VERSÃO PARA IMPRESSÃO [ VOLTAR ]

Da margem ao centro da narrativa
Hugo Retamar (UFRGS)

Por ese entonces en la ciudad de Tora la distinguían en las vastedades del mundo de afuera como la ciudad de las tres pes, Putas, Plata y Petróleo. Petróleo, plata y putas. Cuatro pes, en realidad, si acordamos que también era Paraíso en medio de tierras asoladas por el hambre.¿Los amos y las señoras de este imperio? Los petroleros y las prostitutas. 1

 

Prostitutas, petroleiros, pobreza, mundo de sonhos de uma Colômbia assolada pela exploração do combustível negro. Esse é o paraíso dos três pês , esse é o mundo apresentado na obra La Novia Oscura da escritora colombiana Laura Restrepo. Um mundo marginal que está esquecido, que está escondido da história consagrada, da história dos livros, apresentada sempre através da posição sujeito daqueles que detêm o poder, apresentada através de uma visão de mundo que se pretende universal, mas que não o é. O livro em questão traz à discussão a versão da história daqueles que estão à margem, por meio da recuperação das vozes silenciadas destes, das vozes subjugadas pelo discurso consagrado. São co-autores, narradores, contadores da história, Em La Novia Oscura , os socialmente marginalizados, ou seja, os trabalhadores que sofreram a exploração petroleira e as prostitutas que recompõem através de depoimentos os outros lados da história não contada nos livros.

Em La Novia Oscura, a protagonista é uma índia, ou melhor, uma mestiça, filha de um índia e de um branco, que chega ainda criança à cidade de Tora, na Colômbia, já com o intuito de ser prostituta. A história da protagonista mestiça não é contada por ela (o que poderia dar à narrativa uma visão também limitada tal como a da história que silencia, já que atenderia a apenas uma forma de olhar), mas é contada pelo ponto de vista daqueles que conheceram a tal menina que posteriormente se tornará uma lenda no lugar. Sendo assim, a narrativa não se constrói sob um ponto de vista - o da autora ou o da protagonista - e sim dá voz aos diferentes pontos de vista das diversas pessoas que conheceram e viram a menina mestiça transformar-se em Sayonara , a noiva escura que enfeitiçava a todos e que chegou a ser a coluna vertebral do Paraíso dos três pês . Desta maneira, a construção da história é heterogênea e se dá pela fragmentação da narrativa que é, de certa forma, costurada pelos pensamentos e conjeturas da autora, que dialoga consigo e com o leitor sobre a veracidade dos relatos dos habitantes de Tora que conviveram com Sayonara . Assim, nenhuma voz se sobrepõe a outra e Sayonara ganha vida, assume a posição de centro da narrativa, através do confronto dos depoimentos. Os personagens que têm voz, em La Novia Oscura , não são os "bem sucedidos" da sociedade, e sim as pessoas que habitavam aquele mesmo mundo marginal de "La Catunga", isto é, as prostitutas, os petroleiros e as pessoas do povo que se tornam as testemunhas "idôneas" do relato.

Optando por esse recorte, ou seja, apresentando o mundo dos marginais e marginalizados, Restrepo subverte a ordem da história tradicional contrapondo visões desprestigiadas do âmbito social, e o faz intensamente, já que seus depoentes, os seus co-autores, além de serem marginalizados pelo mundo onde vivem e pelo trabalho que exercem, possuem, cada um, outros fatores ainda mais determinantes de exclusão social que se somam à pobreza, como a velhice, a doença, a origem duvidosa, a perversão. É assim que, dentre as prostitutas narradoras, temos a Todos los Santos , La Olguita, La Fideo e La Machuca. Todos los Santos é a madrinha de Sayonara que a acolheu no mundo da prostituição e, além de prostituta, é idosa; La Olguita , uma aleijada; La Fideo , uma sifilítica, violenta, bêbada e desorientada, e La Machuca é a devassa que não acredita em Deus.

