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Obra Literária ou Objeto de Consumo?: um estudo discursivo-argumentativo do livro O monte cinco de Paulo Coelho
Diléa Pires (FALE/UFMG)
Justificando nossa escolha
O que visamos nesta comunicação é efetivar um comentário da obra O monte Cinco do autor Paulo Coelho ,ou seja,adotar um procedimento de estudo ao mesmo tempo temático e sintético, porém acompanhado de uma interpretação mais ou menos livre e pessoal.
Melhor dizendo, pretendemos, aqui, fazer um percurso pelo caminho proposto pelo enunciador da referida obra, contudo não nos dispomos a aceitar a proposta de trajeto delineada nesse caminho, dado que proposta de trajeto não é projeto, pois cada trajeto vai depender dos objetivos e das experiências de quem o percorre.
O caminho está lá,no texto, mas verdadeiramente só existe quando o percorremos - e só o percorremos quando o vemos e o percebemos dentro de nós. Assim, o caminho dos discursos inseridos nas páginas de um livro, será sempre o rasto que nele projetamos.
Antes porém, queremos dizer ao leitor que a descoberta de que os escritos de Paulo Coelho poderiam se tornar extraordinários objetos de pesquisa, representou para nós uma experiência muito forte, que foi nos pressionando e, aos poucos, nos sufocando.
O que mais fortemente começou a nos impressionar, na Biblioteca onde trabalhávamos, foi a enorme lista de reserva das obras do referido autor, como também a insistência de alunos, funcionários, pais e professores, para que seguíssemos à risca a lista de espera - todos queriam levar tais livros para empréstimo domiciliar: parecia um fascínio.
De resto,percebemos, de uma forma absolutamente espantosa, que se nos impunha a necessidade de ler, também, aqueles livros, a fim de entender, interrogar e compreender o mundo que espreitávamos fora de nós. Caso contrário, permaneceríamos cegos para aquele mundo reservado,objeto de desejo de inúmeros e variados sujeitos, feito ou fazível à medida de cada leitura e insusceptível de ser percebido e entendido pelos outros,ou seja, por aqueles que não lessem Paulo Coelho.
Os caminhos existem para serem percorridos. E para ser reconhecidos interiormente por quem os percorre. O olhar para fora vê apenas o caminho, identifica-o como um objeto alheio e porventura estranho. Só o olhar para dentro reconhece o percurso, apropriando-se dos seus sentidos.
Por conseguinte, fizemos o percurso e o ato de reconhecer nos surpreendeu, pois, rapidamente, divisamos a clareira - tudo estava dito - e a profética fila de espera dos livros de Paulo Coelho podia ser, agora, entendida.
Após esse propositado desvio textual, passemos ao comentário do livro a que nos propomos nesta comunicação.
Comentários iniciais:
A linguagem da obra é do tipo denotativa, ou seja, mais linear, mais "limpa", clara, dotada de um vocabulário mais acessível
O enunciador utiliza, com muita freqüência, ditos populares, provérbios e citações bíblicas, cristalizados no passado e (re)escritos no presente, seguramente, com propósitos argumentativos de adesão para com a ética e o moral, que molduram as lições de vida e para a vida, convenientes para o sujeito da contemporaneidade.
Utiliza, também, citações das tradições fenícias e do surgimento do Biblos (alfabeto) - montagem da primeira biblioteca do História. Reitera, assim, o perigo que a expansão da escrita (Biblos) representava para a Igreja, na pessoa de um sacerdote, que optou pela guerra, como um meio de conter o alargamento dos conhecimentos, restringindo, dessa forma, os rituais sagrados a uma "camada" de privilegiados.
Outros tópicos argumentativos:
- Os deuses, mentores dos feitos fenícios, que habitavam o Monte Cinco;
- O perigo que significaria para a religião fenícia, a crença em um Deus Único, que mantinha a seu serviço uma legião de Anjos de Luz, e que era cultuado pelo profeta Elias;
- A monopolização do livre arbítrio por intermédio da fé.
Na tessitura desse modelo argumentativo, o enunciador utiliza, outrossim,conhecimentos históricos e geográficos. Dentre eles podemos citar a alusão à cultura e à mitologia egípcia, assim como a referência de que Biblos - conjunto de letras que propiciava a escrita dos fenícios - fora acrescido de vogais e denominado Alfabeto pelos Gregos.
