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A travessia do tempo em Mrs. Dalloway
Marina Cabeda Egger Moellwald (UFSC)

Eram precisamente doze horas; doze, pelo Big Ben; cujo sonido foi sendo arrastado para o norte de Londres; mesclando-se com o de outros relógios, confundindo-se, etereamente, com as nuvens e espiras de fumo, e indo afinal morrer além, entre as gaivotas... (...) Os pesados círculos dissolviam-se no ar 1.

 

O ressoar do tempo do Big Ben repete-se em Mrs. Dalloway , romance escrito por Virginia Woolf na década de 20 do século passado. O Big Ben e outros relógios mencionados no texto agem como ritmos que pontuam tanto o conteúdo da história como a própria forma de narrativa. A função temporal atravessa todo o romance, ora com seu ressoar pesado e exato, ora como força desviante. A pontualidade do relógio não é fixa. Ela se espalha pelo espaço como parte do universo e vai se esvaindo, percorrendo uma rede de contatos, ou, conforme Deleuze, fazendo parte de um rizoma 2.

Tudo se passa em um dia; o dia da festa organizada por Mrs. Dalloway. No decorrer deste único dia, o tempo se multiplica, se abre. Virginia Woolf escreve este dia vivido por vários personagens, que mantêm algum tipo de relação ou contato uns com os outros. Seu romance é também um rizoma; sem núcleo e centralização. Não existe um personagem central, mesmo que o título se referencie a um deles. Virginia escreve diversas experiências de vida que se entrecruzam. Além do tempo próprio da existência destes personagens- o tempo de um dia- são trazidos à tona, ou atualizados 3, outros tempos: da memória, das divagações, dos planos, dos sonhos e dos delírios. O tempo subjetivo dos personagens acompanha a marcação constante do tempo objetivo do relógio:

Lembra-te da minha festa, lembra-te da minha festa, dizia Peter Walsh, enquanto parava na rua, falando a si mesmo, ritmicamente, ao compasso daquela vaga sonora, o som direto do Big Ben batendo a meia hora (os pesados círculos dissolviam-se no ar.) 4.

 

Tanto o tempo das horas quanto o tempo subjetivo estão enredados na experiência de vida.

Virginia Woolf escreve Mrs. Dalloway no cerne dos tempos modernos. Marx já havia então pronunciado que, nestes tempos, tudo o que é sólido se desmancha no ar 5, tal como as batidas pesadas do Big Ben. O tempo moderno como tempo da industrialização, da máquina, impunha uma nova forma de trabalho. Não mais artesanal, o trabalho nas indústrias marcava, no próprio corpo do trabalhador, uma exatidão temporal. O trabalhador adquiria agora um locus e um tempo exato. Sua função mecanicizada fazia parte de todo o funcionamento da grande máquina social; era necessário que sua presença-função estivesse muito bem localizada, tanto no tempo quanto no espaço. Não é por nada que o relógio surge como um dos grandes adventos desta época- eis o instrumento capaz de demarcar o tempo como referencial coletivo com grande precisão. Em Mrs. Dalloway ,

cortando e repartindo, dividindo e subdividindo, os relógios de Harley Street iam roendo o dia de junho, aconselhavam a submissão, exaltavam a autoridade, e louvavam em coro as supremas vantagens do senso da medida(...) 6.

 

Com isso, a produção é ampliada., ou seja, com esta precisão temporal, ou, como somos conduzidos a pensar, com "menos tempo", é possível mais construção. De acordo com esta lógica, torna-se possível a substituição mais constante da produção realizada; os produtos são substituídos mais rapidamente. A força de trabalho torna-se mais veloz e as inovações também. Aumenta o ritmo construção-desconstrução e tudo o que é sólido vai se desmanchando no ar, tal como a dissolução dos círculos pesados do Big Ben. Quanto mais preciso é o instrumento que demarca o tempo, maiores são as modificações observáveis através desta medição. Mais constantemente são visualizados e vividos os processos de mudança.

Todas as épocas se diferenciam pelas modificações de suas formas instituídas 7. Ocorrem certas fixações de formas que determinam um período histórico e o diferenciam de outros. Mrs. Dalloway é um texto da modernidade, mas a transcende, pois propõe uma permanência; a permanência da rede. Propõe a permanência do rizoma enquanto experiência de vida, a permanência do não-permanente, do disforme, do movimento. A permanência do fluxo que tanto normatiza quanto possibilita, cria. Afinal, nem tudo o que é sólido desmancha no ar: a rede permanece. O romance exprime tanto a idéia do tempo controlador- metaforizado pelo relógio, como a idéia de abertura. A sonoridade pontual aprisiona ao mesmo tempo em que mantém sua abertura:

O Big Ben bateu a meia hora. Que extraordinário era, que estranho, que comovente mesmo, ver a velha senhora (há tantos anos que eram vizinhas!) retirar-se da janela, como se estivesse ligada àquele som, àquela corda. (...) Ela era forçada por aquele som, imaginou Clarissa, a mover-se, a retirar-se... mas para onde? 8.

