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Blanchot e Nancy, duas vozes um mesmo prisma
Cristina Elizabeth Strauss Soares (UFF)

Neste início de século, Literatura e Filosofia vêm demonstrando ter algo em comum. Uma vez tendo a Filosofia ocupado o lugar do controle absoluto, hoje, encontrava-se em um momento histórico de assumir o "não saber". A Literatura, por sua vez, que vinha sendo sempre observada como o lugar do descontrole, abre-se agora para a Filosofia como um espaço para uma aventura do "pensável".

Um diálogo lado a lado entre a Filosofia e a Literatura é passível de se dar sem soberanias, preconceitos ou querelas antigas a partir de leituras de autores contemporâneos franceses como, por exemplo, Jacques Derrida. Categorias como: o pensamento, o silêncio, o sentido, o neutro, o outro, a angústia e a morte poderiam ser vistas através de uma outra perspectiva.

Vários pensadores atuais vêm tentando mostrar que a Literatura e a Filosofia podem ser vistas como irmãs, e estes pesquisadores demonstram estar interessados em fazer uma "escavação dos limites da filosofia" anelando comprovar que as duas disciplinas relacionam-se sim no terreno fértil da linguagem, onde a palavra demonstra, dentro de qualquer gênero literário, possibilidades de descoberta de muitos saberes. Medeiros de Carvalho (1997, p.78) nos elucida dizendo que:

 

A literatura, em sua autonomia para tudo dizer e perturbar as instâncias de controle da interpretação em geral, inspira o filósofo a fazer a experiência de interrogar os próprios limites da filosofia. 1

 

Para ilustrar o impasse por onde transita a filosofia contemporânea, Medeiros de Carvalho cita o pensamento do filósofo Jacques Derrida (1992 p. 389), mostrando que a filosofia deverá aprender a ultrapassar limites e a despossuir-se.

A filosofia é sempre convocada a transgredir a fronteira das regiões de pesquisas ou do saber e a se interrogar sobre seus próprios limites, mas também sobre sua própria destinação. A filosofia nada sabe, a filosofia deste ponto de vista é um não saber qual é sua destinação. É por isto que ela pode ir um pouco cegamente algumas vezes, mas também com a maior liberdade possível, ao encontro de outros tipos de saber e de discursos, de escritas. A filosofia o tempo todo está em vias de ultrapassar os seus limites. 2

Face ao campo das idéias que a Literatura proporciona, esta levaria à Filosofia, através desse tom diferente, que lhe é peculiar, a observar o nascimento de um novo laboratório, o qual possibilitaria uma abertura à compreensão de várias questões filosóficas, tais como a ética, a moral e outras. Percebe-se, então, que a Literatura, através de seus gêneros, poderia conduzir-nos a apreciações que são alvo das categorias filosóficas. Por exemplo, numa tragédia existe sempre um momento catártico, e será neste espaço que poderá apresentar-se a abertura de um caminho para uma compreensão filosófica [ou convicção]. Ricoeur (1991:193) em capítulo sobre As implicações éticas da narrativa cita o pensamento de Benjamin, onde este escreve sobre "O Narrador",

(...) W. Benjamin lembra que, em sua forma mais primitiva, ainda discernível na epopéia e já em vias de extinção no romance, a arte de narrar é a arte de trocar experiências; por experiências ele entende não a observação científica mas o exercício popular da sabedoria prática. Ora, essa sabedoria não deixa de comportar apreciações, avaliações que são alvo das categorias teleológicas e deontológicas.... 3

 

Para exemplificar a possibilidade de pensar esta medida entre a Literatura e a Filosofia pensamos em dois ensaístas modernos. O primeiro Jean-Luc Nancy, o outro, Maurice Blanchot. Este último vem sendo considerado pelos críticos mais radicais como, por exemplo, John Gregg, professor de Princeton, como o grande "porta-voz do legado pós-moderno".

Blanchot sabiamente vem nos mostrar, provavelmente devido à convivência com o amigo George Bataille, que o contato de pólos opostos é essencial para um acesso a qualquer conhecimento mais profundo. Tanto Jean-Luc Nancy como Maurice Blanchot estão inseridos dentro de uma recente abordagem teórico-narrativa que demonstra uma negação à velha filosofia, à questão do absoluto do ser. Assim sendo, mostram-se preocupados em dar à Filosofia um recomeço, pareciam querer para a Filosofia algo além daquilo que a história havia preconizado, isto é, aquilo que já era conhecido. Assim, tanto Blanchot como Nancy vêm fazer um convite à Filosofia a banhar-se nas águas da Literatura, isto é, eles vêm pedindo um rompimento com a ordem, ou melhor, com a metafísica platônica. Ambos fazem um apelo para que uma visita seja feita a este novo mundo no qual a Literatura divide tudo e não açambarca nada. Levinas (1975:47) cita o pensamento da escritora Françoise Collin, estudiosa da obra de Maurice Blanchot, como vemos abaixo,

 

