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Travessia da personagem machadiana: do conto ao romance
Cecil Jeanine Albert Zinani (UCS)

A apropriação dos bens culturais com o entrecruzamento de vozes constitui uma rede que possibilita o diálogo constante entre os diversos textos, estabelecendo a ampliação das produções discursivas. Dentro dessa perspectiva, a discussão da intertextualidade na obra literária torna-se um elemento produtivo para promover a constituição do sentido. Nessa perspectiva, destaca-se a obra de Machado de Assis, uma vez que estabelece uma interlocução significativa não só entre suas obras e clássicos da literatura ocidental como também entre obras de sua própria autoria. Essa vinculação ocorre através do trânsito de personagens de uma narrativa para outra, ou de temáticas e motivos recorrentes. Outra possibilidade de interlocução consiste em esboçar a personagem em uma obra, geralmente conto, e recuperá-la posteriormente em um romance, como é o caso de Flora, personagem de Esaú a Jacó , publicado em 1904, decalcado em Maria Regina, personagem do conto "Trio em lá menor", publicado na obra Várias histórias, em 1886.

Considerando a perspectiva da intertextualidade, o presente estudo pretende investigar em que medida os traços que vão compor a personagem Guiomar, do romance A mão e a luva, publicado em 1874, já se encontram presentes, embora em estado embrionário, na personagem Rosina, do conto "Ernesto de tal", publicado em 1873, na obra Histórias da meia-noite. .

A noção de intertextualidade liga-se à tradição literária, na medida em que o novo texto sempre está em relação com aqueles que já foram produzidos, através da incorporação de elementos formais ou de conteúdo. Assim, os textos machadianos "Ernesto de tal" e A mão e a luva podem ser enquadrados no que Genette 1 qualifica como hipertexto autográfico, ou seja, são duas versões produzidas pelo mesmo autor, muito embora não se trate de paródia, disfarce ou pasticho, gêneros nos quais esse caso não se enquadra.

Ao analisar o processo de convergência entre os clichês da época e as novas fórmulas propostas por Machado de Assis, nos dois primeiros livros de contos, Bosi 2 afirma que "a maior angústia, oculta ou patente, de certas personagens é determinada pelo horizonte de status; horizonte que ora se aproxima, ora se furta à mira do sujeito que vive uma condição fundamental de carência". As ações saneadoras do estado de carência inicial são direcionadas no sentido da obtenção de um patrimônio, o que somente pode ser atingido através do matrimônio que constituirá o equilíbrio final. São essas as situações básicas que constituem o objeto de análise tanto do conto "Ernesto de tal" como do romance A mão e a luva .

Tanto o conto como o romance giram em torno de peripécias amorosas, cujo fim último é o casamento. Na inconveniência de a mulher exercer qualquer atividade relacionada à sobrevivência, fica na dependência de um casamento que lhe possibilite não só o sustento como também a oportunidade de sucesso financeiro e realização social. A partir dessa visão, o casamento passa a se constituir na única "profissão" possível para a mulher do século XIX, daí, o empenho não só em casar, mas fazê-lo da melhor maneira possível.

"Ernesto de tal" é um dos seis contos escolhidos pelo autor para integrar o volume Histórias da meia-noite 3, publicado em 1873. O conto tem como protagonistas Rosina e seus dois pretendentes: Ernesto e o rapaz do nariz comprido. O intuito da jovem é casar o melhor possível, por isso dá atenção a todos quantos se disponham a cortejá-la, o que desespera o jovem Ernesto.

Rosina mora com a família do tio, o Sr. Vieira, que não dispõe de muitas posses, no entanto a moça aprecia o luxo, as boas roupas, os espetáculos. A modalidade de superar essas carências, portanto, é casar. Dessa maneira, não descarta nenhum admirador, pois "o melhor deles podia falhar, e havia para ela uma coisa pior que casar mal, que era não casar absolutamente". (ET p. 142) 4. Assim, seguindo fielmente o seu programa, conserva as esperanças dos pretendentes habituais. Ernesto não constitui um bom partido, já que ocupa um emprego subalterno no arsenal de guerra. A sua situação social e financeira evidencia-se a partir da impossibilidade de adquirir uma casaca, o que o impede de ir à festa na casa de Vieira, no entanto Rosina, embora o considere um palerma, preserva-o nas imediações para qualquer emergência.

