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A Travessia do corpo a partir do signo–dândi.
Maria Ignez de Souza Calfa (UFRJ)

 

Tornei-me uma voyeuse da linguagem e, sob o signo-dândi, sinto-me levada a desvendar, nas travessias do tempo e do espaço, o corpo, e nele poder descortinar memórias que revelam e denunciam os retratos da história; lançando olhares aos corpos, onde extraio, nos enigmas dos signos, o desvelamento do ser, emoldurados nos traços que marcam sua escritura. Neste sentido, busco nas imagens do corpo os intertíscios da linguagem na essência do seu agir, o movimento de algo que se vela e se desvela, no fluxo contínuo, e se revela na manifestação da corporeidade sob a forma de escritura do corpo; Nesta perspectiva, lembro Carlos Drummond de Andrade, em seu poema A Metafísica do Corpo, 1 e não resisto em citar algumas estrofes.

A metafísica do corpo se entremostra
nas imagens. A alma do corpo
modula em cada fragmento sua música
de esferas e de essências
além da simples carne e da simples unhas (…)

De extâse e de tremor banha-se a vista
ante a luminosa nádega opalescente,
a coxa, o sacro ventre, prometido
ao ofício de existir, e tudo mais que o corpo
resume de outra vida mais florente,
em que todos fomos terra seiva e amor.
Eis que se revela o ser, na transparência
do invólucro perfeito.

 

E, na transparência deste invólucro, localizo, em cada corpo, cada ser, único e plural, como espaço de travessias. Partindo do tema central “Travessias“, podemos, de imediato, pensar no deslocamento deste corpo no espaço, no tempo de cada sujeito, na ação de atravessar ou no efeito de ser atravessado; o que nos remete a pensar numa trajetória que se faz pela possibilidade de passagem: passar através do fluxo livre e contínuo do corpo o movimento, na transposição das idéias e na experiência estética no qual se insere, como posição nobre e de coragem, na atitude heróica de transpor paradigmas; sofrer e romper com os estereótipos, dialogar com as dificuldades e obstáculos que se apresentam nas relações experienciadas do corpo consigo mesmo, com o outro, com os objetos e com o mundo que o vara de lado a lado; pôr-se e opor-se, em movimentos de diferenças e semelhanças, em jogos de espelho, no qual as imagens se projetam em reproduções e transformações, como efeito de luz e sombra.

O corpo rumo à travessia na escritura, nos instiga a questões em sua narrativa. Neste instante, refletimos: Seria a escritura do corpo uma escrita com assinatura própria? Ou o resgate de autoria na enunciação da escrita? O corpo, em sua escrita, marca o registro de várias assinaturas que são deixadas, impressas, por todas as partes. Pensando na escrita como a arte de escrever e na escritura como o documento final desta arte, notificamos uma sutil diferença: a assinatura seria o nome firmado por alguém em documento, registrado, dado o direito, firmado, como palavra dita e anunciada, na enunciação da carne, logo, encarnada.

Podemos considerar, na escritura de cada corpo, que os signos, na manifestação da linguagem, vão despertando em sua escrita os traçados, os tecidos, gerando o texto e produzindo, no corpus de cada corpo, seus processos de significação. Nesta trajetória, vão, assim, arriscando, em suas tessituras, novos traços, em passos que se deslocam a outros pontos, criando matizes e tecendo, nesta rede, uma pluralidade de formas, de lugares, de referências; o corpo visto neste grande mosaico como espaço, área de grafias. E nos modos de escrita, vamos pontilhando, no mapeamento dos corpos, em toda sua extensão, as cartografias, demarcando, em seu universo anatômico e simbólico, uma porta aberta às corporeidades, que, ao serem acolhidas e identificadas em sua linguagem, nas reviravoltas travessas do corpo, encontram-se os modos de subjetivação, na ação vivida no processo de suas escrituras.

A visão de corporeidade que quero colocar em questão é constituída pelo atravessamento deste corpo em todo o seu processo histórico, político, social e cultural, pensando-o como matéria-prima, substância essencial e sensível, em sua condição de linguagem e, principalmente, como fonte de expressividade humana, que, na concretude de cada corpo, na intenção de sua gestualidade, materializa, em cada movimento, o pensamento de um tempo, na modelagem dos corpos, definindo formas e estilos, esculpindo posturas corporais e impondo atitudes; corpos marcando na plasticidade de seus gestos a configuração do tempo, os valores simbólicos que, nesta travessia, perpassam os corpos e nele se manifestam na produção de subjetividades. Esses corpos são tecidos de uma interioridade e de uma exterioridade e é nessa escrita que desvelamos os modos de ser, de existir, na revelação da linguagem.

