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Machado de Assis: realismo e sátira menipéia
Semíramis D. T. Bastos (UFRGS)

Machado de Assis surpreende, na chamada fase realista, pela agudez crítica e inventividade técnica de uma prosa que supera os limites do Realismo clássico. Assim, embora utilize o signo representacional, buscando, até certo ponto, fornecer uma análise objetiva dos fatos, sua prosa produz um excedente de significado que coloca sob suspeita a verdade do Realismo. Com isso, Machado de Assis sugere uma realidade mutável, subjacente às aparências e às convenções sociais, mostrando a impossibilidade de se dar um sentido unívoco às ações e aos sentimentos humanos.

A obra de Machado de Assis, da fase inaugurada com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Papéis Avulsos (1882), não se conforma ao espaço estilístico da Escola Realista na qual, ao menos temporalmente, se inscreve. Isso pode ser observado, por exemplo, na forma como o autor relativiza a noção de que o real pode ser conhecido pela observação e análise e depois fixado, pelo escritor, sob a forma de romance ou conto. Desse modo, Machado de Assis não só abala a concepção clássica do real como também renuncia à sintese totalizadora do Realismo, aprofundando, a partir disso, o teor crítico de suas análises da sociedade brasileira.

Esse autor toma, como objeto de análise, a sociedade carioca da segunda metade do século XIX, constituindo-a no microcosmo a partir do qual são expostas contradições da vida nacional que se materializam numa razão insólita, uma ideologia que transforma a dinâmica da vida social num jogo de máscaras. Essa percepção irá fazer com que a prosa machadiana oriente-se, não por uma vontade de verdade unívoca, mas pelo desejo de desvelar a ambigüidade e a ambivalência como traços da sociedade e do homem brasileiro. Com esse intuito, Machado de Assis experimenta novas técnicas composicionais que tanto subvertem como inovam o cânone realista: Trata-se de um autor cheio de recursos de vanguarda, mas cujo efeito geral é realista. Machado é um autor extraordinariamente mimético, sendo que ele usa recursos de uma literatura não-mimética (Schwarz, 1982, p.317).

A partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas e de Papéis Avulsos , a densidade temática, do universo ficcional machadiano, consubstancia-se á forma narrativa para encenar a fragilidade do sentimento de identidade nacional que se confunde com a superficialidade, volubilidade e descompasso no modo de absorção dos paradigmas civilizatórios importados da Europa. O olhar crítico de Machado de Assis ultrapassa, pois, os costumes e nexos da vida social para aprofundar-se na mentalidade brasileira e na sua relação com certas teorias em voga na época, mais especificamente, as que circulavam sob a forma de discursos científicos, filosóficos e político-ideológicos.

Vendo-se, então, certos aspectos da elaboração técnica e formal do fazer literário desse autor, destacamos o "narrador volúvel", analisado, por Roberto Schwarz, em Machado de Assis: um Mestre na Periferia do Capitalismo, e o motivo do "duplo", utilizado, no conto machadiano, também como princípio estrutural, conforme mostra o estudo Machado de Assis: um Escritor na Capital dos Trópicos , de Patrícia Lessa Flores da Cunha. O primeiro procedimento, segundo Schwarz, mimetizaria o capricho e o arbítrio da classe dominante em relação áqueles que dela dependiam, considerando-se que a estrutura sócio-econômica de base escravista, do Segundo Reinado, havia gerado uma classe de indivíduos livres e pobres que, devido a inexistência de um mercado de trabalho, via-se obrigada a buscar proteção junto a um proprietário. Da relação entre senhor e dependente deriva o universo do favor que irá mediar a organização da sociedade brasileira.

A pessoa pobre, no universo do favor, nunca pode ser afirmativa, ela tem que, sempre, ser oblíqua, ela tem que passar pela boa-vontade do proprietário [...]. Enquanto o modelo do romance europeu seria o rapaz de grande rompante que abre a porta com um pontapé, Capitu vai aos passinhos. Isso tem tudo a ver com o universo do favor. [...] está nas mãos do proprietário tratar o seu dependente como igual ou como dependente, e isso ele faz em parte segundo o seu interesse, mas, sobretudo, segundo o seu capricho (Schwarz, 1998. p . 56-57).