Na festa, Rosina insinua-se ao rapaz de nariz comprido que, além de casaca, tem um sólido emprego numa casa comercial. A escolha é referendada pelo tio da moça: "era quase certo para o Sr. Vieira que nele [rapaz do nariz comprido] se preparava novo sobrinho, e acertando de ser este um homem do comércio, não podia haver, na opinião do tio, mais feliz escolha" (ET p.149).

O jogo duplo de Rosina consegue ludibriar ambos os namorados durante algum tempo. Quando descobrem que estão sendo enganados, rompem com a moça, através de cartas com teor idêntico. A situação torna-se aflitiva, pois, com a assiduidade desses pretendentes, ela se havia descurado dos demais. Porém, como seu objetivo é, efetivamente, casar, trata de reatar com Ernesto, cujo espírito ingênuo e nada crítico possibilita a concretização do projeto da jovem.

Rosina, embora aja de modo vulgar, é uma moça com idéias claras e precisas sobre o que deseja da vida:

Rosina não era inteiramente avessa aos impulsos do coração e à filosofia do amor; mas tinha a ambição de figurar alguma coisa, morria por vestidos novos e espetáculos freqüentes, gostava enfim de viver à luz pública. Tudo isso podia dar-lhe, com o tempo, o rapaz do nariz comprido, que ela antevia já na direção da casa em que trabalhava; o Ernesto porém era difícil que passasse do lugar que tinha no arsenal e em todo caso não subiria muito nem depressa. (ET p.136).

 

Essas constatações evidenciam um espírito calculista e ambicioso que percebe que a realização de seus objetivos está atrelada à situação social e financeira do marido, assim, é imperioso casar com o homem adequado que possa lhe proporcionar o estilo de vida que deseja.

Guiomar, personagem de A mão e a luva 5, é órfã e está vivendo com a madrinha, uma rica baronesa que havia perdido sua única filha. Como a jovem é desprovida de meios para subsistir, resolve ser professora, freqüentando, então, um curso preparatório. Como o trabalho feminino não é revestido de dignidade, não sendo bem aceito pela sociedade, a jovem ruboriza-se ao enunciar sua decisão à madrinha. Uma vez que é uma pessoa que alia o espírito prático às necessidades da vida, ao tomar a decisão de ser professora, implicitamente, Guiomar já conta com a boa vontade da madrinha, que, certamente, não a deixará sofrer tal vexame.

Aos poucos, vai-se delineando um espírito forte e pragmático, pois, embora sabendo que o seu futuro está irremediavelmente ligado ao casamento, não se interessa pelo jovem advogado que está apaixonado por ela desde os tempos de colégio. Ainda que admitisse a paixão de Estevão, Guiomar vê nele pouca disposição para a luta, reconhecendo, intuitivamente, que Estevão não é o homem que possa lhe garantir a posição e o prestígio que julga merecer.

Questão mais complicada se coloca quando Guiomar recebe uma carta de outro pretendente, Jorge, sobrinho da baronesa, que o estima deveras. Se descartar Estevão fora fácil, o mesmo não ocorre com Jorge, pois a baronesa poderia ficar magoada com a recusa da moça: Até então, os prenúncios de um espírito calculista que estavam apenas insinuados pelo narrador afloram, evidenciando as tendências dominantes do caráter de Guiomar. A combatividade desse espírito desvela-se na manobra idealizada pela moça para livrar-se de Jorge sem desgostar a baronesa. Guiomar convencera a madrinha de passarem três ou quatro meses na roça, atendendo ao convite de um parente. A fim de dissuadi-las, Jorge recorre aos préstimos do vizinho Luís Alves, advogado da baronesa.

