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Le Ravissement de Lol V. Stein e L'Amour de Marguerite Duras : alguns aspectos pós-modernos
Maria Cristina Vianna Kuntz (USP)
Os romances Le Ravissement de Lol V. Stein e L'Amour remetem o leitor a novas paragens, a um mundo de estranheza, que tenta desvendar a alma humana.
A fragmentação dos textos, a predominância da preocupação com a escrita, a intertextualidade e a participação do leitor para a construção do significado em ambos os romances, entre outros aspectos, inscrevem-nos em uma estética pós-moderna.
Michel Rybalka observa que, desde o período de pós-guerra, sobre um fundo moderno ou moderno tardio, aparecem aqui e ali, práticas pós-modernas, ainda que estas somente sejam teorizadas a partir da década de 70.
Em 1964, vem a lume, Le ravissement de Lol V. Stein, um dos mais importantes e herméticos romances de Marguerite Duras. A fábula apresenta uma história quase folhetinesca.
O texto desenvolve-se de maneira fragmentária, elíptica e intrincada. O jogo temporal, o narrativo e o semântico unem-se descortinando uma nova maneira de representação, longe do realismo e sentimentalismo que poderiam apenas encerrar uma história de amor. Entretanto, a maneira instigante de narrar conduz o leitor a descobrir questionamentos de valores tradicionais, institucionais, ficcionais e sexuais. A transgressão de Lol aponta até para uma libertação feminina que começava a germinar, com maior intensidade, nessa década de 60.
Lol, dezenove anos, filha de um professor universitário, vive em S.Thala. Terminado o Colégio, está noiva de Michael Richardson, filho de ricos proprietários da região. Durante as férias, na praia, em T.Beach, em um baile no Cassino da cidade, uma mulher desconhecida, mais velha, adentra o salão e seduz o noivo de Lol que a abandona de imediato. Sua melhor amiga, Tatiana Karl, é a única a dar-lhe apoio, até a chegada de sua mãe.
Após profunda depressão, Lol casa-se com outro homem e tem três filhas. Passados dez anos, ela vê um casal que lhe chama a atenção. Homem e mulher se beijam e comentam olhando para a casa de Lol: " Morte, peut-être " (p.38). Alguns dias depois, à saída de um cinema, ela revê o mesmo homem e resolve segui-lo. Ele vai encontrar-se em um hotel da periferia com a mesma mulher que Lol vira naquele dia. Ela reconhece Tatiana - sua amiga do colégio. Enquanto o casal sobe ao quarto do hotel, Lol fica em frente ao edifício, deitada em um campo de centeio contemplando o quarto iluminado.
Dias depois, Lol faz uma visita à amiga e começa a conquistar seu amante. Estabelece-se assim, uma relação triangular.
A narrativa apresenta-se, pois, quase como um jogo, triângulos que se sucedem como um caleidoscópio. Mas reduzir a trama a uma simples história de amor e traição seria desconsiderar a riqueza lírica e a profundidade da significação do romance.
Este termina com mais um encontro de Tatiana e seu amante no hotel, sob a vigilância de Lol no campo de centeio.
Esta cena, bem como a cena do baile se repetem ao longo do romance. Apresentadas ora pelo próprio narrador, ora pela protagonista, ora por Tatiana, oferecem ao leitor diferentes ângulos da narrativa. Esse jogo de fragmentos instaura à narrativa uma relatividade que destrói em definitivo a voz autoritária do autor e exige do leitor a construção do significado.
A repetição da cena traumática realça sua importância indicando sua permanência fantasmática na mente de Lol. 1
A perda que ocorrera no baile marcara-a profundamente e ela agora, projetava em Tatiana a revivescência daquele triângulo; não como uma vingança, mas por um inexplicável desejo de deslumbrar-se, " d'être ravi ", de ravissement .
Esse momento de exaltação, a cena máxima do romance repetir-se-á novamente no campo de centeio, quando Lol contempla ou imagina, em frente ao hotel, a cena amorosa dos dois amantes.
