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OBLOMOV - realidade, ficção e cultura russa
Tanira Castro (UFRGS)

Ivan Alexandrovitch Gontcharov - grande escritor e crítico russo, nasceu em 18 de junho de 1812 em Simbirsk e faleceu em 27 de novembro de 1891 em São Petersburgo - Rússia. Seu pai, um riquíssimo comerciante, várias vezes foi eleito governador de Simbirsk. Gontcharov perdeu o pai aos 7 anos de idade e sua educação foi confiada a sua mãe, Avdotia Matveevna, mulher sem instrução, porém enérgica e inteligente; ajudada nesta tarefa pelo padrinho do menino, Nikolai Nikolaevitch Tregubov, oficial da marinha, aposentado e, para sua época, uma pessoa esclarecida, bastante culta, de idéias progressivas, relacionada com o Círculo dos Decembristas.

Depois de receber a primeira instrução em casa, Gontcharov iniciou seus estudos numa escola particular do padre F.S. Troitskii, onde aprendeu francês e alemão e logo começou a ler livros da Europa Ocidental e de autores russos. Mas a tendência e os seus hábitos eram conflitantes com a leitura de inúmeros livros que lhe tomavam quase todo o tempo. Ainda na infância, na escola, leu as obras de Lomonossov, Fonvizin, Derjavin, Jukovskii, assim como as obras de Voltaire e Rousseau, as narrações de todas as viagens de Kyk, Krachennikov, as obras históricas de Golikov e Karamzin. Gontcharov em sua autobiografia escreveu: "Estas foram leituras impressionantes que abriram prematuramente os olhos de um menino para muitas coisas, que não poderiam deixar de influenciar o desenvolvimento de sua imaginação e fantasia, as quais já eram bastante vivas e ricas por natureza."

Em 1822, Gontcharov ingressou na Escola Técnica de Comércio em Moscou. Os estudos realizados nessa escola, durante o período de 22 a 30, deixaram no escritor lembranças desagradáveis: professores incompetentes, sem talento, um ensino padronizado e burocratizado: "Lembro com grande pesar desse período", dizia Gontcharov, conforme o testemunho do historiador S.M. Soloviov: "na escola técnica de comércio ensinavam mal; os professores eram antiquados". Mas foi a literatura russa a Escola e os Educadores de Gontcharov. Durante sua juventude, apaixonou-se pela obra de Pushkin, que foi para o futuro escritor um exemplo da maneira correta de descrever a realidade, uma escola de muito bom gosto e muita estética. Na juventude surgiu, como o autor confessa, a sua paixão pela produção literária.

Depois da escola técnica, Gontcharov ingressou na Faculdade de Filologia, na Universidade de Moscou, passando com sucesso no vestibular em 1831. Durante seus estudos universitários interessaram-se especialmente pelas questões de teoria e história da literatura, pelas artes plásticas, música, teatro e arquitetura. A impressão mais forte desse período foi a visita de A.S. Pushkin à Universidade, quando o grande poeta discutiu com o Professor M.T. Katchenovskii sobre a autenticidade do manuscrito "As palavras do Capitão Igor 1". A respeito dessa discussão Gontcharov citou: "... para mim foi como se o sol iluminasse todo o auditório, nessa época me apaixonei pela sua poesia, que me alimentou como se fosse o leite materno, seus versos me levaram ao êxtase e caíram como boas sementes de trigo as obras 'Eugenio Oneguin', 'Poltav' e outras. Eu e todos os meus colegas estávamos fascinados com a sua genialidade e sua obra que teve grande influência na nossa educação estética" (Obras completas, vol. 7, pág. 241).

Em 1834, Gontcharov terminou seus estudos, levando as mais gratas recordações de seus anos universitários, não só pela instrução recebida como pela sede de saber que a Universidade despertou em sua alma. Com a influência de seu padrinho que se preocupava muito com a educação do afilhado, durante as conversas entre os dois, veio o interesse pelas viagens marítimas e as questões espirituais muito cedo.

O ensino na Universidade nesse período, apesar da terrível perseguição, diante da reação política do início dos anos 30, mantinha-se em um alto nível. E mesmo assim, como observou Gertsen, na Universidade de Moscou todos aqueles que ingressavam, representantes de todas as camadas sociais, libertavam-se de todo e qualquer preconceito adquirido em suas vidas; e, ao obterem acesso ao mesmo conhecimento e ensino, tornavam-se amigos e irmãos.

Em São Petersburgo Gontcharov aproximou-se de grupos literários que ainda mantinham a tendência do romantismo. Por isso, no almanaque de um desses grupos foram publicadas quatro poesias escritas no estilo romântico e uma de suas primeiras novelas. O próprio Gontcharov não deu a devida importância a essas primeiras publicações. Mas nesses trabalhos já se observava a tendência realista do autor.

Gontcharov começou sua criação literária durante os anos universitários em Moscou. Período esse que o próprio escritor chamou de "O Século de Ouro da Literatura Russa". Sua primeira publicação foi a tradução de "Attar Gul", um texto do escritor francês Eugeniu Su. Após terminar a Universidade em 1834, nos primeiros dez anos, trabalhou como servidor público, inicialmente na Secretaria do governo de Simbirsk e logo a seguir, em maio de 35, foi transferido para São Petersburgo para exercer suas funções como tradutor no Ministério das Finanças, no Departamento de Comércio Exterior, na Capital do país, o que não lhe impedia de continuar trabalhando em suas criações literárias. Durante esse período Gontcharov teve a possibilidade de observar a vida comercial burocrática de São Petersburgo. Esses anos o escritor lembrava com grande repulsa e todo o seu tempo livre durante aquela época dedicava à literatura.

Em São Petersburgo o relacionamento com artistas plásticos e pintores, em especial com a família de Maikov, por exemplo, e poetas inspiravam muito o jovem escritor. O Salão Literário de Maikov era famoso em São Petersburgo, por ser freqüentado por I.S. Turguenev, F.M. Dostoievskii, D. V. Grigorevitch. E Gontcharov teve a possibilidade de publicar seus primeiros trabalhos, ensaios e poesias na revista "Podsnejnik" editada por Maikov.

