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A reescrita da trajetória de Capitu
Lúcia Osana Zolin (UEM)
No âmbito dos estudos pós-colonialistas, a reescrita consiste em uma estratégia bastante recorrente com a qual se pretende edificar uma visão crítica acerca de determinado corpus literário e da ideologia que subjaz a ele. Em O Pós-colonialismo e a literatura (2000), Bonnici define a reescrita como uma estratégia em que "o autor se apropria de um texto da metrópole, geralmente canônico, problematiza a fábula, os personagens ou sua estrutura e cria um novo texto que funciona como resposta pós-colonial à ideologia contida no primeiro texto" (p. 40). Como exemplo, o crítico cita A tempestade , de Shakespeare, como sendo, provavelmente, o texto mais reescrito da literatura canônica inglesa; nestas reescritas, a problemática metrópole-colônia é retomada de modo a salientar os atributos que fazem do texto original uma espécie de roteiro, no qual se pode encontrar os principais argumentos ideológicos do projeto colonial inglês, dentre os quais destaca-se construção da figura do nativo como "o outro", o diferente, portanto, o inferior e, por isso mesmo, passível de dominação. Eis o principal argumento legitimador da usurpação do Novo Mundo pelo europeu.
Do mesmo modo, Robinson Crusoé (1719), de Daniel Defoe, inspirou diversas reescritas, dentre as quais destaca-se Foe (1987), do sul-africano Coetzee. Se no texto original o leitor se depara com a clássica imponência da figura do europeu (na personagem do náufrago Crusoé) diante da fragilidade do não-europeu e/ou do nativo (na figura do índio Friday), impondo-lhe sua cultura, num relacionamento claramente hierárquico, que pressupõe a dicotomia colonizador-colonizado, portanto, dominador-dominado, na resposta de Foe a este texto, o colonizador/dominador "é colocado numa luz com efeitos opostos" (BONNICI, 2000, p. 89). Isso implica, por exemplo, pôr em cena uma mulher como narradora - figura inexistente em Robinson Crusoé - empenhada na recuperação da voz do mudo Friday, sedenta por resgatar-lhe a identidade. Intento este que é conseguido na última parte do romance, ao que tudo indica, narrada pelo próprio Friday que, por meio da escrita, consegue expressar sua descoberta da "imagem de um mundo perdido submetido ao colonizador. Essa imagem o faz descobrir sua subjetividade, sua história, sua autonomia" (BONNICI, 2000, p. 92).
Menciono, ainda, um terceiro e último exemplo de reescrita realizada à luz do Pós-colonialismo. Trata-se de Wide Sargasso Sea (1966), da escritora caribenha Jean Rhys, romance que se apropria da história contada por Charlotte Brontë no clássico Jane Eyre (1847) para, então, recriá-la, salientando questões de gênero, racismo, escravidão e colonialismo, as quais não são problematizadas no texto original. Assim, enquanto, no romance de Brontë, a esposa louca de Mr. Rochester morre queimada no sótão, sem maiores delongas, abrindo, portanto, caminho para que o marido se case com a serva Jane Eyre, na reescrita de Rhys, sua loucura é historicizada, sua opressão é posta em discussão. Tendo sido imbuída do direito de falar, Antoinette, ao contrário da silenciada Bertha, narra sua "história de espoliação praticada pelo marido inglês na fazenda dela no Caribe". Do mesmo modo, o incêndio da mansão, do qual ela é a autora, ao invés de morrer nele como no texto de Brontë, "mostra a resposta da mulher 'colonizada' diante da arrogância e domínio do europeu (BONNICI, p. 24)".
Mesmo um rápido passeio, como esse, por entre a teia narrativa desse curioso romance caribenho revela estreitas ligações entre a opressão da mulher e a opressão do colonizado. A personagem feminina, aqui, é duplamente marginalizada; é considerada o "outro" em relação à metrópole, já que é nativa de uma colônia européia, e é considerada o "outro" por ser mulher, ou seja, por fazer parte de um grupo sexual considerado marginal em relação ao grupo dominante.
"Coincidências" como essas acabaram por aproximar o discurso pós-colonial do feminista. Segundo Bonnici (2000, p.153), "a inter-relação e a interatividade entre os dois discursos são tão incisivas que o feminismo é considerado um tropo do segundo". Conceitos utilizados por teóricos pós-colonialistas para problematizar o relacionamento entre metrópole e colônia passam a ser utilizados por teóricas(os) feministas para investigar o discurso entre patriarcalismo e a condição da mulher - caso dos conceitos de linguagem, voz, discurso, silêncio, etc. Outro exemplo mencionado no estudo de Bonnici é o conceito de literatura canônica: como os pós-colonialistas, as(os) feministas também se deram conta de que o valor estético da literatura hegemônica não reside no próprio texto, não sendo, portanto, universal. Ao contrário, reside, muitas vezes, em fatores extratextuais, construídos histórica e culturalmente por ideologias dominantes, como a patriarcal.