Podemos citar, também,as referências à história da escrita, quando ele enuncia que as letras eram desenhadas, em princípio, na argila - tabletes de barro, passando, depois, a serem desenhadas no couro e, por fim, no papiro, feito de uma planta que nascia nas margens do Rio Nilo, por meio do simples processo de grudar suas fatias umas nas outras.
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Perigo : o papiro possibilitava a simplificação do transporte dos textos escritos e, dessa forma, significava um facilitador do transporte das idéias, encerradas nas escrituras.
As artimanhas argumentativas em direção ao leitor-alvo,se encontras gerenciadas por meio dos trios, abaixo:
i. Luta Þ Guerra
Destruição Tragédia como desafio para a reconstrução.
ii.Luta interna Þ Guerra interna Þ
Reconstrução de Akbar, cidade natal da escrita, para feitos gloriosos no futuro.
Uma leitura resumida da obra:
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Gezabel (Princesa de Tiro) + Rei Salomão = Rainha que impôs a diversidade dos deuses e fez um altar em homenagem à deusa Astarte.
Ordenou a morte e perseguição de todos os profetas de Israel. Os habitantes de Akbar adoravam Baal e suas divindades.
Elias seguiu, por ordem do Senhor de Jerusalém (Israel), para Sarepta, que os habitantes chamavam Akbar (Fenícia).
Em Akbar fora recebido e alojado por uma mulher, que logo perdera o filho. Elias (o israelita, o estrangeiro) fora julgado e levado ao Monte Cinco (Deuses). Sobe ao Monte Cinco (do qual nem um outro voltara, castigado pela ira dos deuses) e é recebido por um anjo do Senhor, de quem recebe o poder de realizar o milagre ressuscitar o menino, restando-lhe, somente, mais o poder de um milagre, que ele julgou seria para salvar sua terra. A mãe, reconhecida, passa amá-lo e ele a ela, mas o amor carnal não se consuma.
Elias ganha o respeito e a admiração do povo e começa a ajudar o governador, em praça pública central, a resolver problemas de estado. Enquanto isso, na saída da cidade, os guerreiros assírios vão montando as suas tendas, no intuito de passarem por Akbar para guerrearem Tiro e Sidon. Elias insiste com o governador para que se proclame a paz. Entretanto, o sacerdote convence o comandante da tropa e o povo a efetuar a guerra, e levam-nos a matar por apedrejamento um guerreiro assírio, que fora negociar a paz, ainda que todas as insistências de Elias contra a guerra. "O sacerdote sabia que era isso que os deuses queriam, colocar um fim à ameaça da escrita de Biblos." Não importava se para isso tivesse que sacrificar o seu povo, dado que os deuses seriam gratos.
Tradicionalmente, os guerreiros não atacavam à noite: as batalhas eram diurnas.
Elias fugiu com a mulher que o hospedara e o menino. Contudo, um Anjo do Senhor fê-lo recuar e retornar a Akbar, dizendo que a sua missão não tinha chegado ao fim.
Os três retornaram e foram dormir. Quando a cidade repousava de um dia inteiro em que os guerreiros de Akbar haviam desfilado pela cidade e se posicionando para a guerra e nada acontecera: os assírios, que já se somavam 5 por 1 guerreiro de Akbar, não atacaram. O comandante, desapontado, bateu em retirada, deixando apenas os defensores das muralhas.
No silêncio da noite, os assírios invadiram a cidade adormecida, matando, queimando e destruindo tudo. O sacerdote foi mutilado e morreu aos poucos, com honras de missão cumprida. O governador fugira, pois Elias fora confundido com ele, o que deu-lhe um certo tempo. Elias fora poupado, porque um morador de Akbar, informante dos assírios, portanto traidor, a quem Elias havia ajudado em uma "certa peleja" pública, intercedeu por sua vida, dizendo que de nada valeria a morte daquele estrangeiro.
Elias volta à casa que o hospedara tentando, em meio à fumaça, à destruição e à revolta com o Senhor, salvar a mulher e o menino.
A mulher morre, antes, porém, exige uma promessa de que Elias e o filho cuidassem um do outro. Elias se revoltou e desafiou o Senhor. Um Anjo veio e disse que ele seria atendido. Não veria mais anjos, não teria mais visão e estaria entregue a si mesmo até que assim o desejasse.
A mulher, em sua agonia, perguntou por sua cidade natal _ Akbar _ e Elias disse-lhe que a cidade estava linda como sempre fora. Antes do fim, ela lhe disse: "De agora em diante eu sou Akbar. Estarei presente na relva úmida, no céu estrelado, em seus rios e fontes, monte, campos ..."
