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Travessias da Identidade. Da visada romântica da malandragem à marginalização
Idemburgo Frazão (UNIGRANRIO)
Este trabalho estuda a presença do mito da malandragem como um dos eixos da problemática da identidade brasileira, a partir da obra teatral O Bilontra , de Artur Azevedo e Moreira Sampaio. Em destaque estão as diferentes visões acerca do mito da malandragem na discussão das peculiaridades da cultura brasileira. As figurações do malandro, em sua trajetória, que parte de uma visão romântica , originária do século XIX e termina em um debate sobre a transformação do malandro em marginal, serão o ponto de partida das discussões. O estudo aponta para a existência de uma espécie de malandro integrado, aceito enquanto mantenedor de uma forma alternativa de sobrevivência. A partir daí, se dialoga, com as novas expectativas relativas à malandragem, ligada à covardia, à agressividade, à marginalidade dos dias atuais (presente em obras como Estação Carandiru, de Drauzio Varella e Cidade de Deus , de Paulo Lins).
Ao estudar a problemática da malandragem em textos de natureza literária (peça teatral e romance, filmes), põe-se em destaque, simultaneamente, a questão da identidade e das imagens inerentes à cultura brasileira. A primeira questão está intimamente relacionada a um estudo centrado no locus (para lembrar de uma expressão importante utilizada por Homi Bhabha em seus trabalhos). Estudar o local , significa centrar o foco das reflexões em um ambiente específico, mas que, ao mesmo tempo, possibilita a ampliação de imagens que podem auxiliar no melhor entendimento de quadros imagísticos mais amplos do mundo contemporâneo. As metamorfoses das imagens da malandragem, ao longo do tempo são reflexos das próprias transmutações socio-político-econômicas mundiais. O lócus pode ser entendido enquanto célula formadora do global, se entendermos que também fazem parte das identidades as diferenças. Partindo desse entendimento, a alteridade é trazida à discussão, mesmo que indiretamente, no anteparo mesmo da identidade, aqui discutida a partir de um dos mitos formadores da identidade brasileira. O reconhecimento da presença de tais mitos e de suas implicações na cultura é um dos pressupostos, portanto, do que se discutirá daqui em diante.
A impregnação do mito da malandragem na cultura brasileira é apresentada por estudos antropológicos importantes, como podemos ver nos trabalhos de Roberto DaMatta 1 e Lívia Barboza, 2 apenas para citar dois exemplos. A investigação da presença (e mesmo a constituição) desse mito e de suas metamorfoses em obras literárias serve como importante caminho para o entendimento das próprias transformações pelas quais as grandes cidades brasileiras (assim como as grandes metrópoles mundiais) passam.
A malandragem, nas obras de Arthur Azevedo, surge sob inúmeras denominações, dentre elas, tribofe e bilontra 3. Esses dois termos se referem aos logros e trapaças dos personagens de obras famosas desse maranhense hoje um tanto esquecido nos estudos literários. Suas obras teatrais contêm passagens em que alguém é ludibriado, mas as ações, geralmente, não chegam a ser tomadas, ou investigadas enquanto crimes graves. Bilontra é uma palavra que se refere a atitudes semelhantes as dos tribofes, ligada ao engodo, ao jeitinho de se dar bem utilizando meio não-lícitos. No dicionário Aurélio "bilontra" aparece com os seguintes significados: Velhaco, patife, espertalhão, conquistador amoroso. O Bilontra contém, assim como O Tribofe , elementos importantes para que se verifique a presença da malandragem como forma alternativa de sobrevivência e/ou de enriquecimento ilícito. Nem se trata das malandragens rasteiras de Um Juiz de Paz na Roça ou de Os dous ou O inglês maquinista , de Martins Pena, nem do radical comprometimento das formas de malandragem com o crime organizado transportados para as telas dos cinemas a partir da adaptação de textos como os de Estação Carandiru e Cidade de Deus .
