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A construção do ideário moderno a partir da criação ornamental do espaço físico
Elis Crokidaskis Castro (UFRJ)
Há no final do século XIX uma enorme efervescência de movimentos, escolas e estilos artísticos tanto no Brasil quanto na Europa. No Brasil, principalmente, as três últimas décadas de tal século proporcionaram uma verdadeira chuva de modismos copiados da Europa, alguns adaptados, outros nem tanto. Dentre esses modismos, ou representações artísticas copiadas encontramos, no período de 1870 até a primeira Guerra Mundial (na chamada Belle époque ), o desenvolvimento de um estilo cujas bases eram calcadas no ornamento entendido este como principalmente floreio que aparecerá na arte decorativa dos ambientes e também na composição textual.
Tal estilo era “comum às várias artes - a arquitetura, a pintura, o desenho, as artes aplicadas ao mobiliário, a vidraçaria, aos adereços, a tipografia da ilustração, e do vestuário” * , isto é, todas as artes figurativas possuíam nesse momento características semelhantes que se estabeleciam nos mais diversos âmbitos da decoração. Chamou-se a esse estilo de Art noveau tendo o mesmo nomenclatura diferenciada nos vários países onde se apresentava. Segundo José Paulo Paes animava essa arte “uma vontade de estilização ornamental, uma exaltação dionisíaca da vida, um vitalismo de cuja formulação filosófica se encarregara Nietzsche (...) ao lado de Schoppenhauer”* . Este estilo ainda representava uma espécie de “colaboração entre as artes e a indústria artesanal criada com objetivo determinado de aprimorar o design das manufaturas e tornar a arte compatível com a industrialização” **.
Dessa citação de Paes, para nós fica claro, que está se falando na arte figurativa, do que nós chamamos na arte literária de Movimento Decadente. Na verdade, em artigo de seu livro Gregos e Baianos, Paes sugere, tal como foi feito com o Barroco, que o nome A rt noveau se prorrogue, se alongue, se exacerbe do seu contexto e passe a fazer parte da cronologia da história da literatura. Entretanto, argumentos a favor a parte, temos a certeza de que quando Paes faz a sua possível antologia de escritores do Art noveau Brasileiro, ele se refere àqueles por nós considerados decadentes.
Assim entendemos que enquanto na arte da palavra tínhamos, misturado a outros estilos, o Decadentismo, nas outras artes tínhamos a arte nova ( Art noveau ) que representava no espaço, concretamente, aquilo que o pensamento mostrava no discurso literário. Ou seja, o Art noveau reuniu as mais diversas tendências: as idéias da industrialização, do movimento das artes e ofícios, da arte oriental, das artes decorativas e das iluminuras medievais. Uma grande mistura de estilos e elementos, principalmente nos objetos ornamentais e na arquitetura, mistura esta comparada ao que fazia o Decadentismo no discurso literário e o que constituirá,em síntese,o ideário moderno.
Diante disso, (da reunião de tendências, mistura de estilos e confusão entre as formas de representação) podemos dizer que a matéria e o espírito estavam nesse momento, do final do século, tão misteriosamente difusos que chegava a ser impossível examina-los separadamente, pois eles faziam parte substancial do que entendemos como a constituição do ideário moderno.
Dessa forma, como num misto de sensações de novos prazeres e novas observações, o Homem finissecular perceberá as novas faces de seu espaço e de seu espírito.
As cenas finisseculares do XIX são então o palco que contém um cenário complexo de novas sensações. Pois não será o cenário tradicional que dará conta de satisfazer esses novos olhos embriagados pela modernidade. Ferro, aço, vidros cores, desenhos, todos esses elementos passam a fazer parte da nova arquitetura do espetáculo. E o espetáculo agora é o do espaço, do ambiente, da rua. Esta é o museu de portas abertas para o passante ver, ela se ornamenta, se requinta com novas feições: jardins e praças com passeios públicos que são criados com uma nova intenção: ter o homem que passa como seu espectador, admirador.
Esse modelo foi então copiado de Paris para o mundo e seus vestígios ainda permanecem. A decoração conquista então seu posto no âmbito das cidades e da arte. Novos valores se criam para o Homem, só que ele ainda não se dará por satisfeito. Tudo de fato é novo e as relações sociais, nessa linha, começam então a se modificar. Modifica-se o espaço e as relações sociais vão ao seu compasso, transmutando-se com novos referenciais e novas formas de contato humano e interações entre os homens e entre esse e seu habitat.