Além desses depoimentos femininos, temos o depoimento masculino de Sacramento , o jovem "zorrero" que recebeu a ainda não Sayonara em Tora e levou-a ao encontro da vida que esta queria. Sacramento, além de franzino e doente de malária, é filho de prostituta. Sua mãe o abandonou e ele foi criado entre as mulheres de Tora. Teve educação cristã, sendo constantemente humilhado pelos padres do colégio que freqüentava, por sua origem obscura.

Ao dar crédito ao depoimento de pessoas que não teriam vez na escala social, Laura Restrepo tenta reconstruir a história, quebrar padrões, estabelecer novas formas de ver, trazer a lume aquilo que sempre foi silenciado, dando força à veracidade histórica através da fragmentação e de um diálogo de vozes que assumem seu poder de subversão contra o poder hegemônico, o qual sempre lhes submetia ao silêncio e lhes negava autonomia.

O mesmo pode ser observado na obra El Leopardo al Sol , da mesma autora, na qual duas famílias rivais - os Barraganes e os Monsalves , parentes entre si - traçam um caminho de crimes e vinganças mútuas. Tanto os Barraganes como os Monsalves têm poder aquisitivo, porém não estão incorporados à sociedade, porque são de origem indígena e porque ganham dinheiro de maneira ilícita, o contrabando. Nesta obra, a história também não é contada pelos Barragane s ou pelos Monsalves , mas pelas pessoas do povo que conviviam com ambas as famílias. Os diálogos do povo dão uma noção de fragmentação na construção da história, trazendo à tona as vozes submersas e contraditórias do discurso, dando ao leitor a opção de escolher entre acreditar ou não em cada um dos relatos e possibilitando a esse construir uma visão própria sobre a história dos Monsalves e dos Barraganes, e também da sociedade colombiana. Sendo vários e dispersos os depoentes (ou vozes), o que era verdade para uns, era exagero para outros, isto é, desta forma não se trata de apenas uma a visão apresentada, mas várias, cabendo ao leitor o critério de escolhê-las. Em La Novia Oscura , também com a construção da história baseando-se na fragmentação e pluralidade de vozes, temos presente o submundo da prostituição, já em El Leopardo al sol , encontramos o submundo do crime. Ambos marginais, ambos marginalizados e migrando das margens da história para o centro da narrativa.

Em La Novia Oscura , podemos observar que a hierarquização existente na sociedade também está presente no submundo das prostitutas. Em seu mundo cada prostituta vale pelo exotismo ou pela distância de sua terra natal, o que, na obra, está representado através de lâmpadas coloridas que ficavam do lado de fora dos bordéis. Cada cor se referia a um nível de importância, a um grau na escala social:

 

En la estricta clasificación por naciones, después de las francesas venían las italianas, malgeniadas pero profesionales del oficio, y según se descendía en la escala, las de países limítrofes como Brasil, Venezuela o Perú, luego colombianas de las distintas regiones en general y en último escalón las nativas pipatonas, que jugaban en desventaja por los prejuicios raciales y por ser las que más abundaban. 2

 

Assim a menina mestiça, a atípica protagonista de Restrepo, não teria chance de tornar-se a deusa do lugar devido a sua origem indígena, que a transformava na mais comum, na mais sem valor de todas. Porém, para não perder o prestígio e não se inferiorizar na hierarquia do seu mundo, a quase "pipatona" que tinha os belos olhos puxados de índia se faz passar por japonesa, através de um plano das prostitutas experientes. Ganha um bico de luz violeta, até então inédito no lugar, e recebe como novo nome, Sayonara 3, a única palavra que as mulheres do lugar sabiam em japonês. A nova menina, ou melhor, a futura e já mulher, veste-se com seu nome e passa a ser a noiva escura, escura como sua pele e como o ouro negro do petróleo, passa a não ser mais a "niña", mas sim a deusa lendária do paraíso marginal, rodeada de mistérios e despedidas, como a palavra japonesa Sayonara .