Se pudéssemos conceituar o nível de malandragem tomando como ponto de partida o maior ou o menor grau de comprometimento com o crime propriamente dito, diríamos que os bilontras são o meio termo entre pequenos engodos e o delito grave. Como forma de entender melhor esse tipo de malandro iniciemos com um comentário importante acerca da grande relação entre as bilontragens expostas no palco e as bilontragens comprovadas efetivamente nos tribunais. O bilontra é uma das famosas Revistas de Ano 4 de Artur Azevedo e, como as outras, baseia-se nos acontecimentos do ano. O maior traço diferenciador dessa Revista está ligado à extrema relação que mantém com um acontecimento real que, ao mesmo tempo, interfere na obra e pode sofrer (como é o caso de O Bilontra ) sua interferência. Um importante estudo sobre essa relação entre a obra teatral O Bilontra e um famoso caso de malandragem do final do século XIX, foi escrito pelo ator e historiador Fernando Antônio Mencarelli e se denomina Cena Aberta - Absolvição de um bilontra e o teatro de revista de Arthur Azevedo . Tomaremos as análises de Mencarelli como uma das boas pistas para comprovar a força do mito da malandragem e de como a sociedade absorve a ficção enquanto realidade, ou sofre a influência de obras como as de Arthur Azevedo.
O Bilontra , encenado no Rio de Janeiro, no final do século XIX, trata da história verídica de um caixeiro carioca que se aproveita de um sonho de um rico comerciante para ganhar três contos de réis. Esse malandro promete ao incauto e ambicioso comerciante que conseguiria para ele um título de barão. Tudo corria bem, a malandragem tinha surtido efeito, quando, durante uma festa, ao ser apresentado como "Barão de Vila Rica", o comerciante descobre que os documentos que recebera eram falsificados. E aí começa a relação palco-realidade. O caso chega aos tribunais e é acompanhado pela sociedade. Arthur Azevedo e seu parceiro Moreira Sampaio, percebendo a força que o caso ganhara, o transformam na Revista de Ano O Bilontra . Como bem se pode apreender, a partir do que demonstra Fernando Antônio Mencarelli, os acontecimentos do Júri propiciaram o sucesso da obra teatral, enquanto o tratamento dado pelos comediógrafos Azevedo e Sampaio acabou por livrar um bilontra da cadeia.
No clima de humor e ironia inerente ao teatro de revista, o bilontra é absolvido. Isso interfere na decisão do júri. Miguel José de Lima e Silva, o bilontra, foi absolvido graças à utilização de trechos da revista O Bilontra pelo advogado de defesa, Alberto de Carvalho, que inusitadamente consegue reverter a situação de seu cliente, ao afirmar que Lima e Silva já havia sido absolvido pelo júri popular através do grande sucesso da revista de Artur Azevedo e Moreira Sampaio. Portanto, tal sucesso interferiu no caso e o malandro consegue sucesso nos palcos e na vida real. Além dessa importante constatação da estreita ligação entre teatro e realidade (principalmente das Revistas, que podem ser entendidas enquanto crônicas teatralizadas e musicadas), o estudo de Mencarelli, na área de história, nos auxilia nas reflexões acerca da forma como certas malandragens são aceitas pela sociedade. O trabalho de Mencarelli, é, por si mesmo, transdisciplinar, utiliza aspectos do júri, do teatro e mesmo, talvez à sua revelia, de uma certa antropologia, ligada ao comportamento inusitado da sociedade diante de um caso comprovado de trapaça.
Essas malandragens (ou bilontragens) aceitas pela sociedade, bem demonstradas por Mencarelli, auxiliam-me na continuidade do rastreamento das figurações do mito do malando no teatro brasileiro que já venho realizando há algum tempo 5 e nas reflexões que exponho aqui. É próprio desse malandro-bilontra convencer por parecer com o próprio expectador, ou pelo menos fazer o que, dependendo da situação, outros cidadãos comuns fariam. A imagem do malandro enquanto tal se dissocia, nesse ponto, do marginal como verdadeiro delinqüente, pois não há um grande sofrimento no delito. No caso de O Bilontra , o ludibriado é o comendador Campelo que, de certa forma também pretende parecer o que não é, ou seja, pretende atingir o baronado por, digamos, uma via indireta. Poderíamos dizer que Bilontra que engana Bilontra tem seu direito à absolvição. Como nas comédias do Teatro Lucinda, local em que O Bilontra era representado, uma encenação é desenvolvida diante do Júri. O malandro é, por si mesmo, um herói (ou anti-herói), por divertir e tirar a sociedade de sua burocrática forma de vida. O estelionato foi perdoado e, de certa maneira, notabilizou o senhor Miguel José de Lima e Silva, o bilontra original..
