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O humor nas entrelinhas da contística de Edgar Allan Poe e Machado De Assis
Gabriela Brun Perizzolo (UFRGS)
Minha predileção pelo gênero policial surge no momento em que deixo de lado os gibis e passo a ter os livros como companheiros bem próximos. De Agatha Christie, passo para Simenon, e daí, para Edgar Allan Poe, um passo apenas.
Hoje, decorridos vários anos, partilho com inúmeros leitores não somente o Poe que escreve histórias de mistério, mas um Edgar Allan Poe na sua forma mais completa: um gênio na arte de escrever contos, críticas, poesias e romances, sejam eles de mistério, de terror e de morte, sejam de humor, filosóficos ou fantásticos.
Na mesma época em que começo a dar forma ao meu universo de leituras, sou apresentada à obra de Machado de Assis. Começa aí meu envolvimento com personagens como Capitu, Bentinho, Quincas Borba, Simão Bacamarte, entre tantos outros que compõem a vasta galeria de criações do escritor. Tais leituras funcionaram como alicerces para que hoje fosse possível dar início a um trabalho maior e mais complexo, uma vez que busco desvendar facetas de Machado de Assis e de Edgar Allan Poe ainda pouco exploradas.
Dando continuidade ao estudo realizado em nível de graduação, intitulado "O humor em Edgar Allan Poe: A Narrativa de Arthur Gordon Pym" 1 e, considerando que muito pouco se conhece acerca da presença do humor em Poe e, também, em Machado de Assis, em especial no gênero conto , o estudo propõe-se a realizar um confronto entre a contística desses escritores, a fim de verificar de que forma este humor se manifesta.
Antes, é preciso definir o conceito de humor. Existem várias acepções, entre elas: i) estado de espírito ou de ânimo; disposição, temperamento; ii) comicidade em geral, graça, jocosidade; iii) expressão irônica e engenhosamente elaborada da realidade; e iv) faculdade de perceber ou expressar comicidade. 2 A partir dessas definições, pode-se fazer relação com o humor de que tratam Edgar Allan Poe e Machado de Assis. Ambos vivem praticamente numa mesma época e, em vista disso, a anatomia desse humor ou humour é similar.
Alcides Maya inicia seu texto intitulado "Machado de Assis: Algumas Notas sobre o H umour" 3, afirmando: "Enfado e tristeza do mundo e do homem (...) dois elementos notáveis do humour ". S egundo ele, esse "não constitui critério de escola e também não representa um gênero de regras fixas: (...) é a consciência do escritor sobreposta à norma; o indivíduo exprimindo-se livremente". Dessa forma, vê-se que o humor está diretamente relacionado com os sentimentos do escritor:
[...] o que se descobre essencialmente no humour é a dissimulação da tristeza em jovialidade, numa jovialidade de aparato a encobrir ínsitos desgostosos, revoltas naturais. [...]. 4
Sentimentos de desgosto, de dúvida, de revolta, que são exteriorizados através de arquiteturas que envolvem diversos matizes como ironia, sarcasmo, deboche e deturpação de formas. Com isso, pode-se afirmar que o humour é uma categoria dialética, na medida em que, a partir de um desconforto - próprio do escritor - surgem situações irônicas, sarcásticas e debochadas. Contudo, é preciso que estes matizes sejam esclarecidos, uma vez que tais conceitos possuem uma diferença demasiado tênue.
É possível definir ironia como sendo "um contraste entre uma realidade e uma aparência" 5, ou seja, uma categoria que possibilita dupla compreensão; sarcasmo, como uma espécie de ironia mordaz, corrosiva; deboche, como zombaria, escárnio, desprezo irônico e, por fim, deturpação de formas, como uma maneira de desfigurar o ser, a ponto de torná-lo cômico, e, então, digno de riso. 6 Percebe-se que os conceitos não possuem fronteiras nítidas e bem demarcadas; por isso, cabe destacar a existência de uma interpenetração entre tais conceitos, intrínseca às obras de Poe e de Machado. Há que se levar em conta também que o humor pode se manifestar, dentro da obra, de forma explícita ou implícita.
