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Travessias dos viajantes
Günther Augustin (UFMG)

No estudo imagológico da literatura, enquanto ela transmite imagens de países ou culturas, podemos achar chaves para entender os encontros e desencontros interculturais. Sua compreensão deve garantir que o convívio intercultural seja pacífico. A literatura de viagem, as narrativas dos viajantes são objetos de estudo onde o encontro intercultural se textualiza. Na presente apresentação exemplificamos, a partir de um estudo do olhar europeu nos relatos de viagens de Spix&Martius e Eschwege, como o estudo da literatura de viagem possibilita a identificação de olharas culturalmente determinados e interculturalmente modificados. Não apenas os viajantes atravessam fronteiras, os seus textos também. Originalmente escritos para um público estrangeiro, no caso o alemão, os textos voltam traduzidos ao seu local de origem, no caso o Brasil. Além de analisar e questionar o olhar europeu nos discursos identificados nos relatos, perguntamos por que se traduz, publica e lê relatos de estrangeiros, problematizando o uso desses relatos de colonizadores como fonte da (auto)imagem. Perguntamos, a partir das reflexões de Nietzsche em Da utilidade e desvantagem da história para a vida , se o discurso pos-colonial se centra em ver a desvantagem enquanto o discurso globalizante tende a valorizar a utilidade.

Na memória cultural misturam-se imaginário fantástico idealizante e históra racional pragmática. Nos textos dos nossos viajantes encontramos ambos; em Spix&Martius mais o estético, em Eschwege mais o racional. Se as imagens identificatóras dos brasileiros são estéticas mas a identidade deve ser sobretudo histórico 1.

Vendo seus olhares e lendo seus textos, vimos que articulam vozes do seu tempo e espaço europeu, escrevendo para seus leitores cujos gostos, horizontes e interesses os editores sabiam alimentar. Nesse sentido, registram mais coisa européia do que americana, na medida que subsumiram o visto a suas categorias e conceitos: epistemologia e estética clássicas, ciência e economia expansionistas, burguesia de origem européia, o encontro do ocidente com o oriente, do alpino com o tropical, o mundo físico e metafísico, o paraíso perdido. O encontro intercultural com o outro sempre tem como ponto de partida o próprio.

Referente ao aspecto transcultural das traduções, é notável observar que, em vários instantes, a/o tradutor/a suprimiu o elemento europeu , cortando trechos inteiros, frases chaves ou apenas o adjetivo europäisch .

Em termos epistemológicos e epistémicos, utilizando o conceito de Foucault, os viajantes e seus relatos se situam em uma fase de transição da episteme clássica para a moderna, uma fase é marcada pelo criticismo kantiano. Eschwege se revela como crítico, enquanto Spix&Martius seriam pré-críticos. Spix&Martius, por sua vez, visualizam o espaço cósmico, tridimensional, mar, terra e céu formando uma totalidade que tem no equador sua faixa de equilíbrio harmonioso. Suas descrições idealizantes da natureza têm traços românticos, como todo o texto se alimenta da tradição literária não apenas alemã mas ocidental e até oriental.

Perguntamos como os olhares, transformados em discursos, contribuiram ou interferiram no imaginário brasileiro. No complexo jogo de olhares de um para o outro, perguntamos se e o que os olhares dos nossos viajantes contribuiram, ou até que ponto ofuscaram o olhar do brasileiro sobre si. Em programo de TV pós-eleitoral, um entrevistado afirmou que agora, com Lula como líder orgânico, seria possível para o Brasil o "olhar próprio sobre si". 2 Se isso for possível, o olhar próprio se opõe ao olhar do outro. Os viajantes são lidos por seu olhar distanciado que registraram informações históricas. Mas é um olhar estrangeiro, não brasileiro. Na interpretação de uma teoria psicoanalítica do colonialismo utópico, a análise do caráter formador do olhar europeu revela o exótico como uma encomenda européia e vê uma relação entre esta encomenda e sua contrapartida, o racismo. Para o brasileiro isso teria levado a um "complexo do paraíso." Paraíso terrestre, democracia racial e gigante adormecido são os estereótipos do imaginário brasileiro até hoje 3. Marilene Chaui 4 mostra como esse imaginário forma um mito fundador, desenvolvido ao longo da história.Trata-se de um mito, de crenças, de representações, em suma, de discursos. Na formação desses discursos, a literatura dos viajantes tinha, e tem, sua participação. Em termos de olhar europeu colonial imperial, identificamos uma série de analogias em relação ao que M.L. Pratt verificou nos seus viajantes. A postura anti-conquista é evidente sob o signo da ciência. Coleções de pedras preciosas e plantas medicinais simbolizam a conquista. A estetização explícita é uma invenção.