Gontcharov muito cedo se libertou do estilo romântico, em 1838 publicou nessa mesma revista a novela "A doença do fogo", uma sátira totalmente anti-romântica, que tratava de uma estranha enfermidade que se alastrara pela Europa Ocidental e havia chegado até São Petersburgo. Doença essa caracterizada por declamações sentimentais, românticas e sonhos vazios com castelos construídos nos céus. Novela baseada nas contradições entre os encantos e sonhos vazios diante dos fatos da vida real do dia-a-dia. Em 1839, no Almanaque "Noites de Luar", uma publicação de características análogas às da revista "Podsnejnik", Gontcharov publicou a novela "O feliz engano", onde tenta apresentar o comportamento realístico do indivíduo, de uma forma concreta diante das diferentes situações da vida real.

Num de seus artigos Gorkii escreveu: "Cada escritor russo realmente foi extremamente individual em sua criação literária, mas o que os unificava era o desejo de compreender, sentir e descobrir qual seria o futuro do país, o destino de seu povo e a sua importância na terra. Como indivíduo, o escritor russo até esse momento permaneceu iluminado pelo amor incondicional e apaixonante pela grande literatura...". Entre esses escritores russos, podemos incluir o nome de Ivan Alexandrovitch Gontcharov, que viu a sua vocação maior na literatura.

Nas comemorações dos 125 anos de nascimento de Ivan Alexandrovitch Gontcharov, o jornal "Pravda", em um artigo a esse respeito, publicou que Gontcharov foi um grande escritor russo e entrou na literatura russa como um autor de caráter progressivo, como um dos representantes da escola dos artistas realistas dos anos 40 do século XIX, que continuaram a tradição de Pushkin e Gogol, educados diretamente pelas críticas de Belinskii.

A idéia original dos seus três maiores romances surgiu nos anos 40, quando o escritor estava mais próximo dos ideais democráticos. Durante a época histórica das décadas de 40 e 60 do século XIX, Gontcharov criou suas maiores obras. Esse era um tempo de grandes e profundas mudanças no sistema feudal, o período da queda do regime de servidão e o início dos movimentos democráticos na Rússia. Essa época encontrou o seu reflexo em três grandes romances de Gontcharov, a trilogia composta por: "Uma história banal", "Oblomov" e "O abismo".

O tema central das obras de Gontcharov sempre foi o destino de sua pátria, de seu povo: "Às vezes com tristeza, às vezes com alegria, observo o destino favorável ou desfavorável da vida do povo russo", escreveu Gontcharov. Nas suas maiores obras, como o próprio autor indica, sempre havia a tentativa de responder as questões que se apresentavam na vida contemporânea de sua época. A obra de Gontcharov teve um papel muito importante na história da literatura do século XIX, no desenvolvimento do realismo crítico e na criação do romance realístico russo.

Em 1842, Gontcharov começou a escrever seus primeiros trabalhos no gênero popular, sob a influência de Gogol, "O ensaio fisiológico", por exemplo, que tratava da descrição de personagens do tipo: o varredor de ruas, de empregados domésticos e servidores públicos e da vida colorida do dia-a-dia de São Petersburgo. Nesses ensaios manifestava-se a sua capacidade de observar e o seu aspecto cômico. A exatidão descritiva dos quadros domésticos, a maestria em transmitir a linguagem das classes pobres da cidade, a simplicidade de seus temas - demonstravam o amadurecimento do escritor e a influência da escola de Gogol em sua produção literária.

Em 1847, Gontcharov publicou o seu primeiro grande romance "Uma história banal" na revista "Contemporânea". Este romance recebeu uma excelente análise e crítica de B.G. Belinskii em um de seus artigos "Análise da literatura russa do ano de 1847", que deu muito orgulho ao autor para o resto de sua vida. Gontcharov e Belinskii, o maior crítico de obras literárias, eram amigos.

Em 1849, no almanaque "Coletânea Literária Ilustrada", da revista "Contemporânea" , Gontcharov publicou "O sonho de Oblomov". Os críticos imediatamente fizeram uma boa avaliação do trabalho que representava apenas um trecho do futuro romance "Oblomov", que só seria escrito depois de alguns anos, tendo em vista os grandes acontecimentos ocorridos na vida do escritor e o seu trabalho intenso de criação literária.

Gontcharov, em Simbirsk, passou a infância em uma casa de campo de seu pai, um rico comerciante e proprietário de muitas terras, numa situação patriarcal, num regime de servidão, vendo sempre ao seu redor um quadro de uma vida abastada, tranqüila, sonolenta; de uma vida preguiçosa dos moradores daquela propriedade de campo, o que conseqüentemente em muito foi reproduzido nos "Sonhos de Oblomov", que o próprio autor chamou de a introdução do romance.

A primeira parte do romance "Oblomov" só foi concluída em 1850.

No outono de 1852 Gontcharov partiu em uma viagem de navio militar russo ao redor do mundo como secretário do Almirante da expedição - E. V. Putiatin. Os objetivos dessa viagem eram estabelecer contatos comerciais com o Japão e outros países asiáticos. Essa viagem durou dois anos e meio e como resultado Gontcharov escreveu dois volumes descritivos de suas observações, sob a denominação de "Fragata Palada", que foram publicados em diferentes revistas nos anos de 1855 a 1857. Essa viagem marítima, apesar das grandes dificuldades enfrentadas, foi de grande importância e interessante para o autor. Em 25 de fevereiro de 1855 Gontcharov retornou a São Petersburgo, por via terrestre, passando pela Sibéria e pelos Urais. Durante a viagem o escritor anotava absolutamente tudo, descrevendo, em detalhes, tudo que vira na Europa, África e Ásia.

Ao regressar a São Petersburgo, após a longa viagem, que interrompeu a elaboração do romance "Oblomov", o autor retomou de imediato o trabalho. Em 1857, como conta o autor, após sete semanas, as três últimas partes do romance foram escritas. As lembranças da infância, os anos de serviço na Capital do país forneceram ao autor todo o material necessário, que foram utilizados no romance.

