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Ulrich Beil e o Brasil: imagens descentradas
Celeste Ribeiro de Sousa (USP)
No cenário das heteroimagens do Brasil criadas dentro da literatura de língua alemã, o Brasil surge sempre em associação ao Outro, ao estranho, ao estrangeiro, ao desconhecido e pode aparecer configurado em nuances várias que, no âmbito do espaço físico, se estendem dos traços identificadores do paraíso terrestre, passam pelos de um paraíso interior e desembocam nos de um paraíso destruído (o espaço urbano) e que, no âmbito do espaço humano, dão forma ao índio como bom ou como mau selvagem, consubstanciam o estrangeiro como o destruidor da natureza divinal (exceção feita ao elemento alemão) e, por último, criam um brasileiro ora pobre, ora inculto, ora andarilho,desrespeitador da lei, não trabalhador, alienado, místico, sensual, xenófobo, admirador da Europa, híbrido racial, ou tudo isto misturado em doses diversas . É neste pano de fundo que desponta um poema que, pelo que conheço, inaugura uma nova faceta nesta paisagem, uma faceta descentrada de um ponto de vista hegemônico, cultivado até agora. Trata-se do poema "Night thoughts" de Ulrich Beil (*1957), publicado numa Antologia de 2000 dedicada às primeiras poesias deste novo século XXI. É um poema focado em travessias de tempos e de espaços, uma ilustração de dialética negativa, em que múltiplas imagens se fundem umas nas outras em planos temporais e espaciais diversos, em movimento constante. No poema "Night thoughts", o poeta alemão Ulrich Beil trata basicamente de viagens, várias: uma concreta feita de avião da Alemanha ao Brasil que serve de apoio a outras inúmeras viagens realizadas no plano abstrato, via fluxo da consciência a pontos remotos guardados na memória. Estamos diante de um poema escrito por um eu-lírico confessadamente sensível ("um cardiograma [1 a estrofe], uma bomba com estopim prestes a explodir [7 a estrofe]"): o que está em jogo é, portanto, a sensibilidade de um artista que compõe os próprios processos de percepção do mundo à sua volta, ou seja, de um intelecto refinadíssimo, voltado para seu próprio funcionamento. Em outras palavras, de um eu-lírico ativamente ensimesmado.
A primeira coisa que chama a atenção no poema é o título em inglês - night thoughts -, que abre uma vereda interpretativa de múltiplas saídas.
Realmente, o mundo sugerido por "night thoughts" não tem fronteiras: é, por excelência, o mundo dos pensamentos que se desenrolam à noite, no período temporal do tudo possível, do silêncio entrópico, do tempo do inconsciente ou subconsciente, onde os mistérios estão recolhidos.
A recepção ao leitor logo se faz na primeira linha da primeira estrofe: "eis-me aqui aberto", diz o eu-lírico, um eu lírico que se define metaforicamente como cardiograma, um aparelho destinado a registar as batidas do coração e a surpreender suas sístoles e diástoles, suas tensões e distensões, durante as viagens que empreende, já que se encontra "algures no cosmo". Contudo, em todas as viagens, há uma certa angústia que sempre envolve um processo de decisão.
É como se o cardiograma assumisse a função da mão do poeta que registra no papel o poema. Está-se, portanto, na era da máquina que invade e controla até o mundo das emoções - um mundo, neste sentido, pós-moderno.
A segunda estrofe contém um primeiro registro da angústia de que falei, uma espécie de auto-crítica: o eu do poema não dá conta da urgência do momento presente, que exige os conhecimentos adquiridos no passado, os quais o cérebro não traz à consciência do agora. Amanhã será tarde. O que o cérebro teimosamente focaliza são outras coisas.
A terceira estrofe é iniciada pela frase fulcral para o entendimento do poema "Ter que, assim de repente, decidir-se". Percebe-se neste verso uma certa resistência a uma decisão que se impõe, uma resistência traduzida pela tensão exercida entre o significado de obrigação imposto pelo verbo "ter que" e a simultânea impessoalidade do tempo verbal empregado - o infinito -, o que leva a crer que o eu do poema se angustia diante da possibilidade de ter que conjugar o verbo "decidir-se".
