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Oscar Wilde Superstar: dandys, cínicos e maquiados na esteira do decadentismo
Mariana do Nascimento Ramos (UFRJ)
O Decadentismo desencadeou uma prática literária visceral, talvez até mais forte do que a denúncia social proposta pela arte realista e naturalista. A investida do homem no eixo da ciência de maneira tão categórica havia provocado mudanças nas perspectivas literárias de meados do século XIX – o século que teve a pretensão de achar ter encontrado todas as respostas no campo do saber científico. As certezas de uma realidade capaz de ser organizada pela literatura de maneira funcional, a não investida na escrita e a tentativa paradoxal de apreender o real pluridimensional pela linguagem sempre unidimensional 1, sem tornar-se disso consciente no exercício da escrita, são ideais artísticos que caíram por terra diante da experimentação da vertigem que o homem viveu no final do século XIX. Não nos esqueçamos de que foi nessa época que começaram a surgir nomes tão significativos como os de Charles Darwin, Aldous Huxley e Sigmund Freud. Se a antiga noção de realidade fora desconstruída de vez e a impossibilidade de apreensão do real pela linguagem tornara-se um fato para o homem, a crise das certezas e o desmoronamento de expectativas que antes pareciam tão sólidas consolidaram-se como conseqüências inevitáveis dessa rasura no imaginário coletivo. O deslocamento das idéias enunciava uma nova mirada, um outro olhar que, uma vez instaurado, transformaria para sempre os rumos não só da arte literária, mas da própria trajetória do homem.
Coube a Baudelaire anunciar uma poesia da modernidade com perspectiva dialética que o fazia enxergar, sob os edifícios e bulevares que tanto fascínio lhe causavam, as ruínas de uma cidade em transformação. O deslumbramento pelo novo vinha imbuído de uma proposta crítica que desconstruía o edifício do progresso, tornando o poeta e seu leitor conscientes da crise e da ambigüidade que despontavam com o moderno. O texto passava a ter consciência de si mesmo, e a literatura se auto-referenciava como uma forma de enunciar o jogo contraditório que se estabelecia com o real.
Foi dentro desse ambiente de profunda crise que Oscar Wilde fortaleceu os aspectos textuais empreendidos por Baudelaire. Segundo o escritor Mario Praz, O Retrato de Dorian Gray , único romance do autor de Salomé , “insere-se na tradição francesa, de que pode ser considerada um curioso reflexo exótico”. 2 É impossível não notarmos a rubrica de autores como Huysmans e Baudelaire na obra do esteta, sem perdermos de vista a forte relação – de amor e ódio – que o escritor mantinha com a tradição inglesa. Essa relação ambígua com a sociedade aristocrática/burguesa fez com que Wilde convocasse a figura do esteta a realizar a dissolução do limite entre vida e arte. Ao mesmo tempo em que se rasurava o cânone literário clássico, a tradicional burguesia inglesa via seus valores sendo duramente questionados e ironizados. Estava claro que, para Oscar Wilde, o Belo deveria ser celebrado na esteira do transgressor. O corpo surgia, então, no eixo da perversidade já anunciada por Sade, como um objeto-texto de reação e repúdio aos padrões de perspectiva controladora e disciplinante. Em Wilde, o texto é no corpo, assim como o corpo está no texto.
