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Ler e escrever, compromisso de todas as áreas
Diana Maria Marchi (UFRGS)

O presente trabalho originou-se das preocupações e da ação da equipe do Núcleo de Integração Universidade & Escola 1 entorno das perguntas que implicam nos processos de leitura e de escrita na escola, que resultou na publicação, em 1998, de livro com o mesmo título, hoje na sexta edição. Considerando a atualidade das questões ali contidas, apresentaremos, resumidamente, as idéias que surgiram do diálogo e da convivência desse grupo.

Assumir que ensinar a ler e a escrever é tarefa de todas as áreas, um compromisso da escola e não exclusivamente do professor de português, foi o desafio por nós enfrentado. Reclamamos da má qualidade da leitura e da escrita dos estudantes em geral, mas a quem compete a responsabilidade de reverter essa situação? Para responder a esse desafio foram promovidas diversas oportunidades para retomar o tema, rediscuti-lo, aprofundá-lo, estabelecer novas relações entre os olhares das várias áreas e acrescentar outros a essas relações com a leitura e a escrita. Tais preocupações estão embasadas nas manifestações de professoras e de professores que participam de atividades de formação oportunizadas pelo NIUE 2e, também, em pesquisas e produções do século XX que indicam a abrangência da leitura e da escrita para além do espaço escolar. Desde 1997, tais preocupações passaram a ser tema dos diversos trabalhos desenvolvidos pelo NIUE em seminários, cursos, artigos, programas televisivos, com a intenção de refletir acerca do papel das diversas áreas do conhecimento, pertencentes ao currículo da escola, no ensino da leitura e da escrita em diversos textos que circulam na nossa sociedade.

O que seria ler e escrever nas diferentes áreas do currículo escolar? Esse foi um dos objetivos que o grupo estabeleceu: desconfinar a discussão sobre leitura e escrita, ampliando o seu âmbito desde a biblioteca e a aula de português para toda a escola. E um dos méritos desse desconfinamento foi a descoberta da leitura e da escrita como confluências multidisciplinares para a reflexão e ação pedagógica. Nos trabalhos desenvolvidos surgem questões que cercam tal discussão, como a participação do professor, a criação de espaços coletivos para a ação pedagógica comum, a multiplicidade de linguagens e de novos códigos que provocam, na escola, a adoção de outros comportamentos. Salienta-se, sobretudo, a importância de que cada professor tenha um conhecimento profundo das características do ler e do escrever na sua área de atuação para que entre elas o diálogo se faça com segurança e fecundidade. Professores leitores, professores capazes de fazer a sua escrita, a sua comunicação com o mundo, são a chave de qualquer possibilidade de mudanças nas práticas tradicionais e repetitivas de leitura e de escrita.

Ler é produzir sentido; ensinar a ler é contextualizar textos, conforme propõe Paulo Coimbra Guedes e Jane Mari de Souza 3. Assim, a área de língua portuguesa compartilha o entendimento de que ensinar a ler é levar o aluno a reconhecer a necessidade de aprender a ler tudo o que já foi escrito, e que a contextualização mais adequada para o entendimento de textos sobre cada área do conhecimento deve ser feita pelo professor da respectiva área, e isso não se refere apenas aos termos próprios da ciência em questão, mas também ao valor particular que nesse contexto assumem relações mais gerais de oposição, de causa e efeito, de condição, etc. Ensinar a ler é contextualizar o texto e explorar os seus possíveis sentidos, aprofundar a leitura é promover um diálogo da leitura feita pelo aluno com a leitura feita pela tradição, e essas tarefas são de todas as áreas.

Na área de artes plásticas 4, o conceito de leitura é ampliado para um processo de decodificação e compreensão de expressões formais e simbólicas que envolvem tanto componentes sensoriais, emocionais, intelectuais, neurológicos, quanto culturais e econômicos. Desta forma, conforme Isabel Petry, se decodificar um texto é entrar na sua trama, na sua textura, no seu tecido, ler um texto pictórico pode ser entendido como adentrar em suas formas, linhas, cores, volumes e particularidades, na tentativa de desvelar um código milenar que muitas vezes não está explícito.

No entanto, percebe-se que o visual e a oralidade, predominante nas práticas não institucionalizadas, são tidos e identificados como não-leituras na área de língua e literatura, embora seja graças à incorporação de elementos visuais e de linguagem que a literatura infantil tenha conquistado o seu leitor. O livro de literatura infantil incorpora a ilustração que, por sua vez, faz o papel do narrador, não se limitando mais a ilustrar a história. Adquire status de linguagem, de texto, de narrativa, tornando-se peça fundamental para a leitura. Ao apropriar-se de técnicas e recursos de outras áreas, como da fotografia, do cinema, das revistas em quadrinhos, das artes plásticas em geral e da própria televisão, a literatura infantil conquista o seu leitor, habituado que está a ler o mundo que o cerca, sem a imposição das barreiras impostas pela escola.

