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Aimé Césaire na trajetória do binarismo: Construções e desconstruções
Katia Rodrigues (UFF)

Aimé Césaire, poeta e político antilhano do século XX, foi um dos fundadores da Negritude, movimento que marcou os anos 30 pelo desejo de resgate identitário e de reafirmação do povo negro colonizado. Sua primeira e mais conhecida obra, Cahier d' un retour au pays natal (Revista Volontés, 1939) , é considerada um grande passo em direção à aceitação da diversidade, na tentativa de descentramento ideológico e sócio-cultural. Nela predomina o tema da revolta contra a visão eurocêntrica baseada na superioridade do homem branco e na escravidão como ação civilizadora do negro, tido como selvagem. A sua última produção, Moi, laminaire... (Paris: Seuil, 1982), menos conhecida, revela um Césaire mais amadurecido, menos explosivo e marcado por uma identidade plural.

Césaire foi criticado por seus contemporâneos, dentre os quais alguns compatriotas como Patrick Chamoiseau, Raphäel Confiant e Jean Bernabé. Em Eloge de la créolité (Paris: Gallimard, 1989), eles o acusaram de não ter usado a língua crioula, apesar de se dizer um defensor do homem negro e dos seus valores, questão que já tinha sido levantada por Edouard Glissant, na obra intitulada Le discours antillais (Paris: Seuil, 1981), considerando o movimento como uma nova tendência ao velho essencialismo universal. Edouard Said também endossou a crítica na sua obra Cultura e imperialismo (São Paulo: Cia das Letras, 1995), ao afirmar que a Negritude não conseguiu se libertar do sistema de análise eurocêntrico, idéia que comunga com a de Sartre, expressa em Orphée Noir , prefácio à L' Anthologie de la nouvelle Poésie Nègre et Malgache de la langue française , organizada por Senghor (Paris:Quadrige/PUF, 1948). Sartre conceituou a Negritude como sendo o momento fraco da dialética relação branco-negro porque se constituiu na antítese da inferioridade do negro, conforme cito:

« ... é nesta perspectiva que convém situar o esforço dos evangelistas negros. À astúcia do colonizador, eles respondem com uma astúcia inversa e semelhante.  » (pg. 20).

Assim, a concepção categorizada da arte poética de Aimé Césaire consubstanciou esta minha proposta de provocar uma nova leitura da sua obra que, longe de sugerir uma constância literária, aponte para uma possível trajetória de construções e desconstruções, a partir de um amadurecimento poético marcado pela hibridez e por um binarismo que se transforma, partindo da dialética fundamentada na antítese e na incomunicabilidade dos opostos, para uma relação de suplementaridade, sob a perspectiva derridiana de pensamento. Com Moi, Laminaire..., uma nova escritura entra em cena, rompe com os padrões estruturalistas e deixa entrever um entre-lugar, espaço do devir, da desconstrução e da "criativa idade". A concepção poética não se sustenta mais pela crueldade que conduz ao extermínio do adversário, mas pela convivência em tensão da heterogeneidade.

Em Etats d'âme de la psychanalyse (Paris: Galilée, 2000), o filósofo Jacques Derrida, refere-se ao prazer de tornar invariável algo que parece qualificar a coisa, tachando-a de uma significação que determina delimitando, ao legitimar verdades únicas acerca do bem e do mal. É o que Derrida chama de " crueldade de poder ", uma espécie de destruição porque resiste ao homem e à palavra livre, protegendo axiomas metafísicos, justificando posicionamentos políticos, religiosos, éticos e morais, de acordo com convenções tradicionalmente patriarcais, heterossexuais e binárias por oposição. A crueldade impede tudo o que não está previsto. Entretanto, na concepção do filósofo, não existe vida senão pela irrupção do desconhecido e pela sua hospedagem. A alteridade é fruto de um processo que ora se investiga pelo poeta do Cahier :

« minha boca será a boca das desgraças que não têm boca alguma, minha voz, a liberdade daquelas que se curvam no calabouço do desespero.... » (p.21).

 

Césaire se revela o porta-voz do sofrimento antilhano e prenuncia a luta pela restituição da dignidade negra. Ele se revolta contra a falsa moral branco-européia que coisifica o negro, reagindo contra a ordem, a razão e o progresso prometidos pelo ocidente. A oposição entre o branco e o negro é sustentada pela inversão de valores, na tentativa de destruição do mito de superioridade europeu.

«  É preciso começar./Começar o quê ?/A única coisa no mundo que vale a pena começar:/O Fim do mundo, diacho. " (p. 29).

"...porque nós vos odiamos, a vós e à vossa razão/nós nos reivindicamos a demência precoce o delírio flamejante o canibalismo tenaz..." (p.25).

No Cahier , Césaire refaz o caminho do descolonizador na medida em que, para resgatar a dignidade do colonizado, o investimento é centrado no ataque ao branco opressor, isto é, ao termo que se mantém positivado, ao termo originador.