 

 

O narrador volúvel, cuja característica é a constante desidentificação com as posições ideológicas assumidas anteriormente, tanto subverte o modelo de coerência e confiabilidade que constituem a base da racionalidade moderna, como frustra as expectativas do leitor que o leva a sério. Seu discurso seria, pois, uma dramatização das "idéias fora de lugar" e uma crítica de seu próprio comportamento. Esse recurso narrativo também para denunciar a arbitrariedade da linguagem na elaboração da retórica que dava voz às posições ideológicas de prestígio no século:

 

Para exemplificar esse processo: o narrador numa frase toma o acento científico, na seguinte é um cronista mundano, depois é comerciante descarado e assim por diante. Temos então uma espécie de mascarada retórica, em que vão sendo percorridas as posições ideológicas do tempo. Mas o essencial é que o romance de Machado não pára em nenhuma, e é nisso que está a posição dele (Schwarz, 1982, p.316).

 

 

Schwarz mostra, assim, a volubilidade do narrador como um aspecto da condição humana correlato à estrutura social brasileira. Machado de Assis teria, por isso, dado-lhe, não apenas expressão temática, mas transformado-a em princípio formal que, ao representar o contexto de origem, subverte e inova o cânone realista.

Quanto à contistica machadiana, as análises de Patrícia Flores da Cunha mostram que o autor brasileiro "apropria-se" do legado crítico-ficcional de Edgar Allan Poe para adaptá-lo ao seu modo de narrar (Flores da Cunha, 1998, p.27). Machado de Assis teria assimilado, da obra de Poe, a teoria do efeito e o motivo do "duplo". Esse último aparece incorporado, ao conto machadiano, como signo da ambivalência e da ambigüidade da realidade humana e social, mas também como princípio composicional. As narrativas revelam-se, por isso, duplas em sua estrutura, produzindo, como efeito, o inesperado desvelamento de uma realidade "outra" até então encoberta sob a aparência prosaica do cotidiano:

 

Que caracterização seria melhor para designar Machado na escritura de seus contos? Realista, é certo, mas de um modo especial, pois recusa-se a pintar os pormenores objetivos das coisas e das pessoas, como queriam os realistas. Não obstante, renunciando aos pormenores, manteve-se fiel ao seu motivo, qual seja, o do reconhecimento da duplicidade e ambigüidade das situações e das emoções que perfazem o cotidiano da existência humana, mesmo que sob diferentes aparências (id., p.103).

 

A emergência repentina do "duplo" na narrativa e, às vezes, na consciência do leitor, reafirma a atitude crítica de Machado de Assis, que é perceptível em sua recusa em aceitar um sentido unívoco para a realidade, e na conseqüente desconfiança em relação aos discursos adotados pela elite brasileira da época.

A intertextualidade é outro aspecto da duplicidade da prosa machadiana. Sua obra está em constante diálogo com a tradição literária ocidental e com a cultura geral disponível na época, o que inclui uma variedade de textos e autores como a Biblia, autores greco-latinos, Shakespeare, Cervantes, Voltaire, Swift, Sterne, entre outros; gêneros literários como o fantástico e a sátira menipéia, além de discursos não-literários como teorias científicas, sistemas filosóficos, doutrinas político-econômicas, religiosas e a narrativa histórica. Essa duplicidade da escritura de Machado de Assis abarca, portanto, relações com textos ficcionais e também com outros textos da cultura. A intertextualidade e a interdiscursividade seriam, pois, características dominantes do fazer literário desse autor, que se manifestam através de certos recursos composicionais, em especial a ironia associada à paródia. A primeira é uma estratégia retórica cujo efeito advém da contradição entre o que é dito e a intenção do que é dito. Eis o comentário de Antonio Candido a respeito do uso da ironia no texto machadiano:

 

A sua técnica consiste essencialmente em sugerir as coisas mais tremendas da maneira mais cândida (como os ironistas do século XVIII); ou em estabelecer um contraste entre a normalidade social dos fatos e a sua anormalidade essencial; ou em sugerir, sob aparência do contrário, que o ato excepcional é normal e anormal seria o ato corriqueiro (Candido, 1977, p.23).