"Oblomov" foi publicado pela primeira vez na revista "Notas Patrióticas" em 1859. Este romance teve um grande sucesso e através do mesmo podemos conhecer o espírito e a alma do homem russo e conseqüentemente a cultura de uma época. Através do imaginário e trânsitos de representações dentro da realidade/ficção e ficção/realidade analisar a cultura, a história e a filosofia de um povo.

O romance criticava os aspectos negativos da vida russa tranqüila, sossegada, sonolenta das classes ricas, confrontado por um herói burguês, empresário, que representa o progresso histórico na Rússia. Gontcharov tenta desvendar o conflito entre as duas culturas, entre o velho e o novo, entre Oblomov e Chtolts, seu amigo de infância. Mas essas duas vidas tomaram rumos completamente antagônicos. Chtolts foi estudar na França e tornou-se uma pessoa cheia de energia e com ânsia de muita atividade que somava uma alta cultura, conhecimento da vida, com grande empreendimento e praticidade. Do ponto de vista burguês, Chtolts alcançou tudo que desejava: conforto, uma boa posição social e estabilidade financeira. Chtolts torna-se exatamente o oposto de Oblomov, que nunca saíra da Rússia, apesar dos convites de Chtolts para acompanhá-lo em uma de suas viagens. Dessa forma Oblomov representa uma pessoa apática, preguiçosa, sem desejo algum de ter uma atividade definida em sua vida, sem vontade de ir a lugar algum. Entretanto, Oblomov possuía qualidades positivas: era muito pensativo, humanitário e sonhador, dons estes que Chtolts não possuía.

Oblomov encontrou uma bela, sensível e bondosa moça, que se apaixonou por ele ao perceber suas qualidades românticas e grande sensibilidade. Inicialmente, Oblomov deixou-se envolver pelo amor, mas esse enlevo não durou muito tempo e tudo acabou como sempre terminava - em nada. A preguiça e o medo de mudar seus hábitos numa convivência com outra pessoa venceram. Oblomov temia a incerteza, os riscos. E todas as tentativas de Olga Ilinskii de despertar em Oblomov seus sentimentos, seu interesse pela vida foram em vão. Com grande tristeza Olga se perguntava: "Mas por que tudo morreu? Até parece que foste amaldiçoado Ilia 2? O que acabou contigo? Não tem nome essa maldade..."

"Existe uma razão sim, e ela chama-se 'Oblomvchina 3'", respondeu-lhe Oblomov.

A.M. Gorkii avaliou o romance "Oblomov" como a obra mais significativa do autor, como um dos romances mais expressivos da literatura russa, salientou a sua força ao generalizar a obra. O romance teve um estrondoso sucesso. Um de seus contemporâneos, o crítico A.M. Skabitchevski, deu seu testemunho, dizendo: "Seria necessário viver naquela época, para poder compreender que sensação e furor causou o romance no público e que impressões sensacionais provocou na sociedade. O romance caiu como uma bomba no meio intelectual, exatamente na época de maior movimentação e agitação social contra a estagnação, o atraso econômico e social da Rússia".

O romance surgiu num momento de grandes mudanças na Rússia, dos grandes movimentos democráticos e teve um papel e um significado muito importantes na luta dos grupos progressivos da sociedade russa contra o sistema feudal e de servidão. O próprio autor viu no romance a continuação da crítica, iniciada em "Uma história banal" contra o sistema vigente e retrógrado da Rússia Czarista.

Em "Oblomov" encontramos os reflexos dos anos 40 e 50 do século XIX: período de uma profunda crise sócio, política e econômica de um sistema feudal baseado na servidão. Pelas declarações do autor, o mesmo tentou mostrar em "Oblomov" como e porque na Rússia as pessoas tornavam-se, antes do tempo, um João-Ninguém, uma geléia 4. "O triste costume de obter e receber tudo nas mãos e ter a realização de todos os seus desejos, não por seus próprios esforços, mas graças ao trabalho de outros, desenvolveu em Oblomov uma imobilidade apática que o levou a um estado de escravidão moral. Essa apatia, essa imobilidade e escravidão moral Gontcharov conseguiu expressar até mesmo na aparência externa de Oblomov: uma pessoa humilhada, com roupas mulambentas, totalmente abalada por seus infortúnios, sem perspectiva alguma e sem desejo algum de fazer algo sequer, para poder sair da triste situação. Analisando do ponto de vista clínico, poderíamos dizer que Oblomov encontrava-se em profunda depressão devida à situação em que se encontrava".

O romance Oblomov foi adaptado para o cinema em 1979 por Nikita Mikhalkov, diretor de cinema, atualmente presidente da Academia de Cinema Russo. E em 1980 o público russo assistiu ao filme "Alguns dias da vida de Oblomov", que apresentava uma realidade virtual e o seu lugar cultural histórico que, ao ser analisado mais detalhadamente, poderia acontecer no final do século XX, tendo em vista que o mesmo diretor em 1994 apresentou ao público mais um filme, este intitulado "Anna dos 6 aos 18 anos". Um documentário onde no ano de 1979, Anna, uma menina de 6 anos, responde às perguntas feitas por seu pai no dia de seu aniversário, em uma pequena casa de campo situada entre pinheiros na Rússia, não muito longe de Moscou. Todos os anos no mesmo dia o pai repete as mesmas perguntas : Do que você mais gosta? Do que você tem medo? Com o que você sonha? Qual é a sua comida predileta? E assim a história de seu país vai passando pelo olhar de Anna. Sua visão amadurece, mas o medo da guerra é uma constante em sua vida frente aos acontecimentos e mudanças ocorridas em sua pátria, durante as duas últimas décadas do século XX. Finalmente chega o dia de partir, a infância da menina chega ao fim e ela descobre o quanto ama a sua sombria terra natal. Neste filme a história de um império é vista por olhos femininos. Este filme foi dedicado a Natalia Petrovna Konchalavskaia, mãe de Nikita Mikhalkov, e levou 13 anos para ser filmado. "Muita coisa mudou durante esse período: a varanda onde a família se reunia para passar as longas noites de verão; o banco onde mamãe adorava sentar, os caminhos dos jardins da propriedade que ela gostava de percorrer. A casa, com seu aroma de café e torrada de manhã cedo. O chão aquecido pelo sol, onde corria a menina Anna, descalça, para chegar ao quarto da avó, onde as cortinas fechadas mergulhavam-no na escuridão para subir na cama da avó e aconchegar-se sob o cobertor, sentir seu cheirinho e ouvir coisas simples e belas, que esqueceria imediatamente, assim que a deixasse. Mas que um dia, mais tarde, certamente, lembraria claramente."