«  Piedade para os nossos vencedores oniscientes e ingênuos ! » (p.43)

«  Ao deixar a Europa covarde que se recobra e arrogante se superestima/eu quero esse belo egoísmo... » (p.32).

«  por uma inesperada e salutar revolução interna, eu reverencio agora as minhas fealdades repugnantes... » (p.34).

« Bravo para aqueles que nunca inventaram coisa alguma...  aqueles que nada inventaram nem a pólvora nem a bússola...  « (p. 42). 

« aqueles que adormeceram nas genuflexões/ aqueles que domesticaram e cristianizaram...  » (p.40).

« ...ignorantes das superfícies mas capturados pelo movimento de cada coisa. » (p.42).

« ...é chegada a hora de cingir os rins como um homem valente - » (p.44).

Como numa realização onírica, a raça negra aparece, agora, credora e surpreendentemente superior, confirmando a supremacia do logos ocidental. Nesta perspectiva, de fato, a obra Cahier d' un retour au pays natal não pode ser caracterizada como uma transgressão, ainda que tecida em linguagem surrealista. Isto demonstra que a atitude de rebeldia frente ao modelo não garante a renúncia à cumplicidade com a metafísica. Entretanto, no final da obra, Césaire parece buscar outros caminhos e deixa entrever um movimento na direção de uma nova e estratégica neutralização de forças:

«  fazei-me rebelde a toda vaidade, preservai-me de todo ódio... »(p.44).

« vós sabeis que não é absolutamente por ódio das outras raças/que eu me exijo cultivador desta única raça./que o que eu quero/é pela fome universal / é pela sede universal » ( p.45).

« Existe ainda uma mar para atravessar / oh, ainda um mar para atravessar/ para que eu invente meus pulmões/ para que o príncipe se cale/ para que a rainha me coma/ ainda um velhote para assassinar... » (p.56).

 

É provavelmente em Moi, Laminaire..., a sua última produção publicada quase quarenta e cinco anos depois, que a linguagem surrealista está mais amadurecida e que o conflito identificatório, não resolvido no Cahier , encontra novas saídas.

 

"Eu habito uma ferida sagrada/ habito um longo silêncio/ habito o espaço inexplorado/ para dizer a verdade não sei mais meu endereço exato/ batial ou abissal..." (p.385,386).

 

A obra é uma coletânea de poemas sobre os mais diferentes temas. Não há, contudo, uma continuidade temática, nem tampouco uma gradação de sentimentos, como é percebido no Cahier . A escrita é marcada pela plurivocidade, onde o poeta se declara pertencendo a muitos lugares e sendo, portanto, híbrido. No título, bastante sugestivo, Césaire se identifica a uma alga, em geral encontrada nas costas rochosas e que pode chegar a 3 metros de comprimento. Serve de adubo, fornecendo sódio, potássio e iodo, o que aponta para a idéia do poeta germe de uma transformação. É bem possível que Césaire nos convide também a pensar num organismo escorregadio, que habita espaços fluidos e que se movimenta de forma dinâmica, mas irregular, com as suas várias camadas dispostas umas sobre as outras sem, no entanto, se confundirem. Sugere, assim, uma existência inscrita na e pela diferença, na convivência do "eu" com o "outro" que irremediavelmente habita em nós. Nesta existência, em total harmonia com o cosmos, não parece haver lugar para destruições porque já se tem a consciência de que marcas não se apagam por completo. Há sempre o traço. O poeta extremado, que busca de forma revoltada a expressão de uma existência traumática, que tenta preencher vazios e minimizar o sofrimento, dá lugar a um ser múltiplo que não parece mais cair na tentação de um binarismo lógico, onde uma força tem que necessariamente anular a outra para sobreviver, onde a "crueldade do poder" oprime a voz livre e desempedida.

João Camillo Penna, no seu texto, Acontece? (In Revista Alea, v5, n1. Jan-Jun/2003. UFRJ), ressalta que " arriscar-se à tentação de resolver o poema, é forçar a sua confidência " ( p.98 ). E mais: " o único acontecimento que nos interessa é o vazio que abre a possibilidade de todo acontecimento " ( p.100 ). Como diz Penna, " a cena é primitiva e o que vemos é o limite do corte que o poema recorta " (p.110/111) . A escritura se situa num lugar marginal, num entre-lugar. É escritura de fechamento ( eu habito ...) e, ao mesmo tempo, de abertura, de endereço impreciso, que escapa a lógica binária tradicional e, por isso, cheia de estranhezas, de riscos e de obscuridade. A palavra tachada de sua significação estável perde o espaço para múltiplas representações. E, sob uma nova ótica, a lógica das oposições passa a ser a lógica do suplemento, garantia, segundo Derrida, da unidade e da presença reapropriadas pelo simbólico. " O suplemento supre. Ele é a culminação da presença de todas as oposições " ( Gramatologia . São Paulo: Perspectiva, 1973, p.177/178). E, assim, o ser acontece, na coexistência do eu e do outro, da montanha e do pântano, entre o sol e a sombra,

"nu

o essencial é se sentir nu

pensar nu

a poeira do alísio

a virtude da espuma

e a força da terra

o relancear aqui se faz pelo influxo

mais ainda do que pelo afluxo

o relancear

se faz

alga laminar" (p.415).

