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O exílio na modernidade: nostalgia e assimilação em Hiob, de Joseph Roth
Luis S. Krausz (USP)
A prosa romancesca judaica surge na Europa em função de um fenômeno que é, justamente, aquele que esta literatura se propõe a retratar: o desaparecimento das formas tradicionais de vida nas aldeias do Leste europeu e o confronto de suas populações com a modernidade - seja este nas grandes cidades como Varsóvia ou Odessa; seja este nas metrópoles de língua alemã, como Viena e Berlim, onde judeus do Leste ( Ostjuden ) passariam a se estabelecer a partir da segunda metade do século 19; seja este, ainda, na Goldene Medine - a América, a pátria dourada dos sonhos de uma população perseguida, empobrecida e amargurada.
Neste sentido, a travessia que esta literatura retrata e descreve é, também, o fenômeno que provocou o seu próprio surgimento. Embora a tradição judaica esteja, talvez mais do que qualquer outra, fundamentada na literatura, formas como a prosa de ficção e o romance não faziam parte, até então, de uma tradição cultural baseada, em primeira instância, nos livros sagrados da Bíblia e, em segundo lugar, no volumoso legado dos comentários, das lendas, dos tratados filosóficos, morais e metafísicos. Uma literatura que retrata o mundo à sua volta, as pessoas comuns, com suas baixezas e sua sublimidade, e que se fundamenta na imaginação e na observação individual, só começa a surgir na medida em que os judeus passam a integrar-se como iguais ou como potencialmente iguais nas sociedades urbanas e industrializadas da Europa e logo da América, deixando para trás formas de vida sedimentadas pelos séculos, impregnadas de modos e de costumes que remontam à Idade Média.
Os conflitos entre o mundo moderno e os conteúdos tradicionais da vida judaica, assim como as tentativas de se transpor para as novas formas de vida os antigos conteúdos da existência judaica, são, portanto, o assunto central desta literatura, que floresceu em diversos idiomas: além do ídiche, o alemão, o russo e o inglês, para citar apenas as principais. A transposição do judeu e do judaísmo para a modernidade é, assim, ponto de partida tanto da moderna literatura judaica como o assunto da maior parte de seus livros.
O sucesso desta transposição judaica será, necessariamente, parcial, já que as condições de vida nos novos tempos e no novo mundo diferem, radicalmente, daquelas dos lugares onde a identidade cultural judaica se sedimentara como uma tradição cultural sólida, imobilista, com tendências à estagnação. As mudanças geradas pelos novos ambientes provocaram um surto de criatividade judaica e, numa cultura fundamentada na escrita e no estudo do texto, não surpreende que a literatura fosse um dos canais principais para a expressão desta criatividade.
No universo das letras judaicas dos séculos 19 e 20 despontou um grande número de autores que, grosso modo, poderiam ser primeiramente divididos em duas categorias: os de expressão ídiche e os de expressão alemã. Se dentre os primeiros o mundo que ficou para trás e a vida de seus personagens no novo ambiente urbano são os temas centrais, numa prosódia em que a ironia, a crítica, mas também a nostalgia, são presença constante, dentre os autores judeus de língua alemã o que prevalece é o olhar crítico, seja ele sobre o universo fundamentado em superstições e crenças "ultrapassadas", seja ele sobre a desumanização das sociedades ditas modernas. Karl Emil Franzos, por exemplo, que nasceu em 1848 na Bukovina, dedicou sua carreira literária a descrever, em alemão, os sofrimentos de judeus sufocados por doutrinas religiosas rígidas e imobilistas, que não deixam espaço para a humanidade e para a espontaneidade dos sentimentos individuais, bem como a catastrófica intolerância dos seus vizinhos cristãos. Representante do ideário iluminista e humanista da Haskalá , ele toma o partido da modernidade e da modernização, e volta as costas, sem nostalgia, para o universo do Shtetl , retratado como retrógrado, impregnado de preconceitos infundados, opressivo e desumano. Já Alfred Döblin, que escreveria cinco ou seis décadas depois de Franzos, faz em Berlin Alexanderplatz uma das mais demolidoras e abrangentes críticas das sociedades modernas e das possibilidades de vida por elas oferecidas.
