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Imagens de Kafka. Imagens do Brasil
Maria Célia Ribeiro Santos (USP)
Ao trabalhar com a recepção da obra de Kafka no Brasil em uma pesquisa de Iniciação Científica, em 1997, um trabalho feito em conjunto com o pesquisador Eduardo Brito, notei a preferência marcante do leitor brasileiro pelo texto A metamorfose . É claro que isso não ocorre apenas no Brasil. A famosa novela kafkiana é, provavelmente, uma das obras mais estudadas e comentadas da história dos estudos literários no mundo todo. No entanto, acredito que, em cada país, podem-se perceber peculiaridades na recepção de cada autor.
No Brasil, embora seja, de longe, a obra kafkiana mais traduzida desde 1956 (ano da primeira publicação para o português do Brasil), não há muitos estudos de fôlego sobre a história do homem-inseto. Fala-se muito sobre ela, mas, na maioria dos casos, não há profundidade nos escritos. Alguns até causam a impressão de que seus autores não leram a novela, apenas ouviram falar nela.
Por que estudar Kafka no Brasil? Por que estudar A metamorfose ?
Essas questões nos remetem à questão da busca da identidade. A literatura é uma das maneiras de apreendermos a "realidade" à nossa volta, de descobrirmos algo mais sobre nós mesmos. Acredito ser sintomático, por exemplo, o fato de que Kafka tenha sido traduzido aqui tão prodigamente entre os anos de 1965 e 1980. Isso deve ter algo a nos dizer. E esse algo é, seguramente, diverso do que teria a dizer a qualquer outro povo.
Ao reler a narrativa, após a constatação da acolhida que obtivera no Brasil, dei-me conta de que há nela um silenciamento marcante. Assim, meus estudos, em nível de mestrado, sobre A metamorfose referem-se, sobretudo, à forte presença do "silêncio" na obra. Esse silêncio aparece em vários níveis. O mais evidente é o fato de que o protagonista fica, em função de sua nova condição - a condição de inseto-, impedido de comunicar-se verbalmente. É, portanto, silenciado. Mas não é apenas isso: também o narrador silencia muitas coisas. Além disso, há o silêncio de outras personagens: o pai, por exemplo, que havia sido proprietário de um negócio que falira, nunca mencionou a Gregor que tinha algum dinheiro guardado, fato que veio a ser descoberto pelo protagonista no dia seguinte à metamorfose. Este, por sua vez, justifica o silêncio do progenitor, pensando que também ele nunca havia perguntado sobre isso. A empregada, ao pedir demissão, por ocasião da transformação de Gregor em inseto, jura que jamais comentará com ninguém o que acontecera ali sem que isso lhe tivesse sido pedido, entretanto, ninguém lhe disse que esse assunto não precisava ser mantido em segredo.
Há, ainda, outras formas de silêncio na narrativa. Um exemplo claro é o expediente utilizado pelo narrador e personagens de empregar frases que procuram disfarçar os sentidos verdadeiros das falas no texto. Procura-se ocultar o que se pensa ou se quer, de fato, dizer por meio de um discurso equivalente ao silêncio, isto é, através de palavras "vazias", ou de palavras que dizem o oposto daquilo que se pensa.
Assim, o silêncio e o silenciamento permeiam toda a obra e não apenas no nível do enredo ao qual nos limitamos aqui.
Refletindo um pouco mais, conluímos, facilmente, que a idéia de silenciamento remete ao triste período de nossa história que teve início com o golpe militar de 1964. A censura, as coisas não-ditas ou ditas em meias palavras. A interdição.
Tudo isso faz-nos pensar sobre o motivo de um boom de obras kafkianas justamente a partir de 1965 e durante toda a década de 1970. Vale lembrar que, nesse período, cerca de cem títulos de Kafka foram publicados no Brasil, dos quais mais de 40 no ano de 1965.
Nesse sentido, a minha intenção não é apenas pensar ou "descobrir" o que Kafka quis dizer com seu texto, mas sim, compreender o que o interesse pela obra kafkiana, produzida num contexto tão diferente do nosso, nos diz a respeito de nós mesmos. Acreditamos que uma reflexão séria sobre esse tema pode levar-nos a uma melhor compreensão de nossa história e, portanto, de nossa identidade.
Vejamos: Kafka começou a ser traduzido no Brasil, como já mencionamos, em 1956, quando foi publicada a primeira tradução brasileira da novela A metamorfose , que mereceu nova edição em 1963. Entre essas duas edições, veio a lume, em 1958, O artista do trapézio ( Erstes Leid ), publicada na antologia Maravilhas do conto alemão . A partir de 1965, o interesse pela obra do autor aumentou drasticamente. Nesse mesmo ano, A metamorfose voltou a ser publicada.
A posição de destaque que a novela passa a ocupar na recepção dos escritos de Kafka no Brasil é acentuada. De todas as narrativas publicadas, apenas ela mereceu, entre 1956 e 1965, três edições. E, ao longo dos anos 1960, foram cinco edições.