Ao invés de decidir-se, o eu lírico prossegue no registro de outras experiências que, de certa forma, explicam o insatisfatório funcionamento pragmático do cérebro. Neste registro vamos encontrar uma série de vivências que se entrecruzam e interpenetram e que explicitam as diversas alternativas que se colocam ao "ter de decidir-se" e o impedem:
A primeira decisão a ser tomada no poema estaria nos seguintes versos:
"entre a tela deste forno infernal [...]e a outra aqui ao lado, cuja forja de clic em clic ...".
Temos aqui a menção a duas telas, as duas telas ligadas a forno, uma a um forno infernal, outra a uma forja com barulho de teclas sugerido pela onamatopéia clic/clic. É dito que o forno infernal consome matéria. Porém, as descrições metafóricas de cada uma das telas não fixam o signo por elas evocado (o forno). Ao contrário. O predicativo infernal alarga a leitura referencial de um objeto, onde alimentos são cozinhados pelo fogo/calor. Uma outra leitura se impõe, portanto. Trata-se de um forno que remete para inferno e para um século marcado pelo ferro e para a consumação da matéria. Trata-se, nesta leitura, da época da Revolução Industrial, ou seja, do século das caldeiras a vapor no século XVIII, funcionando a partir da queima da madeira, mas também do século das 2 Grandes Guerras, dos fornos crematórios e dos altos fornos industriais totalmente automatizados. A outra tela pertence a uma forja. Ora, a forja não é senão uma forma mais primitiva de forno, um forno comum na Idade Média, um forno dos ferreiros, artesãos que trabalhavam os metais, entre eles, o ferro, e que por suas habilidades na arte da transformação se equiparavam aos alquimistas.Não tenho tempo de me alongar na exploração deste campo. Retomo o desenvolvimento do poema que aponta para a Idade Média, atravessa os séculos e atinge em cheio o século XX, com as Revoluções Industriais que culminam com as duas últimas Grandes Guerras mortíferas e com a invenção do computador. Repare-se que as duas telas do começo do poema não estão colocadas em oposição, mas completam-se, desdobram-se de maneira metafórica. Não se trata, por exemplo, de uma tela que apresenta um forno de ferro chamado de forja, onde crepita o fogo que consome madeira ou carvão, em contraponto a outra tela, cuja forja, escancara de clic em clic os mundos possíveis. Trata-se da tela do forno que se liga a inferno, à Revolução Industrial, à morte, e da tela que tem uma forja acionada por teclas, de onde saem mundos. Os signos forno e forja, entretanto, entrecruzam este tecido metafórico, porque pertencem a um mesmo conceito, isto é, forja não é senão um forno primitivo. Se no começo, a forja era acionada pelo ferreiro que manipulava metais para fazer objetos, hoje, o forno é acionado por computador que, por sua vez, é manipulado pelo técnico, e dele saem projetos de realidades complexas que se projetam no futuro. Ou seja, hoje, o forno por excelência, é o próprio computador, através do qual é possível alquimizar, produzir, acessar o presente e o passado.
Entre o funcionamento do computador, aqui também evocado pelas telas, e o funcionamento do cérebro do poeta, representado pelo fluxo dos pensamentos, pode-se vislumbrar um paralelo: o que é pensado ou relembrado, também pode ser acessado pela máquina, uma espécie de repositório do saber, das ações e mesmo das emoções dos homens em todos os tempos. Até os melhores mundos possíveis do futuro podem sair de suas telas.
Voltando, todavia, à necessidade de um decidir-se entre uma tela e outra, verifica-se que tal decisão, tal escolha é, no fundo, falsa, porque os mundos desvelados não são excludentes, mas fazem parte de uma obra maior, como se fossem as telas de um díptico: todos são partes do mesmo todo, "fazem fronteira", como é dito na estrofe IV.
Tudo faz parte de uma realidade única, onde tudo se interliga e é complementar, como os dois painéis de um retábulo. O moderno ferreiro, o hoje chamado técnico, é neste poema o próprio eu-lírico, cujo metal é a palavra que coloca na forja, ou no forno, ou hoje no computador, e a transforma alquimicamente em poesia.