Porém, seria apenas a lâmpada de cor diferente 4 o que a transformaria em uma espécie de divindade do submundo, de índia vulgar em japonesa dos unânimes sonhos? Não, Sayonara transforma-se em lenda porque era sujeito de si mesma, porque tinha seus próprios padrões e sua força, porque não era a índia capturada pelo branco como foi sua mãe, mas a índia que, apesar de haver fugido da fome, e talvez, por isso mesmo, exige seu lugar. Sendo a sua mistura de sangues, ao contrário de inferiorizá-la, um fator determinante para sua ascensão:

 

Dicen que había en ella una peculiar fiereza que iba más allá de la hermosura y que atraía e intimidaba. Seguramente puede hablarse también de su notorio vigor híbrido, surgido de la mezcla de sangres, que iluminaba su juventud con bríos y brillos de potranca. 5

 

Através das duas obras em questão, Laura Restrepo traça um panorama da história da Colômbia. Em La Novia Oscura, conhecemos os outros lados da história da implantação das companhias de petróleo, conhecemos as más condições dos trabalhadores, petroleiros, a condição de miséria que vivia o país que tinha na cidade de Tora - a cidade das prostitutas, petroleiros e de alguma esperança de "plata" - o paraíso. Conhecemos a verdade dos colombianos que viviam presos dentro de seu próprio país, como podemos perceber no trecho, em que Todos los Santos, leva Sayonara e suas quatro irmãs a um passeio inusitado:

 

Amontonadas unas contra otras y envueltas en las organzas coloridas, como paquetes de bombones, las cinco niñas pudieron asomarse mejor que en palco de primera, bien pegadas las cinco caras a la trama de alambre de malla para no ver cuadriculado, tan abiertos los cinco pares de ojos chinitos que se redondeaban hasta perder su inclinación, y desde allí observaron lo que su fantasía ni siquiera había intentado adivinar: el mítico e impenetrable Barrio Staff, donde la Tropical Oil Company tenía instalado y aislado al personal norteamericano que desempeñaba cargos de dirección administración y supervisión, y que era una réplica reducida a escala del american way of life, como si un confortable vecindario de Fort Wayne, Indiana, o de Phoenix, Arizona, le hubieran sacado una tajada para trasplantarla a la mitad de la selva tropical con todo y sus jardines y piscinas, sus prados bien cuidados, sus buzones de correo como casitas de pájaros, la cancha de golf, la de tenis y tres docenas de viviendas blancas, espaciadas, idénticas entre sí, íntegramente importadas desde los muebles de alcoba hasta la primera teja y el último tornillo 6.

 

Espantada com essa outra realidade de gente tão diferente, tão estranha àquilo que conheciam, essa outra Colômbia que viam pelas grades, uma das meninas mestiças pergunta a Todos los Santos :

 

-Qué señor más raro...-dijo Ana-. ¿Y por qué tienen a una pobre gente encerrada detrás de esta malla?

-Los encerrados somos nosotros, los de afuera, porque ellos pueden salir y en cambio a nosotros no nos dejan entrar. 7

 

Podemos recompor, então, a situação desse povo, meio índio, pobre, marginal, preso dentro de seu próprio país, usurpado por estranhos exploradores que os olhavam com desprezo e desconfiança como se novamente a América estivesse sendo descoberta, ou talvez, possuída por aqueles que dela nada conheciam, por aqueles que lhe eram alheios, em fim, por aqueles que escrevem a história, sobre outras histórias por eles mesmos apagadas.

Da mesma forma, em El Leopardo al Sol , conhecemos através da narrativa heterogênea, a situação do crime organizado, conhecemos as manobras políticas dos poderosos em uma Colômbia em que não existem outras formas de ir além, de prosperar, que não passem pelos caminhos do crime:

 

Nando Barragán y Adriano Monsalve son de la misma edad. Cuando llegaron a grandes, a los catorce años, salieron juntos a recorrer camino y a buscar oficio. Adriano se dedicó a comprar en la costa unas piedras ornamentales color mercurio llamadas tumas y a revenderlas entre los indios de la Sierra, que las ensartaban en collares. Se hizo comerciante. Nando aprendió a pasar por la frontera cigarrillos extranjeros. Se hizo contrabandista.

