![]() |
![]() |
[ VOLTAR ] |
Cruzando Fronteiras: a Arte do Ensaio em Gilberto Freyre e Walter Pater
Silvana Moreli Vicente (FFLCH-USP)
Este trabalho objetiva problematizar alguns aspectos do ensaio como forma literária em dois escritores: o ensaísta, sociólogo, antropólogo e historiador social Gilberto Freyre (1900-87) e o ensaísta, filósofo e crítico de literatura e de arte inglês Walter Pater (1839-1894). Ambos foram figuras proeminentes do seu tempo, ajudando a levantar aspectos centrais para a compreensão da modernidade nas respectivas tradições em que se inserem. Suas obras são marcadas por notável diversidade, abrangendo o romance, o conto, o ensaio e o periódico, em áreas como as de sociologia, história, crítica literária e de arte.
Freyre foi nome destacado no cenário cultural brasileiro do século XX, sendo conhecido, sobretudo, pelos seus ensaios de interpretação do Brasil Casa-grande & Senzala , de 1933, Sobrados e Mucambos , de 1936, e Ordem e Progresso , de 1959, que compõem a trilogia de nascimento, vida, decadência e morte do patriarcalismo no Brasil. Dono de uma obra que vai da poesia à prosa ficcional e ensaística, Freyre trabalhou, de forma peculiar, com as posturas de vanguarda da sua época, procurando, quase obsessivamente, elaborar uma articulação original entre regionalismo e modernidade, assim como entre nacionalismo e internacionalismo. Ainda mais, como escritor e intérprete da cultura, Freyre levantou e discutiu questões caras ao seu tempo, além de criar um dos estilos mais sugestivos e peculiares do modernismo brasileiro, como bem escreveu seu primo João Cabral de Melo Neto no poema " Casa-grande & Senzala , quarenta anos":
Ninguém escreveu em português
no brasileiro de sua língua:
esse à-vontade que é o da rede,
dos alpendres, da alma mestiça,
medindo sua prosa de sesta,
ou prosa de quem se espreguiça 1.
Por seu turno, na contramão da tradição vitoriana, Walter Pater não só foi um intelectual de peso no cenário cultural britânico do século XIX, como também deixou sua marca nas vanguardas européias modernas. Ao contrário de Freyre, que parecia ter verdadeiro horror à atividade acadêmica, Pater realizou quase toda sua obra como acadêmico atuante ligado à Universidade de Oxford. Dentre suas obras de crítica, podem-se citar Studies in the History of the Renaissance , de 1873, Appreciations with an Essay on Style , de 1889, e Greek Studies , de 1895, que atestam a multiplicidade de seus interesses. Afastando-se da representação literária mimética, Pater, na trilha da "arte pela arte" de origem francesa, defendia a necessidade de uma arte desinteressada, livre de qualquer sistema apriorístico. O contraponto hermenêutico dessa nova arte seria a chamada crítica impressionista, cujos instrumentos de observação sensível flagrariam o objeto em sua complexidade:
Modern thought is distinguished from ancient by its cultivation of the 'relative' spirit in place of the 'absolute' . To the modern spirit nothing is, or can be rightly known, except relatively and under conditions. The philosophical conception of the relative has been developed in modern times through the influence of the sciences of observation 2.
Esta observação sensível aderente ao objeto procura justificar a posição privilegiada de uma crítica que estabelece seus próprios parâmetros tendo como fundamento a experiência do observador, a captar aspectos de uma realidade múltipla em constante fluxo. Para Freyre, é este Pater, considerado um estilista em língua inglesa, como que "a revelação de um novo sentido da relação da arte - assim como da ciência ou do saber - com a vida" 3.
Gilberto Freyre via em Walter Pater, com seu "inglês helenicamente perfeito", a realização de um equilíbrio estilístico ideal. Pater, para Freyre, seria o escritor mais representativo de uma rica linhagem de ensaístas britânicos, dentre os quais podem-se citar Lafcadio Hearn, G. K. Chesterton, Arnold Bennett, Daniel Defoe, Jonathan Swift, Richard Steele, Joseph Addison, George Gissing, Charles Lamb, Cardinal John Henry Newman e Matthew Arnold. Desses parece advir um gosto pela liberdade da escritura, pela originalidade, pela polêmica da reflexão, pela fruição desinteressada de idéias, muitas vezes calcadas na materialidade do cotidiano, e pela dimensão subjetiva da escrita. O estudo desses escritores foi iniciado por Freyre quando ainda estudante de graduação na Universidade de Baylor, nos Estados Unidos, nos cursos de literatura do professor A. Joseph Armstrong. Sobre Pater, diria Freyre: "Desde que li Pater a primeira vez, ainda em Baylor, tornou-se ele tão parte da minha vida como Charles Lamb, que eu supunha não pudesse ser excedido por nenhum outro escritor na arte do ensaio" 4. Um pouco mais adiante, no ano de 1924, Freyre revela, em seu diário Tempo Morto e Outros Tempos , que vinha relendo Pater 5. Em 1927, teria recebido Pater completo de Londres 6.
