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Olhares brasileiros sobre a Alemanha: uma análise de (re)criação textual de hetero-images no final do séc. XX
Georg Wink (Universidade de Mainz, Alemanha)
Ein Bild ist da, wo die Wirklichkeit ein Loch hat. 1
(Botho Strauß, escritor e dramaturgo, *1944)
A real existência de características "nacionais", que permitiriam a clara distinção de uma "Nação" da outra, e de "literaturas nacionais", como expressões naturais destas peculariedades, tornou-se uma pressuposição elementar no pensamento da segunda metade do séc. XIX. A Literatura Comparada, criada neste contexto de nacionalização com a tarefa de comparar as literaturas e detectar influências e relações de recepção inter-"nacionais", encarregou-se da definição e sistematização destas características em forma de uma Psicologia Comparada dos Povos. A motivação inicial, não propriamente nacionalista-ufanista, foi a de providenciar " manuais" sobre " Nações", corrigindo imagens equivocadas ( mirages) e facilitando a comunicação inter- " nacional", idealizando uma coexistência pacífica entre as " Nações". 2 Paradoxalmente, os estudos contribuiram, sobretudo, para a (re)criação e generalização de imagens " nacionais", perpetuando um suposto " conhecimento do outro" (chamado, mais tarde, por Günther Grass de " vacina preventiva do conhecimento prévio contra o estranho". 3
O estudo de imagens, desta forma, estabeleceu-se como aspecto intrínseco à Literatura Comparada já no final do século XIX, mesmo que a Imagologia se emancipasse como nova disciplina (pela iniciativa de Carré e Guyard) apenas em 1951 - não por acaso logo após à Segunda Guerra Mundial. 4 Mas, não foi antes dos anos 60 que a Imagologia conseguiu abdicar da busca pelas " entidades mentais nacionais" e pela " essência nacional na literatura" - presente, apesar de sua problematização, na obras de Carré e Guyard - e superar a sua involuntária servidão aos vários nacionalismos. 5 Reconheceu-se a inexistência das categorias " nacionais" e percebeu-se as imagens como construções textuais ficcionais, ideológicas e imaginárias, o que possibilitou tratá-las em abstração de seu suposto teor "real". 6 A Imagologia, como é praticada hoje, enfoca a estrutura de imagens, os determinantes de sua gênesis e os efeitos de sua promulgação, sua transitoriedade intertextual e seus autores e promotores, mas "nada é mais distante da Imagologia (...) do que prestar alguma contribuição aos estudos de ,caráteres nacionais'." 7
Contribuiram para esta nova Imagologia, nos últimos anos, os Estudos Culturais 8 que desvenderam e desconstruiram a ideologia universal da inevitabilidade, da legitimidade, da dinâmica própria e " natural" do processo de formação da " Nação" - o assim chamado " despertar da Nação" -, reconhecendo a como artifício, construída no imaginário, em forma de uma "narração pedagógica da Nação" 9, basicamente pela literatura, que providencia os pré-requisitos e as ilustrações para a "invenção da Nação". Os motivos literários " nacionais", na maioria das vezes, são recriações intertextuais, fomentadas por um imaginário geral transmitido de hetero-imagens e auto-imagens, numa influência mútua. As imagens, aglomerações multifacetadas e flutuantes, assimétricas e desorganizadas, baseiam-se num repertório de estereótipos fixos, adquiridas pela socialização do indivíduo, que condicionam a percepção do mundo, permitindo a simplificação e a sistematização de informações em sistemas estáticos. 10 O que distingue o estereótipo nacional de outros estereótipos sociais (p.ex., de gênero ou de profissão), é o seu alto grau de irracionalidade e rigidez, devido à falta de experiência com o objeto, a sua emocionalidade e, sobretudo, o seu uso sem a conciência de sua condição simplista. A Psicologia Social revela como este processo inconsciente de percepção do Outro é determinado por mecanismos como, p.ex., a percepção da própria " Nação" como instância heterogênea e da outra como homogênea, a interpretação de atitudes de concidadãos em dependência de fatores sócio-estruturais e dos " estranhos" por disposições individuais e voluntárias, e a auto-referencialidade na atribuição de características à outra cultura (provocando o paradoxo que o uso de hetero-imagens define melhor o autor do que o designado). 