Assim, a mesma cena é apresentada por diferentes ângulos e como o baile, se torna mais um leitmotiv que permeia o romance. Dir-se-ia que seriam estas as molas-mestras sobre as quais se estrutura o romance.
Entretanto, parece um tanto absurda a atitude de contemplar uma janela iluminada em que se imagina um relacionamento sexual de um casal que Lol seguira na rua. Considerá-la apenas um caso de voyeurismo seria simplificar a questão. Na verdade, o leitor acaba esquecendo sua busca de explicação lógica e é totalmente envolvido pelo lirismo, pela poeticidade da palavra durassiana.
Nesta cena destaca-se uma alta dose de sensualidade. Em diversas passagens, na figura de Tatiana, ressaltam-se seus seios e sua cabeleira negra cobrindo-lhe as costas nuas: " Tatiana Karl, à son tour, nue dans sa chevelure noire, traverse la scène de lumière, lentement.[...] Ses seins, par rapport à sa minceur sont lourds [...]" (p.64).
Na tentativa de desmistificar as relações tradicionais, vemos que em Le Ravissement de Lol V. Stein, a autora parece sugerir algo mais na amizade entre Lol e Tatiana: o homossexualismo é também um dos assuntos prediletos da Pós-modernidade. 2 Tatiana representa a sedução física que falta em Lol; a mesma sedução da mulher que lhe roubara o noivo. Sua sensualidade exacerbada exerce fascinação em Lol e no amante, Jacques Hold. Trata-se de uma relação a três, pois que Tatiana sempre está entre eles : "La voici, Tatiana Karl nue sous ses cheveux, soudain, entre Lol V. Stein et moi" (p.116).
Por outro lado, poder-se-ia supor uma relação mais íntima entre as amigas desde a época de colégio, quando dançavam no pátio, após a saída das professoras, até a contemplação no campo de centeio ou o gozo perante o relato de Jacques Hold. Entretanto nada está claro; só há sugestões, permanece a ambigüidade. O pós-moderno é a era da incerteza, do possível, do permitido.
Assim, a história simples propõe uma nova forma de questionamento a valores tradicionais: a moça criada para encontrar o príncipe encantado e fazer dele a razão de sua vida, o casamento como opção única para a mulher, a fidelidade para a vida inteira.
Lol é a moça bem comportada que havia sublimado sua desilusão em um casamento bem sucedido até então. O marido, nem de longe, suspeitava o que estava para suceder: a paulatina mudança silenciosamente gestava-se no íntimo de sua mulher e irromperia à "primeira quebra do gelo do inverno" (" le premier craquement de glace de l'hiver ") (p.34).
Portanto, a partir do conhecimento de Jacques Hold, dá-se uma reviravolta. Lol começa a mudar e descobre outras possibilidades; sua nova atitude mostra que os acontecimentos, as frustrações não se enterram simplesmente, nem se encerram os capítulos sem qualquer conseqüência. Verifica-se, pois, uma ruptura em relação ao status quo , aos ditames da família e da sociedade. Lol rompe a barreira, comete a transgressão movida pelo desejo de libertar-se de sua lembrança ou simplesmente pelo desejo de sentir-se amada, sentir-se mulher.
Mas é sobretudo a preocupação com a escrita que faz de Le Ravissement de Lol V. Stein um romance ímpar.
Sabe-se que o Pós-moderno não aceita mais os discursos legitimadores e claros e reflete constantemente sobre a dificuldade de expressão seja na Literatura, seja nas Artes Visuais.
