![]() |
![]() |
[ VOLTAR ] |
A problematização da identidade em El outro e Jabón
Marcos Roberto da Silva (UFSC)
"Eu não sou eu nem sou o outro
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro".
Mário de Sá-Carneiro
Para uma primeira imersão na problemática da identidade, abordo inicialmente alguns conceitos de sujeito propostos por Émile Benveniste. Segundo o lingüista, a subjetividade "é a capacidade do locutor para se propor como sujeito", ou seja, "ego que diz ego" e que se apresenta no discurso pelo "status lingüistico da pessoa" 1. Portanto, numa narrativa, como é o caso de El otro , contada em primeira pessoa, na qual o narrador acumula as funções de personagem e autor, o eu está tanto no momento de enunciação, assim como na voz dos personagens que assumem um discurso. Isto se confirma pois: "é instância de discurso na qual eu designa o locutor que este enuncia como 'sujeito'" 2.
Em El otro as vozes presentes são aparentemente três, a voz do Borges idoso como narrador e personagem, e a voz do Borges jovem apenas como personagem. É justamente a amálgama dessas vozes que instam uma reflexão sobre identidade. Considerando as palavras de Benveniste a respeito dos pronomes pessoais, o conto de Borges toma uma dimensão especular. O eu , indivíduo que enuncia, sempre dirige seu discurso a um outro que é por sua vez um tu . E somente estas duas pessoas têm caracter de pronome pessoal. Isto porque os outros pronomes, como no caso do plural, não são mais que ampliações 3. Há entre eu e tu uma relação de mútua dependência. Ambos estão em pólos oposto e representam forças que se atraem ainda sendo diferentes. Sobre isto Benveniste postula: "polaridade não significa igualdade, nem simetria: nem um dos dois termos [eu e tu] se concebe sem o outro: são complementares". É, portanto, este posicionamento repulsivo-atrativo que faz com que a consciência só seja possível "se experimentada por contraste" 4. Isto é um pouco a metáfora de Saussure sobre a linguagem, na qual a diferença das peças de xadrez é o que torna o jogo possível, assim sendo, aqui aplicado: eu só sou eu porque não sou o outro.
Dessa maneira, quando Borges idoso emite um enunciado ao Borges jovem, aquele assume um eu e consequentemente faz de seu destinatário um tu , e vice-versa. O problema está em que Borges fala consigo mesmo, logo um eu que fala a um eu e um eu que fala com um tu . Tal idéia sintetiza a afirmação de Benveniste: "eu propõe outra pessoa, aquela que, sendo embora exterior a 'mim', torna-se o meu eco" 5.
A relação Borges idoso/ Borges jovem apresenta um caracter duplamente vetorial, pois de ambos pólos tem-se um eu e um tu . Esta relação reflexiva de vetores funciona do mesmo modo como se houvesse um espelho de dupla face entre os pólos. Assim, o personagem idoso ao dirigir-se ao personagem jovem, e vice-versa, vê a si mesmo e aparentemente se reconhece. Digo aparentemente, baseado em Barthes 6 que põe em questão o valor identitário. Referindo-se há duas fotos suas, uma de 1942 e outra de 1970, ele diz: "Mas eu nunca me pareci com isto! -Como é que você sabe? Que é este 'você' com o qual você se pareceria ou não? Onde tomá-lo? [...] onde está seu corpo de verdade?" (p.42). Barthes não vê identificação entre suas imagens, a de antes e a de agora se antagonizam, por isto o questionamento. Nesse divagar ele se dirige a si mesmo, criando condições de se colocar simultaneamente como eu e como tu . Já o espaço da não-pessoa surge da seguinte afirmação: "Você é o único que só pode se ver em imagem, você nunca vê seus olhos, a não ser abobalhados pelo olhar que eles pousam sobre o espelho ou sobre a objetiva". Como eu não posso ver meus olhos, logo minha face, senão mediados pelo espelho, eu me torno um monstro com um possível corpo e sem a imagem precisa de uma cara. Eu me torno o monstro ansiado de Jabón . Portanto, eu sou essa criatura, que socialmente rejeitada é condenada à exclusão. Eu agora sou ele .
Mas o surgimento de um terceiro elemento, não acrescenta muito ao rol de sujeitos, já que Benveniste considera ele uma não-pessoa.
É preciso ter no espírito que a [terceira pessoa] e a forma do paradigma verbal (ou pronominal) que não remete a nenhuma pessoa, porque se refere a um objeto colocado fora da alocução. Entretanto existe e só se caracteriza por oposição a pessoa eu do locutor que, enunciando-a, situa-a como 'não- pessoa' [...]. A forma ele tira seu valor do fato de que faz necessariamente parte do discurso enunciado por eu. Daí se tira que o ele só adquire existência após passar pela voz do eu" 7.
