![]() |
![]() |
[ VOLTAR ] |
Estudos pós-coloniais: do nacionalismo à institucionalização acadêmica
Vanderlei José Zacchi (UCP)
Uma série de fatores dificulta uma conceituação precisa para pós-colonialismo e literatura pós-colonial. Em última análise, são vários os questionamentos e pontos de vista que podem até tornar inviável uma definição em si mesma. Um dos riscos envolvidos é o da homogeneização dos conceitos, quando usados à exaustão e empregados sem cuidadosa distinção. Com efeito, Hall questiona:
A Grã-Bretanha é "pós-colonial" no mesmo sentido em que o são os EUA? Na verdade, pode-se pensar nos EUA como "pós-coloniais" de fato? O termo deveria ser aplicado igualmente à Austrália, que foi povoada por colonos brancos, e a Índia? [...] Os argelinos que moram em sua terra e na França, os franceses e os colonos Pied Noir podem ser todos "pós-coloniais"? A América Latina é "pós-colonial", embora suas lutas pela independência tenham ocorrido no início do século XIX - muito antes do estágio recente de descolonização ao qual o termo se refere com mais evidência - e tenham sido lideradas pelos descendentes dos colonos espanhóis que haviam colonizado seus próprios "povos nativos"? 1
Além da distinção geográfica, entra em jogo também a histórica, o que leva Hall a colocar a questão: "Quando foi 'o pós-colonial'?". 2 Acima de tudo, o conceito pode ser vago também no que se refere às diferenças sociais e raciais internas de muitas comunidades. Por fim, existe ainda uma profusão de termos que buscam categorizar as diferentes experiências das sociedades que sofreram ou sofrem os efeitos do colonialismo: "pós-colonialismo", "poscolonialismo" ( postcolonialism ) "poscolonialidade" ( postcoloniality ) e "neocolonialismo".
Em relação aos países que foram colonizados pela Grã-Bretanha, objeto principal deste estudo, Boehmer considera que o grande período da descolonização se inicia com a independência da Índia e Paquistão em 1947, quando então se começa a produzir a primeira literatura, principalmente em língua inglesa, a que se pode chamar de pós-colonial ( postcolonial ) sem ambigüidades. Ou seja, "uma literatura que se identificava com um amplo movimento tanto de resistência às sociedades coloniais quanto de sua transformação". 3 É um momento de forte sentimento anticolonial e de uma literatura que busca a autodefinição e a construção da nação ao projetar uma identidade autônoma e recriar relações coletivas tradicionais no âmbito das novas formações nacionais.
Isso implicava uma representação de mundo profundamente diferente. Como no período colonial, os valores culturais e os ideais nacionais ainda tendiam a refletir a imagem do Ocidente. Uma das maneiras dos escritores pós-coloniais de projetar uma identidade nacional independente foi o desenvolvimento de um vocabulário simbólico declaradamente nativo. O resultado foi uma revivescência cultural, na crença de que através da recuperação de tradições míticas e orais - como canções e contos que atestavam a riqueza cultural nativa - se poderia alcançar uma autêntica autodefinição.
A ênfase da literatura nacionalista recaía sobre a importância da unidade interna, em oposição às políticas coloniais de divisão e controle. Essa unidade, no entanto, era favorável às elites nacionalistas, uma vez que ela tendia a suprimir ou mascarar as diferenças internas. Para os escritores, a preservação da unidade e a continuidade com o passado poderiam ser alcançadas através dos símbolos nacionais, o que acarretou o surgimento de uma série de biografias de figuras locais.
