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Os azulejos e o Aleph - a verdade cifrada de dois rabinos: Borges e Rushdie
Telma Borges (UFMG)

No final das contas, de nós só restam as histórias; não somos mais do que as poucas histórias que permanecem. Salman Rushdie

 

A prodigiosa memória de Irineu Funes é um catálogo inútil porque incapaz de esquecer ou pensar as diferenças. Esse saber enciclopédico e incatalogável de Funes contrapõe-se à potência sintetizadora do Aleph, seja ele uma minúscula esfera que ilumina a escuridão de um porão ou um simples azulejo que compõe o cenário de uma sinagoga. Ele não se configura, portanto, num simples catálogo, mas comporta o universo em sua ordem desordenada, transbordante. Tanto o Aleph quanto a literatura são condição para o esquecimento, são espaços acessíveis à consulta e por isso, ao contrário da memória de Funes, não se permitem ser um "despejadouro de lixo", mas filigranas de um mundo que pode ser constantemente reinventado, pois dele permanecem nada mais do que poucas histórias que transmigram de um espaço a outros e ganham novos e inusitados sentidos. Assim, é possível ao Aleph transitar do espaço sagrado para a literatura e outra vez para o sagrado sem, contudo, perder sua capacidade de comportar o infinito, como professado pela lenda judaica.

Diz a lenda que as 22 letras do alfabeto disputavam o privilégio de ocuparem o 1º lugar. O Aleph reunia a essa queixa a de ter apenas o singular, enquanto as outras tinham também o plural. Para seu consolo, Deus disse-lhe: "Não temas, porque tu reinarás sobre as outras letras como um rei; tu és una e Eu Sou Uno e a Torá é una e contigo darei ( a T o rá) ao meu povo, que foi chamado povo uno e contigo iniciarei os (Dez Mandamentos) no Monte Sinai conforme está escrito: 'Anokhi (Eu Sou)." 1

A conformação religiosa do Aleph faz dele a raiz de toda articulação, pois, de acordo com a tradição judaica, essa letra contém todas as outras do alfabeto hebraico. Como um símbolo de configuração mágica, é detentor de todos os segredos da fé. Segundo Lyslei Nascimento, ele engendra inúmeras narrativas e simbolismos que multiplicam essa narrativa em outras versões. 2 Deslocado de sua condição divina e de sua tradição de origem, o Aleph não deixa, portanto, de expressar o caráter fabulatório da letra hebraica, mas agrega a esse componente a capacidade de se multiplicar em narrativas que se constróem e são atravessadas por inúmeras tradições culturais.

No conto "O Aleph" 3, Jorge Luis Borges recorta do alfabeto hebraico sua primeira letra e a ressignifica num contexto literário sem, contudo, dela subtrair a noção de Ein soph , infinito. No porão de uma casa prestes a ser demolida, o narrador atinge, paradoxalmente, o máximo da lucidez e da vertigem. Conduzido pela louca revelação de Carlos Argentino, Borges é levado ao porão onde começa seu "desespero de escritor" 4, pois Argentino havia lhe dito, por telefone, que o Aleph é "o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do orbe, visto de todos os ângulos. 5

Duvidoso da possibilidade de vislumbrá-lo de local tão escuro como o porão, o narrador é convencido pela contra-argumentação filosófica de Carlos: " - A verdade não penetra num entendimento rebelde. Se todos os lugares da terra estão no aleph, aí estarão todas as luminárias, todas as lâmpadas, todas as fontes de luz." 6 A passagem é alusiva ao episódio da Caverna de Platão 7: esse lugar onde homens estão acorrentados e subtraídos da luz solar, simboliza o desconhecimento. A ascensão dessa caverna permite a esses homens contemplarem, à luz do saber, as coisas em sua dimensão verdadeira. Num movimento contrário, o narrador de "O Aleph", numa descida ao porão, dantescamente também compreendido como inferno, diz chegar ao centro inefável de seu relato: "como transmitir aos outros o infinito aleph, que minha temerosa memória mal e mal abarca? (...) O que viram meus olhos foi simultâneo; o que transcreverei, sucessivo, pois a linguagem o é. Algo, entretanto, registrarei." 8