Penso o corpo enquanto linguagem, não silenciado e nem esquecido no tempo, mas como fala, deixando-o falar do próprio corpo para ouvi-lo no exato instante em que ele se manifesta; nas ações e nas situações concretas que acontecem e lhe conferem um espaço de significação pela potencialização dos signos. Nesses territórios de essências e de existências, presentes nas cartografias desenhadas em cada corpo, posso reconhecer uma relação processual, observada em sua complexidade, pela unidade do corpo e do ser, como força de transformação, numa espécie de movimento contínuo, que, em seu fluxo, não cessa de produzir novas subjetividades.

A linguagem, em sua tessitura, se materializa na escritura dos corpos, e, a partir dessa construção, torna visível aquilo que está encoberto. Num sentido mais amplo, todo um sistema semiótico, visual e espacial desenhado em suas narrativas, deixa escoar, em sua gestualidade, a forma de uma história; ao tecermos, escrevemos, em nossas ações, novos pensamentos estéticos. Com este olhar, verifico que o corpo não deve ser visto como algo puramente biológico ou mecânico, o que reforçaria ainda mais a visão dicotomizada entre mente e o corpo. Desejo, então, a partir do princípio da corporeidade, refletir sobre esta visão fragmentada do corpo, marcada pelas dualidades que se fizeram presentes através dos tempos: sujeito e objeto, corpo e alma, etc.

Seduzida pelas questões apresentadas, desejo, a partir do signo-dândi, resgatar as marcas discursivas que nele se impõem como um convite à reflexão sobre a quebra dos padrões, a ruptura de paradigmas e o rompimento de estereótipos. Nos signos da modernidade identificamos o signo-dândi a partir de Baudelaire , 2revelando, na atmosfera decadentista, com a queda da aristocracia, uma corrida para dentro de si mesmo, nas produções artísticas, adotando como refúgio a literatura. O dandismo, tendo como traço principal o egotismo, é marcado por um sentimento exagerado do próprio eu, adotando-se como centro de investigações e experimentos, assinalando, em suas características, um intenso valor da própria imagem que pode ser observado, de imediato, em seus trajes, vestidos de forma impecável, estabelecendo, desta forma, uma conduta que marca uma disciplina e fortalece a vontade de combater e destruir a trivialidade, numa atitude significante de oposição e de revolta ao sistema moral burguês. O culto à idéia do belo atribuído à sua própria imagem denuncia uma admiração e paixão por si mesmo. Ao cuidar da beleza com muito apuro e com certa pretensão à elegância, dita o tom da moda de forma silenciosa, num toque de requinte e frieza, pela supremacia da imagem na valorização de sua aparência.

Sob este ponto de vista, direciono-me, na questão de idolatria à própria imagem, a refletir o corpo na leitura do mito de Narciso, pela figura que não cessa a admiração de si mesmo. Nesta narrativa mítica encontramos, fortemente presente, reflexões sobre as corporeidades e podemos observar nelas a perda do eu pela busca infindável da própria imagem. Conta-se na mitologia que Narciso, um dia, ao passear pelo bosque, parou à margem de uma fonte, em cujas águas percebeu sua imagem e por ela se apaixonou. Não se cansando de contemplar seu rosto na água límpida, consumido de amor pela sua semelhança, foi atraído por seu reflexo espelhado deixando-se morrer transformando-se em flôr. Identificando traços desta forte admiração à própria imagem, lembremos, neste jogo de relações onde se espelha e reflete a imagem de si mesmo, de alguns contos de fada, tais como, a Bela Adormecida, O Patinho feio, A Bela e a Fera, que ressaltam este signo da beleza com certa transparência, denunciando a presença do corpo num jogo onde se refletem e se refratam certos valores, estabelecendo, neste diálogo, a questão entre a essência e a aparência . O Dandismo na busca pela a admiração e pelo culto de si mesmo, sofreu de um profundo individualismo que o levou a um isolamento; o corpo que não possui, nas suas relações, as trocas, as formas de intercambiar, em suas experiências com o outro, tornando-se num corpo que busca em si as referências de mundo, fortalecendo, assim, a egolatria e o culto da androginia: um corpo que sustenta, simultaneamente, duas forças antagônicas, comum ao homem e a mulher, guardadas, nas atitudes corporais, algo de turvo, de uma certa opacidade na sua linguagem.