 

O poema Algues (p.415) faz lembrar que a desconstrução se situa no espaço do dizer e do querer ou não querer dizer nada. Cada conceito pode ser transportado para uma cadeia de possibilidades e, assim, o que está no centro pode passar a ser margem e vice e versa, indicando a disseminação, a dispersão de sentido em relação ao sentido originário. Há um jogo de significação plural onde o poeta despojado, nu, busca ultrapassar os seus próprios limites, na tentativa de uma harmonização cósmica com forças e seres, num movimento híbrido, desordenado, verdadeiro e estranho espaço do dizer.

Derrida assinala que a desconstrução do pensamento ocidental requer a utilização de estratégias, a começar pela inversão de forças e valores opostos que se encontram dentro do eixo binário, a fim de que os mesmos, neutralizados, promovam um desordenamento que descentraliza o poder e é capaz de apelar as margens, " a boca das desgraças que não têm boca nenhuma ". Desconstruir implica, sobretudo, na errância, no não-dizer. O aparentemente sem sentido entra em cena como possibilidade, ameaça e risco inerente ao poema. A ruptura no discurso pertence irredutivelmente ao sistema e acontece no próprio campo de forças, agindo a partir e sobre ele, produzindo um deslocamento que se propaga provocando fissuras em todos os sentidos. A neutralização de forças não significa a destruição das oposições, nem tampouco a substituição do dualismo por um monismo, mas a desconstrução de hierarquias e valores. Em Césaire, o binarismo traça uma trajetória que culmina num duplo gesto capaz de ressignificar tempo e espaço, deixando fluir o processo de liberação da palavra para além do seu limite conceitual repressor e implementando, assim, uma travessia arriscada, ao se permitir receber o outro e coexistir com, pela e na diferença, já que todo conceito carrega a marca do que a ele se opõe.

 

" O não-tempo impõe ao tempo a tirania da sua espacialidade: em toda vida existe um norte e um sul, e o oriente e o ocidente. No mais extremo ou, pelo menos, na encruzilhada, está um fio de estações sobrevoadas, a desigual luta da vida e da morte, do fervor e da lucidez, mesmo que seja ela a do desespero e da recaída, a força também sempre de olhar para o amanhã. Assim caminha toda vida. Assim caminha este livro, entre sol e sombra, entre montanha e pântano, entre cachorro e lobo, claudicante e binário./O tempo também de acertar as contas com algumas fantasias e alguns fantasmas"(p.383).

 

Nesta passagem, Césaire já anuncia a sua condição de poeta "mangrove", mangue em português, que sugere um devir vegetal, fixando a sua existência num outro tempo entre sol e sombra, na encruzilhada da vida e da morte, do sonho e da lucidez, enfim, no entre-lugar. Esse tempo híbrido, fruto de momentos e de um "vouloir obscur", traduz o estranho e dinâmico desejo, portador do desespero, mas também da esperança no amanhã. Césaire aponta para a criação de um novo espaço, agora inteiro, onde a memória é reconquistada pelo poder da palavra. Uma palavra mestiça carregada por fantasmas e elementos fantasmagóricos em desconstrução. O poeta se declara binário, sim, mas de um binarismo claudicante e ambíguo.

Insisto na idéia de que não se pode caracterizar a obra de Césaire pelos anos 30 ou 80, pois seria o mesmo que nos arriscarmos a lê-lo em chave estruturalista ou pós-estruturalista, enfim, reduzindo-o de alguma maneira. O fato é que ele realiza a travessia do binarismo rumo a uma nova concepção poética que dialoga com o que chamamos hoje por desconstrução. Na desconfiguração de um campo de forças e no estabelecimento de um entre-lugar, " o não-tempo impõe ao tempo a tirania da sua espacialidade", numa "desigual luta de vida e de morte ". Aimé Césaire, o poeta que ocupa feridas sagradas, endereços incertos, esgarça suas fronteiras poéticas e se confessa binário, mas de um binarismo manco que enfraquece antíteses, que desorganiza oposições, criando espaços outros ou também do outro. Um binarismo que anuncia " a boa nova trazida numa multidão de astros amarelos e vermelhos em flores pela primeira vez, por uma revoada de poldras ébrias" que "dizem que os bichos-de-pau se converteram em folhagem e aceitam se constituírem em florestas autônomas" e que "uma fumaça branca sobe do concílio de pássaros para anunciar que nas zonas mais sombrias do céu, frestas se iluminaram" ( Moi, Laminaire... versos do poema Annonciades , p.388).