Os jovens que se salvaram do ataque fugiram e Akbar era um resto de destruição, fumaça, cadáveres, velhos, mulheres e crianças silenciosos.
Elias pegou o menino e tentava partir, contra a vontade ele, quando foi pego por alguns "restos" do povo, que o espancaram, culpando o estrangeiro pela desolação. Porém, não o largaram-no sem forças até para lutar e fraquejar.
O israelita não se sentia com forças, já que desafiara o Deus único, de Quem era profeta, considerava-se morto com aquela a quem amava. Sobrava-lhe, agora, a reconstrução ou a derrota.
Um pastor, que não havia sido atingido pelos assírios, os acolheu por um dia, alimentando-os e conversando. Elias, renovado, decidiu fazer o que o menino lhe pedia, ou seja, reconstruir "sua mãe" _ Akbar _. Fora necessário a destruição da cidade e a perda da mulher amada, para Elias entender que como, a mulher _ Akbar _, ele também precisava de um nome, chamou sua nova vida de Libertação.
A primeira providência foi, reunir os cadáveres e queimá-los, para evitar a peste. No primeiro dia, é alimentado por uma mulher que se compadece do menino, pois perdera o filho.
Os velhos, que já não tinham força para esses feitos, varriam, como sonâmbulos, as cinzas e os destroços das ruas. O fogo consomia o passado.
A mulher, junto com as outras, procuram e encontram os alimentos estocados para a guerra e Elias sugere controle dos alimentos para os velhos. Passa, assim, a administrar a cidade, ocasião em que ensina Biblos para a tal mulher, pois julga que ela irá precisar da escrita para ajudá-lo na administração.
Algo impossível, reconstruir Akbar, seria possível pelo entusiasmo, responde Elias ao questionamento de um velho que se julga desiludido.
A importante missão deu brilho novo aos olhos escondidos pela desilusão e pela tristeza. Elias ajudou, com sua fala, os habitantes de Akbar a enxergarem as semelhanças entre todos os homens, para além dos credos: todos eram comerciantes por natureza e guerreiros pela reconstrução e pela vitória, frente às tragédias e derrotas.
Assim, como Elias se denominou Libertação, os outros habitantes de Akbar se auto-denominaram Reencontro, Sabedoria,... O menino se denominou Alfabeto em memória de sua mãe que desenhava as letras e, numa tenda montada com tecidos estendidos no meio da praça, Elias começou a ensinar-lhe Biblos.
Akbar subia das ruínas e tudo era registrado em tijolos de barro pelo menino, que eram cozidos em forno improvisado por um casal de velhos, transformando-se em cerâmica. A história contada pelos velhos, em reuniões nos finais de tarde, também eram registradas, enquanto memória de Akbar para as outras gerações.
No entanto, Elias não esquecia sua terra, desejoso de ser perdoado por Deus, o seu Senhor, para poder voltar. "Cruzava as fronteiras do inevitável, enfrentando com dignidade a travessia, transformando-a em ação".
Elias pede perdão a Deus e o anjo retorna em forma de perdão, orientando-o para o valor daquela segunda chance, tanto para ele, quanto para os Fenícios, que, por meio da destruição, despertam em si forças que dormiam.
Na reconstrução da cidade, melhoram a cidade de antes e se renovam enquanto seres humanos: velhos, mulheres e órfãos transformavam cinza e destroços em vida. Juntos, à pedido de Elias, em frente ao Monte Cinco, assistiam o pôr-do-sol e contavam histórias, que eram sempre registradas. A Biblioteca crescia e decidiram guardá-la em um lugar adequado. Outra decisão foi o ensino de Biblos (Alfabeto) para toda a população. O povo obedeceu a ordem do "caminhar", tudo passou a ser próspero e, cada dia, melhor. Ao pararem de pensar sobre a vida, viveram-na.
Akbar continuava linda como a mulher a quem amara, devolveram-lhe a vida. Poeira a aparecer na estrada, parecia que os assírios retornavam, mas os habitantes haviam se reunido com Elias na praça e todos compreenderam o valor de suas forças e vontades. Estavam prontos para entregar a cidade sem luta e encararem o novo destino.
Todavia a poeira trazia os poucos guerreiros que restaram de Akbar, que haviam avisado Tiro e Sidon para se preparava para a guerra. Assim, eles venceram.