 

Funciona como um imperativo sempre aberto. Imperativo sem objetivo nem conclusão fixa, em movimento. O controle objetivo transmitido pela pontualidade do Big Ben não é absoluto. Sua sonoridade pontual se espalha pelo ar.

De acordo com Norbert Elias 9, o relógio é um instrumento criado para marcar o tempo. Na medida em que a civilização da qual fazemos parte foi tornando-se mais complexa, imbuída de mais afazeres, constituída por um número cada vez maior de habitantes, tornou-se necessária a invenção de um instrumento que fosse capaz de regularizar nossas ações para que estas pudessem funcionar coletivamente. O relógio é um objeto construído para regulamentar ações- não é o tempo propriamente dito. Não existiu desde sempre. Foi criado em um momento histórico específico de acordo com a necessidade para tal. Assim sendo, o relógio funciona como orientador para que a sociedade permaneça sob controle, para que as pessoas que nela vivem permaneçam reguladas, temporalizadas institucionalmente.

Realmente, seria muito complicado se vivêssemos hoje em sociedades sem relógios. As referências servem justamente para oferecer limites ao incessante fluxo de vida, ao incessante devir 10 - tanto no mundo como no próprio indivíduo. Desta maneira, aprendemos desde muito cedo a lidar com este tempo transmitido pelo relógio. Em nossa sociedade, as crianças são modeladas a agir, pensar e até sentir de acordo com este tempo exato. O tempo mecânico construiu uma disciplinarização na própria forma de existência ou de experiência de vida; as pulsões e sensações são reguladas. É como se o relógio tivesse, aos poucos, através de suas batidas insistentes, tomado conta de parte de nossas subjetividades. Em Mrs. Dalloway , "o Big Ben começava a ressoar, primeiro a advertência, musical; depois, a hora; irretocável" 11. É como se houvesse uma insistência, primeiramente dócil e depois, avassaladora. No entanto, esta insistência não se realiza. Continua insistindo, tal como nossos tempos subjetivos e singulares continuam pulsando.

Na vida rizomática trazida por Virginia Woolf, há pulsação em tudo. Pulsação como forma de existência. Os outros tempos também pulsam. O passado retorna ao tempo atual, os sonhos e planos antecipam um tempo futuro, enfim, o tempo das horas é somente um dos tempos da rede, apesar de servir como referência aos outros. O tempo subjetivo funciona como forças de resistência, ou linhas de fuga em relação a estas forças macro, insistentemente repetidas no seu ritmo padronizado. A repetição insistente e eterna dos batimentos do relógio tem também sua abertura. "E o som do sino inundava a sala com sua vaga melancolia, que se retirava e novamente alvoraçava-se para investir uma vez mais (...)" 12. De um som ao outro, os pesados círculos dissolvem-se no ar. Entre as batidas, pulsam nossos tempos subjetivos.

Ao ressoar, o Big Ben efetua o tempo demarcado pelo relógio, das horas. No romance de Virginia Woolf, o ritmo do relógio funciona como um sinalizador ou seta direcionando os personagens para o tempo oficial. Retira-os de seus tempos singulares- nos quais vem à tona, ou se atualizam, tempos já passados, em forma de memória, ou sonhos por vir, planos para um tempo futuro.

Fechou a cortina. O relógio começou a bater. O jovem se havia suicidado; mas não podia lamentá-lo; com o relógio a bater a hora, uma, duas, três, não podia lamentá-lo, com tudo aquilo indo para frente (...) O relógio batia. Os pesados círculos se dissolviam no ar 13.

 

O tempo do relógio efetua este referencial coletivo. Por um breve momento, aprisiona os personagens neste tempo linear e progressivo, lembrando-os de seus afazeres e suas funções.

No entanto, este ressoar também conecta os personagens, os coloca em rede. Quando o Big Ben aparece na narrativa, ele efetua tanto um rompimento do tempo singular de cada personagem, como uma ligação entre estes vários tempos subjetivos. Ele representa um tempo social, atual e puro, ou seja, o tempo do presente enquanto ser- enquanto tempo da existência 14. Isto justamente, como havia dito antes, para organizar o fluxo ininterrupto e incessante de nossa existência em seu eterno movimento. Limite para a nossa condição incessante de devir. No entanto e novamente, nosso tempo de existência abrange tanto o tempo do relógio como o tempo subjetivo.

Este controle é necessário. Os indivíduos se constituem em sociedades, em grupos. Freud trabalha bem esta questão no seu texto sobre o mal-estar na civilização 15. É a isto que ele faz referência- não exatamente ao relógio em si, mas ao imbricamento entre sociedade e lei, ou sociedade e limite. Até que ponto somos subjetivados por este tempo, que não é o tempo em si, mas um instrumento criado socialmente para demarcar o tempo de forma arbitrária? Até onde somos aprisionados no tempo do relógio? O tempo das horas percorre toda a narrativa em Mrs. Dalloway . Ele retorna e ressoa repetidamente, tal como fora da ficção, em nossa realidade. Em um dia de batimentos ritmados, o Big Ben atravessa vidas- interrompe o fluxo temporal subjetivo e tenta habituar 16 cada personagem a viver em um tempo único, como se houvesse uma massa 17 a ser dirigida pressionando cada indivíduo a agir, sentir e pensar no mesmo tempo. Assim sendo, podemos localizar a função do relógio como uma tecnologia de poder constituída dentro do que Foucault denominou dispositivo 18.