Na área específica das ciências naturais 5 se utiliza das habilidades de leitura e escrita em diferentes situações de aula, que vão desde a elaboração de questionários, de apontamentos, até a interpretação e construção de representações gráficas diversas. No entanto, segundo Elaine Dulac e Cesar Lopes verificaram, mais importante que estes usos ficcionais, a linguagem escrita pode ser considerada como um dos meios mais eficazes através dos quais a ciência constitui-se e constrói realidades. A área tem claro que a ciência utiliza uma linguagem específica, particular para explicar e construir o mundo que nos cerca, a nós mesmos e a todas as inter-relações possíveis. Isso implica perceber a ciência-linguagem científica como um recorte da realidade que deve ter um compromisso com o todo, estabelecendo relações significativas com as demais formas de ler este mundo, apropriando-se das diversas formas de pensar que ecoam neste planeta e das diversas formas de explicar os fenômenos que ocorrem em nosso cotidiano.

Ler e escrever sempre foram tarefas indissociáveis da vida escolar e das atribuições dos professores. Ler e escrever bem forjaram o padrão funcional da escola elitizada do passado, que atendia a parcelas pouco numerosas da população em idade escolar. Ler e escrever massiva e superficialmente tem sido a questão dramática da escola recente, sem equipamentos e estendida a quase toda a população. A sociedade vê a escola como espaço privilegiado para o desenvolvimento da leitura e da escrita, já que é nela que se dá o encontro decisivo entre a criança e a leitura/escrita. Todo estudante deve ter acesso a ler e a escrever em boas condições, mesmo que nem sempre tenha uma caminhada bem traçada. Independente de sua história, merece respeito e atenção quanto a suas vivências e expectativas. Daí a importância da intervenção mediadora do professor e da ação sistematizada da escola na qualificação de habilidades indispensáveis à cidadania e à vida em sociedade, para qualquer estudante, como são o ler e o escrever.

O professor é aquele que apresenta o que será lido: o livro, o texto, a paisagem, a imagem, a partitura, o corpo em movimento, o mundo. É ele quem auxilia a interpretar e a estabelecer significados. Cabe a ele criar, promover experiências, situações novas e manipulações que conduzam à formação de uma geração de leitores capazes de dominar as múltiplas formas de linguagem e de reconhecer os variados e inovadores recursos tecnológicos, disponíveis para a comunicação humana presentes no dia-a-dia. Verificamos 6 que a literatura, aliada ao olhar geográfico, com certeza forma um binômio que possibilita aos alunos lerem o mundo nas suas complexidades e dinâmicas. A obra literária pode ser tomada como um dos subsídios para entender os contextos do lugar (espaço que dá identidade ao sujeito) e as interações que este espaço tem com outras partes do país e do mundo (relações de escala). As tramas literárias representam a pessoa “comum”, seus dramas (política, cultura e economia) e seus espaços cotidianos (o lugar).

A escola é unanimemente responsabilizada pela tarefa de levar o aluno a atrever-se a errar; a construir suas próprias hipóteses a respeito do sentido do que lê e a assumir pontos de vista próprios para escrever a respeito do que vê, do que sente, do que viveu, do que leu, do que ouviu em aula, do que viu no mundo lá fora, promovendo em seus textos um diálogo entre vida e escola, entre a disciplina e o mundo. Assim, a equipe do Núcleo encontrou uma outra unanimidade: sem alunos e professores lendo e assumindo sua tarefa de mediadores de leitura, escrevendo e dialogando, nada mais haverá na escola além de reprodução. Essa é a prática que rejeitamos: as atividades de leitura e escrita, nas diversas modalidades, transformadas em ritual burocrático, no qual o aluno lê sem poder discutir, responde questionários mecanicamente e escreve textos buscando concordar com o professor. O que ambicionamos nos processos de formação é um aluno – e também um professor – leitor e produtor de textos. Daí decorre um outro entendimento. Mais importante que reter a informação obtida pela leitura tradicional dos muitos textos, nas muitas áreas que compõem o cotidiano na escola, os exercícios de leitura e de escrita devem propiciar aos alunos condições para que eles possam, de forma permanente e autônoma, localizar a nova informação, pela leitura do mundo, e expressá-la, escrevendo para o mundo.

Ler e escrever são tarefas na escola, em cada sala de aula e na biblioteca, esta como o espaço convergente de todas as atividades. É nela que se estimula a circulação e a transferência da informação, que se favorece a convivência dos diferentes segmentos da comunidade escolar, pertencendo, portanto, a todos os usuários e, ao mesmo tempo, não sendo propriedade exclusiva de uns ou de outros. A escola que não olha para sua biblioteca, que não a vê como espaço do professor – com livros para seu aperfeiçoamento continuado – e do aluno, descura da leitura e da escrita que realiza. Ler e escrever, portanto, implica redimensionar nossas práticas e nossos espaços.