Em El otro a terceira pessoa está como já foi dito na reflexibilidade dos pólos, mas também oculto no discurso do narrador e do personagem Borges idoso. Para melhor compreender, faço agora uma explanação das datas citadas no conto que permitem determinar as idades dos personagens. A narrativa já abre com uma referência à data do encontro, 1969. Em seguida o narrador revela que a instância narrativa é de 1972. Depois é a vez de Borges jovem dizer que no momento do encontro ele está em 1918. Tomo como ponto de partida, 1969. Neste momento Borges idoso teria, como informa o próprio personagem, setenta anos: "Mi sueño ha durado ya setenta años". Assim, se subtrai-se 1918 de 1969, tem-se um intervalo de 51 anos. Sabendo que a idade de Borges idoso é de setenta anos, inferi-se que a idade de Borges jovem é de 19 anos, tal qual informa o narrador: "Compredí que para um muchacho que no había veinte años, un hombre con más de setenta era casi un muerto". Duas informações daí são relevantes. A primeira sobre a idade do muchacho e a segunda sobre a do narrador. Aquela ratifica a informação anteriormente comentada, já a outra coloca em cheque a idade de Borges idoso no momento do encontro, pois o apresenta com mais de setenta, contrariando assim a idade de setenta já comprovada.
Vê-se aí um embate, uma discordância entre a voz do narrador e a voz do personagem. É importante notar que Borges idoso tem mais de setenta anos, precisamente 73, em 1972, ano do momento da escrita. É nessa incongruência que se observa o ele no discurso da narrativa que seria um outro Borges narrador oculto, ou seja, a confirmação da não-pessoa.
Em Jabón o problema da identidade está ligado à questão do gênero. O personagem Saad sente-se impossibilitado de distinguir o sexo da pessoa a qual oferece uma carona. Assim como ele, o narrador também padece da mesma ignorância, posto que narra sem onisciência, aludindo em vez de confirmar. A primeira evidência disto está no primeiro parágrafo, quando o narrador emprega um tal vez para indicar um estado do personagem. Depois descreve as características físicas que não deixam marcas de sua sexualidade. Não se sabe se é um homem, uma mulher, um efebo ou um hermafrodita. No decorrer da narrativa o indivíduo misterioso é chamado por alguns substantivos epicenos como: figura , persona , criatura . Essa indecibilidade chega a tal ponto que para designá-la o narrador cria um pronome neutro que inexiste na língua castelhana: Ello .
Tem-se nisso o conceito do ele de Benveniste duplamente sugerido, pois Ello além de indicar uma terceira pessoa, agrega, reforçado, o valor de não-pessoa devido ao fato de não ser possível definir-lhe o gênero. Incógnita que atormenta Saad, levando-o a uma obsessão. O que ele deseja, mais do que possuir fisicamente aquele corpo dúbio, é desvendar o mistério
Retomando, então a Barthes quando diz: "mesmo e sobretudo quanto a seu corpo, você está condenado ao imaginário", pode-se dizer que em "Jabón" essa inacessibilidade ao real é transferida ao corpo do outro, assim que, Ello reflete a permanente condição do eu : a de ignorância de sua própria identidade. Ademais, Ello possui em o eu e o tu que se atraem se negam, se complementam e dão lugar ao ele . As três "pessoas" ainda podem ser vistas na tríade, Saad e o corpo duplo do outro. Do mesmo modo que em El otro a tríade é formada pelo Borges jovem e idoso mais o Borges narrador oculto. A partir desta constatação é patente dizer que o problema de identidade, nos dois contos, está ligada, não a existência de um duplo no indivíduo, mas, sim na existência, ou talvez a forma mais adequada seja inexistência de um triplo. Isto porque a relação eu/tu sempre resulta em um ele que se torna a única referência à identidade do sujeito, ou seja, eu adquire status de não-pessoa.
Ao mesmo tempo que é angustiante a procura pela identidade, sem contudo poder encontrá-la, também é sedutora: "A los pocos días, el deseo de Saad fue creciendo y tuvo momentos de silencio y escondido dolor junto a querida., plácida presencia de Ello". Porém, mais sedutor ainda do que tentar elucidar o mistério é a permanência deste: "Hasta que, casi de un día al otro, Saad comenzó a aceptar, más que la posesión física de ello, la permanencia del secreto, de la duda". Saad nesta atitude representa o sujeito resignado a aceitar a inacessibilidade ao eu . Este segredo guardado à chave poderia ser desvendado pelo sabonete que percorre o corpo ambíguo. No entanto, ao unir-se à água, símbolo de pureza e limpeza, não cumpre sua função, pois a junção dos dois produz espuma, que omite o que deveria revelar. Também em El otro a água tão pouco é elucidativa. Vinculada pelo narrador a Heráclito, traz à tona a noção de fluxo universal, segundo o qual um homem não se banha duas vezes no mesmo rio, pois ao entrar pela segunda vez ambos haverão mudado. Assim sendo, "el hombre de ayer no es el hombre de hoy". É por isso que Borges Jovem e Borges idoso se estranham, que o Barthes de 55 anos não se considera o mesmo de 28. A água, portanto, em El otro é mudança e que, assim como no conto de Onetti oculta, já que impede o reconhecimento.
Vale lembrar de Heráclito sua teoria dos oposto: "existe uma harmonia oculta das forças opostas" e que "é sábio escutar não a mim, mas o meu discurso, e confessar que todas as coisas são Um". Isto é a repulsão-atrativa eu/tu que têm como resultado a não-pessoa. Deste modo é que todos representam Um, que é, por sua vez, inapreensível. Portanto, por este motivo, enquanto no universo tudo flui, no espaço textual tudo frui.
BENVENISTE, Émile. Problemas de Lingüística geral . Trad. Maria da Gloria Novak e Luiza Néri. São Paulo: Nacional, 1976, p. 286.
BARTHES, R. Roland Barthes por Roland Barthes . Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix, s/d, p.42.