A convivência literária com Walter Pater transmite a Gilberto Freyre sugestões estéticas distintivas, como a singular interpenetração entre prosa e poesia: "a literatura inglesa é uma literatura de poetas. Mesmo quando grandes ensaístas: o caso dos Pater" 7. De fato, em ambos os escritores, cujas obras, mesmo sistemáticas, são eivadas pelo memorialismo e pela autobiografia, não é fácil estabelecer uma nítida distinção entre gêneros e formas literárias. Pater, além de estudioso de literatura, de arte e de cultura, escreveu retratos imaginários autobiográficos, como Emerald Uthwart, de 1892, e The Child in the House, de 1878. Transcorridas na Inglaterra vitoriana, esses retratos dramatizam experiências autobiográficas de um narrador em plena fase de desenvolvimento, trabalhando com questões especialmente delicadas para a época, como relações interpessoais e familiares, formação autoritária, violência, punição e desejo de morte. Nessa mesma senda, encontram-se seus Imaginary Portraits , de 1887, que tratam, em quatro estórias, das vidas de jovens rapazes de diferentes períodos e nacionalidades. Porém, no rol de suas obras intrinsecamente literárias, destaca-se Marius the Epicurean , de 1885. Neste romance que conta a estória de Marius, seguidor da filosofia do prazer, Pater levanta pontos sugestivos sobre a interação entre o mundo pagão da Antigüidade Clássica Românica e o Cristianismo. É interessante notar que, mesmo com a precisa marcação de tempo e espaço e com a focalização das relações interpessoais do protagonista, com destaque para aquela com Flavian, a narrativa é bastante estática, marcada pela penetração de outras formas discursivas, como ensaísmo, na medida em que trata livremente de questões de crítica, filosofia e história.
Semelhante tom ensaístico marca várias passagens dos romances de Gilberto Freyre Dona Sinhá e o Filho Padre , de 1964, e O outro amor do Dr. Paulo , de 1977. O autor emprega, como técnica de narração mais inovadora, tempos e espaços fluidos, em que personagens reais convivem com personagens fictícios, assim como a meditação convive com a ação. Seu objetivo maior é construir, por meio da ficção literária, um estudo sociológico de tipos genuinamente brasileiros, que justifica a tonalidade discursiva de muitas passagens da obra. O primeiro romance toca na relação veladamente amorosa entre dois jovens ainda em formação, Paulo Tavares e José Maria, tendo como fundo o Recife de herança patriarcal e monárquica. No segundo romance, o já adulto médico-antropólogo Paulo Tavares, brasileiro formado na Europa e amante dos prazeres do ócio, buscando esquecer a morte do primeiro amor e a rejeição do segundo, a Dona Sinhá, mãe de José Maria, descobre-se envolvido por Maria Emília, caso que termina em casamento e morte da jovem esposa.
Autor, narrador e protagonista são instâncias fluidas nas narrativas de Gilberto Freyre que recuperam a técnica do auto-retrato imaginário de Walter Pater. Ambos os escritores, empregando formas narrativas híbridas, procuram soluções estéticas inovadoras no tratamento de temas como o impulso erótico frustrado, a violência, o prazer e a morte. Sem entrar no mérito estético das obras ficcionais de Pater e Freyre, importa destacar o interesse de ambos em desvendar os interstícios de uma realidade recuada a partir da memória e da experiência, assim como observar certo impulso ensaístico que percorre, de ponta a ponta, suas narrativas.
Tal subjetividade pervasiva, que mina qualquer pretensão à objetividade, participa também dos ensaios ditos sérios de ambos os escritores. Sempre com base fincada na experiência, ambos conseguem, em momentos muitas vezes predominantemente ensaísticos, explorar variados temas no extremo da mobilidade formal, avizinhando, com sensibilidade, a prosa do lírico, do épico e do dramático. Desse modo, colocam à prova as três tradicionais categorias normativas aristotélicas, ampliando-as sensivelmente.