A paz voltou a reinar, o governo de Akbar permaneceu nas mãos de Elias e o de Israel nas mãos da princesa de Tiro (Gezabel). Os mercadores retornavam, pois precisavam da água de Akbar, para continuar viagem.
Elias recebeu ordens do Senhor para voltar para Jerusalém e deixou em Akbar aquele menino, filho de "Akbar" mulher, que mais tarde governaria. Os assírios voltaram a invadir Israel, mas Akbar e Tiro só caíram em mão assíria em 701 a.C., quando a Assíria era governada pelo rei Senaquerib, quase 160 anos depois do fato relatados neste livro. Depois vieram os neobabilônios, os persas, os macedônios, os selêucidas e, finalmente, Roma. Hoje, Tiro, Sidon e Biblos ainda fazem parte do Líbano, que continua sendo campo de batalha. "Segundo as antigas tradições, o Senhor nunca escolhia por acaso os lugares que desejava ver habitado."
Fim do livro Þ Citações do Velho e do Novo Testamento: Mateus (17: 10 - 13).
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Afinal, que livro é esse?
Tecendo conclusões :
Em princípio,podemos considerar que o livro em estudo lança mão da "tradição" histórico-religiosa, como meio de justificar os atos hediondos do passado, contemporizando-os com os do presente, a fim de abrandar as avalanches de prejuízos éticos, morais e/ou religiosos, que atropelam o dia-a-dia dos sujeitos da contemporaneidade.
Desse modo,as obras de Paulo Coelho e, em especial, o livro O monte Cinco,efetuam um jogo discursivo, em que o enunciador nunca aparece,dado se esconde atrás de vozes outras,ou seja, reflete-se nos entornos e contornos da polifonia e da intertextualidade.
A utilização dessas variadas vozes, espelhadas em discursos já reconhecidos e cristalizados,tem, seguramente, o objetivo de impor a verdade selecionada pelo enunciador, que se camufla, propositalmente, nas artimanhas do discurso e do interdiscurso, de modo a buscar a adesão do co-enunciador para a verdade que lhe é imposta como absoluta.
Assim, a escritura que se quer configurar como pertencente ao Gênero Literário, pela grande maioria do público atestado, nada mais é do que um rico manual de auto-ajuda. Dissemos rico, porque o sujeito argumentador constrói um discurso que mais se assemelha a uma colcha de retalhos de usos discursivos variados .
Contudo, apesar da riqueza sutil de intertextos, a linguagem é simples, linear, dotada de um vocabulário retilíneo que, ao contrário da literatura, quer ser lido rapidamente, por assim dizer, quer ser consumido sem nenhum esforço intelectual do leitor. Melhor dizendo, o escrito quer para si a quantidade, em detrimento da qualidade do leitor.
Para finalizar esse breve percurso,assinalamos que o livro aqui pesquisado, está mais para produto de consumo do mercado globalizado, do que para produção artística e estética da linguagem, papel que é assumido pelo Gênero Literário.
Por conseguinte, a sua grande tiragem, nacional e internacional, justifica-se, dado que é produto de mercado, efetivado em meio às pesquisas de marketing. Busca, assim, a adesão de um consumidor comum e não de um leitor produtivo, pois é mercadoria que se utiliza das dores, mazelas, preconceitos etc, histórico-sociais , situados muito aquém do tempo situacional e muito além do espaço geográfico, para se fazer necessária e precisa na vida cotidiana dos sujeitos-alvos , concebidos nos caminhos do discurso.
Referências Bibliográficas
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B. Suporte Teórico:
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5. CERVONI, Jean. A enunciação . São Paulo: Ática, 1989.
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7. GENETTE, Gerárd. Palimpsestes. Paris : Seuil, 1982.
8. ISER, Wolfgang. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. v.1. (1976). Trad. Johannes Kretschmer. São Paulo: Ed. 34, 1996.
9. LANDOWSKI, Eric. A sociedade refletida: ensaios de sociossemiótica . Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: educ/Pontes, 1992.
10. LIMA, Luiz Costa (org.). A literatura e o leitor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
11. MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. Trad. Pedro Maria Soares. São Paulo: Cia. das Letras, 1997.
12. MARTINS, Maria Helena. O que é leitura . São Paulo: Brasiliense, 2003.
13. PAULINO, Graça. Literatura: participação e prazer . São Paulo: FTD, 1998.