Eschwege, filho da nobreza, chama a classe com a qual teve contato na cidade de São Paulo, de nobreza. Apesar do seu pensamento liberal, seu olhar crítico registra o paradoxo da lei não aplicável ou a subversão do legal pela lei do mercado. Registra a inversão do valor de honestidade em função da submissão do poder público aos desejos dos subalternos. Registra os males dos senhores e dos portugueses, mas quando generaliza, as suas afirmações não são isentas do que chamariamos hoje de racismo.

Os índios, o grande Outro, são tanto idealizados quanto inferiorizados. Quando observa que teria sido melhor deixá-los em paz, também registra que formariam uma nação poderosa se fossem unidos. No caso da escravidão, a razão torna-se razão instrumental colonial. Eschwege não fala do paraíso. Seu discurso sugere que o estado paradisíaco transforma-se em seu contrário com a intervenção do homem. Não fala disso de forma abstrata ou doutrinária. Sempre fala a partir do seu olhar quando fala do outro, dos índios e dos negros no Brasil e como se deu a ação do colonizador europeu sobre eles. Talvez seja uma versão mais concreta do paraíso perdido. Mas Eschwege, homem da luz e do otimismo iluminista, inicia o segundo volume do seu primeiro livro sobre o Brasil com uma alegoria sugerida pela vista da Serra do Mar, a do gigante deitado, não adormecido, ao qual um gênio diz: "Levanta-te e domina!".

O modo de ver o Outro pode ser comparado ao olhar cinematográfico dos cineastas de hoje, como caracterizado, por exemplo, por John E. Davidson (2000), na sua análise dos filmes Aguirre e Fitzcarraldo , de Werner Herzog. A mata tropical é enfocada a partir do barco navegando no rio. A imagem produz uma representação plana da mata que se apresenta como um objeto ao espectador que flutua no rio. Com isso ocorre uma objetivação de uma frente aparentemente impenetrável que implica uma dimensão de fundo desconhecido, estranho. Davidson também recorre à idéia da alma para alocar o Outro da fantasia ocidental. 5 A perspectiva da mata permite ao espectador projetar uma alma, sua imaginação ocidental do 'Outro' nessa mata virgem metafórica e estereotipada. O fundo desconhecido, o interior da mata representaria o Outro interno do ocidente.

A textualização da perspectiva plana da planície do rio e da mata, com a margem do rio como fronteira entre o visível e o invisível, o vencível e o invencível, acompanha o terceiro volume da Viagem no Brasil como a margem acompanha os viajantes. Nunca param de descrever as belezas da vegetação tropical, mas o aspecto unheimlich começa a predominar. Já no final do segundo volume, com a chegada em São Luíz do Maranhão, começa a fase aquática da viagem. A fisionomia da Ilha do Maranhão é comparada com as verworrenen, unheimlichen und sumpfigen (confusas, lúgubres/medonhas e pantanosas) matas do Rio Itapicurú. Repetem-se as anotações como: "As margens do Guaná são baixas, cobertas de toda a parte de matas densas" (VB3, 59). "As margens, de mata fechada, tinham a maior semelhança com as do Igarapé-mirim..." (74). Para os alpinos Spix&Martius, a ausência de elevações que oferecem vistas fez dupla falta. O que observam nos colonos vale para eles também: "Quem nunca observou quanto pesam no ânimo dos habitantes as matas virgens, não pode compreender tampouco a sensação de alegre tranqüilidade que produzem nos colonos as vistas abertas" (69). Quando passam por uma lagoa com "margem baixa, não revestida de vegetação alta, suja e enredada do Amazonas e Solimões, mas com bonitos arbustos" (171), declaram: "Só quem já experimentou a impressão sombria de tais florestas intermináveis, pode compartilhar a sensação de liberdade e bem-estar que se apodera do viajante, ao ver-se nesse novo ambiente" (171). Essa sensação traz-lhes à lembrança a tão distante Minas: "O aspecto conjunto de sua vegetação assemelha-se perfeitamente aos chamados capões ("ilhas", do tupi caapuam , propriamente "mato redondo") de Minas" (171). Aproximando-se da Serra de Cupati, usam a palavra "internados" quando explicam como a falta de diferenciação pode levar à perda do referencial: "Na imensa mata virgem, onde havia tantos meses que estávamos internados, o olhar não achava ponto ou base de comparação para avaliar alturas" (224).

