta e acena.

Levanto o meu braço também.

E feito coisa que não podia ser de outro jeito, o Lourenço chega perto, senta também no degrau e olha em volta.

— Eu já tinha gostado dessa paisagem no desenho e no sonho, mas assim, pessoalmente, eu ainda tô achando ela mais legal. Cadê o Monstrinho? sabe que eu tô com saudade de ler pra ela?

É só ouvir a voz de Lourenço que a Menina do Lado vem correndo pra janela; olha gostoso pra ele, e o oi que ela dá se emenda logo num riso. Vira a cabeça pra trás, pspsps.

Vem vindo do fundo da casa o som de um clarinete. O Lourenço olha pra mim, espantado, mas eu vou logo dizendo:

— Você me disse que ele tinha sumido...

— O olho do Lourenço larga o espanto, vai ficando brincalhão. E a gente não fala mais nada, só ouvindo o João tocar.

Londres, agosto de 1991 ( Paisagem ,1992, p. 63-64)

 

O ler torna-se sinônimo de ver que, por sua vez, insere-se numa razão maior: o viver, reunindo Lygia, a Menina do Lado, Lourenço e João que, transladados do real, integram-se ao mundo da ficção. Concomitantemente a essa preocupação em revelar a inserção do mundo da escrita com o da leitura, Lygia revela, através de Lourenço, as características de um leitor ideal:

 

[...] Sou teu Leitor. Estou escrevendo Leitor com letra maiúscula de propósito: acho que ser Leitor é uma ocupação maior, e acho também que se um Leitor se liga numa escrita do jeito que eu me liguei nos teus livros é porque existe uma coisa chamada afinidade[...] ( Paisagem ,1992, p. 9-10)

 

As considerações de Lourenço sobre as afinidades entre leitor e autor, perpassam a obra, enfatizando as características não só do leitor, como também as que permeiam um texto literário:

 

[... ] quando eu falo de Leitor, eu tô querendo falar é de Li-te-ra-tu-ra, tá sacando Renata? essa coisa de escritor criar um personagem e fazer a gente acreditar nele feito coisa que toda a vida a gente conheceu o cara, ou a cara, Literatura é fazer esse personagem inventado virar um espelho pra gente, é fazer a gente ficar puto da vida se o personagem faz um troço que a gente acha besteira ,mas em compensação é fazer a gente entrar numa boa se ele faz um troço que a gente também quer fazer, Literatura é o jeito que um escritor descobre pra passar isso pra gente dum jeito que é só dele, e quando um dia a gente afina com o jeito dum escritor inventar, com o jeito que é o jeito dele escrever, nesse dia a gente vira Leitor dele e quer ler tudinho que o cara ou a cara escreveu, mas quando eu digo a gente eu tô falando do Leitor feito eu, Leitor de letra maiúscula, e aí então, sabe Renata, a gente fica tão ligado nesse escritor que é capaz até de intuir o que ele vai escrever... ( Paisagem ,1992, p.35)

 

Esse deslocamento da voz do autor para a voz do leitor, em que as conceituações observadas pelo segundo são as comungadas pelo primeiro, intensifica a interação a que se propôs Lygia, em que o mundo da leitura (aqui representado por Lourenço e a Menina do Lado) afinado com o mundo da escrita (no caso, Lygia e suas obras) tornam-se coesos, servindo de espelho um para o outro.

Lourenço e a Menina do Lado, que são representações do leitor idealizado, dão vida ao leitor ideal que já aparecera caracterizado em Livro : um encontro com Lygia Bojunga Nunes:

 

[...] um ser de imaginação ativa, criativa. Eu leitora, crio com a minha imaginação todo o universo que vem cifrado nesses sinaizinhos chamados letras.

Eu percorro cada página no meu ritmo de leitora. Allegro . Andante . Allegro vivace . Sou eu que determino o ritmo que eu quero.

Fora disso, a minha transa, a minha trama com quem escreve livro é tão forte, que sou eu também que vou preenchendo todos os espaços em branco — as chamadas entrelinhas [...] eu sou leitora, logo, eu participo intimamente desse jogo maravilhoso que é o livro; eu sou leitora, logo, eu crio. ( Livro: um encontro com Lygia Bojunga Nunes, 1998, p. 20-22)

 

Além de Lourenço, a Menina do Lado e a própria Lygia, uma outra que recebe referências constantes como leitora ideal é Ana Lúcia, descrita como amiga da escritora, desde os tempos de juventude. “Atenta, cuidadosa, dedicada, analítica, superligada intelectualmente nos livros” é o protótipo da leitora “pra escritor nenhum botar defeito.” 5

Reunindo leitores pertencentes a faixas diferentes de idade (Lygia e Ana Lúcia representando os adultos, Lourenço, um adolescente e a Menina do Lado, uma criança), Lygia mostra que a parceria que os mesmos compartilham com o escritor, superada a “passividade imaginativa” 6, eleva-os ao nível de co-autores do texto:

Tá, tudo bem, você escreveu um bocado de texto, mas ... e as entrelinhas? e as pausas ? os espaços em branco? as ambigüidades? Sou eu que fico enchendo aquilo tudo, não é? Eu leitora. E não me pagam um tostão de direito autoral! ( Livro: um encontro com Lygia Bojunga Nunes , 1988, p. 21)

 

O humor, que já se presentificara em obras anteriores à trilogia do livro, continua a exercer o seu propósito de amenizar o duro impacto da realidade. Tanto em Fazendo Ana Paz , quanto em Paisagem , ao mesmo tempo em que proporciona descontração, o humor estabelece um clima irônico, denunciando através do riso, a realidade brasileira, como se observa no diálogo entre Lourenço e Lygia ( Paisagem , p.27), quando Lourenço, com ar de pilhéria, conta à Lygia a degradação de sua família que, oriunda da classe média, perdera gradativamente seu status afundando no “brejo econômico”, transformando-se numa “família desenxergada”.

A fuga dos grandes centros urbanos e o retorno às regiões interioranas como possibilidade de melhoria de vida, recurso explorado em A casa da madrinha 7(1978), reitera-se em Paisagem (1992), quando a família de Lourenço abandona a cidade do Rio de Janeiro e se instala em Maringá, interior do Paraná:

 

[João] anunciou que o salário dele vinha sofrendo de anemia já fazia tempo, e que agora tava fraco demais para enfrentar aluguel de casa, escola de filho, telefone, luz, supermercado, essa coisa todinha; informou que a gente tava indo pro brejo econômico, junto com mais um bolão de brasileiros que faziam parte de uma classe que tinha sido média e depois média-baixa e depois média-tão-baixa que já nem tavam mais enxergando a cara dela; disse que assim, tendo virado uma família desenxergada [...] a gente tinha mais é que meter o rabo entre as pernas e ir saindo rapidinho pra viver no interior onde a vida era mais barata[...] ( Paisagem ,1992, p. 28)

 

Sem lograr o sucesso pretendido, continuando a pertencer a uma “família desenxergada”, João questiona quem poderia reverter essa situação tão precária: “será que nunca mais governo nenhum ia enxergar tanto desenxergado?” (p. 28).

Se Alexandre em sua miserável vida não perde as esperanças de encontrar a casa de sua madrinha, que o suprirá da falta de tudo, João, ao contrário, desestimulado pela casa que não tem nada de madrinha, empreende uma nova fuga. Isolando-se do mundo, vivendo para sua música, João busca na arte o que não conseguira no cotidiano da realidade.

Embora permaneça a linha de denúncia social, que percorre todas as obras de Lygia, verifica-se uma mudança com relação ao procedimento das personagens que, gradativamente, tornam-se passivas, acomodando-se à degradação a que estão sujeitas. Já não se observa o espírito de luta, a união de classes na tentativa de melhoramento. João, o pai de Lourenço, aceita mudar para o interior do Paraná, no intuito de adaptar-se a uma vida mais barata e talvez deixar de ser tão “desenxergado”. Mas é uma atitude isolada, de adaptação a um determinado contexto, não chegando a se constituir numa reação, tanto assim que, ao perder o emprego, busca o consolo na música, isolando-se da realidade.

O final idílico de Paisagem reflete que a procura por uma nova sociedade continua, mesmo que esta se encontre apenas no mundo ficcional. Refugiando-se no lugar edênico criado por Lygia (campo de flores, a casa a beira-mar, o barco) as personagens Lourenço, a Menina do Lado, João e a própria Lygia logram um convívio entre pessoas que se identificam, professando o mesmo gosto pela arte.

Ao promover essa mistura da leitura com a escrita, Lygia põe em pauta a parceria entre o escritor e o leitor no processo de construção da obra literária, processo este explícito em “Paisagem”, e que concretiza o caminho exposto no prefácio que anuncia essa obra e que dá a medida do envolvimento da tríade: leitor, livro e escritor:

quando um leitor mergulha no livro que um escritor escreveu, ele está enveredando por um território sem fronteiras; nunca se sabe direito até onde está indo atrás da própria imaginação, ou em que ponto começou a seguir a imaginação do escritor.

 

NUNES, Lygia Bojunga. Livro : um encontro com Lygia Bojunga Nunes. Rio de Janeiro: Agir, 1988.

Id. Fazendo Ana Paz . Rio de Janeiro: Agir, 1991.

Ibid. Paisagem. Rio de Janeiro: Agir, 1992.

Grifos nossos.

Cf. As duas citações encontram-se em NUNES, L. Livro : um encontro com Lygia Bojunga Nunes, p. 17.

Ibid., p. 20.

NUNES, Lygia Bojunga. A casa da madrinha. Rio de Janeiro: Agir, 1978.