"Essa casa já se foi, como a varanda onde se tomava café, o banco e o cachorro, atrás do qual Anna corria. Se foi também o império onde tudo isso aconteceu. Nesse império havia tudo que um império precisava: um imperador, voluntários, guardas, gladiadores, bobos da corte, sentinelas, comerciantes, artistas e finalmente cidadãos. Havia tudo isso, menos Deus. Ou melhor, havia muitos deuses "vivos" insignificantes, mas as pessoas não tinham um Deus verdadeiro dentro de si. Esse império fascinava com seu poder e mistério. Amedrontava as pessoas de todas as partes do mundo, as atraía e fascinava. Mas na realidade, o que era esse império, sem Deus, cujas sombras cobriam domínios além de suas fronteiras? O que era? Uma fé ingênua no sonho sedutor, porém impossível, da igualdade total, do paraíso na terra? Ou o desejo coletivo de ser iludido e tomar parte deste jogo gigantesco de iludir os outros em nome do seu próprio bem? Mas um império precisa de inimigos para viver. E se o inimigo não existe então ele deve ser inventado. Por isso é que até nos jogos de futebol, hockey, etc., em nosso subconsciente, existe um sentido mais profundo e um significado muito diferente. Porque não podemos guerrear contra ele: precisamos dele para testá-lo, amedrontá-lo e sorrir-lhe." Nikita Mikhalkov não achava que os alemães e os americanos soubessem algo concreto sobre o homem que os cumprimentava - Leonid Ilyich Brezhnev. Para todos Brezhnev era apenas uma imagem, um emblema atrás do qual estava uma grande potência que deveria ser temida e respeitada. O resto do mundo maravilhosamente aninhou-se entre estes dois extremos. Entre estas duas superpotências, tinham uma vida confortável ora ligados a uma, ora a outra, de acordo com seus próprios interesses. Se um dos imperadores não os estivesse satisfazendo, então era possível pedir o apoio do outro. Fosse qual fosse a forma que este apoio pudesse ter.

Em 1980, Mikhalkov ainda não sabia exatamente que tipo de filme iria fazer. Sentia, intuitivamente, é claro, que poderia ser um documentário bastante importante, embora ainda não pudesse ver a sua forma. Mikhalkov tinha simplesmente decidido filmar todos os anos um rolo de filme. Fazendo à filha as mesmas 5 perguntas. Todos sabem que, naquela época, durante o período socialista, a censura na URSS era muito poderosa. Nenhum manuscrito era publicado sem aprovação superior. Mais impossível, ainda, era filmar um "home movie" com uma equipe profissional. Por isso só se conseguia filmes a preço muito alto ou por outros meios. Depois, era necessário processá-lo em segredo e conservá-lo muito bem guardado. E as pessoas que aceitavam esse tipo de trabalho se arriscavam muito, mas essas pessoas eram realmente amigas e leais, sem as quais, o filme não existiria hoje.

Aos 6 anos Anna respondeu que temia a bruxa, porque ela tinha um nariz comprido e uma cara horrível. Que queria ter um crocodilo 5 vivo e odiava a sopa "borsch 6".

As paredes da casa de Mikhalkov estavam cheias de quadros de seus ancestrais, entre eles o do grande pintor "Vassili Ivanovich Sourikov" - "Auto-retrato", e a energia e o calor da mãe, a avó de Anna, protegeram-na, por certo tempo, das influências do mundo lá de fora. Ela sabia quem eram seus ancestrais sem temê-los. Isto a fez diferente não só das outras crianças do país, mas também de nós, quando éramos crianças.

Mikhalkov e seu primo Andrei cresceram com o nome Mikhalkóv, porque seu pai, ainda na escola, teve que mudar a silaba tônica de seu sobrenome para fingir que nada tinha em comum com a famosa família Mikhálkov. Ninguém então sabia que o garotinho que começou a gaguejar, quando sua babá o deixou rolar morro abaixo no seu carrinho de bebê, se tornaria um famoso poeta infantil Serguei Mikhalkov, cujos versos todas as gerações de sua terra conheceriam.

Mas Mikhalkov logo compreendeu, e viu que a idéia deste filme lhe veio, imperceptível e naturalmente de um outro filme: "Oblomov", que tinha recém terminado de fazer. O garotinho, Ilioucha 7 Oblomov, num determinado dia, acorda em uma outra vida, em uma outra Rússia. O calor de seu lar e o amor de sua família também alimentou sua família. Mas o objetivo, ao comparar as duas infâncias, a de uma menina no império soviético e a do menino no antigo império russo, foi localizar seu ponto de divergência e descobrir se convergiriam outra vez.

Embora "Oblomov" fuja de casa e termine na imensidão da terra imensa de seu país - a Rússia, Ilioucha Oblomov jamais se perde. Porque as pessoas que encontra no caminho vivem, ou pelo menos tentam viver de acordo com as leis de seus ancestrais. Do mesmo modo, a vida da terra e seu passado são feitos pela vida de cada casa separadamente, mas apegados às origens ancestrais e à terra natal e, com muita sensibilidade, procura resgatar a dignidade humana.

Oblomov, como o autor, também muito cedo ficou órfão e foi criado pela mãe com a ajuda de seu padrinho. Enquanto Anna fora das paredes de sua casa entra num mundo de truques e imitações. Ela nasceu numa época quando os antigos sonhos da humanidade estão se tornando realidade. Pelos esforços do povo soviético, ter um filho ou filha neste período traz a todos muita felicidade. Representa um esforço na educação e uma grande responsabilidade para com a sociedade. Seu futuro depende de vocês. Enquanto isso, quanto mais o império tentava parecer majestoso para o mundo e glorificava a pátria e o grande povo soviético, mais cada um, em sua secreta vida interior, valorizava as minúsculas pátrias: que poderia ser um rio, uma floresta, uma vista da janela. Para Mikhalkov e seus filhos essa pequena pátria é o campo e o caminho poeirento que os levava à casa de campo.