Joseph Roth (1894-1939) é, nas categorias acima postuladas, uma exceção. Nascido em Brody, na Galícia, uma pequena cidade da fronteira oriental do Império Austro-Húngaro, a pouca distância da fronteira com o Império Russo, ele desde jovem elegeu como afinidade primeira a cultura alemã e o círculo literário vienense. Embora o polonês e o ídiche fossem línguas correntes em Brody, cidade onde os judeus foram 80% da população, Roth sempre foi um dedicado aluno do ginásio alemão da cidade e seu sonho de estudar letras em Viena concretizou-se em 1913, pouco antes do início da 1ª. Guerra Mundial. Sua adoção incondicional do idioma alemão - do qual, aliás, ele viria a ser um dos maiores estilistas do século 20, decorre de um ato deliberado. Se amigo de juventude e colega de estudos Josef Wittlin, (1896-1976), por exemplo, tornou-se poeta e escritor de língua polonesa. Desde a adolescência, Roth via-se como "assimilante", cujo desejo máximo era integrar-se ao florescente universo da cultura literária vienense, conforme demonstra David Bronsen em sua biografia sobre o autor. 1Desde a juventude, portanto, ele foi um apaixonado por um mundo em declínio: a cultura do centro do Império Habsburgico, que se desvaneceria no ar justamente no instante em que Roth estava a ponto de abraçá-lo: Roth chegou a Viena para estudar Letras às vésperas da 1ª. Guerra Mundial, que sepultaria para sempre um império multicultural, multilingüístico e multi-religioso, que descendia diretamente do Sacro Império Romano-Germânico. A nostalgia pela Übernation austro-húngara alcançaria, na vida e na obra de Roth, uma dimensão quase patológica. Seu longo hino ao crepúsculo do império, Radetzkymarsch , de 1934, pode ser visto como a sublimação de uma travessia que Roth não pode completar, do Shtetl para a Viena de seus sonhos, que a 1ª. Guerra Mundial destruiria para sempre.
Neste sentido, existe uma grande proximidade e afinidade espiritual entre Roth e o Stefan Zweig de Die Welt Von Gestern ( O Mundo que eu vi ), livro de memórias em que Zweig dá voz à sua nostalgia pela "época áurea da segurança" ( Das goldene Zeitalter der Sicherheit ). A afinidade e a empatia entre Zweig, que se suicidou no Brasil em 1942 e Roth, que morreu em Paris em 1939, levou o primeiro a recomendar à sua ex-mulher Friederike, na carta que lhe escreveu antes de ingerir uma dose fatal de soporífero, que mantivesse viva a memória de Roth.
Soldado no exército do Kaiser de 1916 a 1918, prisioneiro de guerra na Sibéria por seis meses depois do término da Guerra, desempregado numa cidade depauperada, deprimida e corroída pela inflação, Roth passaria a trabalhar como jornalista em Berlim e em Frankfurt, que representavam, para ele, o paroxismo do exílio, já que significavam tanto o afastamento (desejado) de sua terra natal, que ele via como retrógrada e opressiva, quanto o afastamento da Viena de seus sonhos, que a história encarregou-se de destruir.
O olhar crítico sobre o mundo que o cercava, pressuposto básico de um autor de Feuilleton , o gênero de reportagem crítica a que Roth se dedicava, era-lhe, portanto perfeitamente natural. A primeira parte da carreira de Roth, marcada por um grande sucesso profissional, traz romances que registram o desenraizamento e a desumanização na modernidade - como Hotel Savoy e Die Flucht ohne Ende .
Interessa-nos, porém, um momento de virada na trajetória de Roth, em que ele se volta não mais com olhos críticos para a modernidade laica do pós-guerra, mas com nostalgia e com paixão para o mundo judaico do leste europeu, que ficara sob domínio das novas nações que emergiram com o desmanche do Império Austro-Húngaro, ou sob o domínio da Rússia de Stálin.
Este é o momento de maior sucesso literário de Roth, em que surge Hiob , seu romance de maior alcance, publicado pela primeira vez em 1930 e imediatamente traduzido para várias línguas - inlcusive o português.
Hiob é um romance que, por sua temática, pertence ao mesmo universo das grandes obras da literatura ídiche, povoado por textos de autores como Mêndele, I. L. Peretz, Scholem Aleichem e Bashevis Singer. Assim como o fazem estes autores, Roth, o escritor judeu de língua alemã, o crítico social e político que convivia com Siegfried Kracauer, passa a olhar para a vida no Shtetl , na aldeia judaica do Leste europeu, e para as aporias dos migrantes ou imigrantes nas grandes cidades.
O interesse de Roth por este universo, cujo fim ele já pressente, foi despertado por seu contato com os emigrantes judeus que, cada vez em maior número, deixavam suas terras de origem e buscavam, no ocidente, um futuro melhor - seja na Alemanha, seja nos Estados Unidos. O desmantelamento do judaísmo leste-europeu teve início muito antes do Holocausto e foi por pressenti-lo que Roth passou a interessar-se pelo mundo que desprezara em sua juventude. Seu contato com refugiados judeus em todos os lugares por onde viajava como jornalista, juntamente com suas memórias de infância, levou-o a criar os mais judeus de todos os seus personagens: Mendel Singer, sua mulher e seus filhos, os protagonistas de Hiob .