Num volume de aulas ministradas sobre Plato and Platonism , de 1893, Pater afirma que o ensaio é a forma literária mais adequada para tratar de questões do seu tempo. O ensaio é, segundo o autor, "that characteristic literary type of our own time, a time so rich and various in special apprehensions of truth, so tentative and dubious in its sense of their ensemble , and issues" 8. O ensaio, para Pater, é a forma que não aspira à verdade absoluta. Tal processo, antipositivista e antiiluminista, terminaria por emprestar ao tecido textual um sentido mais complexo e vivo. Em breve passagem sobre Montaigne, diz Pater que o ensaio:
... provided him with precisely the literary form necessary to a mind for which truth itself is but a possibility, realisable not as general conclusion, but rather as the elusive effect of a particular personal experience; to a mind which, noting faithfully those random lights that meet it by the way, must needs content itself with suspension of judment. 9
No mundo moderno, marcado pela perda da totalidade, da auto-suficiência, o ensaio ofereceria, então, uma resposta à sua imprevisibilidade a partir da própria experiência do sujeito. Enquanto texto que se adere ao real, o ensaio considera como válida qualquer experiência, assim como guarda, em suas linhas, as marcas de um processo dinâmico de idas e voltas:
As scepticism replaces an overall view with the vision of the individual, the flexible essay opens itself up to the sensual and the inner vision; it describes, narrates, articulates, and thus testifies to its capability of articulating truth more adequately and less imposingly than any discursive analysis is able to achieve 10.
Tanto para Freyre quanto para Pater, o ensaio constitui uma forma de indagar uma realidade caótica, e o trabalho do ensaísta seria procurar captar a experiência humana em sua fluidez e complexidade, reorganizando-a formalmente. Para Pater, ao contrário do tratado que é, por essência, fechado, o ensaio ou diálogo é um instrumento dialético, que se encarrega de um processo que pode ser co-extensivo à vida. Porém, como ressalta Iser 11, a dialética de Pater nada teria a ver com o sentido hegeliano de síntese integrativa, mas como um modo particular de combinar perspectivas, um modo de colecionar impressões e observações agudas. Se, por um lado, o pensamento discursivo penetra na narrativa ficcional de Pater e de Freyre, num movimento contrário, o pensamento discursivo, por ele mesmo, tem sua base conteudística minada. O ensaio, assim, se instaura justamente no intervalo entre a ficção e o tratado, na medida em que é "a form which deconstructs itself in order to represent openendedness, unrelatedness and endlessness as facts of experiential reality" 12.
Trabalhemos um pouco mais com o conceito de impressão, tão cara a Pater, considerando sua componente subjetiva. As obras tanto de Pater como de Freyre foram consideradas impressionistas, ou seja, não teóricas ou rigorosamente fundamentadas, assentadas objetiva e coerentemente num sistema. Para ambos, essa perspectiva ametódica - lembrando o método ametódico no "Ensaio como Forma" de Adorno 13 - comprometeria a validade científica de suas indagações; ou, ainda em outro extremo, seu fascínio pelas formas do real denunciaria uma falta de envolvimento crítico conseqüente, a que se chegaria com menos adesão e mais distanciamento. Nesse sentido, a componente impressionista de suas obras coincidiria com a visão de que a mesma seria, segundo Max Picard, "a expressão formal de uma época que não acredita em nada" 14. Tal renovação formal parece trazer, como pano de fundo, a mesma perspectiva cética que animou Montaigne a escrever seus ensaios no ano de 1580, na época do Renascimento.