Com o passar dos anos, Anna amadurece e suas respostas tornam-se complexas em virtude do conhecimento adquirido em casa, na escola e pela situação econômica, sócia-política e cultural que vê em seu país e no mundo em virtude de tantas mudanças ocorridas em tão pouco tempo.

Anna agora responde que gosta da natureza. Que detesta pessoas más, pois estas a amedrontam. Que não gosta de brigas. Que deseja ser inteligente e comportar-se bem e dar boas respostas.

"O medo de responder errado. Conheço isso muito bem. Sou canhoto e na escola fui forçado a escrever com a mão direita. Lembro do medo de, na pressa, ficarem faltando letras e dos garranchos feitos com a inexperiente mão direita, quando toda a turma já acabou e está esperando somente por você. O medo de ser diferente dos outros. Foi este o medo, maior que qualquer outro, que apareceu na infância de todos que vivem nesta terra", relata Mikhalkov em uma entrevista a respeito de seus dois filmes.

Quanto maior se torna a decadência de uma sociedade, mais ela clama pelo patético. A última grande manifestação de poder feita foi durante a realização das Olimpíadas do ano de 1980. "O silêncio cai sobre a arena", era a última vez que o império russo, reunindo suas reservas finais de energia, tentou mostrar ao mundo sua força e grandeza. O urso, o urso soviético, o urso vermelho que todos tanto temiam, que o oeste e o leste usavam para amedrontar as crianças, era simplesmente Mishka, amigável, simpático e oco, que, libertando-se de suas amarras, devagar desapareceu no infinito, enquanto todos acenavam adeus com a mão.

No ano seguinte, Anna responde às perguntas dizendo que o que mais a amedronta agora é a possibilidade de uma guerra. Esta resposta, terrível e inesperada, mostrava que o império começara a apoderar-se do ego dela, mas não dei atenção a isso então. Anna responde ainda, que gostava de quando todos estavam em casa e que seu maior desejo era pela chegada das festas de fim de ano. Que gosta muito das canções natalinas e do fim de ano quando tocam os sinos por todas as partes anunciando a chegada do novo ano e tocam, também, os sinos do Kremlin, anunciando a chegada do novo ano.

Mais um ano passou e novamente Anna responde: que gosta quando todos estão reunidos, discutindo as coisas, quando conversam abertamente sem segredos. Que detesta brigas de família e brigas pelo mundo. Porque por uma simples discussão pode haver uma guerra no mundo.

Passou-se mais um ano e agora Anna responde que é difícil dizer quais são seus desejos e o que mais quer: "Quero paz, saúde e felicidade para todos nós e que o mundo possa viver em paz e que não haja guerra nuclear. Que vivamos sempre juntos e que sejamos sempre felizes."

Mas, enquanto alegres canções de paz são cantadas, as imagens da guerra do Afeganistão tornavam-se cada vez mais sinistras. Embora ninguém falasse abertamente, uma simples alusão à guerra causava fúria.

Mais um ano passou e agora Anna, ao responder a pergunta o que mais ama, diz que não há resposta. Que ama muitas coisas, ama seus pais, ama cantar, dançar, ler e observar... E a coisa mais interessante que observou recentemente foi o nascimento de sua irmã. Mas que está ciente das mudanças e diferenças que aconteceram ao seu redor e das diferenças em relação ao que havia antes, falando da situação geral do país, que estava em plena Perestroika e que isto significava que todos deveriam mudar, do Comitê Central do Partido ao último lugar ou posto de trabalho. Todos, em seus lugares de trabalho, devem trabalhar honesta e conscientemente. Que isto era tudo sobre a Perestroika. Todos perguntam: "O que é a Perestroika?" Perestroika é trabalhar honestamente. Isto é o mais importante para a Perestroika. Mas, enquanto isso, por todo o país, começavam os concursos de beleza femininos e testes profissionais e privatizações.

Exatamente, não se sabe como entenderam os estrangeiros a palavra Perestroika. Mas o seu sentido, na Rússia, foi bastante específico. Para a maioria, Perestroika significava a possibilidade de fazer tudo aquilo que era feito às escondidas, em segredo, agora se podia fazer abertamente. E, evidentemente, que os mais bem sucedidos eram os jovens comunistas rosados, que cantavam a Internacional de manhã e à noite arranjavam garotinhas para as orgias do partido. E num instante, estas moças com naturalidade e profissionalismo, adaptaram seus fundamentos ideológicos. O objetivo dos concursos era apresentar moças talentosas para permitir que, em condições estabelecidas, mostrem suas novas qualidades de comunicação em situações incomuns. E assim encontrar representantes, as quais podemos mostrar, por exemplo, o comportamento na sociedade, no trabalho, em instituições de lazer... e revelar moças interessantes e aptas a tornarem-se modelos para a nossa juventude.

E mais um ano passa, agora Ana diz que tudo se tornou melhor e muito mais interessante na vida. Pois havia muitas carências e imperfeições na economia, na política. Por exemplo, na indústria leve, as roupas eram de qualidade inferior. Agora são muito melhores.

Na véspera da Perestroika muitos anos atrás, no Armazém de Gelo, às margens do rio Moscou, Serguei Pionkine 8 comemorou seu aniversário. Hoje ele é um renomado músico, mas naquela época, era apenas um zelador, morava num porão, cantava num restaurante particular, novidade na URSS então, e como a maioria dos presentes naquela noite, sonhava com a fama, com a TV nacional, limusines, charutos e cassinos. Resumindo, tudo o que se podia ver em fitas de vídeo estrangeiro, e que, para muita gente, representava a verdadeira liberdade e democracia. O aniversário de Pionkine se tornou uma tradição em Moscou, assim como, durante 70 anos, foi o caso das manifestações de 7 de novembro 9, no século XX. Pela primeira vez na URSS, um stripper masculino dá uma entrevista na TV russa e parece que o cantor S. Krylov ao dizer estas palavras, então sequer imaginou como estava perto da verdade. Agora, realmente não se comemora o dia 7 de novembro na Rússia. No entanto, os aniversários de Pionkine são transmitidos ao vivo pela TV nacional.