Um dispositivo funciona mais ou menos como uma constelação benjaminiana ou um rizoma constituído por uma dimensão de poder, ou seja, por linhas de força que agem e reagem umas sobre as outras. Estas linhas estão sempre em movimento e vão se materializando, ou se atualizando, em formas instituídas de acordo com determinado período histórico. Como havia mencionado anteriormente, elas se materializam como formas; se institucionalizam formando regimes ou mecanismos. Para Foucault, o poder existe enquanto tal como relação de forças. Ele não atua só pelo lado do opressor em relação ao oprimido. Se mantém como relação entre várias forças- ao mesmo tempo em que controla e oprime, em sua relação com uma forma de saber dita verdadeira, consensual e instituída como tal, as forças que constituem o poder também criam, produzem outras formas de saber, outras possibilidades. De acordo com a leitura deleuziana de Foucault, a condição para que estas forças saiam de um movimento mais padronizado e criem novas direções é quando retornam a si mesmas. Elas então estariam fugindo de um certo fluxo insistente e direcionado.

Não interessa em qual época vivemos, estaremos sempre inseridos em dispositivos que efetuam relações entre forças de poder e formas de saber. Estas ultimas são institucionalizadas e reconhecidas ou valorizadas como verdadeiras para o funcionamento social. Estes dispositivos de poder são materializados em tecnologias. Aqui entra, enfim, o instrumento relógio. Uma das tecnologias sublinhadas por Foucault é a de poder, ou seja, a que objetiviza o indivíduo, determinando seu comportamento para objetivos exteriores a ele e dos quais ele pode estar totalmente alienado, como, por exemplo, no trabalho de série industrial.

O Big Ben pode estar funcionando como uma tecnologia de poder em sua insistente tentativa de objetivizar o sujeito, ou assujeitá-lo ao tempo das horas. No entanto, as tecnologias têm suas fissuras; os círculos pesados dissolvem-se no ar. Dissolvem-se entre os devaneios, os sonhos, os planos e as memórias- outros tempos vividos, trazidos ao plano da existência enquanto tal. Nesta relação temporal entre relógio e subjetividade, o dia, em Mrs. Dalloway , se abre em outros tempos. O atual se virtualiza 19e se reatualiza. Continuamos existindo, tanto dentro como fora da ficção. Nosso estar no mundo é feito de múltiplos; nossa experiência de vida é feita através de contatos materiais e imateriais. O tempo é um eterno momento. Uma duração. É o que difere de si 20. É puro movimento, puro devir. Não estamos presos aos relógios e a suas repetições entediantes; estes são somente instrumentos utilizados pela sociedade como meios para devidos fins. O tempo permanece e a mudança se presentifica e dura muito mais que um simples relógio. O dia, em Mrs. Dalloway , é atravessado constantemente por outros tempos, tal como a dissolução dos círculos pesados.

 

 

WOOLF, Virginia. Mrs. Dalloway . Nova Fronteira Ed., Rio de Janeiro; 187 pp., 1980. p. 92.

Conceito trabalhado por Gilles Deleuze.

Idem.

WOOLF, Virginia. Op. cit., p.50

Karl Marx apud. BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura da modernidade . Companhia das Letras Ed., São Paulo, 360 pp., 1986.

WOOLF, Virginia. Op. cit., p. 100

A concepção de forma instituída pode ser encontrada nos escritos de Foucault e de Deleuze, entre outros.

WOOLF, Virginia. Op. cit., p.123

ELIAS, Norbert. Sobre o Tempo . Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro; 165 pp., 1998.

Sobre o Devir, ver pensamento de Gilles Deleuze.

WOOLF, Virginia. Op. cit.,. p.114

WOOLF, Virginia. Op. cit., p.114

WOOLF, Virginia. Op. cit., p.178-179

COMTE-SPONVILLE, André. O Ser-Tempo. Martins Fontes Ed., São Paulo, 145 pp., 2000.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud . Rio de Janeiro, volume XXI. 325 pp.

Ver concepção de hábito em: BERGSON, Henri. Matéria e memória. Ensaio sobre o corpo e o espírito . Martins Fontes Ed., São Paulo, 204 pp., 1990.

Ver concepção de massa em: PELBART, Peter Pál. Vida Capital. Ensaios de biopolítica . Iluminuras Ed., São Paulo, 252 pp, 2003.

Idéia trabalhada em toda obra de Michel Foucault Ver especificamente FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Nascimento da prisão . 20 a edição. Editora Vozes, Petrópolis, 262 pp., 1999. Ver também: DELEUZE, Gilles. Foucault. Brasiliense Ed., São Paulo, 143 pp., 1988.

Termo utilizado por Deleuze para denotar a virtualidade temporal.

Diversas concepções do tempo em: PELBART, Peter Pál. O tempo não-reconciliado. Imagens do tempo em Deleuze. Ed. Perspectiva, São Paulo, 192 pp., 1998.