Acredita-se que o humor ou humour encontrado em Poe e em Machado está nas entrelinhas de seus escritos. Por essa razão, não basta fazer uma simples leitura do texto, é preciso ler nas entrelinhas a verdadeira história que os autores querem nos contar. Assim, é no momento da recepção que o processo de decodificação acontece. Vale lembrar que, para que o leitor participe desse processo de comunicação, é preciso que o escritor, por sua vez, deixe seu texto incompleto, isto é, com lacunas a serem preenchidas pelo leitor no momento da recepção.
Para que as técnicas envolvidas no mecanismo de produção de humor e, conseqüentemente, de leitura de entrelinhas sejam compreendidas, cabe recorrer aos estudos de Umberto Eco. Em seu livro intitulado Seis passeios pelo bosque da ficção , no qual aborda questões que envolvem produção e recepção de textos narrativos, o autor propõe a existência de um leitor-modelo, "uma espécie de tipo ideal que o texto não só prevê como colaborador, mas que ainda procura criar" 7. Segundo ele, o texto narrativo dirige-se a dois tipos de leitores-modelo: o leitor-modelo de primeiro nível, que quer saber apenas como a história termina e, então, basta lê-la uma vez; e o leitor-modelo de segundo nível, que se pergunta que tipo de leitor a história deseja que se torne, e que, por conseqüência, quer descobrir como o autor-modelo faz para guiar o leitor. Nesse segundo caso, é preciso ler o texto muitas vezes. "Somente quando o autor-modelo for descoberto e quando se compreender o que o autor queria do leitor é que os leitores empíricos se tornarão leitores-modelo maduros" 8.
Edgar Allan Poe, quando utiliza o humour , o faz de duas formas: através de seus contos essencialmente humorísticos e através das entrelinhas de seus contos policiais, de mistério, de terror, de morte ou ainda de suas aventuras fantásticas.
Machado de Assis, por sua vez, em se tratando de humor, trabalha constantemente de forma escamoteada, permitindo que a ironia, o deboche e o sarcasmo só sejam percebidos através de uma leitura mais profunda; em outras palavras, quando ocorrer uma leitura com um alcance maior do que aquele que dá conta apenas de conhecer o final da história.
O segredo para que os verdadeiros intentos de Edgar Allan Poe e de Machado de Assis sejam desvelados é perceber que há também uma história permeando as linhas do texto. Dessa maneira, é preciso que na dinâmica da leitura, o leitor assuma seu papel, atuando de forma ímpar no processo de decodificação de intenções, que resulta na descoberta de um texto plurissignificativo: " numa história sempre há um leitor, e esse leitor é um ingrediente fundamental não só do processo de contar uma história, como também da própria história" 9.
Umberto Eco, em seu ensaio "Ironia intertextual e níveis de leitura" 10, trabalha com o conceito de ironia intertextual - indo ao encontro do sentido lato de ironia explicitado anteriormente -, expondo o seguinte pensamento:
[...] a ironia intertextual, pondo em jogo a possibilidade de uma dupla leitura, não convida todos os leitores para um mesmo banquete. Ela os seleciona, e privilegia os leitores intertextualmente avisados [...]. 11
Fica claro, mais uma vez, que não são todos os leitores que irão compreender o texto da forma desejada pelo escritor; provavelmente, apenas os leitores-modelo de segundo nível. Sendo que o diferencial entre os leitores de primeiro e segundo nível é o horizonte de expectativa de cada um deles, pode-se afirmar que é sob a luz da "estética da recepção" - teoria que reveste todo o estudo de Umberto Eco - que a leitura de Edgar Allan Poe e de Machado de Assis deve ser pensada.
Uma das obras mais recentes de Terry Eagleton, acerca das correntes teóricas que surgiram no decorrer da década de noventa do século vinte, também é esclarecedor na medida em que apresenta o leitor como o verdadeiro escritor. Segundo ele
[...] o leitor estabelece conexões implícitas, preenche lacunas, faz deduções e comprova suposições [...]. O texto, em si, realmente não passa de uma série de "dicas" para o leitor, convites para que ele dê sentido a um trecho de linguagem. Na terminologia da teoria da recepção, o leitor "concretiza" a obra literária, que em si não passa de uma cadeia de marcas negras organizadas numa página. 12
Assim sendo, para que se dê conta não somente da leitura, mas do entendimento das histórias de Machado de Assis e de Edgar Allan Poe, é imprescindível que o sujeito-receptor do enunciado seja um leitor de segundo nível, ou seja, que saiba como participar do processo de desenvolvimento da história, tomando parte numa espécie de "pacto" com o escritor.