A 4 a estrofe inicia-se, levando a corrente do pensamento para a pintura. Iluminam-se os quadros que representam o apocalipse. Ora o apocalipse, se, de um lado escancara o final dos tempos, de outro, desvela um novo início, porque "apocalipse" significa "revelação". É evidente a insinuação ao "final dos tempos", à passagem do século, à passagem do milênio, ao entre-tempos e, para o eu do poema, também ao entre-lugares, mas também é evidente que não é a primeira vez que isso acontece. Afinal, o Apocalipse é um livro bíblico, portanto de tempos imemoriais, eterno, o que significa que o entre-tempo é sempre o momento presente: sempre algo acaba e algo começa. O futuro sugerido pelos quadros do apocalipse pertence ao âmbito das projeções, das suposições, porque desconhecido. E o que mostram as reflexões, registradas neste poema? Que nada termina, que nada começa, mas que tudo está encadeado em tudo. Portanto, é aparente a necessidade de decidir-se.
A estrofe seguinte, a 5ª, registra outras vivências do eu-lírico que, por restrição de espaço, não vamos analisar aqui, não interferindo isto negativamente, na interpretação que se segue. Para ilustrar a temática do poema, atemo-nos, assim, apenas à estrofe mais estreitamente ligada à configuração do Brasil.
Night Thoughts 1
Estrofe VI:
...
33. Bin ich schon drüben oder noch hier?
34. Mein Schädel tickt wie eine Bombe.
35. Baumelnd darunter die Zündschnur, der Körper.
36. Wartet eine knallharte Story auf mich,
37. sofern ich sie überlebt haben werde -
38. oder schießt alles in diesem Bankkristall zusammen,
39. der Palmen und Wachhäuschen spiegelt
40. und mich seine smaragdenen Strophen
41. in tropischer Hitze hochgleiten läßt
42. wie in einem Aquarium?
...
33.Estarei já do outro lado ou ainda aqui?
34.Meu crânio tiquetaqueia como uma bomba.
35.Embaixo o pavio bamboleia, o corpo.
36. Será que uma story de suspense me aguarda,
37. no caso de lhe ter sobrevivido -
38. ou tudo se fundirá neste cristal bancário,
39. que espelha palmeiras e guaritas
40. e seus versos de esmeralda
41. me faz perscrutar em calor tropical
42. como num aquário?
...
Tradução de Celeste H. M. Ribeiro de Sousa
A 6 a estrofe começa com uma pergunta que aponta para a localização espacial: "estarei eu já do outro lado ou ainda aqui?". O que significa "aqui e o que significa "do outro lado"? "Aqui" pode estar referido aos mundos interiores evocados até o momento ou aos mundos exteriores, isto é, à Alemanha de onde partiu, e ao avião, onde se encontra. E o que significa "do outro lado"? Pode ser o Brasil, para onde se dirige, pode ser o século XXI, o terceiro milênio, o futuro, o desconhecido. Portanto, o eu lírico, além de se encontrar num entre-tempo, também se encontra num entre-espaço.
De novo uma chamada ao cérebro para que dê conta do momento presente. E, desta vez, o cérebro também não responde à pergunta pragmática, mas volta ao cardiograma e registra o grau máximo de tensão, de angústia, até agora experimentado, porque comparado à imagem de uma bomba. Portanto, nesse grau máximo de tensão, volta a perceber-se aquela angústia velada do início do poema, que tem a ver com o enfrentamento do novo, de um Brasil associado ao futuro, às suposições, a uma história de suspense que, de novo, confirma a existência de tensão/perigo ante o decidir-se pelo desconhecido, uma história de suspense em que o eu do poema será protagonista, isto é, viverá uma história, em que não sabe, se todo o seu saber adquirido (o passado) terá ou não utilidade.