O cotejo entre os admiradores Jorge e Estevão corrobora ainda mais o espírito da moça. Estevão era sentimental, leviano, ingênuo, superficial, inseguro, porém sincero. Para Guiomar, Jorge é ridículo, fraco de caráter, egoísta e presunçoso. Mais adiante, em nova avaliação, ela reitera a visão negativa que tem dos pretendentes: "...ela sentia que Estevão pertencia à falange dos tíbios, Jorge à tribo dos incapazes, duas classes de homens que não tinham com ela nenhuma afinidade eletiva" (ML pp. 167-168), conseqüentemente, eles não podem proporcionar a Guiomar a realização de seu projeto de vida, que não inclui apenas o amor, porém esse sentimento associado à prosperidade, ao sucesso social. Assim:

Pedia amor, mas não o quisera fruir na vida obscura; a maior das felicidades da terra seria para ela o máximo dos infortúnios se lha pusessem num ermo. Criança, iam-lhe os olhos com as sedas e as jóias das mulheres que via na chácara contígua ao pobre quintal de sua mãe; moça iam-lhe do mesmo modo com o espetáculo brilhante das grandezas sociais. Ela queria um homem que, ao pé de um coração juvenil e capaz de amar, sentisse dentro de si uma força bastante para subi-la aonde a vissem todos os olhos. (ML pp. 168-169).

 

Luís Alves, até então apenas vizinho da baronesa e confidente de Estevão, avulta como personagem significativa. Possuidor de aguçada perspicácia, ao analisar Guiomar, percebe que ela é uma pessoa ambiciosa. Ambicioso também é o coração de Luís Alves, além disso, é frio e resoluto, combinando perfeitamente com a índole de Guiomar.

Espíritos afins, era natural que se aproximassem. Finalmente Guiomar encontra a pessoa certa, aquela que irá realizar seus sonhos de menina, primeiramente, quando observava as jóias e as roupas luxuosas das moças que freqüentavam a chácara vizinha ao pobre quintal de sua casa, depois de adulta, ao perceber os meandros da vida social. Efetivamente, Luís Alves é o homem que pode tornar realidade o projeto de vida de Guiomar. Ambiciosos e calculistas, um dispõe daquilo de que o outro necessita, assim, Guiomar oferece as qualidades de uma mulher refinada que vão ornar a vida do político, e Luís Alves detém as condições financeiras e sociais que possibilitam a realização plena dos sonhos de ascensão financeira e social de Guiomar.

Existem semelhanças significativas entre Rosina e Guiomar: ambas são ambiciosas, calculistas, têm como meta realizar o melhor casamento possível e submetem os sentimentos às contingências de seu projeto de vida. Guiomar não é, absolutamente, a cópia fiel de Rosina, mas pode ser considerada como um modelo aperfeiçoado a partir de um esboço inicial. Dessa maneira, é relevante examinar as modificações que a tosca Rosina sofreu, a fim de se tornar a refinada Guiomar.

Em relação à aparência, Rosina é descrita como uma moça baixinha, viva e travessa, cujos olhos "são espertinhos e caçadores, e com um certo movimento que ela lhes dá, ficam ainda mais caçadores e espertinhos" (ET p. 131). Guiomar é detentora de um perfil "correto e puro, como de escultura antiga" (ML p. 37), os olhos eram grandes e castanhos, "meio velados pelas longas, finas e bastas pestanas, não maviosos nem quebrados [...], mas de uma beleza severa, casta e fria. Valia a pena admirar como eles comunicavam a todo o rosto e a toda a figura um ar de majestade tranqüila e senhora de si". (ML p. 40). Percebe-se, assim, que a personagem feminina modifica-se a partir do próprio físico, embora ambas tenham boa aparência, Rosina apresenta uma beleza vulgar, ordinária, como sua visão de mundo (não passa de uma namoradeira); enquanto Guiomar é possuidora de uma aparência nobre, cuja perfeição transcende os traços físicos, refletindo personalidade e educação refinada.

Tanto Rosina quanto Guiomar são muito pobres e vivem com parentes. Porém há uma diferença significativa nos ambientes em que ambas residem. Rosina (não há menção à sua escolaridade) mora numa rua de subúrbio com um tio, funcionário público de poucas posses, enquanto Guiomar tem seus estudos custeados pela madrinha, uma rica baronesa, que, depois de perder a filha, acaba por adotá-la, residindo ambas, mais a governanta, numa bela chácara. A questão da escolaridade apresenta-se como um diferencial significativo, embora não necessariamente positivo, pois, para Guiomar, a formação pode abrir uma perspectiva de sobrevivência no futuro, enquanto Rosina não se preocupa com esse aspecto. Tornar-se professora não agrada Guiomar, ainda mais que o exercício de qualquer atividade profissional pela mulher era, na época, considerado um desprestígio. No entanto, a educação esmerada que a madrinha lhe proporciona provê a jovem do refinamento e da sofisticação de que Rosina é desprovida. Além disso, Guiomar toca piano o que não deixa de ser indicador de educação esmerada.