11 A percepção estereotipada provoca o curioso efeito, comprovado empiricamente, que a experiência da outra cultura não necessariamente leva à relativização de estereótipos, e sim pode também causar a sua fossilização, porque, além de perceber e assumir preferencialmente o " esperado", a avaliação é feita com base num sistema pré-figurado de interpretação do " típico"/ " atípico". 12 Estudos recentes da Germanística Intercultural chamam a atenção à truculência e ambiguidade da comparação inter-cultural (chamada por Peter Schneider de " doença da comparação" 13), considerada a operação cognitiva de superação de estereótipos nacionais por excelência, devido à inevitável recorrência à avaliação qualitativa e, sobretudo, por sua falta de teor informativo na medida em que é efetivada sem um tertium comparationis ou na suposição errônea da congruência dos sistemas de relevância em comparação: 14 No plano semântico, marcado tanto pela traduzibilidade dos significantes quanto pela suposta possibilidade de equiparação dos significados, são criados supostos isomorfismos como, p.ex., " família/ " Familie " ou " trabalho/ Arbeit ", e no plano pragma-linguístico, pela decodificação mono-perspectivística dos atos de fala . 15
A partir destas premissas e considerações metodológicas, a análise de hetero-imagens brasileiras sobre a Alemanha (em relação com as respetivas auto-imagens) e dos estereótipos nacionais subjacentes será aplicada a dois textos de viajantes brasileiros à Alemanha - implicando isto, além da reescritura de imagens, uma recriação de imagens baseada na observação empírica: "Um Brasileiro em Berlim" de João Ubaldo Ribeiro (1993) e "O verde violentou o muro - visões e alucinações alemãs" de Ignácio Loyola de Brandão (1983). 16 A relação imaginária Brasil-Alemanha, devido à distância geográfica e cultural, baseia-se mais na transitoriedade intertextual de imagens do que na perspectiva empírica. As imagens referentes à Alemanha são oriundas de uma tradição secular, na qual, inicialmente, predominou uma projeção positiva de "naturalidade" e "espiritualidade cultural" (na literatura, filosofia e música), pendant a uma "decadência" cultural ocidental. 17 Já na era pós-napoleônica surgiu a imagem do militarismo, contraditoriamente paralelo à recepção do romantismo alemão, além de vigorar uma percepção da "Alemanha", ainda não Estado-Nação, como difusa, ingovernável, incalculável e indefinível, uma "mancha de óleo" no centro da Europa, flutuando entre Oeste e Leste. 18 A maioria das imagens, porém, deriva da época após à unificação do Reich (1871), de uma "Germânia" militarista e imperialista, ameaça constante à estabilidade política da Europa, atingindo a visão negativa o extremo com a tomada de conhecimento das cometidas atrocidades pelos nacional-socialistas. Estas últimas imagens persistiram, no caso da RFA, de forma latente no pós-guerra (tornando-se, inclusive, referência principal de identidade 19), ao lado de Wirtschaftswunder, Deutsche Mark, e, ultimamente, da Unificação Alemã como renascença ambígua e de imagens contraditórias ao cânone tradicional, referentes ao pacifismo e ecologismo alemão. 20 Este repertório, suposta base de referência para os textos, corresponde, na sua essência, aos estereótipos atribuídos ao "caráter alemão", levantados empiricamente, do "acomodado-submisso", "sincero-autêntico", "teimoso-arrogante", "militarista-dominador", "agressivo-intolerante", "perfecionista-trabalhador-organizado", "frio-sombrio-fechado" e "sonhador-naturalista-ecologista". 21