Voltando para Freyre, a configuração do ensaio Casa-grande & Senzala inova ao operar a partir dessa dimensão textual subjetiva, versando sobre um tema, a formação do Brasil colonial, normalmente limitado pelos contornos da objetividade. Personalidade que "atacava vorazmente a realidade, disposta a esclarecê-la e mesmo transfigurá-la a qualquer preço" 15, Freyre toma como formas literárias privilegiadas também aquelas que escapariam a qualquer definição precisa. Nesse sentido, o escritor opera, ao longo de sua obra, um elogio de formas híbridas, recriando, no tecido textual, aquela plasticidade distendida que caracterizava as relações pessoais nos espaços da casa-grande e da senzala. Na elaboração de um discurso que não nega seu pendor mimético, o escritor conta a história da origem do povo brasileiro cujo material é buscado, sobretudo, nas marcas da experiência, sua própria e dos outros agentes. O texto freyriano torna-se, assim, como que o retrato épico de uma civilização construído graças a esse poder de interação entre sujeito e experiência:
Estudando a vida doméstica dos antepassados sentimo-nos aos poucos nos completar: é outro meio de procurar-se o "tempo perdido". Outro meio de nos sentirmos nos outros - nos que viveram antes de nós; e em cuja vida se antecipou a nossa. É um passado que se estuda tocando em nervos; um passado que emenda com a vida de cada um; uma aventura de sensibilidade, não apenas um esforço de pesquisa pelos arquivos 16
Devido a essa aderência à vida, tanto em Pater como em Freyre ocorre o processo de intersecção entre ensaio e autobiografia. O caráter subjetivo do ensaio como forma literária em potencial pode ser mais bem vislumbrado em suas formas fronteiriças: a autobiografia, as memórias e o diário. Segundo Gómez-Martínez, a diferença entre essas formas está no tratamento do aspecto narrativo: na forma ensaística, este se apresenta como fragmentário, circular, marginal, desordenado e aparentemente sem propósito; já na autobiografia, memórias e diário, o aspecto narrativo toma forma linear e cronológica 17. No ensaio de Freyre, assim como no de Pater, a narratividade é marginal e fragmentária, sem deixar de ser autobiográfica e memorialística no sentido de reconstituir cenas, situações, personagens, sensações, que se realizam, no texto, como representação latente de sua vida ou da vida de qualquer indivíduo. Assim são abordadas, em Freyre, as experiências sexuais com mulheres de cor, as brincadeiras de menino, as experiências gastronômicas, enfim, experiências diversas com sugestão erótica às vezes velada, às vezes manifesta, marcadas pelo sado-masoquismo próprio do brasileiro. Tais experiências são presentificadas por um discurso oscilante entre a parte e o todo, a imagem e o conceito, a poesia e a prosa.
É interessante observar como Freyre disserta sobre a preferência sexual dos brancos, na linha daquele intercurso quase doentio próprio da nova colônia tropical. O primeiro contato do português, longo e memorável, teria sido com a moura-encantada, "tipo delicioso de mulher morena e de olhos pretos, envolta em misticismo sexual", a qual o colonizador viria a encontrar algo parecido entre "índias nuas de cabelos soltos do Brasil" 18. Um pouco adiante, dirige sua atenção para a mulher morena, fundamental para o sustento da miscibilidade na colônia portuguesa:
Pode-se, entretanto, afirmar que a mulher morena tem sido a preferida dos portugueses para o amor, pelo menos para o amor físico. A moda de mulher loura, limitada aliás às classes altas, terá sido antes a repercussão de influências exteriores do que a expressão de genuíno gosto nacional. Com relação ao Brasil, que o diga o ditado: "Branca para casar, mulata para f..., negra para trabalhar"; ditado em que se sente, ao lado do convencionalismo social da superioridade da mulher branca e da inferioridade da preta, a preferência sexual da mulata. Aliás, o nosso lirismo amoroso não revela outra tendência senão a glorificação da mulata, da cabocla, da morena celebrada pela beleza dos seus olhos, pela alvura dos seus dentes, pelos seus dengues, quindins e embelegos muito mais do que as "virgens pálidas" e as "louras donzelas" (Freyre: 2000: 85).
Tal como Pater, Freyre também recorre ao método dialético, engendrando antíteses que, pelo menos neste texto, não são superadas. No sentido da ambigüidade dinâmica 19 assinalada por Candido, este quase paraíso também sustenta uma vida sexual nos limites da depravação, em que a morena é vítima das mais severas atrocidades, conforme Freyre teria registrado a partir do testemunho de cronistas e da tradição oral:
Sinhá-moças que mandavam arrancar os olhos de mucamas bonitas e trazê-los à presença do marido, à hora da sobremesa, dentro da compoteira de doce boiando em sangue ainda fresco. Baronesas já de idade que por ciúme ou despeito mandavam vender mulatinhas de quinze anos a velhos libertinos. Outras que espatifavam a salto de botina dentaduras de escravas; ou mandavam-lhes cortar os peitos, arrancar as unhas, queimar a cara ou as orelhas. Toda uma espécie de judiarias ( idem : 393).
Se em Freyre de Casa-grande & senzala a experiência autobiográfica e memorialística toma dimensão histórica-social, Pater constrói o conto The Child in the House 20a partir de uma dimensão mais introspectiva, permeada por um tom meditativo. Nele, um encontro inesperado com um pobre homem numa tarde quente é o motivo desencadeador das reminiscências de Florian Deleal. Em meio às estórias contadas pelo homem, Florian percebe que ambos têm a mesma origem. A noite, um sonho o transporta para o lugar onde nascera, e a casa toma, no seu sonho, contornos nítidos, com paredes, móveis, cores, cheiro, cercada por uma atmosfera de segurança e conforto. A importância que a casa recebe ao longo do conto atesta o valor dessa (re)construção mental e textual operada pelo narrador: "a peculiarly strong sense of home - so forcible a motive with all of us - prompting to us our customary love of the earth, and the larger part of our fear of death" 21. É também curioso salientar que o tema da infância, normalmente tratado como o período idílico da vida, foi também a motivação maior para Freyre escrever seu primeiro grande ensaio: "um livro sobre a minha própria meninice e sobre o que tem sido nos vários Brasis, através de quase quatro séculos, a meninice dos vários tipos regionais de brasileiros que formam o Brasil" 22.