O interesse pela mais famosa narrativa kafkiana pode, assim, ser aquilatado pelo grande número de traduções de que foi objeto, vertida por diferentes tradutores, inicialmente, a partir do francês e do inglês, que necessariamente haveriam de "reforrmular" a mensagem original. Esse interesse é tão grande que, mesmo depois do lançamento no mercado da tradução competente de Modesto Carone, a partir do alemão, continuam as publicações de traduções feitas a partir do francês, como é o caso da tradução realizada por Torrieri Guimarães, reeditada em 1998!
O texto de Torrieri, ao contrário do original alemão, tem um tom mais "emocional". O narrador, em Kafka, trata a metamorfose de Samsa como um acontecimento banal. É justamente esse um dos elementos mais marcantes na narrativa. A maneira como a transformação é narrada desconcerta o leitor. Na tradução de Torrieri Guimarães, muito desse desconcerto e do "assombro" provocados pelo modo de narrar kafkiano perde-se por conta do tom mais emotivo, marcado, por exemplo, pelo uso de pontos de exclamação ao longo da narração.
Além disso, é interessante observar que, embora o primeiro boom das traduções de Kafka tenha seu início no ano de 1965, um ano em que o ambiente político do Brasil se transforma radicalmente, as interpretações dadas a esta obra e apresentadas em prefácios e posfácios focalizam quase que com exclusividade o indivíduo Franz Kafka e fazem silêncio sobre os vários aspectos da obra, passíveis de interpretação. Tal reação deve-se, provavelmente, a vários fatores, desde o forte impacto da insólita metamorfose sobre o leitor, causando, apesar das diferenças mencionadas em relação ao original, um estado de espanto atordoante, silente, até o fato de já haver à época pouca liberdade de expressão (a censura começara a agir) para comparar, por exemplo, a transformação forçada do cidadão comum brasileiro, um sujeito que, por assim dizer, acorda um dia também impedido de se expressar com liberdade. Desse modo, considero possível pensar a recepção de A metamorfose como uma espécie de resistência "muda" à situação vivida pelos brasileiros.
Em seu livro As formas do silêncio , Eni Puccinelli Orlandi comenta que, a partir de 1964, os militares passaram a falar o que ela chama de "língua-de-espuma", definida como
"uma língua 'vazia', prática, de uso imediato, em que os sentidos não ecoam. É uma língua em que os sentidos batem forte mas não se expandem, em que não há ressonâncias, não há desdobramentos. Na língua-de-espuma os sentidos se calam. Eles são absorvidos e não produzem repercussões. Se, de um lado, não se comprometem com nenhuma 'realidade', de outro impedem que vários sentidos se coloquem para essa mesma 'realidade'". Assim, a "língua-de-espuma trabalha o poder de silenciar". A cnesura, então, "impede o trabalho histórico do sentido". 1
Assim, essa linguagem passa apenas pelo domínio da formulação, deixando de lado a memória discursiva; ocorre, então, uma serialização, uma produção de variedade, sem que haja a mudança, o deslocamento e a interpretação necessários ao movimento dos sentidos. Desse modo, a sociedade vítima da censura vive um momento de asfixia, quando se fica impedido de ocupar certos lugares do discurso, comprometendo, assim a identidade desse povo.
Para tentar evitar que sua identidade seja comprometida pelo processo acima mencionado, a sociedade acaba desenvolvendo um mecanismo de resistência, em que diz o que não pode ser dito, por meio de estratégias. Para tanto, a literatura desempenhou, no Brasil, um papel importante, utilizando, entre outros, o realismo fantástico e as metáforas.
Muito do que era produzido no país da época, desde artigos de jornais até a MPB, era uma resposta "silenciosa" à censura. Instala-se, assim, a política do silêncio: os militares, de um lado, utilizando a "língua-de-espuma" e o povo, de outro, respondendo por meio do espaço vazio no jornal (ou de uma receita fora do lugar), por meio da literatura (incluindo as biografias, o realismo fantástico, a metáfora) e da música, entre outras formas "silenciosas" de resistência. O objetivo era
"[jogar] com o espaço de silêncio que existe, pois o silêncio que é feito sobre uma certa região de sentidos é carregado de palavras a não serem ditas. E é por isto mesmo que elas significam". 2
Pode-se, assim, considerar as muitas traduções dos textos de Kafka realizadas nesse período crítico da História do Brasil - lembrando que a narrativa de maior destaque foi A metamorfose - uma forma de resistência e de "resposta" ao que estava acontecendo no cenário político do país.
A história de um homem que levava uma vida pacata, relativamente "normal" e que, de uma hora para outra, viu-se às voltas com uma situação tão absurda quanto à de Gregor Samsa, ficando impossibilitado de comunicar-se mesmo com os seus familiares parece ser uma boa maneira de conscientizar-se do que estava se passando. Sim, porque, entre outras coisas, a narrativa trata da tomada de consciência de uma situação, pois a transformação física apenas evidenciou a situação vivida por Gregor há muito tempo.
Desse modo, A metamorfose pode ter sido, ainda que talvez inconscientemente, uma forma de resistência ou uma tentativa de impedir que a sociedade brasileira fosse vítima do silenciamento absoluto, o que resultaria no aniquilamento de nossa sociedade, assim como foi aniquilado o protagonista de nossa história.
Orlandi , Eni Puccinelli - As formas do silêncio: no movimento dos sentidos . 2.ed.. Campinas , Ed. UNICAMP, 1993, p. 110.