Lembramo-nos neste momento de Roland Barthes, quando nos fala deste Corpo plural, como experimento de forças, espaço de contrastes, num jogo de diferenças e de semelhanças, e de identificações na representação da figura masculina e feminina, signos que se potencializam para ressaltar, no uno, o diverso, o duplo. Barthes adverte a este olhar, ao questionar o lugar de deslocamento deste corpo, que se enovela numa trama de signos.

Que corpo? Temos Vários. Tenho um corpo digestivo, tenho um corpo nausente, um terceiro cefalálgico, e assim por diante: sensual, muscular (a mão do escritor), humoral, e sobretudo emotivo: que fica emocionado, agitado, entregue ou exaltado, ou atemorizado sem que nada transpareça. Por outro lado, sou cativado até o fascínio, pelo corpo socializado, o corpo mitológico, o corpo artificial (o dos travestis japoneses) e o corpo prostituído (o do ator). E, além desses corpos públicos (literários, escritos) tenho por assim dizer, dois corpos locais: um corpo parisiense (alerta, cansado) e um corpo camponês (descansado, pesado). 3

 

Na leitura de Barthes podemos sedimentar nossa idéia de que se veja no corpo o corpus , e com isso abrir espaços de diálogo e de interferências do corpo nas suas conexões com o mundo. Nesta direção Mucci, em seu texto “A Escritura do Dândi na Travessia da Morte” 4, nos aponta sob o signo-dândi um distanciamento, ao descrever o perfil exacerbado desta egolatria, fechada para si mesmo ilustrando com esta bela imagem, a elevada “Torre de marfim sem janelas para o exterior”, como culto de si mesmo, então somos instigados a reconstituir e a desconstruir, pelo deslocamento dos signos. Desconstruir não significa, aqui, anular, mas, remontar a origem deles, marcando suas qualidades dinâmicas que faz com que este corpo só ganhe seu real valor no sistema que ocupa. Com este olhar tenho a nítida imagem de um caleidoscópio; o corpo visto como um mosaico, nas suas multifaces, na pluralidade de signos que ali se enredam, criando as narrativas pelo entrelaçamento dos fios, que se tecem e se tramam na construção da trama de uma escritura, tendo suas marcas na corporeidade.

Barthes, em seu olhar semiológico, apresenta o corpo textual, em sua condição singular e plural, sob o signo ideológico e poético que este representa na linguagem, o lugar da experiência estética e ética, na escrita do pensamento no corpo, que anuncia e denuncia a moda, como enunciação do modus de um tempo, ocupado pela extravagância, ou pela elegância, por esmero cuidado ou por total alienação, nos corpos da dita civilização, pelas infinitas possibilidades. Uma corporeidade sob o signo-Dândi, em sua fisionomia, traz as marcas de uma presença requintada e fria, com traços de uma superioridade, que, nas vestes de uma indumentária dura, como escudo, couraça que nos designa a arriscar a escritura de um corpo distanciado, solitário e instigante.

Ao considerar a imagem como um signo, levamos em consideração algumas reflexões sobre o corpo e o signo-dândi, e nesta conversa que se faz entre ambos, identificamos como ponto de relevância, a focalização sobre o que constitui esta corporeidade na travessia do dandismo, e verificamos como ponto a ser tecido, que a escritura se constrói no diálogo do corpo, que se origina na textura da relação entre a essência e a aparência. Para melhor aprofundar esta reflexão, busco o texto de Gaiarsa, baseado no quadro Cornos do Desejo , de Magritte, para elucidar as questões mais pertinentes na leitura de um corpo sob o signo-dândi.

Só aparências…Só aquilo que pomos sobre o corpo afim de
Obedecer as normas ditas da decência e da respeitabilidade de nosso mundo;
Sermos vistos e tidos como cidadãos normais, iguais a todo mundo…
Sermos vistos – APENAS ( jamais tocados) – OLHADOS
Às vezes, nós a usamos para que mostrem como gostaríamos de ser tidos (de parecer – imagem social).Paradoxalmente, nós a usamos para chamar a atenção e para não chamar a atenção!
O traje, diferentemente do corpo, só mostra o que eu escolho mostrar. (o corpo mostra “tudo“- o que eu sou – inteiro).Portanto, vamos esconder o corpo, senão ele nos trai ao exibir tudo aquilo (formas, expressões), que não ficam bem, que não se deve.