Neste romance, em diversos momentos o narrador alude à dificuldade para expressar um sentimento ou uma determinada situação. A busca da palavra exata deixa ouvir a voz da autora quando ela parece ultrapassar a história e atingir outros níveis de narração. Trata-se de uma brusca interrupção na narrativa e uma reflexão sobre a escrita e o silêncio, " le mot-trou "; somente uma escrita "esburacada" poderá, talvez, traduzir as catástrofes como as guerras ou mesmo a extensão da solidão, da morte - as dores humanas:
[...] Ç'aurait été un mot absence, un mot-trou creusé en son centre d'un trou, de ce trou où tous les autres mots auraient été enterrés. [...] c'est aussi le chien mort sur la plage en plein midi, ce trou de chair. [...], oh! qu'il y en a, que d'inachèvements sanglants le long des horizons amoncelés, et parmi eux ce mot, qui n'existe pas, pourtant est là : il vous attend au tournant du langage, il vous défie [...] le sable, l'éternité du bal dans le cinéma de Lol V. Stein (p . 48).
Esses buracos (" trous ") anunciados em Le Ravissement de Lol V. Stein tornam-se mais freqüentes na escrita de Marguerite Duras e chegam ao paroxismo no romance L'Amour . Publicado em 1971, este romance é, sem dúvida, o mais hermético de toda a obra da autora.
A fragmentação e a rarefação do texto dificultam sua leitura e compreensão. Não há divisão em capítulos, apenas seqüências irregulares, indicadas conforme a marcação temporal ou separadas por espaços em branco. Verifica-se uma predominância de diálogos que são também lacônicos e pouco acrescentam a esta resumida fábula.
Três personagens encontram-se e desencontram-se numa cidade à beira-mar: um homem " qui regarde " - O Viajante; um homem " qui marche " - O Prisoneiro e a Mulher que não recebe nenhum outro nome ou qualificativo. O leitor se perde no vaivém desses personagens enquanto a ação se reduz a "uma rede de lentidão" (" un réseau de lenteur ") (p.9).
O primeiro é hóspede de um Hotel à beira-mar; a mulher dorme ao ar livre e está grávida; ignora a paternidade e vomita o tempo todo. O Prisioneiro comenta que ela engravida com freqüência e dá os nascituros a quem os queira. Embora denominado Prisioneiro, ele anda livremente pela praia. Talvez represente ele o homem massacrado, stressado das grandes cidades, que, por isso mesmo, acaba louco. Ao final do romance, ele manifestará sua loucura ao atear fogo na cidade sob o olhar contemplativo da Mulher e do Viajante. Sua atitude poderia indicar uma vingança ou uma tentativa desesperada de um novo começo : destruir a cidade e suas instituições, renascer das cinzas para uma nova vida.
Essa intriga "descosturada" e até absurda já anuncia uma situação pós-moderna: é a forma de a autora denunciar o vazio da vida, os dias que se seguem sem qualquer objetivo; o desfazimento da família, a situação da mulher que se limita a engravidar, criar o filho ou não ter a possibilidade de criá-lo. Assim proposto, o problema parece ser apenas da mulher; sutilmente, nota-se, por parte do Prisioneiro e do Viajante, a crítica ao seu comportamento irresponsável. Cria-se, pois, uma ironia que denuncia a visão machista e a condição da mulher. A maternidade, sacralizada por séculos, é, neste romance, completamente desmistificada na atitude desta mulher que dá os filhos a quem os queira. Por outro lado, esta atitude "desumana" denuncia a situação social da mãe-solteira ou abandonada.
O Viajante poderia representar o homem moderno que não cria raízes, não se fixa em lugar nenhum, nem à família uma vez que a abandona sem maiores explicações. O fim do amor é mesmo inexplicável; a dor, injustificável.
Na narrativa há mais duas mulheres denominadas indistintamente - " Femmes " - o que gera uma ambigüidade em alguns momentos. Não se distinguem por qualificativo, mas pela situação em que se encontram : a primeira está grávida; a segunda será abandonada pelo Viajante e a terceira se autodenomina " la morte de S.Tahla " (p.83). É a situação da mulher, seu aniquilamento, sua possibilidade/impossibilidade de ação no mundo pós-moderno.