 

 

Enquanto a ironia atua no nível semântico, a paródia atua no nível formal como assimilação e deformação de um texto-base, produzindo um distanciamento irônico-crítico, entre o texto-base e sua paródia, que põe em evidência o contraste entre ambos. Machado de Assis utiliza freqüentemente a paródia para questionar as verdades instituídas do seu tempo:

 

O texto de Machado é quase sempre baseado na paródia. [...] Parodiam-se tipos sociais e caracteres individuais, históricos ou literários, personagens parodiam personagens; personagens se parodiam a si mesmos; operam-se paródias de paródias; sistemas parodiam sistemas; doutrinas parodiam doutrinas (Riedel, 1982, p.399).

 

Como já foi dito, Machado de Assis também parodia outros gêneros literários e, muitas vezes, até os mistura. Vê-se que não é rara, em seus contos, a presença de elementos do fantástico como certos temas e motivos - a loucura, o insólito, o duplo, a invasão do onírico, a transposição de fronteiras no tempo e/ou espaço - e de estratégias discursivas na narrativa como, por exemplo, um narrador "representado", que dá seu testemunho, e o uso do pretérito perfeito do indicativo. Esse tipo de constatação tem ensejado uma abordagem crítica, da obra machadiana, a partir de um ponto de vista que não se atém ao seu desvio em relação ao cânone realista, mas procura vinculá-la à sátira menipéia.

O estudo de Enylton de Sá Rego, O Calundu e a Panacéia , é uma análise comparatista que aproxima a prosa machadiana dessa outra tradição. A peculiaridade do fazer literário de Machado de Assis decorreria, segundo Sá Rego, de uma confluência entre a prosa machadiana e aquela tradição, que o crítico prefere chamar de luciânica. Luciano teria nascido na cidade de Samosata, na Síria, entre 120 D.C. e 140 D.C., mas escreveu em grego, adotando uma variedade de formas literárias: diálogos, ensaios, narrativas, críticas, exercícios de retórica. Sá Rego resume as característicasda escritura de Luciano, destacando os seguintes pontos: mistura de gêneros, uso da paródia, extrema liberdade de imaginação, caráter não-moralizante e ponto de vista distanciado (Sá Rego, 1989, p.67). Essas características, além de referências explícitas a Luciano de Samosata como, por exemplo, a que aparece em "Teoria do Medalhão" (Assis, 1961, p. 114), faz pensar que Machado de Assis tenha buscado, na tradição luciânica, recursos que lhe possibilitaram superar o Realismo clássico e produzir uma forma inovadora de representação a partir de sua visão crítica da dinâmica da sociedade brasileira, de sistemas filosóficos, do cientificismo e das ideologias liberais européias. Isso não é incomum na contística machadiana. Aparece tanto em narrativas da dita primeira fase do autor - "Uma Excursão Milagrosa" ( Outros Contos - 1866), "Uma Visita de Alcibíades" ( Papéis Avulsos - 1876) - como em narrativas da sua chamada fase realista - "Entre Santos" ( Várias Histórias - 1886).

"Uma Excursão Milagrosa", que é uma reescritura de "O País das Quimeras" ( Relíquias da Casa Velha II - 1862), inicia com um preâmbulo no qual o narrador comunica a intenção de contar o que lhe foi transmitido pelo protagonista da história. Trata-se do relato de uma viagem extraordinária da qual o jovem poeta, Tito, teria retornado trazendo na bagagem, em lugar de riquezas materiais - objetivo mais comum das típicas histórias de viagens - meios para perceber as fraquezas da humanidade . O narrador descreve fisicamente o protagonista dando logo a entender uma duplicidade, efeito de uma contradição da sua natureza: ele conjuga traços de uma beleza quase clássica com pés prodigiosamente tortos e pernas zaimbras . Vê-se a seguir que Tito, de fato, carece de bases firmes de sustentação, faltando-lhe, por isso, forças para defender sua arte do aviltamento. Assim, embora talentoso, acaba vencido pelo estado de privação em que vive e concorda em realizar uma espécie de pacto fáustico com um burguês que , desejando se fazer passar por poeta, contrata-o para que componha, abrindo-lhe mão da autoria.