A tensão entre um discurso sobre o índio como selvagem natural, puro e habitante do paraiso e outro que o vê em termos de civilização permeia todas as descrições dos índios que a Viagem pelo Brasil apresenta em grande número. Já por ocasião do primeiro encontro mais demorado com os índios, com os Coroados perto de Vila Rica, descrito no primeiro volume, Spix&Martius fazem um primeiro balanço de avaliação da cultura e da raça indígenas. Baseiam suas generalizações na observação desses "homens da natureza quanto ao seu físico, seus costumes e, sobretudo, a sua língua, para depois decifrar pelo lado físico e psíquico, qual a posição da sua raça entre as demais" (VB1, 236). A observação é, então, classificatória. 6 Tomando a língua como principal ponto de partida, fazem uma comparação intercultural, considerando a língua a expressão do pensamento e do cultural. Nessa visão, o grau de diferenciação da língua é o indicador do grau de civilização.

Martius procura, na forma do sonho literário, questionar seu próprio discurso, mas seu discurso da alma representa uma interiorização ainda maior. O personagem titular em Frey Apollonio parece personificar a idéia de Foucault de

que o dispositivo da confissão teria se ordenado como estrutura constituinte do saber de si, na medida em que a figura verticalizada do confessor poderia absolver o indivíduo de seus pecados e impurezas corpóreas, referido que aquele estava à transcendência de Deus. A renúncia seria o imperativo categórico enunciado pela ética do saber de si. 7

 

Martius sonha com uma percepção holística, na qual entremeavam-se, diante dos seus olhos, a natureza e o destino do Oriente com os do Ocidente. A ambigüidade do que seria um e outro, que Martius mantém, nos leva a uma última reflexão sobre a polissemia desses conceitos, principalmente do Ocidente, que não se conformam mais a territórios geográficos, mas a discursivos.

O Ocidente seria a América, o Oriente, a Europa? E que América, que Europa? Martius parece incluir no seu Oriente o berço da Antigüidade clássica. Samir Amin vê essa concepção da Europa como construção eurocêntrica que teria se apropriado do Helenismo para construir sua história cristã e capitalista. 8 Em analogia ao Orientalismo de Said, poderíamos chamar o imaginário europeu da América um ocidentalismo europeu. Sentido contrário ao conceito de orientalismo de Said, tem o termo usado por Paul Rabinow quando discute a problemática da essencialização de pensamentos que sempre seriam resultados de práticas sociais:

We do not need a theory of indigenous epistemologies or a new epistemology of the other. ... We need to anthropologize the West: show how exotic its constitution of reality has been. ... We must pluralize and diversify our approaches: a basic move against either economic or philosophic hegemony is to diversify centers of resistance: avoid the error of reverse essentializing; Occidentalism is not a remedy for Orientalism. 9

 

O sentido de ocidentalismo na direção oposta, e como sonho, (ou)vimos de um professor da Escola Superior de Guerra durante um seminário no Senado Federal:

O Brasil, meus amigos, é antes de tudo um sonho. Defende-lo é antes de tudo defender o sonho presente na sua estratégia nacional, a mundialização, a construção de uma única pátria humana. Defender o Brasil e defender o espírito do homem no ocidente é o sonho do ocidente, da construção de uma única pátria humana feita na América. 10

 

Já Caetano Veloso inverte a perspectiva duplamente. Em vista da "confusão deliberada de blocos geopolíticos com 'civilizações'" 11 e sentindo-se tocado por "uma corda sensível da intuição que têm os brasileiros do que seja o Brasil", ele chega à conclusão que "quando falo... de 'um Ocidente ao ocidente do Ocidente', penso não num fundamentalismo dessa cultura particular, mas no compromisso com alguns conseguimentos historicamente ocidentais irreversíveis". Tentando entender o significado da fórmula de "um Ocidente ao ocidente do Ocidente", identificamos no texto do cantor-autor uma série de elementos discursivos que surgiram ao longo da nossa tese. É notável como o discurso de Caetano Veloso nasce da busca do sentido. Quer dar "sentido maior" à sua prática musical e reconhece que o "sentido se impõe", boa definição para a gênese de um discurso. Faz referência a Thomas Mann, Nietzsche e também Kant. O primeiro como testemunho para quem "não há nada pior do que o sonho de restauração". O segundo como profeta "contra a tendência dos pensadores 'moralistas' a depreciarem o homem tropical". E Kant como vilão, como um "desses grandes moralistas" que teria dito que "a excelência das criaturas pensantes... torna-se mais alta e mais completa na proporção direta da distância do seu lugar de moradia em relação ao sol".