Anna concorda que nem todos puderam mudar de estilo. Nem todos podem mudar suas vidas tão rápido. Mas que para ela esta vida consiste em um futuro brilhante, pois significa que se pode viver como quisermos, fazer o que precisamos, e não o que nos mandarem. .. E com relação ao futuro, descobriu com lucidez aterradora a distância que agora nos separava, as fechaduras que Anna forjara e as chaves que não dera a ninguém, nem a seu próprio pai. "Meu Deus!" pensou Mikhalkov, ela que, alguns anos atrás, quase ontem, escondia o sorriso e dizia que tinha medo da bruxa, que odiava a sopa "borsch" e queria ter um crocodilo? Não vê que está se esquivando da pergunta. Tinha sido tão fácil tirar dela o direito de rir sem razão, de falar bobagens sem temer reprimendas.

E o povo, com prazer, novamente, arranjou um novo ídolo, que diferia dos anteriores, não causava constrangimentos. Falava fluentemente, sem nenhuma anotação, se comunicava facilmente e o mundo o respeitava, não só como líder de uma superpotência, mas também como uma personalidade. E todo o país o ouvia no rádio e na TV, porque suas palavras eram desconhecidas da maioria do povo soviético. Será que ele foi sincero no que desencadeou? Estou convencida que sim. Será que ele antecipou os resultados? Acho que não. O conhecimento dos acontecimentos levava à aflição, e quanto mais o povo aprendia, menos alegria tirava isso. Nesse período explodiu o Challenger, o Lê Bourget, surgiu o Fundamentalismo Iraniano. Em 1986 ocorreu o acidente de Chernobyl. E em Moscou se promovia desfiles de moda com designs de J.P. Gaultier. Enquanto isso, em estádios e até mesmo pela TV nacional, eram apresentadas sessões de médiuns. Como sempre, durante tais períodos, quando o lugar de Deus está vago na alma das pessoas, aparece um exército de bruxos tentando preencher esse vazio. Eles persuadem, adulam e seduzem mentes não formadas, as quais mergulham em maior terror, incerteza e falta de fé.

Em dezembro de 1988, foi um ano muito duro, o ano do dragão. Muitas coisas diferentes aconteceram, inclusive, infelizmente, muitos fatos graves, tristes, e até trágicos não só para o povo da terra, do planeta, mas também para muitas famílias da Armênia, por causa do horrível terremoto, e para a família de Mikhalkov também. A alegria de ver seu filho mais velho voltar para casa depois de 3 anos de serviços na marinha foi empanada por um acontecimento doloroso para toda a família, a morte de Natalia Petrovna Konchalovskaia, mãe de Nikita Mikhalkov, o pivô da casa, em volta do qual viviam filhos, netos, esposas - ex e atuais - e amigos. Ela tinha tudo e tudo iluminava com seu talento e brilho. Foi, é claro, uma grande perda para a família. Quantas vezes, ao sair de casa para o estúdio ou em viagem, Mikhalkov pedia bênção a sua mamãe. Nos últimos anos, ao sair, ele sentia uma certa ansiedade: talvez saísse e não a encontrasse na volta. Ela sempre fechava as cortinas, se Mikhalkov saísse ao amanhecer, era normal elas estarem fechadas. Mas se saísse mais tarde, às 9 horas, com a casa escura e as cortinas fechadas, sempre sentia um temor, e medo de não encontrá-la na volta. Mikhalkov estava viajando, quando ela morreu aos 84 anos.

Sempre limpava-se a neve dos caminhos todos os dias durante o inverno, e eram varridos todos os dias de outono, porque mamãe passeava por eles, nos últimos anos todos os dias para sentir-se de bem com a vida. Nos últimos anos, ela viveu na propriedade de campo, longe de Moscou. A família não se reunia tanto quanto antes, mas no dia 31 de dezembro, de onde estivéssemos, voltávamos para casa para nos encontrarmos juntos e comemorar o Ano Novo em casa. Desde a infância Mikhalkov lembrava da doce espera do Ano Novo, quando a árvore se iluminava, quando começávamos a nos aprontar enquanto ainda estava claro, quando cozinhávamos e conversávamos. A fragrância da árvore enchia a sala. O Papai Noel de algodão cheirava a naftalina. Aí, as crianças iam para a cama dormir e levantavam às 10 horas para receber os convidados que, em algazarra, cheios de frio e perfume, carregados de presentes, invadiam a casa. A casa era só gritos, risos, piadas e cumprimentos, abraços, beijos e depois iam para a cama dormir porque tinham que estar dormindo às 11 horas da noite. Mikhalkov odiava esse momento. Espetava-se com agulhas de pinheiro para ficar acordado, mas acabava adormecendo, percebendo, ao amanhecer, alguém que chegava, vozes conhecidas, canções, um violão e a risada de sua mãe. Mas no dia seguinte, quando as crianças acordavam, a mesa grande parecia mais uma Pompéia depois da erupção do Vesúvio. Tudo esparramado: entradas, sobremesas, copos ainda com restos de bebidas. .. Até a fumaça de cigarro ainda flutuava como uma nuvem transparente sobre a mesa. Seu desejo de infância de comemorar o Ano Novo com os adultos era tão grande que jamais se esquecera e lembrara por toda a sua vida. Por isso, desde cedo, deixou, que seus filhos comemorassem com todos o Ano Novo.

Este ano Anna disse que tem medo da guerra e, a partir deste ano, da morte de parentes. Porque este ano sua avó morreu. Esta era a primeira morte que ela via. Fora horrível. O que mais amava era a família, que gostava de quando todos estavam juntos. E manifesta-se o choro contido de uma menina que não consegue nem falar, pelo trauma que recém sofreu com a morte de sua avó.

Como em Oblomov, na cama da mãe, o filho pequeno, o menino diz: não vai embora. E sua mãe responde: - Não, eu não vou. Estou aqui com você.

O menino pergunta: O inverno vai voltar? - Sim

- Eu não consigo dormir. A mãe começa a acariciar a cabeça do menino.