Nossa imagem – a que os outros vêem – é feita
Para os outros
Pelos outros
Que são nossa platéia e nosso tribunal.
O que eu sinto – e que, segundo se diz, não se vê – é só meu, é só comigo.
Entre a casca que nos é exigida e o íntimo que reprimimos, não há quase relação alguma 5

 

O texto acima nos provoca a um olhar cuidadoso do corpo, acredito que a linguagem na enunciação de sua escritura, nos conduz ao questionamento da gestualidade nas suas relações de superficialidade e profundidade, forma e conteúdo, essência e aparência.

Instigada por este fenômeno do corpo, penso que a escritura registrada nas corporeidades, em suas falas, nos leva a pensar sobre este estado de presença, como condição humana, é o lugar do ser, na essência do seu agir, na projeção de cada gesto, que se dá na manifestação de cada corpo como espaço de experimentação de si, transparente, translúcido; e a aparência como o lugar sombrio, que visto, à luz do signo- dândi , aspecto um tanto superior e melancólico, com resquícios de uma simplicidade e de uma aristocracia britânica, configurando – se de forma heróica e como um sol poente, conforme nos desenha Baudelaire . Esta imagem um tanto turva surge aguçando nosso desejo de olhar, de desnudar cada signo, para que possa chegar com mais transparência a escrita que se enuncia, atenta, aflorando nossos sentidos e despertando o desejo da escritura na tessitura dos signos no corpo.

Essa mania de olhar para todos os lados, e buscar na leitura de cada gesto, o que se veste em cada corpo, por todas as partes, em pés, mãos, tronco, descobrindo nos mistérios do tempo o que se organiza na postura, na atitude de cada corpo, o que é esculpido em sua carne, atravessada pelo seu universo anatômico e simbólico, os corpos despertados, acordam a uma escuta sensível e elaboram suas escrituras. Diz o poeta Fernando Pessoa:

O meu olhar é nítido como um girassol
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para esquerda
E de vez em quando olhando para trás... 6

 

Emoldurados, as imagens ressaltadas que salta aos nossos olhos e percorre nossos sentidos, corpos por todas as partes e em todas as suas partes, retratados. Corpos modelados, abertos ou fechados, perdem seu olhar simples e natural, nuca rígida, cervical dura, perda da flexibilidade de olhar para todos os lados, para cima , para baixo e para trás. Extraio da mobilidade o olhar, o prazer de poder estar permanentemente sendo convidado a uma nova leitura, ao desvelamento da imagem, que ganha visibilidade na escritura do corpo, conforme afirma Leloup 7, ”o corpo é o nosso texto mais concreto, a escritura de argila que somos. É também o templo onde outros corpos mais sutis se abrigam .“

O texto nos seduz a vasculhar nos corpos, o que se encontra oculto, velado, e que ao se desvelar em sua linguagem, emergindo da subjetividade, surge sua escritura.Assim, abrimos em suas travessias um olhar mais direcionado a escrita, e então paramos diante de certas artificialidades do gesto, e nele procuramos interferir, resgatando os seus processos de significação, na negação do corpo inócuo, e na busca da potencialização dos signos, que fortaleçam em suas tramas, os tecidos da narrativa, marcando os passos da escritura, e nos traços do corpo suas danças, andanças e mudanças. Impelidos pelo movimento, abrimos uma janela sobre o corpo, para nele contemplar a linguagem, no vigor da expressão, como espaço da representação e da transgressão.

Pensar o corpo é viver o corpo é penetrar num templo sagrado; compreendemos a importância desta travessia do corpo, quando penetramos neste espaço mais sublime do ser humano, na leitura de uma escritura que se projeta pelo infinito. O poeta em seus versos faz um convite para que não deixemos de olhar, e que possamos cada vez mais aprender a olhar por todos os espaços, por todos os tempos, e através deste enquadramento do olhar possamos extrair dos corpos na revelação da carne as passagens da história na travessia de uma escritura.

 

ANDRADE, Carlos Drummond de. Corpo . Rio de Janeiro: Record, 1998, p.11.

Apud COELHO, Teixeira (org). Sobre a Modernidade . São Paulo: Paze Terra, 1996, p. 47.

BARTHES, Roland. Roland Barthes . São Paulo: Cultrix, 1975 , p, 68.

MUCCI, Latuf Isaias. A Escritura do Dândi na Travessia da Morte . ABRALIC, 2004.

GAIARSA, José Ângelo. Reich-1980. São Paulo: Âncora, 1982, p.40.

Apud LELOUP, Jean Yves. O Corpo e seus símbolos: uma antropologia essencial . Rio de Janeiro. Ed. Vozes, 1998, p. 48.

Idem, p. 48.