Mais uma contribuição do Pós-colonialismo ao Feminismo pode ser vislumbrada na postura de certas teóricas que passaram a reivindicar a incorporação da investigação de questões de raça e classe ao discurso feminista fundamentado nas relações de gênero, numa atitude de repúdio à repetição de clichês imperialistas, próprios do discurso colonialista. Gayatri Spivak, pensadora indiana radicada nos Estados Unidos, consiste num bom exemplo. Para ela, a Crítica Feminista não pode fazer desaparecer a heterogeneidade do Terceiro Mundo sob pena de tornar-se racista e colonialista.
No âmbito da literatura brasileira de autoria feminina, e dos estudos críticos que se ocupam dela, muitas destas estratégias comuns aos discursos pós-coloniais e feministas têm se tornado cada vez mais recorrentes. A estratégia da reescrita tem sido, não raramente, utilizada pelas escritoras brasileiras numa atitude de reinvenção que põe em relevo o modo de construção e representação do universo da mulher. É o caso, por exemplo, de A força do destino (1978), da escritora carioca Nélida Piñon, que reinventa a ópera do mesmo nome do italiano Giuseppe Verdi, em que a figura feminina central, construída no texto original como frágil, vulnerável e vítima, é reconstruída como uma mulher-sujeito, libertária, audaciosa, astuta e sedutora. Este, também, é o caso do romance de Ana Maria Machado, A audácia dessa mulher , publicado em 1999, que consiste no objeto de nossa investigação nesse trabalho. Trata-se de um texto que, em meio à teia narrativa que se desenvolve em torno da trajetória da audaciosa Beatriz Bueno, uma jornalista de sucesso ambientada no finalzinho do século XX, reescreve e/ou reinventa a trajetória de Capitu, a protagonista de Dom Casmurro , de Machado de Assis.
Se as leituras mais ingênuas desse clássico romance oitocentista giram em torno da polêmica da culpa ou da inocência de Capitu, uma das personagens femininas mais discutidas da Literatura Brasileira, as leituras mais lúcidas enfatizam a questão do ciúme de Bentinho e a conseqüente impossibilidade de o leitor ter certeza se ele foi ou não traído pela mulher com seu melhor amigo. Isso porque o romance é narrado em primeira pessoa pelo próprio Bentinho, enlouquecido de ciúme, quando ele já se encontrava na velhice, visceralmente mergulhado na solidão e na sua casmurrice.
De qualquer modo, as críticas mais comuns, empreendidas pelos estudos contemporâneos de gênero, ao autor do romance se concentram no fato de ele ter construído uma figura feminina silenciada, sem vez e voz, bem aos moldes da ideologia patriarcal, que defendia a subjugação e o emudecimento da mulher. A Capitu acusada de adultério pelo marido, por meio de um discurso jurídico e, como tal, manipulador, é exilada com o filho na Suíça, onde, morre na solidão e no abandono, sem direito a defesa. Daí a pergunta mais recorrente: quais seriam os contornos de Capitu senão aqueles que lhe conferem a ótica do marido-advogado?
Ana Maria Machado, em A ousadia dessa mulher , imbuída da crença de que "os livros continuam uns aos outros, apesar de nosso hábito de julgá-los separadamente" (MACHADO, 1999, p. 185), retoma a trajetória de Capitu, recriando-lhe os contornos, reinventando-lhe os caminhos percorridos durante o casamento com Bentinho e após seu exílio na Suíça.
Na verdade, não se trata de reescrever o romance nos mesmos moldes das rescritas anteriormente referidas. O texto de Ana Maria Machado se desenvolve fundamentalmente em torno da protagonista Beatriz; Capitu entra na história como um elemento a mais na construção de um universo feminino que se caracteriza pela capacidade de engendrar novas formas de estar na sociedade, apesar das adversidades advindas de ideologias milenares que se sustentam no aprisionamento da mulher no silêncio e na imobilidade.