Mikhalkov ao evocar sua mãe diante da imagem de um Ícone, naturalmente surgiu-lhe à mente uma oração: "Oh Senhor! Livre Natalia, sua escrava, de seus pecados, e dê-lhe o Reino dos Céus. Ajude-a, perante o olhar divino, o delta místico e invisível e perante o olhar dos seus ancestrais, que aqui descansam, e perante todos os crentes ortodoxos. Que nosso lar não se cubra de vergonha, nem se desagregue. Que não ceda às discussões, ao ódio, feridas, inveja e interesses, mas que siga sempre o caminho que é seu, banhado em sua divina luz. Amém ."

Enquanto os monumentos do regime anterior, o socialista, estão sendo retirados. A espiral da história não pára, o Império está ruindo. Os slogans vagavam sem objetivo. Restava somente uma direção - para frente - que permanecia. Na Alemanha o muro de Berlin caía e as duas Alemanhas unificaram-se em meio a festas e fogos de artifício. O mundo estava mudando tão rápido quanto uma paisagem durante um terremoto. O muro de Berlim, símbolo da divisão do mundo, caiu. Os fundamentos e tradições socialistas ruíram. Os ídolos estavam caindo. No lugar deles a multidão, quase que inconscientemente, movida unicamente por velhos instintos, invocava novos ídolos para jurar-lhes fidelidade. Retira-se de cena Gorbachev e surge Yeltsin.

Nesse ano um dos dissidentes mais perigosos voltara do exílio: o físico Sakharov. Mas o instante entre o seu regresso e sua morte foi como a queda de um meteoro no país.

O incontestável autor destas mudanças que entrara para a História foi e é Gorbachev. Mas, por incrível que pareça, quanto mais crescia seu prestígio no mundo, mais rápido ele afundava e caía em seu próprio país, onde todos pediam a sua renúncia.

A multidão, criada na mentira durante décadas, obrigada a reverenciar o ídolo que ela mesma criou, avidamente agarrou a chance que este ídolo lhe deu de apedrejá-lo em público, enquanto a multidão pedia a sua renúncia na Praça Vermelha em Moscou e nada mais lhe restou a não ser se retirar da tribuna. Enquanto uns defendiam seu ídolo, e outros apedrejavam-no, o povo esperava pacientemente que finalmente lhe permitissem viver e trabalhar calmamente para alimentar suas famílias.

Anna, a heroína do segundo filme de Nikita Mikhalkov, completa 16 anos. Mas por que antes ela fazia as coisas com mais ousadia, com mais vontade, e agora...? O que aconteceu? Surgiram os complexos. Mas que tipo de complexos? Não se sabe exatamente. Antes, ela não pensava antes de falar. Agora tem de pensar.

A pergunta: De que tem mais medo? Não é mais da guerra. Agora Anna até pensa em ter filhos. Como antes nunca havia pensado nisso, porque achava natural, agora isso é um problema sério, porque pode imaginar a preocupação e a responsabilidade que é ter filhos nos dias de hoje.

Ao começar este filme Mikhalkov queria entender, onde estão as diferenças e divergências dessas duas infâncias, onde estava o ponto de divergência: a do pequeno Ilioucha, em um império, e a da pequena Anna em outro. Finalmente entendera a diferença entre Anna e Oblomov: a fé e a ausência de Deus as separava.

Nosso potencial aumentou muito e, portanto, aparentemente nosso conhecimento também. Contudo a ausência de Deus tornou este potencial e este conhecimento destrutivos. Perdemos o respeito pela vida e pela morte. Transformamos a vida em um seriado de TV: A morte é um jogo de computador através da aquisição de brinquedos e jogos de destruição.

Em Oblomov, a mãe chama o filho para rezar e lhe diz, repita comigo Ilioucha, e ajoelhados ela pede que o menino repita depois dela: - Deus todo poderoso, tenha piedade de mim. "Oh Deus! em sua imensa bondade e generosidade, me proteja com a força de Seu Espírito puro."

No edifício do Conselho Supremo Russo, atrás dos vidros, os rostos de pessoas que estão falando para a multidão aglomerada em torno da Casa Branca são familiares: V. Yaroshenko, N. Mikhalkov, A. Lyubimov, A Politkovsky. Aqui muitas personalidades do mundo das artes e das ciências passaram pelo estúdio para dar seu ponto de vista sobre os acontecimentos dos últimos dois dias: 20 e 21 de agosto de 1991.

Nikita Mikhalkov, disse às pessoas que cercavam o edifício ao responder a um repórter: "Tentei dizer àqueles que me conhecem e sabem que nunca tive pontos de vista radicais de direita ou esquerda, nem falei em assembléias. Acho que cada um deve fazer o certo para si. A história foi despedaçada, como a cultura, como milhões de pessoas, num altar de um símbolo ideológico, que no fim não vale a vida de uma só criança. Nenhuma idéia vale a vida de uma só criança. Mas estou aqui hoje porque a ordem deve ser restaurada. Mas por quem e como? Esta é uma questão muito séria. Existe um governo eleito pelo povo. Ele existe. É representativo, existe um governo e um presidente. Minha opinião sobre Yeltsim é complexa por muitas razões. É meu ponto de vista pessoal, mas temos agora de decidir: -Vamos nos deixar dominar, como foi o caso anterior, durante tantos anos?"

Nessa época, em agosto de 1991, três pessoas haviam morrido em manifestações em Moscou. E em seu discurso Yeltsim disse: "Sua arma era o desejo de defender os ideais de liberdade, democracia e dignidade humana. A maioria dos líderes mundiais, ontem à noite e hoje de manhã, ligaram para expressar sua gratidão a todo o povo da Rússia, à Rússia e aos russos, por terem salvo a democracia. A URSS e a paz!" Naquele mês, os russos tinham mesmo salvo a URSS. Mas por quê? Para três meses depois destruí-la com suas próprias mãos? Pois em 31 de dezembro de 1991 Gorbachev, em seu discurso de fim de ano ao povo, presenteou-os com as seguintes palavras: "Caros compatriotas, concidadãos, devido à situação e a formação da comunidade dos Estados Independentes, eu renuncio ao meu cargo de Presidente da URSS. Ao tomar esta decisão por razões de princípio, eu firmemente sustento a causa da liberdade, da independência dos povos, da soberania das repúblicas, mas também da preservação da União e da integridade do país."