Até aqui, as reflexões se relacionaram a malandragem suaves , já que o delito não assume características de crime propriamente dito (ou é perdido). Mas se tal bilontragem se afasta da malandragem primária , como a existente nas comédias de Martins Pena, que tem, geralmente, no ato de enganar incautos ignorantes, sua principal atitude, há, hoje, uma caracterização diferente. Ao invés do engodo, da trapaça para se dar bem, o chamado malandro que aparece nas telas do cinema e nas páginas de obras como Estação Carandiru e Cidade de Deus é propriamente um marginal, no sentido mais negativo e corrente da palavra. Drauzio Varela, várias vezes utiliza a palavra malando como forma de tratamento, quase como uma função, dentre outras da marginalidade. Em Cidade de Deus , Paulo Lins traça uma certa trajetória do malandro dos pequenos delitos ao do crime organizado. Aliás, em Cidade de Deus há uma clara distinção entre a malandragem do período em que os apês foram construídos (no início da criação da comunidade), e a fase em que até meninos de menos de quinze anos tornam-se marginais e soldados do crime.
Em Estação Carandiru , narrativa que se baseia na vivência do médico Drauzio Varella com os detentos da já extinta penitenciária do Carandiru, em São Paulo, a visão do médico narrador, procura ser imparcial, ao mostrar o cotidiano dos presos da unidade penal que ficaria conhecida no mundo inteiro a partir da rebelião que ficou conhecida como o massacre do Carandiru. Embora não consiga total imparcialidade, Varella utiliza termos que, muitas vezes ajudam, se não a perdoar os delitos, a entender a causa de muitas das tragédias pessoais causadoras de assassinatos e mortes. Os pavilhões da Casa de Detenção são descritos com simplicidade, mas com uma riqueza de detalhes fundamental para que se consiga ter uma visão menos panorâmica e estereotipada do sistema carcerário brasileiro. Estação Carandiru não é um romance que trate de tramas ficcionais, mas um conjunto de relatos baseados no contato mesmo com os presos. Estas observações são importantes, pois a visão da malandragem, nessa obra, não passa por uma inventiva do autor, mas de um efetivo conhecimento da situação em que a forma de malandragem mais difundida (aquela ligada ao crime se encontra na atualidade. Uma passagem dessa já notória obra auxiliará na reflexão acerca da maneira mesma como se costuma ver, na maioria das vezes, hoje, o malandro. Quando, em certo dia, o médico Varella auxiliou os detentos na tentativa de extirpar a sarna que infestava um dos pavilhões, pôde-se perceber até mesmo pela utilização do termo malandro pelo narrador, como a malandragem convive:
Dirigi-me à fila e expliquei que aqueles que não se lavassem e passassem remédio, espalhariam sarna para os demais, para prejuízo de todos. Os argumentos os convenceu: malandro não arrisca ser acusado de prejudicar companheiros. 6
A visão que o narrador passa desse malandro, embora não demonstre qualquer tipo de impregnação lírica ou mesmo de grande solidariedade, já que o respeito às regras internas estabelecidas pelos próprios presos se relaciona diretamente à sua sobrevivência, aponta para o fato de que entre a marginalidade há uma ética própria. Em várias partes do livro, Varella descreve passagens que ratificam essa afirmativa. Principalmente quando o assunto é mulher (no sentido de companheira) até prostituta ganha status de senhora, pois, para parafrasear o narrador, a malandragem não tolera mal-tratos às companheiras dos detentos. No trecho citado, não é fortuita a utilização do termo malandro . A conceituação dessa palavra é complexa. Para o médico, o uso de malandro facilitou a nomeação do detento enquanto categoria. Malandro é o termo mais genérico que se pode usar para nomear desde o ladrão de feira ao assaltante à mão armada. Então, malandro torna-se maneira coloquial de tratar elementos excluídos pela sociedade. Malandro que se preza, mostra o narrador, não prejudica malandro. Categoria unida em torno da defesa da própria sobrevivência em um cotidiano por si mesmo hostil, a malandragem, no sistema carcerário, e, muitas vezes, fora dela, como disse há pouco, obedece a normas próprias, peculiares, que não elimina os justiceiros, as sevícias e mesmo a morte como correção de delitos pelos próprios presos.