Entendemos que a tarefa de ensinar a ler e a escrever um texto de história é do professor de história e não do professor de português. A tarefa de ensinar a ler e a escrever um texto de ciências é do professor de ciências e não do professor de português. A tarefa de ensinar a ler e a escrever um texto de matemática é do professor de matemática e não do professor de português. A tarefa do professor de português é ensinar a ler literatura. Ler e escrever são tarefas da escola, questões para todas as áreas, uma vez que são habilidades indispensáveis para a formação de um estudante, que é responsabilidade da escola. Ensinar é dar condições ao aluno para que ele se aproprie do conhecimento historicamente construído e se insira nessa construção como produtor de conhecimento. Ensinar é ensinar a ler para que o aluno se torne capaz dessa apropriação, pois o conhecimento acumulado está escrito em livros, revistas, jornais, relatórios, arquivos. Ensinar é ensinar a escrever porque a produção de conhecimento se expressa por escrito.

Ao lado da leitura orientada pelo gosto, pelo prazer de atribuir sentido a um texto, cada professor, na aula de sua respectiva área (ou dois ou mais professores em trabalho multidisciplinar), promove a leitura de textos que valem a pena ser aprofundados: todos vão viver o encantamento da descoberta dos muitos sentidos em um texto decisivo para o conhecimento produzido pela humanidade. Esta leitura de inserção do aluno no universo da cultura letrada desenvolve a habilidade de dialogar com os textos lidos, através da capacidade de ler em profundidade e interpretar textos significativos para a formação de sua cidadania, cultura e sensibilidade. Para Paulo Guedes e Jane Mari Souza 7, cada professor em sua sala de aula deve vincular, através da produção escrita, conteúdos específicos das áreas com a vida de seus alunos, solicitando-lhes que escrevam sobre aspectos de suas vidas, propondo que esses textos sejam lidos para os colegas e discutidos em sala de aula. Cada professor deverá ler esses textos com interesse pelo que dizem e não apenas para corrigir o português ou verificar o acerto de suas respostas. Orientará a reescrita desses textos para que digam com mais clareza e mais precisão o que queremos dizer.

As questões aqui colocadas não se esgotam. O grupo de pesquisadores do NIUE permanece estudando e dialogando com os professores e professoras, objetivando não só o desconfinamento proposto inicialmente, mas, também, oportunizar a integração das diversas áreas que compõe o currículo escolar, que agora passam a pensar as questões de leitura e de escrita como uma possibilidade de mudança das práticas pedagógicas. Assim, se antes a tarefa de ler e escrever um texto de ciências era tarefa apenas do professor de ciências, agora compreendemos que essa tarefa não é só do professor de ciências, mas um compromisso de todas as áreas.

 

O NIUE opera um programa de pesquisa e educação continuada através da Pró-Reitoria de Extensão da UFRGS, contando com uma equipe de professores mestres e doutores das diversas áreas do conhecimento presentes no currículo escolar (incluindo a Biblioteca escolar e a Informática), num total de vinte e dois profissionais. Criado em 1990, tem como objetivo maior a integração entre a escola pública, voltada para o ensino fundamental e médio, e a Universidade. Ao propor a integração como meta, a ação do Núcleo proporciona que a Universidade exerça conscientemente o seu papel de formadora de professores, agilizando uma convivência democrática e cooperativa com o ensino fundamental e médio, a fim de que juntos possam refletir sobre uma prática educacional voltada para as necessárias mudanças.

Assessorias realizadas em escolas e em redes municipais de ensino nos municípios de Balneário Pinhal,

Bom Princípio, Caxias do Sul, Dois Irmãos, Esteio, Gravataí, Guaíba, Ibirurá, Lajeado, Mostardas, Porto Alegre e Triunfo.

GUEDES, Paulo Coimbra e SOUZA, Jane Mari de. Não apenas o texto mas o diálogo em língua escrita é o conteúdo da aula de português. In: NEVES, Iara C.B. et al. Ler e escrever: compromisso de todas as áreas . Porto Alegre, Editora da UFRGS, 1998. p.135-154.

KEHRWALD, Isabel Petry. Ler e escrever em artes visuais. Op.cit. p.21-31.

DULAC, Elaine; LOPES, Cesar. Idéias e palavras na/da ciência ou leitura e escrita: o que a ciência tem a ver com isso? Op.cit. p.35-42.

REICHWALD JR., Guilherme. Leitura e escrita na geografia ontem e hoje. In: Op. Cit., p.65-70.

GUEDES, Paulo Coimbra; SOUZA, Jane Mari. Leitura e escrita são tarefas da escola e não só do professor de português. Op.cit. p.13-17.