Ao longo de toda a década de 20, Roth descreveria, em reportagens, aspectos da vida dos migrantes judeus do Leste no Scheunenviertel , bairro berlinense em que estes imigrantes se estabeleceram, que muitas vezes chegavam sem documentos, em busca de refúgio e de segurança, já que a Alemanha representava, então, para os judeus do Leste europeu, segurança, civilização e respeito aos direitos humanos.
Hiob é m romance de emigração. Trata de uma família de judeus que, na década de 1910, pouco antes da 1ª. Guerra Mundial, deixa a aldeia de Zuchnow, no império do Czar, e parte para a América. Há um porém: eles deixam para trás, sob os cuidados de conhecidos, seu filho caçula Menuchim - retardado, esquálido, incapaz, pois a Menuchim não deixariam passar os rigorosos fiscais de saúde que controlavam a entrada de imigrantes na América.
Este filho doente, sobre quem, no entanto, paira uma profecia de que "ele se tornará como poucos dentre o povo de Israel", passa, assim, a simbolizar tudo o que os judeus do Leste têm de deixar para trás para se ajustarem ao ritmo frenético e mecânico da sociedade dos arranha-céus, onde não há lugar para a melancolia, o sentimentalismo, o convívio social ou a tradição espiritual.
Embora Roth nunca tenha visitado os Estados Unidos, Hiob é, em parte, ambientado no país dos arranha-céus, que ele sempre desprezou. A Amerika de Roth, assim como a de Kafka, é o paradigma do mundo moderno, frenético, materialista e industrializado, e para os seus personagens, o universo do totalmente outro, do Unheimlich , para citar uma categoria freudiana, com o qual milhões de imigrantes como Mendel Singer, personagem cuja trajetória é retratada neste romance de 1930, tiveram que se entender.
Esta família de emigrantes, e principalmente o que tiveram que deixar para trás ao emigrar, é paradigmática da travessia judaica em direção ao ocidente. Neste sentido, Roth aproxima-se, aqui, dos escritores de língua ídiche, da primeira categoria citada acima. Da obra de Bashevis Singer, por exemplo, um verdadeiro cronista dos expatriados, sejam eles judeus do shtetl que se mudaram para Varsóvia ou judeus do Leste europeu em Nova York, o assunto central é a incapacidade que têm os migrantes de se adaptarem às novas circunstâncias sem perderem de vista a sua identidade. Uma incompreensão essencial do mundo que habitam permeia as trajetórias dos personagens de Singer. Assim é também com Mendel Singer, o personagem central do Hiob de Roth. Um mundo que é regido por ideologias estranhas, pelas quimeras da prosperidade material, é um mundo que se desfez sob os pés de seus moradores, os "judeus inteiramente comuns" aos quais Roth se refere no prólogo deste romance.
Mendel Singer, da cidadezinha de Zuchnow, é apresentado ao leitor como " fromm, gottesfürchtig und gewöhnlich, ein ganz alltäglicher Jude " (obediente, temente a Deus e comum, um judeu inteiramente convencional). Mendel Singer, de Zuchnow, é um judeu como qualquer outro dos tempos de Roth, que na América virá a sofrer a perda de tudo o que era seu, assim como o Jó bíblico: sua mulher, seus dois filhos mais velhos, sua filha.
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O exílio, portanto, o estranhamento e a nostalgia, a impossibilidade de chegar a termo com as novas circunstâncias sem deixar de ser o que se é - eis a temática em torno da qual gravita este romance, que é expressão da quintessência da literatura judaica européia, mas também um exemplo da cristalinidade e limpeza da prosa alemã de seu autor, considerado por críticos como Marcel Reich-Ranicki como um dos maiores estilistas de língua alemã da primeira metade do século 20.
No caso dos personagens aqui descritos por Roth - aliás também no caso do próprio Roth - não se trata simplesmente de um exílio geográfico que tem início no momento em que determinado grupo de pessoas é obrigado, por seja lá quais forem as circunstâncias, a abandonar uma localidade em que residiam e mudar-se para outra, a milhares de quilômetros de distância. Trata-se de um exílio cuja origem se encontra na decadência de uma forma de vida e de uma visão de mundo.
Brody, a cidade na Galicia, província oriental do Império Austro-Húngaro, na qual Roth nasceu, era, na segunda metade do século 19, um dos grandes centros da Haskalá ou do Iluminismo Judaico, movimento que tem sua origem na Alemanha, com o pensamento de Moses Mendelssohn e que se espalhou, a partir de lá, pelo Leste europeu.