Pela primeira vez, ninguém colocou chá para o agora ex-presidente daquela grande potência. Porque, pela tradição bolchevike, ele já era uma não entidade. Nós freqüentemente esquecemos um velho e simples provérbio: "Trate teu próximo, como desejas ser tratado!"

E assim terminou a era da Perestroika. A democracia foi proclamada no país. Mas, como a Perestroika, os russos interpretaram esta palavra a seu próprio modo.

Quando a dignidade humana se esfarela, quando a imagem da honra desbota, quando se pode vender até os galões de um oficial e, irrefletidamente, comprar medalhas alheias, nas ruas, quando as idéias do pecado e da vergonha desaparecem, na Rússia se chamam momentos como estes de "Tempos Turbulentos". E como sempre em tempos turbulentos, os mesmos são geralmente, histórica ou culturalmente, naturais ou normais para os russos.

E no interior do país, velhas senhoras continuam de joelhos a seguir o caminho da igreja ortodoxa, ou lugares sagrados. Estas mulheres estão indo ajoelhadas para um lugar onde certa vez havia uma igreja, antes dos bolchevikes a destruírem. Elas beijam as árvores que testemunharam a vida da igreja, bem como a sua morte. Mas fica mais caro reconstruir a igreja do que convidar pregadores estrangeiros que, através de um intérprete, na TV ou num estádio, começam a ensinar ao povo sem Deus os princípios da fé. Mas está tudo bem mesmo, se não temos o que comer? Está tudo bem. Mas como podemos acreditar neles?

Este menino - Oblomov, claro, ainda não pode perceber o significado dos acontecimentos à sua volta. Mas virá o dia em que ele, ou provavelmente seus filhos, virão aqui para ver a igreja maravilhosa que eles terão construído com suas próprias mãos.

Em 5 de setembro de 1991. Neste lugar, nos arredores de Moscou, durante muitos anos, Mikhalkov continuou rodando seu filme e Anna tem 17 anos e está indo para a Suíça para ficar lá dois anos para continuar seus estudos.

Sua resposta agora: De que tem mais medo?

- Neste momento, só há uma coisa que seriamente tenho medo. É a perda deste tipo de mundo interior, do meu mundo... Eu tenho bons alicerces em que me apoiar, ao lembrar de minha vida. Talvez tenha acabado de perceber que no presente momento tudo o que tenho, como posso dizer... meu torrão natal, talvez, não sabe como dizer, isto é, que posso perdê-lo num momento. Porque é impossível predizer qualquer coisa no nosso país. E existe um certo perigo: o perigo de perdemos o que temos, aquela coisa dentro de nós que está sempre presente... E o que é o torrão natal? É uma coisa grande e muito bonita, não sei explicar. É ter alguma coisa para amar e acreditar. Se eu tivesse que fazer uma correlação ou associação, seria, provavelmente, este campo... Sim este campo certamente... E onde eu quero viver? Aqui, é claro. Porque não posso imaginar a vida sem isto aqui.

- Sem o que especificamente? Há muitas tentações. Você vai para a Suíça. Não tem medo de mudar e desejar aquela vida?

- Nunca, porque... todos os países do mundo são iguais.

- O que não é igual? Talvez sejamos diferentes aqui porque não é tão bom?

- Não. Aqui é melhor. E Anna tenta esconder as lágrimas. E não sabe o que dizer. Lembra de sua infância, quando chorava no meio da plantação.

As crianças pequenas, não importam de que país ou nacionalidade, geralmente choram pelas mesmas razões. Nós podemos, se quisermos, acalmá-las rapidamente, dar-lhes um doce ou contar-lhes uma história... mas por que Anna, uma jovem de 17 anos, que não precisa de nada começa a chorar ao falar de seu país?... será que Ilioucha Oblomov, aos 17 anos, choraria ao começar falar da Rússia? Talvez sim!... Porque a ausência de Deus que serve a estas duas Rússias, não poderia destroçar seu amor universal, aquele amor que leva às lágrimas e cujo poder e pureza são conhecidos no mundo como "a misteriosa alma russa".

E assim terminaram dois períodos inteiros e duas cenas da vida das famílias de Ivan Alexandrovitch Gontcharov (século XIX) e Anna, a filha de Nikita Mikhalkov (século XX), e da vida da nossa grande e infeliz terra, país que não é mais, hoje em dia, a União Soviética. "No entanto, espero que venha a ser uma grande Rússia. Mas não quero terminar este filme, embora já tenha terminado, creio eu, esta parte; quero continuá-lo. E se Deus nos der força, saúde, paz e compreensão, talvez daqui uns 13 anos possa mostrar a seqüência deste filme. A segunda parte deste filme. Pois ali, no campo, está a nova heroína: Nadia, minha filha caçula de seis anos. Que também começa hoje a responder minhas perguntas."

- O que tu mais amas neste mundo? Amo a beleza.

- De que mais tens medo? Tenho medo principalmente da escola.

- O que é o torrão natal para ti? É algo bonito. Pequeno todo meu.

- De que tamanho? Mostre-me. E Nadia mostra com as mãos algo pequeno.

Todo homem, todo povo, todo país tem um único e inimitável caminho a seguir, sem que seja indicado ou obrigatório, calmamente e com dignidade, sem invejar os que alcançaram os seus objetivos, e ajudando os mais vagarosos, se lhes permitirem fazê-lo.

 

Notas:

"As palavras do Capitão Igor" - os primeiros manuscritos, crônicas épicas escritas pelo príncipe Igor, que se tem notícia.

Ilia - diminutivo e forma carinhosa do nome Ivan.

Oblomvchina - substantivo abstrato derivado do nome Oblomov, que significa: acomodação, preguiça, languidez, sonolência, falta de vontade de fazer o que quer que seja.

Uma geléia - expressão idiomática russa para definir "um João-Ninguém"

Crocodilo Guena - era o desenho infantil mais popular nos anos 70 do século XX.

Borsch - sopa típica russa de beterraba.

Ilioucha - diminutivo carinhoso do nome Ivan.

Serguei Pionkine - cantor russo de música pop.

A s manifestações de 7 de novembro, em comemoração à Revolução Socialista de 1917.