Dá-se o surgimento da moda das ruas e aquilo que antes não importava vira ornamento obrigatório. Na arquitetura dos prédios o ferro torna-se elemento aparente. As formas são mais arredondadas e mais suaves. As linhas se desdobram, se multiplicam e se propagam como o eco de uma onda. Sustentando a afirmativa do ceramista inglês, em 1885, Felix Braquemond que diz: “tudo que na vida é gesto, movimento, expressão de caráter, manifestação de seres viventes (...) na obra de arte se transforma em linha” * que por sua suavidade e tom sugerem uma certa musicalidade que depois será explorada pelos abstratos da vanguarda do século XX. Na arquitetura a linha é serpentinada, é imaginada criando um volume de assimetria. O espaço criado é o do exterior, o que vai resultar numa implosão vinda da superfície para o interior, que depois se verificará no âmbito espiritual com o existencialismo. Ou seja, abre-se para o externo, o público, mas a essência fica trancada na observação das sensações desse exterior. É a interiorização do homem e seus dramas psicológicos.
E o que a princípio parece estar só na superfície leva, na verdade, para o mais íntimo do ser. Aí então aparece o que consideramos o grande simulacro dessa arte finissecular.
Retomando o aspecto material, o vidro se mistura ao ferro que se contorce em formas florais e arabescos, numa sugestão oriental. O colorido dos desenhos em suas formas de gravuras é também utilizado em outros elementos como as pastilhas. Figuras humanas se misturam a outras sem forma nos painéis e gravuras impressas no lugar de quadros. Painéis de parede inteira sugerindo visões falsas. Simulacros para os olhos e para mente, sensações de espaços diferentes que induzem a movimentos, mas que não o são. É o retorno às formas Barrocas e Maneiristas juntamente com os contornos orientais japoneses, com a utilização das formas vegetais que povoam os espaços de decoração. De certa forma é também um renascimento da forma gótica que reduz o modelo da arquitetura medieval a sua estrutura ornamental em ferro.
Nos móveis e utensílios temos as primeiras inovações e o que podemos chamar de as primeiras noções de design . Os móveis deixam a forma antiga e passam também a possuir mais movimento em suas linhas. Já aparece em Às avessas, livro de JK Huysmans, a questão do mobiliário segue as linhas que lembram as curvas de uma mulher, onde a madeira bruta se suaviza e se contorce como o ferro. Esse também é utilizado em utensílios que compõe, essa ornamentação móvel. Como em lamparinas, abajour , objetos de toda sorte, muitas vezes utilizados com suas funções trocadas e suas linhas invertidas.
Também a figura humana que aparece nessas decorações é envolvida por linhas e movimentos que induzem à dança. São normalmente figuras com forte expressão de dinamismo, são mulheres que dançam e que usam a dança para um ritual de exorcismo e sedução. O corpo é dinâmico e os movimentos são serpentinados e não é à toa que a principal figura dessa arte é Salomé com sua dança perigosa e sedutora que inspira muitos artistas. Porém a principal modificação além desses componentes ornamentais é a modificação da própria organização urbana. As ruas não surgem mais do nada, são pensadas como artérias e com inúmeros atrativos. Nasce aí o cuidado com o bem público, com o espaço público que se reveste como um personagem. A fachada será a máscara que ao mesmo tempo se mostra e se esconde, e esconde o que está por dentro. Como no teatro, também o espaço é mascarado e na rua ele então se teatraliza.
A figura do dandy se enquadra nesse ambiente. Símbolo da elegância esse homem desfila seus trajes por esses espaços remodelados, os bulevares. Não importa para ele o gosto burguês e a ostentação. Elegante é o simples, o básico, conceitos que permanecem até hoje em termos de moda.
O d andy será o homem imagem do final do século XIX. Em O pintor da vida moderna Baudelaire define esta figura como singular homem rico, criado no luxo cuja profissão é a elegância. Sua única ocupação é cultivar a idéia do belo em sua própria pessoa e satisfazer suas paixões, sentir, pensar. Não visa o amor como um fim em si, e dinheiro para ele é indispensável para o cultuar das próprias paixões.