Na tentativa de comprovar as idéias acima expostas, propõe-se o confronto de dois contos: "O Barril de Amontillado" 13, de Poe, e "O Enfermeiro" 14, de Machado.
Ao término de uma primeira leitura, fica o leitor conhecendo o final de ambas as histórias: em Poe, a vítima é emparedada viva e, em Machado, a vítima é esganada. Entretanto, a partir de uma leitura de segundo nível, que é o que se espera do sujeito-leitor, percebe-se que os enunciados possuem outras significações que vão além dos sentidos aparentes. Os textos são perpassados por situações repletas de ironia, sarcasmo e deboche. Através de um jogo de palavras extremamente bem articulado, Edgar Allan Poe e Machado de Assis transformam textos de suspense em textos com uma certa dose de humor, que somente uma leitura de segundo nível é capaz de perceber.
O primeiro indício de deboche e ironia diz respeito aos nomes das personagens que acabam mortas: Fortunato, em Poe e Felisberto, em Machado. A vítima do conto de Poe, de fortuna não tem nada. Muito pelo contrário; o destino lhe reserva para breve um grande infortúnio: ser emparedado vivo. Da mesma forma, a ironia é utilizada por Machado, pois a felicidade passa longe da vida do coronel Felisberto. Ironia pura de Edgar Allan Poe que, trinta e oito anos mais tarde, recebe uma nova roupagem através da hábil pena de Machado de Assis.
Os narradores-personagens de ambos os contos vivem o mesmo drama: são humilhados e suportam, até não poder mais, as ofensas que lhes são dirigidas. Em Poe, já no início do conto, o leitor fica sabendo de tal situação: "Suportara eu, enquanto possível, as mil ofensas de Fortunato. Mas quando se aventurou ele a insultar-me, jurei vingar-me" 15. Em "O Enfermeiro", de Machado, o mesmo sentimento é revelado através das seguintes palavras do narrador: "[...] deleitava-se com a dor e a humilhação dos outros. No fim de três meses estava farto de o aturar [...] trazia dentro de mim um fermento de ódio e aversão" 16. A partir dessas declarações, uma série de acontecimentos é desencadeada, a fim de que ambos dêem um basta às situações de menosprezo pelas quais, até então, haviam sofrido. No desfecho dessas ações é que a ironia se encontra dissimulada, como, por exemplo, no encontro do narrador com sua vítima, em "O Barril de Amontillado".
Foi ao escurecer duma tarde, durante o supremo delírio carnavalesco, que encontrei meu amigo. Abordou-me, com excessivo ardor, pois já estava bastante bebido. Estava fantasiado com um traje apertado e listado, trazendo na cabeça uma carapuça cônica cheia de guizos. Tão contente fiquei ao vê-lo que quase não largava de apertar-lhe a mão. 17
Não há dúvida de que, somente uma leitura de segundo nível é capaz de alcançar o sentimento de deboche que está por trás das palavras do narrador. Num primeiro momento, poder-se-ia dizer que Poe apenas descreve o encontro do narrador-personagem com o amigo Fortunato. Mas, ao atingir o segundo nível de leitura do enunciado em questão, torna-se transparente a ironia do escritor. A felicidade do encontro só ocorre em razão da possibilidade iminente de execução da vingança. Como se não bastasse, Poe, ironicamente, veste Fortunato, que se encontra em pleno carnaval, com um traje de bobo da corte, ridicularizando-o e insinuando que ele será enganado pelo narrador fazendo jus à sua fantasia.
Outro momento do conto que comprova a presença da ironia nas entrelinhas de Edgar Allan Poe é a passagem em que o narrador oferece a Fortunato, na tentativa de embriagá-lo por completo, mais um gole da bebida:
Um gole deste Médoc nos defenderá da umidade.
[...] - Beba - disse eu, apresentando-lhe o vinho.
[...] Bebo pelos defuntos que repousam em torno de nós - disse ele.
- E eu para que você viva muito. 18
São sarcásticas as últimas palavras do narrador, referindo-se a Fortunato, uma vez que, dentro de pouco tempo, daria fim ao suposto amigo.