Afora as aflições causadas pela falta de recursos materiais, Tito ainda sofre por amor. Debate-se entre duas possibilidades, o suicídio ou uma viagem, quando ouve baterem-lhe à porta. A partir de então, o protagonista assume a voz narrativa e passa a relatar o que lhe aconteceu naquela noite, depois que uma criatura celestial, vaporosa, fantástica o conduziu, através do espaço, até o país das Quimeras.

Tito diz ter sido apresentado a personagens como o Gênio das bagatelas, que se exibe coroado de vaidade, trazendo, preso à cabeça, um pavão vivo. Moda é outra personagem encontrada pelo poeta. Suas trezentas belas, caprichosas filhas , trabalham para promover, na Terra, a substituição das Modas anteriores. Por fim, dirigindo-se a Utopia, descobre ser ela que, conduzida pela loura Fantasia, confortava-o, com outras Utopias e Quimeras, nos momentos de aflição. Na verdade, Fantasia, Utopias e Quimeras, constituiriam não apenas os sonhos dos poetas, mas também o pensamento dos filósofos e homens de ciência, todos igualmente expostos aos desarrazoamentos da imaginação. O país das Quimeras começa então a dissolver-se e evaporar-se até sumir sob os pés do poeta que, em queda, volta ao planeta, aterissando a poucos metros de casa. O narrador inicial relata que Tito teria retornado com a capacidade de identificar indivíduos que contêm, no lugar do cérebro, massa quimérica, proveniente daquele país. Fato que lhe atraiu antipatias, aumentando-lhe as desditas, preço da liberdade de desmascarar a humanidade .

Em "Uma Excursão Milagrosa", motivos como o "duplo" e a "transposição de fronteiras no tempo/espaço" ajudam a expressar a perspectiva irônico-crítica de Machado de Assis a respeito dos costumes e da cultura de sua época. No conto "Uma Visita de Alcibíades", um magistrado, admirador do mundo grego e recém convertido ao espiritismo, lia sobre a vida de Alcibíades, quando sua atenção é momentaneamente desviada. Ao pousar o olhar sobre sua própria vestimenta, ocorre-lhe que opinião teria um ateniense, como Alcibíades, sobre a indumentária moderna. Evoca então o espírito de Alcibíades para esclarecer-lhe a dúvida, mas eis que surge o próprio grego, em carne e osso. Surpreso, o visitante lança um olhar de estranheza sobre os objetos que simbolizam a vida elegante da sociedade daquele século. Porder-se-ia infeir que, por analogia, o ateniense chamaria a atenção para outras roupagens - sistemas filosóficos, teorias científicas, doutrinas - que definiam a feição racional do século. O clímax do efeito satírico dá-se no desfecho da narrativa, quando o leitor é informado que, ao ver o desembargador, que terminava de se vestir, colocar a cartola, Alcibíades não teria resistido e morrera pela segunda vez.

"Entre Santos" é outro conto no qual elementos do gênero fantástico são usados para produzir um efeito satírico. Nesse caso, as imagens dos santos da igreja adquirem vida, pondo-se em assembléia para discutir a relação dos homens com a fé. Ocorre, assim, um desnudamento da consciência dos indivíduos, que são mostrados em conflito interno, divididos entre a nobreza de seus propósitos e a tibieza de seus caracteres. Durante um debate, os santos concordam que a ambivalência seria um traço irredutível da natureza humana, por isso seus defeitos não raro sobrepujavam os esforços para a ação ética. Os elementos do fantástico veiculam, nesse conto, uma visão satírica da condição humana segundo a qual sua índole seria antes fraca do que propriamente má na medida em que não consegue libertar-se da ambivalência moral que lhe amesquinha a vida.

Como foi visto nos três contos, Machado de Assis satiriza ora a atitude dos homens em relação ao poder e a cultura, ora os costumes, ora a contraditória natureza humana, usando elementos que demonstram uma liberdade de imaginação que extrapola os ditames da convenção realista. Esse autor nunca deixa de problematizar a realidade humana e social, exemplo disso é o diálogo que a prosa de Machado de Assis estabelece entre o literário e outros textos da cultura. A partir desse interdiscurso, observa-se a abrangência de seu pensamento que articula questões específicas da sociedade brasileira ao contexto cultural e ideológico daquele século.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

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