Os textos reproduzem parcialmente as imagens e os estereótipos: A primeira caracterização do "alemão" de RIBEIRO já rescucita as hetero-imagens principais, a do "bávaro" autêntico, capaz de "consumir cerveja em quantidades industriais" e a do alemão prussiano "em vistoso uniforme militar" (pp. 14-15), além de mencionar (pela boca de um pescador em Itaparica) que "o alemão é o povo mais organizado do mundo" (p. 84). Em BRANDÃO, a reprodução é marcada claramente como hetero-imagens existentes no Brasil: "Por que vai morar em Berlim? Cidade sombria, cinza, pesada, triste, cheia de nazistas, um povo fechado. (...) Os alemães são o povo mais organizado do mundo, me advertiram no Brasil." (p. 30). Parcialmente as imagens são afirmadas pela própria observacão, como, p.ex., em BRANDÃO: "Tudo é fechado nessa terra. Até mesmo as pessoas." (p. 92), ou, logo no primeiro dia, " ainda não sabia que há sempre um quê autoritário em tudo que é alemão" (p. 34, grifes meus), sendo a generalização fruto do saber prévio, e não da observação posterior. Ambos confirmam a submissão onipresente às regras, recorrendo ao topos do pedestre que espera o sinal abrir (BRANDÃO, p.89; RIBEIRO, p.114), e a distância nas relações sociais, expressa na ausência de "olhares" mútuos, com a diferença que RIBEIRO ("ninguém olha para ninguém", p. 117, grife meu) a reduz, de maneira conclusiva e absoluta, a uma "privação sensorial" no sentido de uma frieza emocional e que BRANDÃO ("ninguém enfrenta o olhar do outro", p. 51, grife meu) a interpreta como insegurança atávica.
As imagens pré-estabelecidas também são relativadas , porém, de maneira incompleta e contraditória: O fato paradoxal que RIBEIRO fala repetidas vezes de "olhares" (p. 19) e "piscadelas marotas" (p. 122) dirigidas a ele, não relativiza, para ele, a validade do estereótipo. Na comparação dos sistemas "trânsito/ Verkehr " ele não disfaz a oposição binária, mas acrescenta um elemento, presente apenas unilateralmente, e atribui a este o teor relativizante, o "mais terrível, impiedoso e ameaçador veículo que circula pelas ruas de Berlim: a bicicleta" (p. 115). BRANDÃO, que faz a mesma observação de ciclistas "furiosos investindo contra pedestres desavisados. Uma vez contra um policial que se retirou rápido de cena" (p. 157), relacionando, inicialmente, o fenômeno a uma geral "intolerância nessa, ,defesa absoluta dos direitos'", logo passa a tecer considerações comparatístas sobre o estato social de "direitos" nos dois sistemas culturais e, mais tarde, chega a relativizar até esta oposição ("fui descobrindo que há arranjos e adaptações, há jeitinhos, que há de tudo") e atribui a significância, dada por ele inicialmente ao exemplo das bicicletas, à criação de auto-imagens, confirmando o papel elementar das auto-imagens para o olhar exterior: "O problema é que o alemão criou uma imagem de intransigente, duro, rígido, mas por trás disso existe uma gente curiosa de ser observada." (p. 158, grife meu). 22 Semelhante processo de relativização parcial ocorre a respeito da percepção da "organização alemã". Tendo mal chegado, BRANDÃO repara na numeração das casas que "há ruas em que par e ímpar estão misturados e você que se arranje" e conclúi ironicamente "(a)inda bem que os alemães são organizados." (p. 32). Mas, precisando, ambos os escritores, de reparos nas instalações sanitárias dos domicílios e confrontados com uma tremenda incompetência dos técnicos, nenhum dos dois - nem RIBEIRO que fica durante semanas sem banheiro (p. 123) - relaciona a experiência à suposta "eficiência" alemã. BRANDÃO, apenas no final do livro, ao enumerar as próprias observações, consegue romper o estereótipo, listando, no capítulo "Eficiência", numerosos exemplos para a freqüente ineficiência de organizações alemãs, pelo espanto dos participantes do exterior, mas, curiosamente, pelo alívio dele, que subitamente sente uma diminuição da distância cultural e uma humanização do ser alemão, porque "caído o mito do organizado, perfeito, eficiente, resta o alemão gente." (pp. 50/232).