Também a escolha lingüística refletiu o debate em torno da resistência aos valores culturais ocidentais e a busca pela autenticidade. Com a independência, o uso do inglês passou a ser classificado como uma forma de traição nacional. Era uma ameaça à unidade pretendida. O escritor queniano Ngugi wa Thiong'o passou a escrever em Gikuyu, sua língua materna, após estar vários anos escrevendo em inglês. Para ele,
a literatura africana só pode ser escrita nas línguas africanas, ou seja, nas línguas dos camponeses e da classe trabalhadora africana, a mais importante aliança de classes em cada uma de nossas nacionalidades e a força motriz para o vindouro e inevitável rompimento revolucionário com o neocolonialismo. 4
Por outro lado, o escritor nigeriano Chinua Achebe sustenta que existe uma infinidade de línguas africanas e respectivas literaturas, o que dificulta o intercâmbio entre leitores e escritores através do continente e mesmo no interior dos países. Para ele, seria necessária uma língua central de alcance nacional ou, ainda, continental. "Hoje, para o bem ou para o mal, essa língua é o inglês." 5 A língua inglesa pode assim ser apropriada para expressar a experiência africana, ao passo que escrever nas línguas locais significa restringir-se a questões étnicas e regionais. Achebe conclui: "a língua inglesa será capaz de carregar o peso da minha experiência africana. Mas terá de ser um novo inglês, ainda em completa comunhão com seu lar ancestral, mas alterado para adequar-se ao seu novo ambiente africano". 6
Com as extensas mudanças demográficas do final do século XX, o cenário começa a mudar. A ênfase que antes se colocava sobre o enraizamento e os vínculos nacionais passa a recair sobre andança, peregrinação em escala internacional. Se no período do pós-independência os escritores tendiam a se identificar com causas nacionalistas, os das décadas de 1980 e 1990 mostrariam que seus vínculos geográficos e culturais não eram tão definidos. Uma série de escritores de países ex-coloniais passa a migrar para metrópoles ocidentais, como Inglaterra, Estados Unidos e Canadá. No entanto, em suas obras, as conexões políticas e temáticas com o país de origem se mantêm. E as polaridades do período anterior - colonizador-colonizado, centro-periferia, global-local - se diluem. A idéia de fronteiras não tão definidas se traduz na noção de "hibridismo", presente no texto do escritor migrante e que dá algum significado à "desconcertante sucessão de traduções culturais que os migrantes precisam realizar". 7 No entanto, o hibridismo
não é um terceiro termo que resolve a tensão entre duas culturas, [...] em um jogo dialético de 'reconhecimento', [mas] uma problemática de representação e de individuação colonial que reverte os efeitos da recusa colonialista, de modo que outros saberes negados se infiltrem no discurso dominante e tornem estranha a base de sua autoridade - suas regras de reconhecimento. 8
Bhabha aponta também que é o entre-lugar, "o fio cortante da tradução e da negociação", que carrega o fardo do significado da cultura. E é nesse "Terceiro Espaço" que temos a possibilidade de evitar a política da polaridade e "emergir como os outros de nós mesmos". 9
Hall identifica duas maneiras de se considerar a "identidade cultural". A primeira é a que se define como uma cultura unívoca, compartilhada por todos e que representa a verdade e a essência da identidade de um povo. Para Hall, essa concepção desempenhou um papel crítico no período pós-colonial. A segunda visão de identidade cultural reconhece que, apesar dos muitos pontos semelhantes, há também pontos de profunda diferença, marcada por rupturas e descontinuidades que constituem o sujeito pós-colonial. Essa segunda visão é marcada pelo hibridismo e pelo que ele chama de diáspora , que se caracteriza não pela essência ou o purismo, mas pelo reconhecimento de uma heterogeneidade necessária. Assim, as identidades diaspóricas "são aquelas que estão constantemente produzindo-se e reproduzindo-se, através da transformação e da diferença". 10 Para Bhabha, no processo da tradução cultural se abre um espaço híbrido, do entre-lugar, "uma temporalidade intersticial", em conflito tanto com o retorno a uma autoconsciência essencialista original quanto com uma investida no "infinitamente fragmentado sujeito em 'processo'". 11
Uma das obras mais consideradas desse período, principalmente em língua inglesa, é Os versos satânicos , de Salman Rushdie. 12 Nas palavras do próprio autor, esse romance
celebra o hibridismo, a impureza, a mescla, a transformação que resulta de novos e inesperados seres humanos, culturas, idéias, políticas, filmes, canções ... Mélange ... é como a novidade entra no mundo. É a grande possibilidade que a migração em massa dá ao mundo, e eu tentei abarcá-la. 13
Os romances de migração - lidando com diferentes mundos culturais - proliferaram, formando uma categoria particular na literatura pós-colonial. Os versos satânicos exibe o exílio cultural de dois indianos vivendo na Inglaterra. No final, ambos retornam para sua terra natal, Mumbai. O retorno ao lar é o evento culminante na narrativa de viagem. Assim, através de um processo de apropriação, os escritores pós-coloniais se apoderam de um dos gêneros que definiram a expansão colonial: a literatura dos viajantes, "a jornada rumo ao mistério, ao coração das trevas". 14 As narrativas de ocupação traçadas a partir do centro colonial em direção às colônias são assim substituídas por narrativas sobre a peregrinação no sentido inverso: da "colônia" para o "centro", com o recurso final da volta ao lar. Bhabha localiza em Chamcha - o personagem que, transformado em bode, volta para o gueto, em Londres, para seus "compatriotas migrantes desprezados" - o ser mítico que se torna a figura "fronteiriça" de um deslocamento histórico em massa - a migração pós-colonial - "que não é apenas uma realidade 'transicional' mas também um fenômeno 'tradutório'". 15
Para ele, é a indeterminação da identidade diaspórica a causa secular e social do que se tem representado como a "blasfêmia" do livro. "Hibridismo é heresia." Assim, o conflito de culturas e comunidades em relação ao romance tem sido representado em polaridades espaciais e geopolíticas binárias: fundamentalistas islâmicos versus modernistas literários ocidentais, migrantes antigos versus metropolitanos modernos.