A recusa em aceitar os limites sobre o corpo convocava o poeta moderno a construir um espaço clivado pelas diferentes figurações marginais que surgiram como emblema da crise instaurada no final do século XIX. Revoltar-se contra a sociedade era cultivar a diferença no próprio corpo, fosse como dandy , como flâneur , como homossexual, como poeta. Os chamados heróis da decadência não poderiam deixar de representar o desfalecimento de uma época que não via outra saída senão reavaliar seus próprios valores. O dandismo surgia, segundo Baudelaire, como “o último brilho do heróico em tempos de decadência”. 3 Figura tipicamente inglesa, o dandy evocava a modernidade na medida em que sua beleza era transgressora, quase satânica. 4 Seu ar sempre frívolo era conseqüência de sua indiferença constante, por tudo e por todos. Diferentes da maioria, os dandys eram artistas de exclusão que teatralizavam a decadência das sociedades. Em O Retrato de Dorian Gray , o jovem Dorian cultiva sua beleza como sua própria obra de arte; como o artista, o dandy enxerga a grandeza na inutilidade das coisas. 5 O belo estaria, então, não na natureza, mas no artifício – ou natureza transfigurada. Essa é, aliás, uma das questões propostas por Wilde em seu único romance: qual era a “verdadeira” natureza de Dorian – bela, boa ou má? Em se tratando de um escritor que vislumbrava a arte literária de maneira tão singular, não poderíamos nos satisfazer com uma resposta simplista. É justamente a fronteira vertiginosa entre realidade e fantasia que compõe o ambiente soturno de O Retrato de Dorian Gray , conferindo máscaras paradoxalmente reveladoras às personagens do romance. A escritura transviante é inserida em um contexto de provocação em que o corpo é, ao mesmo tempo, sujeito e objeto da chamada mirada perversa de Wilde. É na esteira de seu exercício textual que podemos ler a figura emblemática de Wilde como mito. Levando à culminância sua atividade como esteta, o escritor vive a vida como uma obra de arte – como sua obra de arte.
Wilde superstar. Em sua atitude crítica e desconcertante diante da sociedade inglesa, sua provocação ecoaria em respeitados centros acadêmicos, em pequenos cafés, em salões da burguesia londrina. Sua personalidade não convencional e seus escritos permeados de uma nova linguagem provocadora jamais seriam esquecidos e, desde então, Oscar Wilde tornou-se um mito da enunciação e do enunciado marginais.
“Sempre existiram indivíduos – nem sempre jovens e ainda menos necessariamente ‘marginais'- que se expressassem e se afirmassem através de um estilo, simples pose de traje ou então um modo de vida global em ruptura com as normas, aceitas por sua época, da “elegância”, do “bom gosto” e da “respeitabilidade”. Homens – e certamente mulheres também – que pretendem com sua aparência contestar um estado de coisas, uma escala de valores, (...)”. 6 Circunscrever o corpo a uma prática de deslocamento capaz de torná-lo, por si só, um texto contestatório de revolta foi e ainda é um costume do homem em todas as épocas. Se a aparência é algo com o qual podemos “dizer” antes mesmo de qualquer palavra propriamente dita, será nela que vamos investir todas as vezes em que quisermos nos expressar de modo contundente, ou mesmo radical. Dandys , beatniks ou punks , a referência do código visual torna-se essencial para a compreensão desses movimentos que transtornaram e transformaram as sociedades convencionais de suas respectivas épocas. Cabelos, motocicletas, cocaína ou roupas de couro, tudo são signos que redimensionam os valores e as normas, convocando o indivíduo a se rebelar através do estilo.
O protesto pode ser inscrito não só através do corpo, mas, como fizeram os punks mais radicais que furavam o rosto com agulhas e alfinete, no próprio corpo. O desejo de provocar é reconhecido em signos investidos no corpo que evocavam uma subversão plástica e ideológica – sinalizando, na maioria da vezes, a decadência de uma época.
Mais do que sinalizou, o dandy assumiu esta postura provocadora ao teatralizar a decadência do final do século XIX. Pálido e magro, quase tísico, de aspecto muitas vezes efeminado, o dandy se diferenciava, num primeiro momento, pela sua moda. Sua aparência andrógina é apenas mais uma maneira de desconcertar os padrões sociais então vigentes. Visando confundir, ele joga com sua própria sexualidade e desestrutura, mais uma vez, a escala de valores socialmente aceitos. A beleza de Dorian Gray, como já frisamos anteriormente, é destas que confundem e fascinam, já que não se inscreve em nenhum paradigma estético tradicional. Se sua aparência de efebo corresponde aos padrões clássicos que consagram a figura de Apolo como deus da Beleza, sua conduta transgressora o impede de se tornar um legítimo representante da beleza grega 7. O dandismo era, então, muito mais do que uma investida na criação estética e material, “pois não basta endossar uma panóplia objetiva para participar de uma moda e ser aceito por ela. É preciso também adotar um espírito e que isto seja visível. Fazer parte ou não de um movimento de moda é uma questão imaterial, muito mais de atitude e de estado de espírito.” 8 Não basta fazer parte de uma moda, é preciso também inventar a moda. Assim como fizeram Lord Byron, Gautier, Wilde, Kerouac, os Beatles e David Bowie.