Tanto Rosina como Guiomar prezam o luxo, as roupas, o brilho social. Rosina, juntamente com um marido, deseja uma vida social que lhe possibilite brilhar, aparecer em espetáculos, enfim, "...figurar alguma coisa [...] viver à luz pública" (ET p. 136). Essa tendência já se encontra presente em Guiomar menina: "Naquela tarde [...], [Guiomar] viu repentinamente aparecer-lhe diante, a cinco ou seis passos do lugar em que estava, um rancho de moças, todas bonitas, que arrastavam por entre as árvores os seus vestidos, e faziam luzir os últimos raios do sol poente as jóias que as enfeitavam" (ML p. 63). Com mais idade, o pendor para o estrelato somente se acentuou. Essa vocação, inicialmente de Rosina, é burilada de tal sorte que acaba por tornar-se uma espécie de segunda natureza em Guiomar

Outro aspecto interessante é a abordagem da problemática da ambição em ambas as personagens. Essa tendência orienta os relacionamentos amorosos tanto de Rosina como de Guiomar. A fim de poder alcançar seus objetivos, Rosina se aproxima do rapaz de nariz comprido, enganando Ernesto que não percebe as manobras da jovem, namorando os dois simultaneamente. Enquanto isso, Guiomar descarta, sucessivamente, Estevão e Jorge. Como o encaminhamento do problema é diferente, a solução também será: ao ser abandonada por ambos os namorados, Rosina, fiel a seu projeto, trata de reatar com Ernesto, que, embora fosse o candidato com menor potencial financeiro, seria o único a aceitar as desculpas da moça, pois, como ela mesma diz, ele é "um palerma" (ET p. 138). Guiomar, por ser mais inteligente, educada e ter mais estilo, aceita a corte de Luís Alves, aquele que detém as condições que preenchem as aspirações da jovem, ou seja, é ambicioso como ela, e com força bastante "para subi-la aonde a vissem todos os olhos" (ML p. 169).

Para Bosi 6, o nível de consciência de cunho ideológico da obra machadiana aponta para situações ancoradas no instinto de conservação, justificando-se, assim, as chamadas instituições cardiais, primeiramente Matrimônio e Patrimônio, acrescidas, posteriormente de Adultério e Logro. Tanto Rosina quanto Guiomar apresentam uma situação de carência, visto que são originárias de um estrato social inferior, assim, necessitam de um patrimônio que lhes garanta a sobrevivência futura em um nível superior ao que detêm pelo nascimento. Para garanti-la, é imprescindível realizar um bom matrimônio. A partir dessa constatação, cada uma formula seu projeto de vida em que o sentimento amoroso está atrelado ao cálculo para atingir os objetivos estabelecidos. Embora as ações sejam diferentes, o mesmo espírito determinado direciona as ações de Rosina e Guiomar. Enquanto a primeira organiza o horário para atender aos dois namorados, a segunda planeja a maneira de livrar-se de um namorado que não lhe interessa.

Outro aspecto interessante é a modalidade como os pretendentes dirigem-se a ambas as jovens. O rapaz do nariz comprido afirma que "Rosina não só era a flor do baile, mas também a flor da rua do Conde, e não só da rua do Conde, mas também a flor da cidade inteira" (ET p. 135). Ernesto costuma dizer-lhe as mesmas coisas. A moça ouve "derretida e envergonhada, entre vaidosa e modesta" (id. ib.). No tratamento dispensado a Rosina, evidencia-se a vulgaridade do cumprimento, o que está em conformidade com a situação social da própria personagem.

Luís Alves, depois de ter percebido o jogo de Guiomar para se afastar de Jorge, afirma: "Oxalá não lhe faça esse exílio esquecer o que solenemente lhe digo nesse momento: que a senhora tem uma alma grande e nobre, e que eu a admiro" (ML p. 162). O efeito não é menos devastador. A situação é basicamente a mesma, o que as singulariza é a diferença de nível ente as personagens. Uma vez que Rosina é uma pessoa simplória, os galanteios também precisam ser vulgares. Já para atingir o mesmo efeito em Guiomar, pessoa com refinamento e sofisticação, o galanteio precisa ser inteligente, original, que possa ativar o espírito reflexivo.