A los pocos meses ambos tenían claro cuál de los negocios era mejor. Adriano dejó las tumas por los Marlboro y con el tiempo varios hermanos se les unieron. Siguiendo la trocha torcida la nueva generación de Barraganes y Monsalves se instaló en un mundo donde los hombres se organizan en cuadrillas, manejan Jeeps, recorren cientos de Kilómetros en la noche, aprenden a disparar, a sobornar autoridades, a emborracharse con Whisky escocés. A cargar un rollo de billetes entre el bolsillo. A desafiar enemigos, a hablar a gritos, a reírse a carcajadas, a amar a las prostitutas y a pegarle a las esposas. 8

 

Construindo, então, a narrativa através da inclusão das vozes múltiplas e heterogêneas daqueles que sempre calaram, que não foram ouvidos, os dois livros comparados formulam una nova proposta de re-estruturação da história pela Literatura. A autora, através da escolha do tema dos submundos discute o papel destes na sociedade e é por meio da polifonia, da fragmentação e da alteridade que tenta mostrar os lados da história daqueles que nunca tiveram o direito de falar, dando-lhes status de sujeito e fazendo com que migrem das margens, do esquecimento, para o centro da narrativa. Ao dar crédito a prostitutas, aos criminosos, aos índios, aos seus submundos e às suas verdades, Laura Restrepo resgata e transforma a história antes silenciada subvertendo aquela outra história, a conhecida, a consagrada, que era contada baseando-se apenas na visão de mundo daqueles que detêm o poder, visão de mundo proveniente de um só gênero, uma só raça e uma só classe social. Obras como as de Laura Restrepo servem, então, não apenas para diminuir as assimetrias do poder das sociedades patriarcais, já que dão a palavra, mas também servem para que possamos finalmente ver os outros lados da nossa própria história.

 

 

BIBLIOGRAFIA:

 

BAKHTIN, Mikhail. Problemas na Poética de Dostoiévski . Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.

BRANCO, Lúcia Castello. O que é Escrita Feminina . São Paulo: Editora Brasiliense, 1991, (Coleção Primeiros Passos)

GU ERRA, Lucía. La Mujer Fragmentada (Historias de un Signo). Colombia: Casa de las Américas, 1994.

NAVAR RO, Marcia Hoppe (Org.) Rompendo o Silêncio (Gênero e Literatura na América Latina). 1. ed. Porto Alegre: Editora da Universidade Universidade Federal do Rio Grande do Sul), 1995.

TODOROV, Tzvetan. A conquista da América (A questão do outro). São Paulo: Martins Fontes, 1993.

RESTREPO, Laura . El Leopardo al Sol . 2. ed. Bogotá: Grupo Editorial Norma, 1997.

____. La Novia Oscura . Bogotá.: Grupo Editorial Norma, 1997.

 

Notas:

Laura Restrepo, La Novia Oscura . Grupo Editorial Norma, Bogotá, p.10, 1999.

Laura Restrepo, La Novia Oscura . Grupo Editorial Norma, p. 13, 1999.

Antes de tornar-se prostituta era chamada por todos de "la niña"

Estratagema das prostitutas para driblar o fator de marginalização, representado pela sua origem mestiça.

Laura Restrepo , La Novia Oscura . Grupo Editorial Norma, p.157, 1999.

Laura Restrepo, La Novia Oscura . Grupo Editorial Norma, p.236, 1999.

Laura Restrepo, La Novia Oscura . Grupo Editorial Norma, p.238, 1999.

Laura Restrepo, El Leopardo al Sol . Grupo Editorial Norma, p.23, 1996.