A crise de identidades de uma determinada época não deixa de estar também sinalizada nas figurações – marginais ou não – que permeiam o imaginário de sua sociedade. Se fizermos um paralelo entre o final do século XIX e as últimas décadas do século XX, poderemos constatar que, ao final de 1970, o sonho hippie de “paz e amor” dava lugar ao início do individualismo yuppie que perduraria na década de 1980, a chamada Década perdida. Passada a época do otimismo transformador que predominou na década de 1960, a história começava a entrar em um período de grande instabilidade mundial, em que as ideologias revolucionárias dos jovens que sonharam em mudar o mundo encontravam-se em vias de extinção. Segundo o historiador Eric Hobsbawn, “a história dos vinte anos após 1973 é a de um mundo que perdeu suas referências e resvalou para a instabilidade e crise.” 9 Tudo isso provocava uma espécie de pessimismo que prenunciava, ainda que timidamente, o período dark dos anos 80, com suas modas e idéias esquizóides – o punk , os yuppies limpinhos que cheiravam cocaína. Paralelamente à crescente consciência da crise, os movimentos de fuga da realidade abriam um leque de possibilidades de evasão que se tornaram famosos nos anos 80, como o sexo, as drogas – agora não mais os alucinógenos que abriam as “portas da percepção” na década de 70, mas os estimulantes usados pelos executivos da Bolsa de Valores – e a arte, já com uma nova roupagem em um mundo imbuído de signos da cultura de massa.
O Belo era, então, redimensionado na semântica do bizarro e configurava-se dentro de uma nova linguagem, que se utilizava de signos provocadores para questionar cinicamente a realidade. Batom, glitter , vestido, androginia. O marginal wildiano retornaria não mais como dandy , mas já com uma nova “máscara”. Quando David Bowie disse “Eu sou uma estrela do rock que brinca de ser estrela do rock ” 10, ele inseria a sua criação no eixo desviante que, muito antes dessa época, já havia sido rubricado por Oscar Wilde.
Esse marginal wildiano encontrará ressonância nas figurações surgidas com o movimento glam da final da década de 1970. Cansados da “onda politizada” que havia feito a cabeça de milhares de jovens em todo o mundo – em sua maioria os hippies que se vestiam de forma simples, despidos de qualquer luxo ou brilho –, alguns artistas ingleses, influenciados pela pop art de Andy Warhol, começaram a se maquiar e a se trajar de mulher antes de subir no palco. As letras de suas canções não estavam imbuídas de mensagens sociais e partidárias, mas falavam dos prazeres que a fantasia poderia proporcionar. Desvinculados das utopias revolucionárias mas sem o caráter puramente hedonista de que foram acusados, aqueles jovens reinvestiram não só própria imagem, como também em sua relação com o mundo. Afinal, se a decadência de um época sinalizava a morte de uma utopia passada, ela também despontava como o surgimento de um novo tempo revestido de novos valores, conceitos e ideais.
BARTHES, Roland. Aula . 12ª Edição: CULTRIX, São Paulo, 47 p., 1997.
PRAZ, Mario. A carne, a morte e o diabo na literatura romântica. UNICAMP, São Paulo, 473 p., 1996.
Apud BENJAMIM, Walter. Charles Baudelaire : um lírico no auge do capitalismo. Brasiliense, São Paulo, 271p., 1994.
WILDE, Oscar. Prefácio. In: O retrato de Dorian Gray . José Aguilar, Rio de Janeiro, 270p., 1972.
BOLLON, Patrice. A moral da máscara : merveilleux, zazous, dândis, punks, etc. Rocco, Rio de Janeiro, 211p., 1993
Entende-se aqui que o ideal de beleza na Grécia reconhecia como componentes complementares os atributos físicos e a virtude espiritual, que deveriam estar sempre em harmonia e equilíbrio.
HOBSBAWN, Eric. Era dos extremos: o breve século XX. Companhia das Letras, São Paulo, p.493, 1995.
BOLLON, Patrice. A moral da máscara : merveilleux, zazous, dândis, punks, etc. Rocco, Rio de Janeiro, 211p., 1993.