Outro aspecto pós-moderno que se verifica em L'Amour é a Intertextualidade. Jean Ricardou faz distinção entre "Intertextualidade geral" (relação entre textos de autores diferentes) e "Intertextualidade restrita" (relação entre romances do mesmo autor). 4 Neste romance essa relação intertextual restrita apresenta-se de maneira exacerbada a ponto de torna-se obrigatório relacionar este romance a Le Ravissement de Lol V. Stein e considerá-lo seu prolongamento ou variação. Caso o leitor não considere ou desconheça essa relação, poderá reduzir-se o significado do romance.
Alguns sintagmas e expressões que já ecoaram em Le Ravissement de Lol Stein agora se repetem em L'Amour . São as menções ao " bal " fatal, " la musique de S. Thala" (p.40), "les bals morts, de fêtes sanglantes " (p.39), " l'hymne lointain " (p.39).
Assim, reforçam-se os indícios de que alguns personagens tenham migrado do romance de 64. O Viajante seria o noivo "[...] revenu à S. Thala [...] " (p.37); a mulher que ele abandona poderia ser aquela que o seduzira no baile e o roubara a Lol; e a mulher grávida seria a própria Lol. Essa repetição de expressões, de temas, de cenas e personagens que transmigram entre os romances parece, pois, obedecer a uma tendência pós-moderna e revela a vontade obsessiva da autora de reescrever os mesmos temas.
Além dessa intriga mal "costurada", o tratamento do assunto - que não se define - choca o leitor. Entretanto este se deixa uma vez mais seduzir pela palavra durassiana, ou melhor, por seus silêncios, pela destruição da palavra, da narrativa. Na ausência desta, ela instaura uma melodia, um lamento que acaba por cativar o leitor e o incita a descobrir o mistério escondido sob a densidade de sua palavra.
O próprio título do romance - L'Amour - estabelece um jogo irônico, típico da Pós-modernidade porque a expectativa de história sentimental, bem como o conceito tradicional de amor são completamente desmistificados; neste romance há apenas a ausência do Amor.
Encaminhado-se rumo ao silêncio, dir-se-ia que a palavra durassiana nada quer afirmar, apenas sugerir : o mistério do relacionamento humano, sua impossibilidade, as inevitáveis e dilacerantes separações, a fome de comunicação.
Susan Sontag, também explica a tendência da arte moderna ao enxugamento, a uma anti-arte, ao silêncio. 4 Se hoje, a poderosa mídia oferece uma hipertrofia da palavra, para Marguerite Duras elas são insuficientes para exprimir a profundidade ou a extensão, a grandeza ou a mesquinhez do sentimento humano.
Nesse mundo pós-moderno sujeito à violência urbana, terrorista ou atômica, onde não existem mais as mínimas condições de estabilidade, seja econômica, seja social, não há mais lugar para o sentimento amoroso. As relações humanas estão reduzidas a contatos superficiais, efêmeros, isentos de um verdadeiro investimento pessoal porque se sabe, de antemão, a impossibilidade do amor total e do relacionamento entre as pessoas.
Dir-se-ia, pois, que nestes dois romances, a autora propõe uma nova forma de questionar os valores tradicionais, assim como uma nova forma de representação.
Se Le Ravissement de Lol V. Stein marca a obra da autora pela poeticidade ímpar, bem como sua explícita preocupação com a escrita, em L'Amour a incomunicabilidade chega a seu ponto extremo e instaura um mal-estar, sem dúvida, significativo.
Ao vazio da vida corresponde o vazio da palavra, a escrita fragmentária e lacunar de MargueriteDuras; " Détruire, dit-elle ". 5 É a destruição da palavra, a destruição do amor.
BIBLIOGRAFIA
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Notas:
No Vocabulaire de Psychnalyse , a definição de fantasma: "Scénario imaginaire où le sujet est présent et qui figure, de façon plus ou moins déformées par les processus défensifs, l'accomplissement d'un désir et, en dernier ressort, d'un désir inconscient". Laplanche et Pontalis, Vocabulaire de Psychanalyse , PUF, Paris, p.152, 1967.
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Détruire, dit-elle é o título de um romance de Marguerite Duras publicado pela Ed. Minuit, Paris em 1969.