A comparação, implícita na recriação e relativização, chega também a equiparação de fenômenos, encontrando o semelhante no diferente (o que implica a desconstrução prévia de imagens), como, p.ex., nas observações empáticas de BRANDÃO "Alemão na fila é como brasileiro" (p. 131), "Frequentei tanta repartição em que as pessoas não faziam nada, conversaram e tomaram café, te deixaram esperando, atendiam lentamente." (p. 140) e "Alemão é cafezeiro. Uma pesquisa mostrou que o café superou a cerveja como bebida nacional" (p. 94). Esta equiparação até pode se tornar uma inversão , como na experiência-chavão de BRANDÃO, esperando, de maneira irritada, a ser atendido num bar, é sendo esclarecido por uma amiga alemã que esta atitude poderia ofender os garçons a ponto de deixá-lo esperando muito mais, situação esta na qual passa a reencontrar, curiosamente no contexto alemão, a paciência: "Nada tenho a fazer pela frente, quero apenas tomar cerveja." A comparação intercultural revela-lhe o inesperado: "Qualquer garçon estaria morto a tiros ou pancadas no Brasil, na terceira vez que passasse pela mesa sem olhar." (p. 191). Uma outra conclusão, talvez menos drástica, que poderia ser tirada deste exemplo, é que "garçon/ Kellner" e "serviço/ Dienstleistung" não são equivalentes em duas sociedades com estruturas e hierarquias sociais diferentes. As duas operações não constam, contudo, no texto de RIBEIRO que, quando confrontado com o paradoxal das imagens, como, p.ex., com um diferente grau de tolerância, respeito à sexualidade nos programas de televisão (p. 30) e ao nudismo público (p. 31), o reinterpreta apenas como "assustadora obliteração da líbido" (p. 108), reduzindo o fenômeno cultural - parte da sociedade de comércio e da emancipação de uma tradição moralista - à uma suposta falta de emoção.
Por outro lado, apenas RIBEIRO tematiza as hetero-imagens alemãs sobre o Brasil (a glorificação do "índio", da "Amazônia", dos "trópicos", do "sol implacável" e da sensualidade das "mulatas estonteantes", pp. 27-28), críticando seu uso ingênuo, porém, sem perceber que estas imagens distorcidas, da mesma forma, são implícitas como fundo comparativo nas imagens lançadas por ele sobre a Alemanha e, sobretudo, que estes têm sua origem não só numa projeção primordial européia de "paraíso" e bon sauvage ao Brasil, como também na ampla promulgação desta "identidade nacional" em forma de auto-imagens desde o séc. XIX. Ou seja, são mais uma vez as auto-imagens que condicionam as hetero-imagens do Outro num processo análogo, o mal-entendimento e a banalização são mútuas.
Na procura de auto-imagens alemãs , ambos os autores enfrentam dificuldade de compreender a impossibilidade, devido à história remota e recente, de transpor o conceito de "Nação" à Alemanha. Se para BRANDÃO a explicação "(e)star em Berlim não é estar na Alemanha" (p. 38) reflete, de certa forma, a realidade política do pós-guerra (o status de Unidade Política Autônoma de Berlim Ocidental), para RIBEIRO, vivendo numa Alemanha unificada e na futura capital federal designada, a questão coloca-se de forma mais complexa, conduzindo-o, porém, à apreensão de uma imagem exterior ao cânone imaginário (pelas citações de alemães sobre o assunto): a ausência de uma identidade nacional ("eu não me sinto alemão"), às vezes expressa num anti-nacionalismo ("Acho os alemães um povo sombrio, sem graça, fechado (...) me identifico muito mais com povos como o seu, gente alegre, relaxada, risonha, comunicativa", p. 101) e a presença de identidades multiculturais ("Berlim não é Alemanha (...) com gente de todo o mundo", p. 100) ou regionais ("minha língua-mãe é o dialeto lá de minha terra, que parece com alemão, mas não é", p. 101). 23
A questão, de que forma a compreensão do Outro é acompanhada por um processo de inspeção , concientizando-se da própria condição limitada de observador extra-cultural (o que, de nenhuma forma, significaria a abdição da descrição e formação de opinião sobre o outro!), é tematizada em RIBEIRO, quando, em contato com a polícia alemã, ele percebe uma interferência do contexto próprio ( "todo brasileiro tem medo de polícia") e descreve a sua diferença de lidar com esta interferência. BRANDÃO, também filho da repressão política, é sujeito à mesma interferência, mas sem tomar conciência dela, quando conclúi que "uma rua que tem sindicato, abriga homossexuais, negros e uma placa de comemoração socialista, necessita de polícia. A delegacia fica no número 30." (p. 33). Além de conterem "sindicato/ Deutscher Gewerkschaftsbund" potenciais "revolucionários" bem distintos, quem se estabeleceu na rua primeiro, foi a delegacia, o que inverte a argumentação. Uma diferença principal entre os textos expressa-se pela marcação constante de subjetividade e da condição da percepção intercultural em BRANDÃO: "Tenho medo das imagens superficiais, de primeiras impressões enganosas. E se estou sendo preconceituoso? Situações me parecem incoerentes, paradoxais. Os alemães serão assim mesmo?" (p. 127). Esta preocupação está ausente em RIBEIRO que, até no campo minado da comunicação, apesar de sofrer com o não-domínio da língua alemã, achando-se exposto à ridiculariedade (um "tartamudo", p. 20), não vê nela nenhum fator que possa afetar a própria percepção, julgando, "apesar de inteligíveis", sempre "presumíveis" e "óbvias" as falas.