Isto obscurece a ansiedade da cultura irresolvível, fronteiriça, do hibridismo que articula seus problemas de identificação e sua estética diaspórica em uma temporalidade estranha, disjuntiva, que é, ao mesmo tempo, o tempo do deslocamento cultural e o espaço do "intraduzível". 16
Ahmad, 17 no entanto, considera "exorbitante" a celebração que Bhabha faz de Salman Rushdie. Para Ahmad, há uma estreita relação entre a teoria pós-estruturalista e a dos críticos literários (principalmente norte-americanos) desse período, que foi de crescente consolidação do Estado-nação burguês em grande parte do mundo pós-colonial. Essa nova consolidação das burguesias nacionais pós-coloniais seria respaldada por setores da universidade ocidental - mesmo aqueles marcados pelo pensamento radical -, de modo que o foco se deslocaria "da revolução socialista para o nacionalismo terceiro-mundista". 18 Quando a desilusão com o Estado nacional-burguês do chamado Terceiro Mundo começa a se instalar a partir do final da década de 1980, o pós-estruturalismo e a desconstrução surgem como posições teóricas definitivas para a crítica do próprio nacionalismo.
A exaltação que Bhabha faz, não só de Rushdie, mas também do realismo mágico - uma das características de Os versos satânicos - como a linguagem literária do mundo pós-colonial emergente é considerada por Ahmad como "traços rotineiros da retórica inflacionária da teoria metropolitana". 19 De forma que, na esteira da teoria pós-estruturalista, a afirmação de que o mundo está aberto à compreensão racional, ou ainda o próprio desejo de mudá-lo, deveria ser descartada "como uma tentativa desprezível de construir 'grandes narrativas' e 'conhecimentos totalizadores (totalitários?)'". O imperialismo e o nacionalismo aparecem como faces da mesma falsidade e qualquer tipo de racionalismo é rejeitado. As afiliações só podem ser múltiplas e móveis e falar a partir de uma posição estável de sujeito é "perseguir a quimera do 'mito de origens'".
As implicações dessa tendência é que, uma vez que os críticos pós-coloniais e/ou pós-estruturalistas estão estabelecidos em universidades ocidentais, a crítica é exercida a uma certa distância do mundo pós-colonial; uma distância portanto objetificante e politicamente confortável. Como resultado, interpretações homogeneizantes rotulam indiscriminadamente escritores e textos das mais diferentes nações e culturas como migrantes ou polifônicos, a exemplo do que ocorre com o próprio termo "pós-colonial", conforme discutido no início deste trabalho. Boehmer 20 compara essa tendência com a do Orientalismo de outrora, em que o discurso crítico se mostra totalizante em sua resposta ao múltiplo e misterioso nas outras culturas, de modo a adotar o que precisa para seus fins teóricos e desconsiderar o "incompreensível".