Veloso começa seu argumento com um diagnóstico de Huntington, que resume nossa formação discursiva: "Foi no ocidente que se desencadeou um processo de secularização do conhecimento que resultou na ciência de eficácia universal tal como a conhecemos, e na moral individualista atéia em que se baseiam os 'direitos humanos'". Os "direitos humanos" lembram Hartoman em Frey Apollonio que despreza esses direitos como produto da civilização européia e prega a restauração dos direitos sagrados.

Em Huntington, Veloso encontrou um papel atribuído ao Brasil no concerto mundial, que parece fasciná-lo: "O Brasil aparece como o possível 'país-núcleo' da alegada civilização latino-americana". Quanto ao mais, rejeita a proposta de autor de O choque de civilizações :

O livro de Huntington tem algo de profundamente antiocidental: ele expõe o esforço dos conservadores em transformar a cultura de Camões, Lutero, Washingon e Picasso numa cultura fechada. Simplesmente não dá. A grande movimentação que levou a chama civilizatória das áreas quentes para o frio Norte do hemisfério norte parece... estar madura para fazer um desvio de rota. Ter como horizonte um mito do Brasil - gigante mestiço lusófono americano do hemisfério sul - como desempenhando um papel sutil mas crucial nessa passagem é simplesmente uma fantasia inevitável.

 

A "singularidade brasileira" apresenta, "com o tropicalismo, um modelo de enfrentamento". O tropicalismo pôde tentar extrair energia original da tensão criada pela "eterna indefinição [do Brasil] entre ser aliado natural dos Estados Unidos em sua estratégia internacional e ser o esboço de uma nova civilização".

Na memória cultural misturam-se imaginário fantástico idealizante e históra racional pragmática. Nos textos dos nossos viajantes encontramos ambos; em Spix&Martius, mais o estético, em Eschwege, mais o racional. Se as imagens identificadoras dos brasileiros são estéticas, mas a identidade deve ser sobretudo histórica, 12 Eschwege pode representar um contraponto.

Acompanhar a trajetória de Eschwege, suas andanças, simpatias e seus preconceitos, sua ciência e ideologia, é capacitar-se duplamente para compreender o nosso passado naqueles momentos decisivos da crise do regime colonial e da constituição do Estado Nacional: de um lado, pela qualidade mesma da informação que o autor revela, os vários aspectos da realidade de então; de outro, porque esta informação é filtrada pelo "olhar" de Eschwege, pelo impacto daquele "novo mundo" sobre o europeu culto e aristocrático, tocada pela aspereza da vida naqueles sertões, o qual, em que pese todas as contradições e idiossincrasias, é capaz de revelar traços essenciais de nós mesmos, na medida em que nos chegam pela lente estranhada do estrangeiro. 13

Eschwege não pode, e não quer, evitar a crítica. Também não pode evitar confundir-se, às vezes, e emitir juízos que, em grande parte, traem os preconceitos do europeu, aristocrata e arrogante, num meio em tudo diferente e desafiador, a própria manifestação do outro . 14

 

SOUZA, 1995.

Marcelo Machado dos Anjos, NETv, canal 15, 06/11/2002, ±18hrs.

GHIRALDELO, 2002, p. 111.

CHAUI, 2000.

DAVIDSON, 2000. p. 265.

No original alemão usam Rang no sentido de ranking .

BIRMAN, 2000. p. 170.

AMIN, 1989. p. 89-91.

RABINOW, 1986. p. 241.

COSTA, D., professor da Escola Superior de Guerra, em "Seminário Política de Defesa para o Século XXI . Idéías para uma Concepção Estratégica: A defesa Nacional e o Projeto Nacional. TV Senado, 13 de agosto de 2002. (Transcrição do vídeo nossa)

Todas as citações, em seguida, de VELOSO, 1997. p. 496-501.

SOUZA, 1995.

PAULA, 1996. p. 15.

PAULA, 1996. p. 22-23.