A conclusão que os dois autores tiram da sua estada na Alemanha é sintomática para os dois processos de tratar do estranho expostos acima. Se em BRANDÃO predomina uma visão dividida e empática ("O que me seduz na Alemanha é a ambiguidade, os paradoxos e a vitalidade" p. 244), assumidamente incerta até o último momento ("Não vim ao mundo para explicar nada.", p. 313), RIBEIRO encerra, laconicamente, com o lugar-comum "(t)enho uma nova compreensão, que nenhum livro pode dar, somente a vivência". As conclusões refletem perfeitamente a postura inicial dos autores (e, para não fazer injustiça, as condições e finalidades das estadas, como pai de família, ligado a projetos literários a serem realizados no Brasil, e como solteiro recém-separado, na procura de um novo elo na vida): RIBEIRO deixa claro, desde o início, seu próprio saber prévio sobre a Alemanha, sentindo-se tão familiar que fica imaginando "se não teria sido alemão numa vida pregressa" (p. 14). Portanto, escreve salientando sua facilidade de assimilação, a "camaradagem" que estabeleceu com os moradores do bairro, vendo-se num papel de "embaixador cultural" (p. 75), o que influencia a sua observação, tornando boa parte do texto uma mera reprodução de imagens. A postura de BRANDÃO, divergente pela cautela e, ao mesmo tempo, pela vontade de se abrir à nova realidade, é apresentada em forma de prólogo, em que promete ao leitor "situações visões pensamentos anotações sonhos fantasias lembranças. (...) Sem explicar, concluir. (...) fazendo relação com a própria realidade. (...) aceitar o outro sem fechar os olhos." (p. 7). A compreensão da relatividade e auto-referencialidade da percepção do Outro e o reconhecimento de sua normalidade e inexplicabilidade que fala destas linhas, mostrando uma tolerância profunda das ambiguidades, do ponto de vista imagológico, pouco deixa a desejar.
"Existe uma imagem, lá onde a realidade tem um buraco."
Cf. Jean-Marie CARRÉ: Les écrivains français et le mirage allemand; Boivin ; Paris ; 1947.
Günther GRASS: Kopfgeburten oder die Deutschen sterben aus; 2 a ed.; Luchternhand; Neuwied; 1980, p. 61.
Cf. Marius-François GUYARD: La littérature comparée; PUF; Paris; 1951.
Cf. Manfred S. FISCHER: Nationale Images als Gegenstand Vergleichender Literaturgeschichte - Untersuchungen zur Entstehung der komparatistischen Imagologie; Bouvier, Bonn, 1981.
Cf. Hugo DYSERINCK: "Zum Problem der ,images' und ,mirages' und ihrer Untersuchung im Rahmen der Vergleichenden Literaturwissenschaft"; Arcadia; 1; 1/1966; pp. 107-20.
Hugo DYSERINCK: Komparatistik - eine Einführung; Bouvier; Bonn; 1977; p. 131.