O argumento central da retomada dessa história é o "cadernão da Lina", um misto de caderno de receitas e de diário íntimo que, após ter passado por diversas gerações de mulheres, durante mais de um século, chega às mãos de Beatriz, acompanhado de uma carta assinada por Maria Capitolina. A estratégia do livro consiste, portanto, em fazer com que Capitu, a personagem de ficção machadiana do século XIX, seja reconhecida por Beatriz, personagem de ficção ambientada no final do século XX, como uma mulher real que, apesar de ter sido também personagem de Machado, existiu de fato. Os fragmentos a seguir flagram o momento em que Beatriz tenta assimilar a situação:
- Capitu?! Meu Deus!
(...)
- Lina é Capitu? Não acredito! Não é possível!
(...)
Mas como é que eu podia desconfiar? Ela não existe... É só um personagem inventado... Todos eles são inventados, pura ficção.
Ficção ou não estava em suas mãos a carta. Contava tanta coisa que Bia já sabia, que lera e relera ao longo da vida mas esquecera ou bloqueara, e nem conseguira ligar aos fatos que fora reencontrando desde outro ponto de vista , narrados no caderno de receitas de Lina. Agora, acabara de ler as páginas que o acompanhavam. Carta assinada por Maria Capitolina. (...) agora ficara evidente que era Bentinho aquele namoradinho B., mencionado nas anotações da menina. O Bentinho seminarista com quem a jovem Capitu acabara se casando. O homem que, no fim da vida, chamando a si mesmo de Dom Casmurro, brilhantemente a condenara aos olhos do leitor pela pena de Machado de Assis.
Pois não podia ser verdade.
Mas era (MACHADO, 1999, p. 196-7, grifos nossos).
Desse modo, está construída uma situação narrativa que permite a Ana Maria Machado, no limiar do século XXI, de posse de todas as conquistas viabilizadas pelo feminismo em relação ao modo de estar da mulher na sociedade, engendrar uma narrativa que funciona como resposta feminista à ideologia patriarcal que subjaz à construção de Dom Casmurro . Não se trata, absolutamente, de minimizar a importância desse clássico romance oitocentista. Trata-se, antes, de por em prática o pensamento de Virgínia Woolf de que os livros continuam uns aos outros, referido pela própria autora no capítulo 16 em que assume o discurso para lembrar aos seus leitores, sobretudo àqueles chamados por Stendhal de "happy few", que não sentem "horror a delicadezas ou outros lavores sutis", que é por eles que ela escreve, por ela mesma, numa atitude de quem aprecia os ecos que emanam do "contínuo fluxo de livros que se esparramam por nossa vida e a fecundam" (MACHADO, 1999, p. 186-7).
É dentro desse espírito e/ou desejo de dar prosseguimento às narrativas de outros tempos, as quais de um jeito, ou de outro, refletem a sociedade da época, que os caminhos que teriam sido trilhados por Capitu, e que não caberiam no campo de visão do narrador Dom Casmurro, são iluminados em A ousadia dessa mulher . Tudo o que não foi dado ao leitor do romance original saber sobre essa intrigante personagem feminina, a quem Machado não deu voz, sendo-lhe o perfil filtrado pela ótica do marido ciumento, é permitido conhecer agora.
A carta destinada a Sancha, que acompanha o caderno de receitas, enviada quarenta anos após Capitu ter sido exilada na Suíça, tem a missão de trazer a ambas um pouco de paz. É que apesar de Capitu ter presenciado, na véspera da morte de Escobar, uma intensa troca de olhares entre o marido e a melhor amiga, ela não lhe guardou ressentimentos. Essa revelação, que inverte a situação básica do romance oitocentista, já que Capitu passa de adúltera para vítima de traição, desencadeia uma série de outras situações que funcionam como respostas às lacunas deixadas no texto original em relação ao comportamento da protagonista.
Um exemplo é a sua versão do desespero que demonstrou diante do cadáver de Escobar, desespero este que funcionou, aos olhos de Bentinho, como uma confissão de culpa da relação adultera que teria com o melhor amigo dele:
(...) soube que Santiago fora chamado às pressas à tua casa, porque teu marido se afogara. Não pude deixar de recordar, imediatamente, que ainda na véspera eu pensara em sua morte, e na minha também. Igualmente pensara em tua morte e na de meu marido, cheguei a pedir aos céus que elas se abatessem, tão ferida e dilacerada me encontrava eu com a descoberta da traição. (...) Ao olhar fixamente o cadáver, supliquei com todas as minhas forças que ele me levasse consigo, pensei em lançar-me no mesmo mar que o levara e que agora me atraía, como se a única maneira de findar meu sofrimento fosse ser tragada pela mesma ressaca que o arrebatara e que ainda bramia diante da casa. (MACHADO, 1999, p. 189-90)
Soma-se a esta surpreendente revelação uma série de outras informações que subvertem a imagem e o destino que são conferidos a Capitu em Dom Casmurro : 1) a decisão da separação é dela, e não do marido; 2) a semelhança entre Ezequiel e Escobar desaparece: "bastava ver como o rapaz era bem mais baixo, menos cheio de corpo, e como todas as suas cores eram diversas, vivas" (MACHADO, 1999, p. 194); 3) ela responde à situação disfórica com uma vida nova: ela tem a "audácia de se parir novamente" (MACHADO, 1999, p. 199).