No caso de Machado de Assis, a ironia é a alma do conto, na medida em que o coronel faz do enfermeiro, que é seu provável assassino, seu herdeiro universal. A situação torna-se cômica, uma vez que o rapaz, que supostamente o matara, é agraciado com sua fortuna. Somente uma leitura de segundo nível, que venha preencher os espaços deixados por Machado, é que vai desvelar o tom sarcástico desta situação e, por conseqüência, a verdade dos fatos.
A partir do irônico destino do narrador, o conto machadiano convida o leitor a desvendar os verdadeiros projetos do enfermeiro. Durante toda a história, a primeira impressão é de que não fora intenção do enfermeiro matar o coronel. No entanto, o escritor dá pistas ao leitor de segundo nível, a fim de mostrar que o rapaz, nos seus mais íntimos pensamentos, talvez pudera sim ter desejado a morte do doente. Um exemplo disso é a ciência do enfermeiro com relação ao testamento do velho coronel; também sua permanência na casa, por tanto tempo, mesmo não tendo nada que realmente o prendesse por lá. Seriam os pedidos do vigário razões tão fortes para ficar?
Inscrevendo tal destino ao enfermeiro e pautando suas falas por enunciados não menos irônicos e debochados, tais como "Achei-o na varanda da casa estirado numa cadeira, bufando muito. Não me recebeu mal. Começou por não dizer nada" 19, e também
Eu, com o tempo, fui calejando, e não dava mais por nada; era burro, camelo, pedaço d'asno, idiota, moleirão, era tudo. Nem, ao menos, havia mais gente que recolhesse uma parte desses nomes. [...] era eu sozinho para um dicionário inteiro 20,
Machado de Assis, bem como Edgar Allan Poe, presenteia o leitor - de segundo nível - com um texto plurissignificativo, cujas duplas mensagens são construídas através do uso da ironia, do deboche e do sarcasmo, sendo essas as formas mais inteligentes e brilhantes de manifestação do humor.
Há muitas outras passagens dos contos aqui confrontados que mereceriam ser contempladas, mas, por certo, extrapolariam os limites deste estudo. Assim sendo, com as idéias acima expostas, acredita-se estar cumprida a proposta deste breve trabalho, na medida em que foi possível apontar o humor presente nas entrelinhas dos contos de Edgar Allan Poe e de Machado de Assis. Sabe-se, até agora, que esse humor ou humour existe e que se apresenta sob a forma de ironia, de deboche e de sarcasmo. Conclui-se, também, que, para a leitura desse humor, é imprescindível que o leitor interaja com o texto, tornando prováveis as prerrogativas de Umberto Eco, que dizem respeito às leituras de segundo nível e à idéia de escritor-modelo.
Fazer uma releitura dos contos de Poe e Machado sob o viés do humor, nas suas variadas manifestações é o que se busca, oferecendo ao leitor uma nova possibilidade de leitura para a obra desses dois ícones da literatura mundial. Este é um primeiro, mas importante passo para que a faceta humorística nos contos de Edgar Allan Poe e de Machado de Assis seja re-conhecida com a amplitude e o alcance que uma leitura contemporânea oferece.
PERIZZOLO, Gabriela Brun. O humor em Edgar Allan Poe: A Narrativa de Arthur Gordon Pym. São Leopoldo: UNISINOS, 2003. 75 p. Trabalho de conclusão de curso. Neste estudo, o romance que dá título à pesquisa - apesar de não ser classificado como humorístico - revela, nas suas entrelinhas, significativa presença de humor.
INSTITUTO Antônio Houaiss de Lexicografia. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa [CD-ROM]. Rio de Janeiro : Objetiva, 2001.
MAIA, Alcides. Machado de Assis . Rio de Janeiro: Jacintho Silva, 1912. 170 p.
HAAKON apud MUECKE, D. C. Ironia e o Irônico . 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1995.
INSTITUTO Antônio Houaiss de Lexicografia. Op. cit.
ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção . São Paulo: Companhia das Letras, 1994. 158 p.
ECO, Umberto. Sobre a literatura . Rio de Janeiro: Record, 2003. 305 p.
EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução . 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. 348 p.
POE, Edgar Allan. O barril de amontillado. Ficção completa, poesia & ensaios . Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1965. 1022 p.
ASSIS, Machado de. O enfermeiro. Contos: uma antologia . Seleção, introdução e notas de John Gledson. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 2v.