Traçado o homem símbolo desse fim de século conturbado, partimos para o que nos revela a análise do homem em seu espaço. Ora, sabemos que todas essas transformações do homem e do espaço são estruturadas sobre dois pilares, as chamadas forças materiais e espirituais que agem como fundamentos do que chamamos modernidade. Na verdade, segundo M. Berman * , o que é marcante na vida moderna, que se estrutura principalmente no final do século XIX, é a fusão dessas duas forças material e espiritual causando uma interdependência entre o indivíduo e o ambiente moderno. Ou seja, para nós espaço e homem passam simultaneamente pelo caos e são a representação um do outro e vice-versa de forma que não podemos analisá-los separadamente como figuras autônomas. Logo, para entendermos tanto um quanto o outro se faz necessário uma discussão onde espaço e homem são também personagens daquele contexto e desse confronto homem e espaço reparamos que quanto mais decadente o homem mais representativamente decadente o seu ambiente, espaço. Entretanto, essa decadência tanto do homem quanto do ambiente era camuflada, era travestida e maquiada pelas formas, objetos e pela fala, discurso. Tudo era teatro. Logo, nada se mostrava da forma verdadeira, era a máscara que aparecia e não o que estava por trás dela. Daí o contraste entre o se chamar Decadente e se imaginar toda aquela fachada de luxo, requinte, mistério e ostentação. Diz Baudelaire que “a vida moderna é um grande show de moda, um sistema de aparições deslumbrantes, brilhantes fachadas, espetaculares triunfos da decoração e estilo” * .Diante dessa afirmativa fica então fácil percebermos qual é o paradoxo desse momento. Tem-se uma vida moderna com os novos elementos da modernidade, tais como, velocidade, luz, ferro, vidros, etc, mas não se tem a resolução de inúmeros problemas básicos da humanidade.Logo, surge o conflito interno do homem sob a forma de contraste entre sua ação de ir para rua, mas de ficar enclausurado dentro de si mesmo. A mudança é de fachada e não do interior, da essência. Contrapondo-se esses dois elementos, achamos o porquê do pessimismo, da alienação política, e de todos os outros aspectos que a arte decadente demonstra tão bem, embora não tivesse sido claramente compreendida, pois se utilizava o mesmo artifício do homem real na busca de sua compreensão.
Ainda dessa incompreensão de si mesmo resulta a criação de várias teorias, religiões etc que pudessem explicar as contradições existentes. Porém, tudo de certa forma falhou nessa tentativa de explicação e resolução, e aspectos que se deflagraram naquele tempo, no caos existencial e urbano permanecem ainda hoje, se perpetuaram ou se transmutaram sem que tivessem um fim objetivo.
O Homem então continua seu trajeto, por fora brilhando, maravilhoso e por dentro decadente em sua miserabilidade existencial. Por isso a necessidade de se teatralizar esse espaço ainda mais, mascarando e maquiando não só ele mesmo mais seu contexto espacial, casa, rua, e cidade, sua vestimenta e seus objetos de uso.
Percebemos então que toda a transformação do espaço citadino deu ensejo também a mudança do homem, mas como? Com as grandes avenidas, como artérias, o espaço público passa a ser mais atrativo e o homem citadino sai às ruas para admirar suas belezas, suas vitrines, sai para sentar nos cafés, conversar e ir às lojas para efetivamente consumir, mudando assim a organização das relações de consumo. Nesse momento, o espaço, que se torna público, social, serve de base para essas novas relações. Ou seja, a mesma rua que abrigará passeatas contra o sistema, também o sustentará com seu consumo, vitrines e lojas. Constituindo, de fato, o espaço mais democrático das cidades e o que aparentemente pode ser paradoxal não passará de uma movimentação natural do homem adaptando-se ao novo ambiente criado pela modernidade e por ele mesmo.
E ao sair para rua e se fascinar, ele também se depara com novas coisas: a velocidade, os brilhos e ornamentos que são feitos para ele. Cria-se um novo hábito, de se sair às ruas para passear e olhar lojas e vitrines e se sentar nos cafés para observar os passantes, surgindo, como já dissemos, a figura do flaneur e do dandy.
A cidade passa a ser como um filme para o espectador que se senta num café para observá-la, ou para aquele que flana sem destino.
Notamos dessa forma que a existência dessas figuras e elementos da modernidade cria nesse contexto o grande dilema do homem moderno, ao qual já nos referimos, e que o faz fugir em certa hora para sua torre de marfim. É claro que não estamos falando de toda sociedade, mas tão somente daqueles indivíduos mais sensíveis a essa transformação, aqueles que perceberam o que existia por trás da máscara, da fachada, da maquiagem.
Logo, fechamos esse breve resumo dizendo que: ao analisar o homem do final do século XIX em suas atitudes e maneiras de viver notamos que a transformação do seu espaço (das cidades, casas, decoração etc) foi de fundamental importância para que o homem também mudasse o seu lado espiritual e conseqüentemente as suas relações sociais e sua forma de compreender e estar na vida.Podemos dizer em síntese que essas transformações são então as responsáveis pela grande ruptura com os elementos da tradição dando espaço para uma nova concepção e entendimento da arte que surgirá principalmente no próximo século, o XX.
* PAES, J.P. Gregos & Baianos. São Paulo: Brasiliense, 1985.p.66/7
** PROENÇA,G. História da arte. São Paulo:Ática ,2001.p.136
* MASINI, L.V. Art e dossier - Art Nouveau. Firense:Giunti 1989.p.15
* BERMAN, M. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Cia das letras, 1997.
* BAUDELAIRE, C. Sobre a modernidade. São Paulo: Editora paz e terra, 1997.