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A leitura de textos poéticos e a representação de Um mundo que balança, mas não cai
Marília Papaléo Fichtner (PUCRS)

Os poemas, como as sombras, são objetos misteriosos que intrigam a mente. De há muito as sombras não gozam de boa reputação e o mesmo se pode pensar e dizer dos poemas, pois ambos, desde Platão, estão associados ao inquietante e ameaçador mundo das trevas e das aparências enganosas. As sombras são entidades negativas, fenômenos esquisitos, pois crescem e diminuem, aparecem e desaparecem, estão presas ao corpo, mas não há como capturá-las. Vide, por exemplo, a eterna luta de Peter Pan para resgatar sua sombra. Todavia, por isso mesmo, sombras e poemas são objetos curiosos e, por suas peculiaridades, se prestam ao estudo da psicologia da imaginação.

A sombra, como os poemas, faz coisas e apresenta o mundo de uma forma estranha e inusitada. Por exemplo, em vez de espaços positivos, ela nos faz ler e perceber os objetos a partir de espaços negativos como se a mente fosse um constructo ou uma engenhoca saída diretamente da caverna de Platão. As sombras em seu movimento ou uma poesia como O Pato, de Vinícius de Moraes 1, que apresenta o deslocar da pequena ave em um movimento de balança, mas não cai , também agradam ao leitor porque a mente humana é movida por uma profunda necessidade de registrar e observar imagens em movimento; sendo esse, inclusive, um dos critérios para definir inteligência.

No dizer de Roberto Casati 2, a sombra parece habitar um compartimento da mente que se comunica com o departamento dos objetos – as sombras são fenômenos físicos, mas também revelam representações da psique no despertar da consciência humana. Tanto na cultura Oriental como na tradição literária do Ocidente, a sombra fala à alma e ao pensamento, funcionando como uma espécie de representação mágica e animista de nós mesmos. Quando nos permitimos refletir sobre o estranho comportamento das sombras ou sobre as imagens curiosas de um poema, a mente se ocupa, de forma simultânea, com a materialidade das coisas, abrindo-se, todavia, ao (curto)circuito mental que leva à abstração das idéias.

As crianças querem saber como as coisas se comportam ou funcionam no mundo. Logo, para observar o desenvolvimento de um leitor do mundo basta prestar a atenção em como o infante investiga sobre a natureza dos objetos. Um bebê que brinca com um objeto esférico descobre a natureza de uma bola: ela é sólida, rola, é redonda, tem uma cor e, principalmente, ela some e aparece de novo no estático campo visual de um bebê. Em pouco tempo, porém, ao redor dos 8 meses, a bola passa a habitar a categoria dos objetos que existem, pois o bebê descobre o que Jean Piaget descreveu como a permanência do objeto . O bebê cresce, vira uma criança pré-escolar e, a seguir, sua mente se ocupa com a construção das constâncias objetais, pois os objetos se transformam revelando-se à mente infantil em aparências e estados diversos e, porque não dizer, enganosos também. Por isso é tão divertido para o infante se entregar aos jogos de palavras de uma poesia, bem como indagar sobre o comportamento das sombras.

As sombras existem enquanto fenômeno físico; a poesia, entretanto, apresenta um objeto totalmente construído por palavras, que só existe na imaginação do leitor. Logo, pensar na formação de um leitor é como investigar a capacidade do infante de operar com imagens mentais de fenômenos, corpos e entes sem que os mesmos estejam presentes em sua forma física e material, como uma bola ou uma sombra, por exemplo, mas apenas por meio de símbolos e imagens que se transformam na mente. Por outro lado, a sombra e a linguagem poética são um testemunho do encontro entre o mundo das coisas materiais e um mundo em que a matéria não parece ser tão importante. Isso ocorre devido à criação de imagens na mente, entendida como o momento em que as idéias tomam as primeiras formas na consciência antes ainda que haja qualquer possibilidade de pensamento racional.

Assim, quando uma criança brinca com as palavras e imagens de um poema, além do aspecto lúdico que envolve o jogar com o ritmo e o som das palavras, ela está aprendendo a expressar e a conhecer, sobretudo, o próprio pensamento. Donald Winnicott 3 afirma que esse jogo ocorre no espaço potencial do imaginário, entendido como a área intermediária entre o mundo objetivo e o mundo subjetivo, ou seja, como a área intermediária entre o mundo material das coisas e o mundo imaterial das idéias e das imagens mentais. Essa zona intermediária é tomada por Winnicott como o lugar teórico do objeto transicional, da brincadeira da criança, dos jogos e da experiência de criatividade dentro da cultura, no domínio não só da infância, mas também da arte e da ciência. Para Wolfgang Iser 4, as canções de ninar (e a poesia em geral) são o exemplo mais bem acabado do que Winnicott descreve como objetos e fenômenos transicionais. Por exemplo, em O pato, de Vinícius de Moraes, a poesia não se limita a descrever o caminhar do pato; o poema é o próprio caminhar do pato e, nesse sentido, através das palavras, o leitor vive a ilusão de que criou um objeto material e concreto, iludindo-se até com a aparência de poder manipulá-lo ou mesmo de ser o próprio pato. Vejamos a seguir:

 

Lá vem o Pato

Pata aqui, pata acolá

Lá vem o Pato

Para ver o que é que há

 