Cf., p.ex., Eric J. HOBSBAWM (1990): Nations and nationalism since 1780. Programme, myth, reality; Cambridge University Press; Cambridge/New York/Melbourne; 1990 e Benedict ANDERSON: Imagined communities: reflections on the origin and spread of nationalism; Verso; London/New York; 1983.
Cf. Homi K. BHABHA (org.): Nation and Narration; Routledge; London/New York; 1990.
We are told about the world before we see it. We imagine things before we experience them and those preconceptions govern deeply the whole process of perception." Walter LIPPMANN: Public Opinion; 12 a ed., Free Press; New York ; 1965 [1922]; p. 89. Cf. sobre a teoria de sistemas Niklas LUHMANN: Soziale Systeme. Grundriß einer allgemeinen Theorie; Suhrkamp; Frankfurt/M.; 1984.
Cf. Gottfried KELLER: "Didaktik des Fremdverstehens aus neurobiologisch-konstruktivistischer und empirischer Sicht"; in: Martin LÖSCHMANN/Magda STROINSKA: Stereotype im Fremdsprachenunterricht; Peter Lang; Frankfurt/M.; 1998; pp. 143-159.
Cf. Martin LÖSCHMANN: "Stereotype, Stereotype und kein Ende"; in: Martin LÖSCHMANN/Magda STROINSKA (orgs.): Stereotype im Fremdsprachenunterricht; Peter Lang; Frankfurt/M.; 1998; pp. 7-33.
Cf. Peter SCHNEIDER: Der Mauerspringer; Luchterhand; Neuwied; 1982; p. 64.
Cf. sobre a operacão cognitiva da comparação Bernd-Dietrich MÜLLER: "Interkulturelle Verstehensstrategien - Vergleich und Empathie"; in: Gerhard NEUNER (org.): Kulturkontraste im DaF-Unterricht; iudicium; München; pp. 33-83, sobre a idealizacão da congruência de sistemas de relevância Alfred SCHÜTZ/Thomas LUCKMANN: Strukturen der Lebenswelt; vol. 1; Suhrkamp, Frankfurt/M.; 1979; pp. 88-89.
Hermann BAUSINGER: "Kultur kontrastiv - Exotismus und interkulturelle Kommunikation"; p. 7; in: Materialien Deutsch als Fremdsprache; Regensburg; 27; 6/1987; pp. 1-16.
Os dois escritores passaram 15 meses em Berlim, à convite do DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmcio), agência de fomento à pesquisa e ao ensino acadêmico que, através do "programa de artistas", proporciona também estadas para artistas em Berlim, pelo qual foram beneficiados também João Antônio, Rubem Fonseca e Fernando Bonassi. - Refiro-me, nas citações, às seguintes edições dos textos: João Ubaldo RIBEIRO: Um Brasileiro em Berlim; Ed. Nova Fronteira; Rio de Janeiro; 1993 e Ignácio Loyola de BRANDÃO: O Verde Violentou o Muro - vida em Berlim antes e agora; 13 a ed. revista e atualizada; Global; São Paulo; 2000. - Embora os textos fossem escritos em duas épocas diferentes (antes e após à unificação) e se diferenciassem muito (sendo o primeiro texto uma coletânea de crônicas concisas e o segundo um minucioso relato de viagem), além de ambos se referirem, predominantemente, apenas à Berlim Ocidental, a seleção pode ser considerada, justamente pelas diferenças conceituais, representativa e a comparação, válida, sendo a finalidade deste trabalho o exame da percepção imaginária geral da Alemanha dentro da sua tradição de imagens, dominada esta no Ocidente pela RFA, e condensada na antiga e nova capital como pars pro toto, abstraíndo das peculariedades do olhar sobre as metrópoles (cf., sobre este aspecto, Marga GRAF: "Ein Brasilianer in Berlin: Das Berlinbild in der brasilianischen Gegenwartsliteratur"; in: Albrecht BUSCHMANN/Dieter INGENSCHAY: Die andere Stadt - Großstadtbilder in der Perspektive des peripheren Blicks; Königshausen & Neumann; Würzburg; pp. 159-171).