A reação de Rosina, ao perceber que fora abandonada pelos dois namorados foi semelhante à de Guiomar, quando Jorge a pede em casamento diretamente à baronesa. Rosina chora de raiva, e s sentimentos de Guiomar são despeito e humilhação. Para ambas resta um último recurso. Rosina escreve uma carta a Ernesto nos seguintes termos: "Ainda uma vez curvo-me às tuas injustiças. Estou cansada de chorar. Não posso mais viver debaixo da ação de uma calúnia. Vem ou morro!" (ET p. 160). Guiomar atira para Luís Alves uma folha de papel dobrada em que está escrita apenas uma palavra: "Peça-me" (ML p. 209). Vontade e ambição, aliadas a um espírito frio e calculista, conduzem as ações de modo a realizar o projeto de vida de ambas as personagens. Rosina casa-se com Ernesto que, "moral e conjugalmente falando, [era] o gato possível de Rosina,[...] que convinha ter à mão" (ET p. 143). Ao perceber a tristeza da madrinha sobre a preferência de Guiomar por Luís Alves, esta diz que escolhe Jorge, para que "a madrinha conferisse, por si mesma, a tradução com o original. Havia nisto um pouco de meio indireto, de tática de afetação, estou quase a dizer de hipocrisia..." (ML p. 227). Os pressupostos que orientam ambas as ações são os mesmos: interesse e ambição. A diferença consiste na maior sutileza de Guiomar para obter o efeito desejado, pois quer mostrar à madrinha, de modo inequívoco, que está disposta a sacrificar-se por ela; porém, fá-lo com tamanha astúcia que a baronesa jamais poderá aceitar o seu sacrifício.

Ainda sobre as cartas, seria oportuna mais uma reflexão. Rosina escreve de forma derramada, demonstrando um sentimento que está longe de sentir; Guiomar escreve apenas uma palavra e, mesmo depois de ter enviado a missiva, arrepende-se: "a dignidade teve remorsos" (ML p. 214). Parece que a dignidade é um dos diferenciais significativos entre as personagens, muito embora essa dignidade seja apenas aparência, destituída de ética. Em momento algum essa característica aparece associada a Rosina, no entanto, perpassa o texto inteiro quando se refere a Guiomar, demonstrando que houve uma modificação significativa no perfil da personagem. Quando colocadas em situação limite, a atuação de ambas é direcionada por sua inteligência e educação. No entanto, no íntimo, os sentimentos são exatamente os mesmos: ambição e cálculo.

Assim, embora as diferenças entre as personagens sejam significativas, parece que estão mais relacionadas ao grau que à natureza. As duas narrativas podem ser esquematizadas de modo similar: ambas as jovens provêm de uma situação de carência, são pobres e precisam resolver sua vida. As ações saneadoras são orientadas no sentido da obtenção de patrimônio, assim a realização de um bom casamento resolve a situação inicial. Dessa maneira é atingido o equilíbrio final: as moças casam e têm seu futuro assegurado. Além do mais, conseguem obter não só as roupas e as jóias desejadas, mas também a presença efetiva que tanto almejam na sociedade.

Ao utilizar a mesma matriz para as personagens do conto e do romance, Machado de Assis estabelece uma relação de intertextualidade na qual o romance se constitui no intertexto. Quando se apropria da personagem do conto, transformando-a e aperfeiçoando-a para figurar no romance, o autor institui uma interlocução que vai se repetir em outras situações, promovendo, no leitor, a reflexão sobre o aspecto cíclico da própria condição humana.

 

 

GENETTE, G . Palimpsestes. Paris: Seuil, 1982 .

BOSI, A. Machado de Assis: o enigma do olhar. São Paulo: Ática, 1999, pp 75-76.

ASSIS, J. M. Machado de. Histórias da meia-noite. São Paulo: Jackson, 1962.

Op. cit.Como todas as citações foram retiradas da mesma obra, segue-se apenas a indicação do número da página antecedido da sigla ET entre parênteses.

ASSIS, J. M. Machado de. A mão e a luva. São Paulo: Jackson, 1962. As citações referentes a essa obra serão indicadas apenas pelo número da página, antecedido pela sigla ML.

BOSI, A. Op. cit., p. 124.