A desintegração da vida judaica do Leste europeu, assim, começou com a expansão do iluminismo judaico, ou Haskalá , pelo território hoje ocupado por países como Polônia, Ucrânia, Romênia e Lituânia - então dividido entre os impérios russo e austro-húngaro.
A Haskalá pregava a secularização e a modernização dos costumes judaicos e, conseqüentemente, o abandono de tudo aquilo que era visto como superstições, doutrinas e práticas religiosas ultrapassadas, ou seja, o filho Menuchim, que ficou para trás. Tudo o que determinava a forma de vida de gente como Mendel Singer, o professor de Bíblia para crianças, personagem central de Hiob , passou a ser questionado na medida em que as novas formas da sociedade européia, assentada sobre os princípios do iluminismo, do capitalismo industrial e mais tarde da democracia, representaram a possibilidade de integração social mais efetiva dos judeus.
A adoção de novas formas de vida e de maneiras de pensar coerentes com as recentes conquistas tecnológicas e científicas - e com a urbanização da população judaica - derrubou o estilo de vida tradicional das aldeias, marcado pela obediência estrita a leis religiosas, que regulamentavam todos os âmbitos da vida, cujas origens remontam à Idade Média quando não aos tempos do exílio babilônico e da Bíblia.
Sobre a Haskalá Jacó Guinsburg escreve:
"Inspirada nas idéias que o iluminismo europeu semeou nos meios cuja atuação econômica e aspirações sociais os alistavam no movimento ascendente da ordem capitalista e os inscreviam na sociedade burguesa em expansão, essa corrente, que veio à luz primeiro na comunidade judaica alemã, mas cujas fontes dimanavam de toda a Diáspora ocidental, apresentou-se como um humanismo racionalista que pretendia libertar os judeus das trevas da "superstição e atraso" medievais. Ela se propunha a modernizar seus costumes e seu espírito, ilustrá-lo, secularizá-lo, torná-lo "útil" à sociedade humana, enfim "civilizá-lo" para que pudesse legitimamente reivindicar a emancipação política e a igualdade de direitos civis. (...)" 2
Antes que os judeus do Leste fossem levados ao exílio, portanto, o exílio veio bater às suas portas, penetrou nas casas das aldeias onde viviam havia séculos, veio apanhá-los como o intermediário Kapturak, personagem deste e de outros romances de Roth, cujo papel é justamente o de cruzar fronteiras proibidas, concretizar negócios escusos, burlar as leis de todos os tipos.
A humanidade autêntica e intacta e a riqueza do material humano do Shtetl a que se refere Claudio Magris 3 quando discute obras de Roth como Juden auf Wanderschaft e Hiob , sucumbiu ante a adoção de um novo ideário, que passaria a tomar o lugar dos estudos religiosos tradicionais, ante o questionamento de todas as crenças fundamentais da religião judaica, que levaria o personagem de Hiob ao confronto com um vazio abismal.
A ruptura de velhos laços, assim, é o tema central da literatura ídiche tanto quanto do Hiob , livro em que o autor, à maneira dos profetas bíblicos, lamenta o destino das gerações dos filhos de Israel.
"A fuga do shtetl - ou seja, o descolamento do hebraísmo - significa a passagem de uma sociedade pré-liberal em direção à sociedade liberal e repete, portanto, com um século e meio de atraso, o iter atravessado pela cultura ocidental à época em que o liberalismo na economia provocara o eclipse dos valores transcendentes transferindo as suas funções 'a um novo atributo (de origem puramente social) de bens que se tornaram mercadorias: o valor de troca, o preço" 4
O exílio geográfico, portanto, é apenas um aspecto - aliás um dos últimos a se manifestarem - de um processo de transformação psicológica e social que já vinha ocorrendo havia décadas.A experiência do exílio é, em primeiro lugar, o exílio de si mesmo: a alienação do homem de si mesmo, de sua essência verdadeira, aqui representada por Menuchim, o filho doente e fraco dos Singer que foi deixado para trás, na Europa, quando de sua emigração para a América. Arrancadas de si mesmas pelo turbilhão incessante da modernidade, representada no romance como a vida nova-iorquina, os imigrantes se dissociam da própria essência, são exilados de si mesmos.
BRONSEN, David. Joseph Roth - Eine Biographie Köln: Kiepenhauer & Witsch, 1974, 564 p.
GUINSBURG, Jacó. Aventuras de uma Língua Errante São Paulo: Editora Perspectiva, 1996, p. 76-77
MAGRIS, Claudio. Lontano da Dove Torino: Einaudi, 1971 (reimpressão de 1989) p. 20