Que perigo poderia ser este? Um perigo que literalmente transforma o eu do poema numa bomba prestes a explodir? Poderia este perigo talvez ser a possibilidade de, ao explodir, ou seja, ao perder a razão ordenadora do fluxo da consciência, (porque no fundo há uma ordem, embora não lógica para o leitor) também perca suas raízes, sua identidade, vire um outro, para quem todos os conhecimentos até então adquiridos não terão utilidade. Esta é uma possibilidade. Mas existe também outra possibilidade: de repente, não há explosão, não há aniquilação da razão, não há negação, não há fragmentação. De repente, pode haver condensação, integração, junção "neste cristal bancário". Pergunta-se que "cristal bancário" é este? Esta palavra composta é, na verdade, um signo que serve de ponte literal a ligar o eu do poema ao "do outro lado", ou seja, ao outro pólo da tensão, que não se resolve. O segundo pólo, gerador de tensão, em oposição ao primeiro, que contém o estilhaçamento possível, aparece, então, como "cristal bancário", portanto, como não estilhaçamento, como não explosão, como uma aglutinação, que é um processo implícito no verbo "zusammenschießen" que está presente na formação de um cristal, em que os vários elementos são aglutinados numa só peça valiosa e linda. "Este cristal bancário" evoca e se desdobra numa imagem que remete para um outro espaço, ou seja, para a área financeira. Ao se evocar o signo banco, "no outro lado", ou seja, no Brasil, a imagem que se forma é a de edifícios modernísimos em forma de prismas recobertos de vidro, com aparência de gigantescos cristais, que evocam a "Bauhaus" e o poder financeiro das modernas megalópolis como São Paulo. É possível que se trate de um daqueles edifícios todos revestidos de vidro que refletem a luz do sol ou, à noite, a luz elétrica, que parecem cristais ciclópicos. Porém, o signo "Bank" também pode referir-se a banco de dados, que associado a cristal, remete à tela dos moderníssimos "laptops". Em seguida, o eu-lírico passa a condensar a imagem do Brasil que possui, uma imagem que se espelha no cristal bancário (nas paredes de vidro ou na tela do "laptop"). Portanto, além dos prédios bancários semelhantes a cristais, outros signos, como palmeiras, guaritas, calor tropical, estrofes de esmeralda, aquário, delineam a imagem do país. Enquanto os prédios bancários, associados a cristais, junto com as guaritas, provavelmente dos seguranças particulares, lembrando a alta criminalidade, evocam o exótico moderno do Brasil, as palmeiras e o calor tropical, marcas identificadoras do espaço geográfico, são até hoje um sinal do velho exotismo brasileiro. "Estrofes de esmeralda" são, por sua vez, uma metáfora complexa: estrofes remetem para a poesia; o Brasil seria, portanto, um espaço inspirador de atividades humanas refinadíssimas, o que é ainda corroborado pelo atributo "de esmeralda". A imagem do Brasil inspiradora do poema é fenômeno a impedir a explosão do poeta. Ora a esmeralda, para o leitor brasileiro, não é só a pedra preciosa de cor de verde. Quando o leitor brasileiro "clica" no computador imaginário e abre o "site" sobre esmeraldas, vários "links" podem oferecer-se: o Eldorado, as bandeiras em busca das esmeraldas, sobretudo a de Paes Leme, sepultado no cruzeiro do Mosteiro de São Bento em São Paulo, cuja história foi romanceada por Paulo Setúbal, o que nos remete para os costumes do Portugal e da Europa dos seiscentos e para outros buscadores, como os medievais, ou seja, para os cavaleiros e para o Graal. Do Brasil vai-se à Europa, do presente vai-se ao passado, voltando-se ao Brasil e ao presente moto continuum . Por sua vez, a forma do aquário remete de volta aos prédios de vidro, ventilados por bolhas de ar condicionado, que surgem poetizadas na forma de estrofes de esmeralda. Além disso, o aquário remete-nos para o elemento água, que é fonte de vida, para o mundo do inconsciente, mundo noturno, mundo de símbolos, e, simbolicamente por sua fluidez a água está ligada a emoções, portanto, também ao cardiograma. Tudo se articula numa ordem latente que, ao mesmo tempo, recua à entropia.