Também em Cidade de Deus , obra de Paulo Lins, o termo malandro se relaciona a uma certa noção de honra. Por mais peculiar que seja, o malandro se guia por uma honra peculiar. Um bom exemplo disso pode-se encontrar na personagem Ana Rubro Negra, travesti que ao ser tocado em seus brios, retoma sua antiga identidade masculina de malandro. Ao procurar se vingar de seu amante, Rubro Negra retoma sua antiga identidade, transformando-se, mesmo que apenas por instantes, no antigo malandro Ari:
Quem corria com sede de vingança não era Ana Rubro Negra, era o Ari, homem de um metro e noventa, acostumado a encarar policiais na mão nas madrugadas da Lapa e do Baixo Meretrício. Isso mesmo, não era a Merlyn Monroe do Estácio, era o malandro do morro de São Carlos, que brigava como ninguém em briga de navalha, chamava na rasteira com perfeição, que dava porrada para tudo o que é lado quando molestado... 7
Espécie de Madame Satã, malandro lendário da Lapa, também travesti, Ana Rubro Negra, assume papel feminino nas relações com o homem com o qual convive, mas quando necessário, reassume sua identidade pregressa. A mudança de comportamento (que vai da passividade à agressividade) faz com que se possa entender o malandro enquanto categoria que carrega em si certas peculiaridades. Como em Estação Carandiru , o malandro é um marginal convicto, mas não um marginal comum. Suas atitudes obedecem a um código próprio. Ao retomar sua face feminina, Rubro Negra não deixa de se comportar de acordo com premissas por ela mesma estabelecidas, relativa ao respeito aos seus homens. Como Madame Satã, figura carioca já citada aqui, não importa ser homossexual, ser malandro ultrapassa as noções comuns de gênero. Pela extensão que cabe a este trabalho, não poderei ilustrar essas afirmativas com outras passagens também muito ricas acerca do problema aqui tratado. Passarei às conclusões cabíveis.
O malandro encontrado nas comédias de Artur Azevedo, especialmente O Bilontra (escrito em parceria com Moreira Sampaio) ainda é visto pela sociedade como ser inofensivo. O bilontra ficcional e o bilontra real foram absolvidos de uma culpa já comprovada. A malandragem sobe ao palco e interfere na malandragem exposta nos jornais. Diferente do ainda romântico malandro das comédias de Martins Pena (se assim se pode denominar personagens que têm como principal atividade ludibriar outros cidadãos, longe também do malandro mais antigo presente na literatura, no dizer de Antônio Cândido, Leonardo Pataca, de Memórias de um sargento de Milícias . Esse picaresco personagem, anti-herói, muitas vezes é relacionado pela crítica a Macunaíma. O Bilontra, famoso personagem pinçado pelos comediógrafos do cotidiano mesmo da cidade do Rio de Janeiro, se distancia ainda mais do malandro criminoso exposto nos jornais da atualidade e em obras como as aqui citadas de Drauzio Varella e Paulo Lins. Se a própria questão do mito da malandragem é complexa e muitas vezes questionada, a presença das figurações do malandro ainda são costumeiras tanto no plano literário quanto no plano do real. Estudar o mito da malandragem, investigando suas nuances e metamorfoses significa, ao mesmo tempo, revisitar aspectos que, muitas vezes passam despercebidos no uso mesmo da palavra malandro. Como o trabalho aqui apresentado é parte integrante de outros ainda resta aprofundar os problemas aqui rapidamente exemplificados.
DaMatta, Roberto da. Carnavais, malandros e heróis - Para uma sociologia do dilema brasileiro . Rio de Janeiro: Zahar, 1983.
Barbosa, Lívia. O Jeitinho Brasileiro - A arte de ser mais igual que os outros . Rio de Janeiro: Campus, 1992.
O Tribofe é uma da obras famosas de Arthur Azevedo, assim como O Bilontra trata de atitudes dissimuladas. Ver: Azevedo, Arthur. O tribofe.Rrevista Fluminense de 1891 . Rio de Janeiro, Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986.
Ver: Sussekind, Flora. As Revistas de Ano . Rio de Janeiro: Nova Fronteira - Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986.
Dentre os trabalhos que desenvolvo sobre o assunto, mais efetivamente acerca do teatro do século XIX, conto com o auxílio de duas orientandas, bolsistas da FAPERJ.
Varella, Drauzio. Estação Carandiru. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p. 127.
Lins, Paulo. Cidade de Deus .São Paulo, Companhia das Letras, 2002. P. 214