Nesse sentido, Ana Maria Machado reinventa a trajetória de Capitu a partir dos elementos fundamentais que conferiam a ela, no texto original, o status de "escrava branca" (COSTA LIMA, 1981, p. 90). Ao invés de ter sido, simplesmente, exilada na Suíça, sem maiores explicações, ela surpreende Bentinho tentando envenenar Ezequiel e acaba por obter dele a acusação formal de adultério. Daí preferir a separação a manter um casamento que se mostrava insustentável. A opção pela Suíça vem do fato de o marido, como no texto original, fazer questão de manter as aparências perante a sociedade. Do mesmo modo, o registro do desaparecimento da semelhança entre Ezequiel e Escobar, na reescrita da escritora contemporânea, aponta para a desconstrução de uma possibilidade que, apesar de bem plausível, não foi, sequer, considerada pelo narrador do texto original. Por fim, é fundamental na reescrita de Ana Maria Machado, o fato de Capitu ser capaz de reinventar, a partir do nada, uma nova vida e dar sentido a ela. Apenas aparentemente ela cumpre a sina da mulher adúltera que, após ser desmascarada, morre na solidão e no abandono como forma de purgar seus pecados. Na verdade, ela ignora o rótulo que lhe foi conferido de "fêmea infiel" e constrói uma vida digna a partir de seus próprios méritos. O fato de ter abandonado o apelido de menina e de ter passado a usar a outra metade de seu nome - Lina -, numa atitude de Fênix, aponta para a capacidade da mulher em engendrar sua própria história, apesar das adversidades impostas por ideologias como a patriarcal.
Ganha relevo, nesta nova trajetória que Ana Maria Machado confere a Capitu, em que o elemento "parir-se novamente" é central e decisivo, o fato de este ato ser sustentado por dois pilares fundamentais: a conquista da vida profissional e o desejo de mulher de redefinir os papéis sociais que representa. No que diz respeito ao primeiro, a vida profissional que vai aos poucos conquistando lhe viabiliza a independência definitiva: ela passa de ajudante de cozinha, em uma pensão, para camareira, depois para governanta e, finalmente, para proprietária. Isso lhe garante o direito de cortar os laços que a ligam ao marido opressor e à "escravidão branca" que encontrava na mulher do tempo seu objeto. Em relação ao segundo pilar referido, não se pode deixar de considerar que, embora a reescrita da trajetória da personagem machadiana lhe preserve a ambientação no século XIX, ela se concretiza dentro de um outro contexto. Trata-se de uma homenagem a Machado de Assis, no ano do centenário da publicação de Dom Casmurro , realizada em um momento em que é visível na literatura, sobretudo na literatura de autoria feminina, a representação da nova situação da mulher na sociedade, viabilizada pelo movimento feminista.
O texto de Ana Maria Machado, portanto, ecoando as tendências emanadas das discussões incentivadas pelo "multiculturalismo", pensamento implementado nesse final de século XX que tem incentivado a emergência do diferente, das vozes divergentes e marginalizadas, salientado os conceitos de "Alteridade" e de "O Outro", traz à tona a discussão da necessária redefinição dos papéis sociais da mulher, os quais apontam não para a igualdade em relação ao sexo oposto, mas para o fato de as mulheres assumirem a autoria da própria vida, de seu destino, do feminino, enfim.
BONNICI, T. O Pós-Colonialismo e a literatura . Maringá: Eduem, 2000.
BRONTË, C. Jane Eyre . Harmondsworth: Penguin, 1956
COETZE. Foe . Harmondsworth: Penguin, 1987.
COSTA LIMA, L. Dispersa demanda . Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981.
DEFOE, D. Robinson Crusoé . Lisboa: Publicações Europa-América, s/d.
MACHADO DE ASSIS, J. M. Dom Casmurro . São Paulo: Egéria, 1978.
MACHADO, A. M. A audácia dessa mulher . Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
PIÑON, N. A força do destino . Rio de Janeiro: Record, 1997.
RHYS. J. Wide sargasso sea . Harmondsworth: Penguin, 1968.