A visão da letra provoca a proliferação de um sem fim ( Ein Soph ) de narrativas que, ao mesmo tempo em que reenviam a letra a seu contexto sagrado e lendário, projetam-na no corpo de uma tradição que está constantemente em processo de mutilação e multiplicação. Esse instante epifânico transforma-se no momento-revelação no qual nada mais será como antes, pois tudo é visto através do intolerável fulgor emanado do pequeno Aleph. Seus diminutos 2 ou 3 centímetros não diminuem, no entanto, o tamanho das coisas vistas, das quais o narrador faz uma enorme lista:

Cada coisa (o cristal do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu a via claramente de todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide, vi um labirinto roto (era Londres), vi intermináveis olhos próximos perscrutando-me como num espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu, vi num pátio da rua Soler as mesmas lajotas que, há 30 anos, vi no vestíbulo da uma casa em Fray Bentos, vi cachos de uva, neve, tabaco, veios de metal, vapor de água, (...) vi a relíquia atroz do que deliciosamente fora Beatriz Viterbo, vi a circulação de meu escuro sangue, vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o aleph e no aleph a terra, vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetural cujo nome usurpam os homens, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo. 9

 

 

É inegável o rigor taxonômico de Borges nesse trecho, no qual lista uma infinidade de coisas aparentemente díspares, mas todas contidas na minúscula e infinita aparição do Aleph ou da literatura; o poder combinatório tanto de um quanto de outra transcende o meramente classificatório. Nem o Aleph, nem a literatura têm centro ou periferia, por isso são potencialmente infinitos, portanto, universos inconcebíveis, de onde o narrador poeticamente pode sair, porque ali vislumbra o leitor: "vi teu rosto", um ponto ao mesmo tempo dentro e fora desse universo transbordante.

Fray Bentos, povoado onde vivia Funes, está contido nessa aparição; nele, Funes e sua memória inconcebível, as coisas e objetos que circundam sua história: o livro da paixão; as armas da Banda Oriental; a figueira dos fundos da casa de Funes; uma teia de aranha; o galho de santanina; De viris ilustribus de Lhomond; o Thesaurus e o Gradus ad Parnassum de Quicherat; os Comentários de Júlio César; o Naturalis Historia de Plínio; a carta floreada e cerimoniosa na qual Funes pede de empréstimo alguns dos livros do narrador; um telegrama urgente; a faísca momentânea do cigarro que Funes tragava em meio à escuridão; as formas das nuvens austrais; as listras de um livro espanhol encadernado; o sistema original de números inventados por Funes; o cão das três e quatorze; o cão das três e quatro; a congestão pulmonar que matou Funes; enfim, as setenta mil lembranças que Fray Bentos é capaz de evocar. É como se do Aleph inúmeros outros Alephs proliferassem e Fray Bentos fosse um deles. O simples fato de evocá-lo presentifica a desordenada lista das coisas acima. Ao comportar muitos outros Alephs; o Aleph da rua Garay dispensa o narrador do jugo a que Funes fora submetido. Como tudo no Aleph está, Borges se livra de uma possível congestão pulmonar, ou de transformar sua memória num despojadouro de lixo. Desse modo, está livre para, ao deixar as coisas e acontecimentos caírem na memória, subvertê-las à condição literária.

Esse Aleph de onde jorram inúmeros saberes prolifera em outros contextos e narrativas, como a empreendida por Salman Rushdie em O último suspiro do mouro . Contudo, nesse novo espaço de significação, o Aleph emana de outra órbita, reconfigura sinais, reúne histórias, professa verdades, engendra mistérios, decifra sonhos e desejos.

No espaço sagrado de uma sinagoga em Cochim, Morais Zogoiby - o narrador - cria condições para a manifestação desse outro Aleph. A sinagoga era cuidadosamente mantida por Flory Zogoiby, mãe de Abraham, pai do narrador. Além do cuidado para com o espaço sagrado do credo judaico, Flory guardava a sete chaves o segredo de sua miscigenação: encontro entre mouros, judeus, indianos, o que provocou uma mistura de credos, culturas e raças.

Ao contrário do Aleph borgiano, que se revela nas profundezas escuras de um porão, o Aleph de Rushdie se manifesta entre o brilho e a simetria dos azulejos chineses azuis que revestem a sinagoga. O pai de Abraham, Salomon Castile, para escapar à fúria de sua mulher, "ao cair da tarde, no dia em que completou cinqüenta anos de idade, caminhou até o cais, entrou num barco a remo com meia dúzia de marinheiros portugueses bêbados e fugiu para o mar" 10.