Outro aspecto a ser considerado é a dissolução dos binarismos defendida por teóricos do pós-colonialismo, principalmente no que se refere a centro-periferia. Para Connor, acentuar as contradições internas presentes nas formas ocidentais dominantes de conhecimento, e não a força exterior de contraposição de uma posição marginal, "corre o risco de desacreditar as energias de auto-afirmação que fornecem o ímpeto para a revolta contra a exclusão e a opressão". 21 Para ele, essa tendência está relacionada com teorias pós-modernas em instituições acadêmicas ocidentais que, ao diagnosticar o declínio das metanarrativas de autoridade no Ocidente, também deslegitimam as lutas emancipatórias nacionais, que podem ainda depender daqueles mesmos ideais de liberdade e justiça universais. Assim o complexo modelo de negociação e dependência mútua entre colonizador e colonizado desautoriza a idéia de uma consciência e de uma linguagem formada da condição de vítima. Para Connor, "Essa teoria ameaça cair no próprio erro que busca corrigir, quer dizer, fixar-se num modelo binário de centro versus margem, do verbalizado versus o inteiramente sem voz, e duplicá-lo". 22
Hardt e Negri também relacionam o pós-modernismo à teoria pós-colonial de Bhabha. Para eles, é no ataque à dialética da soberania moderna e à proposição da libertação como política de diferença que as duas teorias coincidem. No entanto a afirmação de hibridismos e da livre atuação de diferenças por cima de fronteiras só pode ser libertadora num contexto em que a hierarquia do poder é exercitada exclusivamente por meio de identidades essenciais, divisões binárias e oposições estáveis. Como as novas formas de poder também estão empenhadas em abolir as manifestações modernas de soberania e permitir que as diferenças atuem através das fronteiras, a política pós-modernista de diferença não só é ineficaz contra as práticas do poder como pode até mesmo apoiá-las. Ao concentrar sua atenção em velhas estruturas de dominação das quais estão fugindo, "de cabeça voltada para trás", as teorias pós-modernistas correm o risco de acabar caindo involuntariamente "nos braços acolhedores do novo poder". 23 Da mesma maneira, os teóricos pós-colonialistas oferecem também uma visão muito confusa dessa transição, "porque continuam firmes no ataque a uma antiga forma de poder, e propõem uma estratégia de libertação que só poderia ser eficaz nesse velho terreno. A perspectiva pós-colonialista continua preocupada basicamente com a soberania colonial". 24
A institucionalização acadêmica significa portanto a apropriação dos estudos pós-coloniais pelas novas estruturas de dominação, uma vez que a narrativa preponderante, teorizando sobre diferenças e hibridismos, é incapaz de contrapor-se a uma ordem política e econômica que atualmente promove a diferença como meio de manutenção de sua hegemonia.
Nesse contexto, hibridizar e diferenciar podem chegar a ser, até mesmo em setores aparentemente menos relevantes como a academia, uma forma de celebração dos mecanismos do capital. Ou, mais precisamente, trata-se do capitalismo, em sua modalidade acadêmica, celebrando-se a si mesmo. 25
Nota-se assim um conflito de forças caracterizado por dois tipos de apropriação. Se num primeiro momento o escritor migrante utiliza-se, dentre outros aspectos, de um dos gêneros que definiram a expansão colonial - a narrativa de viagem -, as novas formas de poder, por sua vez, apropriam-se dos estudos pós-coloniais, em parte ou no todo, trazendo-os para dentro de seu domínio.
É possível portanto que a percepção das implicações da institucionalização dos estudos pós-coloniais signifique o início de uma nova tendência na crítica pós-colonial. O que no entanto não torna sua definição e seu campo de atuação menos problemáticos.
HALL , Stuart . When was 'the post-colonial'? Thinking at the limit. In: CHAMBERS, Iain; CURTI, Lidia (Eds.). The post-colonial question : common skies, divided horizons. London : Routledge, 1996. p. 245.
BOEHMER, Elleke. Colonial and postcolonial literature. Oxford : OUP, 1995. p. 184.
NGUGI wa Thiong'o. The language of African literature. In: WILLIAMS, Patrick; CHRISMAN, Laura (Eds.). Colonial discourse and post-colonial theory : a reader. New York : Columbia University , 1994. p. 450.
ACHEBE, Chinua. The African writer and the English language. In: WILLIAMS, Patrick; CHRISMAN, Laura (Eds.). Colonial discourse and post-colonial theory : a reader. New York : Columbia University , 1994. p. 431.
BHABHA, Homi. O local da cultura. Trad. Myriam Ávila, Eliana L.L. Reis e Gláucia R. Gonçalves. Belo Horizonte: UFMG, 1998. p. 165.
HALL , Stuart . Cultural identity and diaspora. In: WILLIAMS, Patrick; CHRISMAN, Laura (Eds.). Colonial discourse and post-colonial theory : a reader. New York : Columbia University , 1994. p. 402.
BHABHA, Homi. Unpacking my library . again. In: CHAMBERS, Iain; CURTI, Lidia (Eds.). The post-colonial question : common skies, divided horizons. London : Routledge, 1996. p. 204.
RUSHDIE, Salman. The satanic verses : a novel . New York : Picador, 1997.
Id. , 1992 apud BHABHA, Unpacking my... , p. 205.
AHMAD, Aijaz. Linhagens do presente : ensaios. Trad. Sandra G.T. Vasconcelos. São Paulo: Boitempo, 2002.
BOEHMER, op. cit., p. 246-247.
CONNOR, Steven. Cultura pós-moderna: introdução às teorias do contemporâneo. Trad. Adail U. Sobral e Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Loyola, 1993.p. 190.
HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Império. 4. ed. Trad. Berilo Vargas. Rio de Janeiro: Record, 2002. p. 160.
BELLEI, Sérgio L.P. Pós-colonialismo: culturas em diálogo. Ilha do Desterro , Florianópolis, n. 40, jan./jun. 2001, p. 117.