Nessa poesia, o leitor vive a ilusão de desfrutar do caminhar do pato por meio de sensações corporais apreendidas cinestesicamente através do estrato fonológico. Esse é o sentido mítico e mágico das palavras – que presentificam o objeto – a que Winnicott se refere por meio do conceito de objeto transicional. Segundo Wolfgang Iser, a partir da perspectiva psicanalítica, Donald Winnicott apresenta o fingir dos “objetos transicionais” como a função central da primeira infância, por intermédio da qual se realiza a separação da mãe e, em decorrência desse fato, registra-se o despertar do pensamento na criança através da representação do self (ou do eu), enquanto consciência corporal do tipo “eu existo dentro de mim”. No grafismo infantil, a experiência de existir e afirmar o eu é simbolizado no momento em que, por volta dos dois a três anos a criança fecha o círculo.

Para Wolfgang Iser, o fictício, tomado como equivalente do objeto transicional, “se move do real ao imaginário com a finalidade de provocar a sua mútua complementariedade” (p. 32). Para o autor, enquanto objeto transicional, o fictício seria um fato, pois, por intermédio dele, realizam-se contínuos processos de troca, ainda que em si mesmo o fictício seja um nada, pois existe apenas através desses processos de comunicação. Para formular seu pensamento no campo da leitura, Iser se vale do conceito de objeto transicional descrito por Donald Winnicott (1975). Segundo o psicanalista:

 

Desde o nascimento, o ser humano tem a ver com o problema da relação entre o objetivamente percebido e o subjetivamente concebido. Uma boa solução desse problema não existe para o ser humano que não tenha sido bem preparado pela mãe para isso. A área intermediária a que me refiro é aquela que é concedida à criança entre a criatividade primária e a percepção objetiva, fundada no teste de realidade. Os fenômenos transicionais representam os primeiros estágios do uso da ilusão, sem os quais não há significado para o indivíduo na idéia de uma relação com o objeto percebido pelos outros como externo àquele indivíduo [...]. O objeto transicional e os fenômenos transicionais concedem a cada ser humano aquilo que lhe será sempre importante, isto é, uma área neutra de experiência que não será desafiada. Do objeto transicional pode-se dizer que ele é um objeto de concordância entre nós e a criança a quem nunca se pergunta: “Foi você quem concebeu isso ou isso se apresentou a você de fora? O importante é que aí não se espera nehuma decisão. A questão não há que ser formulada [...] Essa área intermediária da experiência sobre a qual não se indaga se pertence à realidade internas ou externa (partilhada) constitui o território maior da experiência da criança e, por toda a vida, se mantém na experimentação intensa que pertence às artes, à religião, à vida imaginativa e ao trabalho científico criador. (p. 26)

 

Assim, voltando ao poema de Vinícius de Moraes é possível perceber o quanto o mesmo coloca o leitor na zona de fenômenos misteriosos e esquisitos à mente, habitados por coisas que existem e não-existem, por coisas que parecem feitas de matéria, mas, na verdade, são imateriais como as representações animistas das sombras e dos poemas – entendidos em sua equivalência com os objetos transicionais. Lembremos que, quando a criança joga com a palavra, ela não tem à mão nenhum objeto para convertê-lo em outro, como, por exemplo, na transformação uma caixinha de fósforo em um carro. Todavia, mesmo assim, em uma poesia como O Pato, o leitor vive a ilusão de que manipula um objeto concreto. Ao entrarmos no jogo proposto pelo pacto ficcional é possível perceber o quanto o caminhar do pato cria, através de seu pretenso deslocamento, a sensação de um eixo corporal em torno do qual o pato e o leitor se equilibram e desequilibram de um lado para o outro. (E se alguém cair, o fará, gostosamente, como quem se entrega, sem medo e confiança, aos braços de uma mãe.)

Logo, os versos iniciais do poema mimetizam a situação, criando um delicioso jogo corporal entre o texto e o leitor. No trabalho imaginário de criar um objeto concreto que, na verdade, não existe, reside o paradoxo que Winnicott refere como a essência dos objetos transicionais. A partir desse paradoxo cria-se o pacto ficcional, entendido como o jogo com a ilusão-desilusão tão importante para a leitura de textos literários e, por conseqüência, para a formação do leitor. Assim, quando as sensações rítmicas e corporais advindas de poemas apresentam objetos esquisitos à mente, tais objetos, recriados no ato de leitura, remetem ao brinquedo original da criança no espaço potencial do imaginário. Sendo assim, os ritmos e versos de um poema atualizam, através do fingir dos objetos transicionais, a díade original mãe-filho em seus processos de troca e comunicação transicional. Ali, na relação texto-leitor, é possível atualizarmos a gênese da representação de um universo afetivo e intelectual que nos faz rememorar e presentificar, através do ato imaginário que é a leitura, a sensação gostosa de um mundo que balança, mas não cai.

 

MORAES, Vinícius. A arca de Noé, Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.

CASATI, Roberto. A descoberta da sombra , de Platão a Galileu, a história de um enigma que fascina a humanidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 46.

WINNICOTT, Donald. O brincar & a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975, p. 26.

ISER, Wolfgang. O fictício e o imaginário : perspectivas de uma antropologia literária: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1996, p. 32.