Na ausência de Salomon, Flory assume o cargo de Zeladora dos azulejos, até então aos cuidados deste. Abraham cresceu sem conhecer o paradeiro paterno, mas um dia o viu reaparecer na cerâmica azul. O menino, assim, dá veracidade à lenda que circulava em Cochim:

 

Dizia-se que quem se desse ao trabalho de procurar terminava por encontrar sua própria história num daqueles quadrados azuis e brancos, porque os desenhos deles mudavam, estavam mudando, com o passar das gerações, de modo a contar a história dos judeus de Cochim. Já outros estavam convictos de que os azulejos eram proféticos, só que a chave para sua compreensão se perdera nos tempos. 11

Através desses azulejos, Abraham recebe notícias periódicas do pai: numa cena cerúlea de orgia dionisíaca; dançando num pavilhão aberto, com expressão de alegria, diferente da expressão melancólica de que o filho recordava; magro e mendicante. Já na adolescência, vê o pai aparecer em tableaux semipornográficos. No dia em que muda de voz, Abraham acreditando que esse fato fosse um prenúncio do retorno do pai, corre até a orla, onde encontra apenas redes de chineses que se espalham contra o céu.

No retorno à sinagoga, o jovem se depara com a inefável verdade: "todos os azulejos que representavam a odisséia de seu pai haviam mudado, e agora exibiam cenas anônimas e banais." 12 Pela segunda vez o pai havia desaparecido no horizonte azul. Através do caráter de Aleph assumido pelos azulejos, o filho pôde comparar a trajetória do pai em outras terras: da felicidade almejada à mendicância e ao descontentamento de sempre, como se "todas as suas viagens não tivessem tido outro efeito que não o de levá-lo às mesmas praias de descontentamento de onde partira." 13

A mudança na voz representa importante passagem na vida de Abraham: a saída do mundo inocente e fabuloso encenado nos azulejos azuis. Assim como em Borges, um pormenor subtrai o narrador desse Aleph de onde pôde acompanhar a rotina do pai e até mesmo acreditar numa vida feliz. Ao ver o leitor, Borges é arrancado do torvelinho de imagens contidas no Aleph, mas, ao contrário de Abraham, o narrador argentino penetra num universo tão fabuloso quanto o Aleph da rua Garay: a literatura. Abraham, por sua vez, tem diante de si a certeza de que, adulto, precisa assumir as rédeas de sua história e vencer o terrível medo de que a feiúra da vida seja mais forte que o que nela há de belo; medo de que o amor não seja capaz de tornar invulneráveis os que amam. 14

Os azulejos da sinagoga e o Aleph encontrado no porão da casa de Beatriz Viterbo funcionam como portadores de verdades cifradas por preceitos ora judaicos ora literários. Assim pensando, pode-se dizer que a literatura é, por sua própria natureza, um Aleph de onde emanam todas as coisas metamorfoseadas. Essa condição metamórfica faz do escritor argentino e do indiano sujeitos capazes lidarem com a ordem caótica do universo e, ao transformá-la em literatura, tanto o ponto quanto o infinito permitem transitar por memórias, histórias e fantasias que compõem um universo (de)cifrado pela argúcia literária destes dois rabinos: Rushdie e Borges.

 

 

MATT, Daniel, apud NASCIMENTO, Lyslei de Souza. Vestígios da tradição judaica - Borges e outros Rabinos. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 1999, p. 35.(Manuscrito - Tese de doutorado - 235 p.)

NASCIMENTO, op. cit., p. 36.

BORGES, Jorge Luis. Obras completas . (4 volumes). Rio de Janeiro: Globo, 1999.

BORGES, op. cit., p. 695.

Idem, 697.

Idem, 693.

PLATÃO, A República - Livro VII. São Paulo: Nova Cultural, 1997, p. 85.

BORGES, op. cit., 695.

Idem, p. 695-696.

RUSHDIE, Salman. O último suspiro do mouro . Trad.: Paulo Henriques Britto. São Paulo: Cia das Letras, 1996, p. 84. 504 p.

Idem, p. 85.

RUSHDIE, 1996, p. 86.

Idem, ibidem.

Idem, p. 110.