Cf., p.ex., como representativo para esta fase (séc. XVIII/inicio do séc. XIX): Anne Louise Germaine de STÄEL: De L'Allemagne [ed. crítica] ; S. Balayé; Paris; 1958-60 [1810].
É sintomática para esta imagem o xenion de Goethe e Schiller: Deutschland? aber wo liegt es? Ich weiß das Land nicht zu finden. / Wo das gelehrte beginnt, hört das politische auf. ("Alemanha? mas onde fica? Não consigo encontrar esse país. / Onde a [Alemanha] cultural começa, termina a política.") Vale lembrar que a falta de uma unidade política não necessariamente foi percebida como um aspecto negativo. Segundo Goethe: Zur Nation euch zu bilden, ihr hoffet es, Deutsche vergebens; / Bildet, ihr könnt es, dafür freier zu Menschen euch aus . ("Tornar-vos uma Nação, vocês alemães, o esperam em vão; / Tornai-vos, que o conseguem, em troca, homens mais livres."). Segundo Nietzsche, a impossibilidade de definir o "alemão" causaria a "eterna busca de si mesmo" como traço predominante do "caráter alemão". Cf., p.ex., Hermann BAUSINGER: Typisch deutsch - Wie deutsch sind die Deutschen?; C. H. Beck; München; 2000.
O Ministro de Relações Exteriores, Joschka Fischer, afirmou, p.ex., num diálogo com Bernard-Henry Lévy, filósofo e escritor francês, que o consenso nacional e o mito de origem da Alemanha do pós-guerra seria Auschwitz: "Pensar a Alemanha é pensar Auschwitz". Cf. Die Welt; Axel Springer; Hamburg; 22/05/99, p. 3. O ex-presidente da RFA, Gustav Heinemann, respondeu à pergunta se ele amava a Alemanha com a resposta, já lendária, que amava a sua esposa, mas que não conseguiria amar algo parecido com um plano de saúde. Cf. Die Zeit; Zeit-Verlag; Hamburg; 37/2003; p. 32.
Cf. sobre o ecologismo alemão (e, sobretudo, a fobia da energia nuclear), p.ex., Brigitte SAUZAY: Le Vertige Allemande; Olivier Orban; Paris; 1985 e Pascale HUGUES: Le bonheur allemand; Editions du Seuil; Paris; 1998. Sobre o anti-militarismo e pacifismo da RFA, expressos na posição defensiva do exército e na avaliação crítica da política de defesa na sociedade, cf. Roberto GIARDINA: Guida per amare i tedeschi; Rusconi; Milano; 1994; pp. 107-109.
Wolf D. GRUNER: "L'Image de L'Autre: Das Deutschlandbild als zentrales Element der europäischen Dimension der deutschen Frage in Geschichte und Gegenwart"; in: Günter TRAUTMANN (org.): Die hässlichen Deutschen. Deutschland im Spiegel seiner westlichen und östlichen Nachbarn; Wissenschaftliche Buchgesellschaft; Darmstadt; 1991.
Outra diferença entre os dois autores é a maneira de lidar com o "estranho": Enquanto RIBEIRO desenvolve uma " Bicyclophobia berlinenses" (p. 117), BRANDÃO, com uma bicicleta emprestada, avança, de sua vez, "barulhentamente sobre pedestres que invadem (seu) caminho particular" (p. 221).
Os dados do levantamento pessoal de Ribeiro sobre "identidade alemã" ("40% se acham berlinenses e consideram os alemães um povo exótico que mora longe, 30% se sentem ofendidos com a pergunta (...) e fazem um comício contra o nacionalismo, 15% são ex-Ossies [identidade relacionada à RDA] e os restantes 15% não se sentem alemães, povo sombrio, sem graça, fechado etc,etc.", pp. 102-103) coincidem na sua tendência com os resultados de pesquisas feitas a nível nacional nos anos 90 (p.ex., do semanário político Der Spiegel em 1994), segundo as quais 20% se sentem cidadãos do Estado (p.ex., Berlim, Baviera), 16% cidadãos da cidade, 14% europeus, 13% cidadãos do mundo e apenas 31% recorrem à nacionalidade como referência primária de identidade, além de 6% que se referem às antigas nacionalidades da RFA/RDA.