E, se por um lado, esses prédios aludem à vida artificial (luz elétrica e ar condicionado), isto é, à civilização, por outro lado, são associados pelo eu do poema à natureza. Trata-se de uma imagem de Brasil que aglutina a natureza no exotismo antigo das palmeiras, das pedras preciosas e do calor tropical, e a civilização no exotismo moderno dos arranha-céus e da delinqüência. E, tudo isto, ainda amalgamado ao passado alemão do eu lírico. A civilização chegou ao Brasil, mas não abafou o natural nem o lendário - passado e presente se misturam e colorem o país, e este surge, tal como a Alemanha ou a Europa, fazendo parte de um todo imanente, ao alcance virtual.
Portanto, o dilema em aberto coloca-se assim: o eu do poema, dentro de um avião, sobre o oceano, deixou para trás a Alemanha (o passado) e ainda não chegou ao Brasil (ao futuro). O passado ele já reviu no forno/computador imaginário. Do futuro pouco conhece. Será que o passado será inútil, tudo explodirá, e terá de começar do zero? Ou será possível aglutinar o velho com o novo, o conhecido com o desconhecido?
A resposta a isto talvez se possa encontrar na estrofe seguinte: as despedidas são inócuas, assim como chamar alguém de velho nos dias de hoje não faz mais sentido.
Na última estrofe, o fluxo dos pensamentos esbarra no despertador, porque algum botão ou sinal fluorescente chama a atenção, como os olhos de um gato que vêem à noite. Embora não toque, acaba por exercer a mesma função: despertar, despertar do sono de uma noite normalmente dormida. Portanto, o despertador leva-nos, entre outras possibilidades, à imagem de um quarto de dormir no Brasil, em São Paulo, no apartamento (a cena também poderia ter ocorrido no próprio avião), o que, por sua vez, nos leva a imaginar alguém que passa de um estado a outro, de um estado adormecido (que até pode ser onírico) para um estado de vigília, de um estado de repouso para um estado de atividade e isso implica numa alteração, numa mudança. E, pela primeira vez, e justamente no fim do poema, o eu lírico não mais resiste difusamente um tanto quanto angustiado, não mais evita ou adia esta situação do ter de decidir-se por algo, e afirma um categórico "Não quero saber que horas já são". Mas definitivamente opta pela possibilidade de não decidir-se nunca, de poder tudo, isto é, de viajar exteriormente mas também interiormente "na imensa claridade desta noite, na transparência do invisível, em que se adivinha a presença do mais longínquo ainda, nu, insone". Tudo se revela cumulativo e intercambiável. Nem o passado é separado do presente, nem do futuro, nem o Brasil é separado da Europa!
Acordar no avião, no quarto em São Paulo ou em qualquer outro lugar deixa de ser pertinente. Em qualquer lugar, a qualquer hora, sempre se está dentro do todo, porque todos os fragmentos são e contêm esse todo. No caso do poema o mundo visto com os olhos abertos ou fechados parece um infinito processo de escolhas em que o sujeito que escolhe sabe, no entanto, que se trata de falsas escolhas, pois todas as escolhas possíveis são "janelas/sites" que dão para o mesmo mundo, para o mesmo um. O sujeito que tem a ilusão de inexoravelmente ter de escolher, percebe que os muitos e múltiplos fragmentos que capta não são excludentes mas que, ao contrário, fazem parte de um Um que ele, porém, não consegue mais sintetizar, mas atravessar. Com estas travessias constrói pontes de diálogo entre culturas diferentes, e com estes diálogos instaurados não surge no horizonte a homogeneização incolor e amorfa tão temida; ao contrário, são asseguradas as diferenças que enriquecem as culturas em contato.
1. Beil, Ulrich Johannes - Night thoughts. In: Kutsch, Axel & Leitner, Anton (ed.) - Unterwegs ins Offene . Erste Gedichte aus einem neuen Jahrtausende. Landpresse, Weilerswist, p. 20, 2000. É possível ter acesso a todo o poema e a sua interpretação no livro de Celeste Ribeiro de Sousa, Do cá e do lá: introdução à imagologia . São Paulo, Humanitas, 2004, p. 277-302.