Desse modo, o trabalho de ambos, Walter Pater e Gilberto Freyre, convergem em muitos pontos. Escolhem como forma de escrita preferencial o ensaio . Forma fronteiriça, o ensaio, nas mãos de ambos, ganham aquele acabamento característico da arte autônoma. Ambos constroem retratos e paisagens literárias, do eu e do social, a partir de antinomias em equilíbrio, oferecendo um lugar privilegiado para as impressões do sujeito a partir de suas experiências no mundo. Uma curiosa mistura de gêneros é praticada ao longo de suas atividades, tendência pós-moderna que vem reforçar, por exemplo, a idéia de Harold Bloom, para quem o autor britânico seria uma espécie de romântico tardio precursor do pós-modernismo.
Ainda mais, tanto em Walter Pater quanto em Gilberto Freyre, alguns perigos passaram a rondar suas escritas. Por exemplo, o da perda de um certo dinamismo problemático, que pode assegurar o interesse do leitor pelo texto. Se, por um lado, seus ensaios se enriquecem com momentos narrativos memoráveis, as narrativas ficcionais nem sempre se harmonizam com o tom discursivo, o que acaba muitas vezes por impor um ritmo demasiadamente estático à escrita. Inclusive, assumir como invariavelmente eficaz uma postura ensaística, em sua franca abertura a diferentes idéias, estilos e gêneros literários, pode ser um modo velado de apriorismo, mesmo que a motivação cética primeira para a prática ensaística tenha sido a aversão a qualquer verdade única ou sistema fechado. De qualquer modo, sobre essas armadilhas da linguagem, ambos os escritores pareciam estar atentos, como atestam suas riquíssimas obras.
João Cabral de Melo Neto, " Casa-grande & Senzala , quarenta anos", A educação pela pedra e depois , Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1997, p. 61-2.
Walter Pater apud Iain Fletcher, Walter Pater , London, Longmans, Green & Co., 1959, p. 13.
Gilberto Freyre, O outro amor do Dr. Paulo , Rio de Janeiro, José Olympio, 1977, p. 121.
Gilberto Freyre, Tempo morto e outros tempos , Rio de Janeiro, José Olympio, 1975, p. 46.
Gilberto Freyre, Tempo de Aprendiz , São Paulo, Ibrasa, 1979, p. 359.
Walter Pater, Plato and Platonism , London, Macmillan and Co., 1917, p. 175.
Walter Pater apud Wolfgang Iser, Walter Pater: The aesthetic moment , Cambridge , Cambridge University Press, 1987, p. 18.
Theodor Adorno, "O ensaio como forma". In G. Cohn, Theodor W. Adorno , São Paulo, Ática, 1986.
Roberto Ventura, "Sexo na senzala. Casa-grande & senzala : entre o ensaio e a autobiografia". In Literatura e Sociedade , São Paulo, Universidade de São Paulo, 2001-2002, n. 6, p. 216.
Gilberto Freyre, Casa-grande & senzala , Rio de Janeiro, Record, 2000, p. 56.
J. L. Gómez-Martínez, Teoria do Ensaio , México, Universidade Nacional Autónoma de México, 1992, p. 114.
Gilberto Freyre, Casa-grande & Senzala , p. 84.
Gilberto Freyre, "Gilberto Freyre Crítico Literário", In Gilberto Amado, Gilberto Freyre - sua ciência, sua filosofia, sua arte, Rio de Janeiro, José Olympio, 1962.
Para uma leitura atenta de The Child in the House , de Walter Pater, tendo como contraponto a obra de Gilberto Freyre, assim como observar algumas relações mais amplas entre o escritor brasileiro e a Inglaterra, consultar artigo de M. L. Pallares-Burke "Gilberto Freyre e a Inglaterra: uma história de amor" ( Tempo Social , v. 9., n. 2, p. 13-32, out. 1997).
Walter Pater, "The Child in the House", In Richard Aldington (Ed.), Walter Pater: selected works, Melbourne, London, Toronto, William Heinemann Ltd, 1948, p. 36.