(...) l'exercice littéraire parle Blanchot est un exercice d'écriture dont Françoise Collin montre clairement la rupture avec l'ordre, avec le rassemblement, avec la collection des termes, avec leur synchronie, avec le logos (...) Françoise Collin, en exposant les thèses de Blanchot, laisse dans son espace inenglobable la littérature, comme s'isolant de toute philosophie. "La signification que Blanchot prête à la littérature, met en question la superbe du discours philosophique - ce discours englobant - capable de tout dire jusqu'á son propre échec." 4

 

 

Também Nancy (1996:13), seguindo o viés de Blanchot, no "AVERTISSEMENT" do seu livro, não se acanhará em dizer que é necessário encolher a velha filosofia ocidental, e demonstrará querer construir novas bases para essa inovadora abordagem filosófica, como vemos abaixo,

(...) Ce texte ne dissimule pas l'ambition de refaire toute la "philosophie première" en lui donnant pour fondation le "singulièr pluriel" de l'être. Ce n'est pas une ambition de l'auteur, c'est la nécessité de la chose même, et de notre histoire. J'espère, au moins, faire sentir cette nécessité. 5

 

Através desse estudo foi sendo possível perceber que os dois pensadores são sensíveis à necessidade de um movimento e uma evolução em direção ao desconhecido, ou ao que estaria por vir. Tanto Maurice Blanchot como Jean-LucNancy, demonstram a necessidade de que seja repensada a existência humana, libertando-a de jugos que necessariamente levam à discriminação do outro, do diferente. Com isso, os dois escritores franceses mostram-se reafirmando a necessidade de um convívio com a diferença e a pluralidade. Para, então, quem sabe, possa-se sair do círculo onde a plenitude sempre permaneceu cerrada, devido ao tal fascínio pela unidade. Nancy (2001:42) chama nossa atenção para um novo enfoque de como pensar a existência, não mais baseado em velhos pensamentos, fincados num saber estático, mas a partir de uma visão da necessidade de comunicação, onde deveria surgir de um "pensamento nu" ou "derrubado", um pensamento que traga uma identidade renovada,

 

(...) "La pensée dérobée est identique à la communication, et l'identité des deux est la nuit du non-savoir dans la nudité et dans le désir de la nudité de l'être". 6

 

O "sujeito do sentido", o pensamento "dérobé" 7 serão os pontos importantes nos textos de Nancy, e foi possível observar que o "sujeito do sentido" para o autor nunca será um só, mas aquele que se deixa vir em fragmentos, ou seja, aquele que se deixa formar em partes, formando blocos de sentido que sempre permaneceriam a ser preenchidos. O sentido para Nancy, portanto, nunca se fecharia, estaria sempre a caminho. O autor dirá que o sentido precisa fazer ressonância e será uma experiência que deverá acontecer dentro do espaço da abertura da possibilidade, numa relação de engrenagem, onde cada identidade se comunicaria em mútuo entendimento, caracterizando-se assim o "humano do sentido" para o escritor francês.

A grande maioria dos escritos de Jean-Luc Nancy penetra profundamente na situação de entender o pensamento e a questão de surpreendê-lo como sendo um "acontecimento" . A partir desta perspectiva de Nancy pode-se fazer um paralelo com Blanchot, se olharmos pelo prisma de que é neste momento do "acontecimento" que surgirá um corte, uma abertura, uma inscrição, que, para Blanchot, será o lugar do espaço para uma comunicação ou a possibilidade da manifestação da voz. Abaixo podemos conferir Nancy (2000:139),

 

"Le sens ne peut absolument jamais être le fait d'un seul sujet de sens, puisque ce sujet lui-même devrait à tout le moins entendre le sens qu'il produirait ou qu'il trouverait. Il lui faudrait s'entendre et pour s'entendre il lui foudrait s'être appelé et pour s'appeler il lui faudrait pouvoir résonner - et enfin pour résonner il lui faudrait, en tout premier lieu, offrir en lui-même l'espace, l'intervalle ou l'espacement, l'ouverture, qui est la condition de possibilité d'une résonance, puisque celle-ci demande un rapport de vibration à vibration, une mise en "sympathie"comme disent les physiciens qui parlent de "vibration par simpathie" ou une mise en "harmonie" comme disent les musiciens." 8

 

Passo a passo nota-se que Maurice Blanchot começa dar à Literatura uma amplitude, quando o autor coloca a filosofia ocidental de lado, por não ter surtido efeito na sua universalidade, deixando o que era diferente e singular de fora, possibilitando, então, neste momento, à literatura aparecer, uma vez que esta teria a flexibilidade para pensar categorias como o outro, o outrem, o fora que seriam o ponto de partida para que um avanço fosse dado no processo de conhecimento da humanidade.

Para Blanchot o essencial da Literatura é que ela poderá num instante, através de um "acontecimento", totalmente desinteressado de uma espera, tornar-se uma espécie de ensinamento sem necessidade alguma de qualquer interpelação filosófica, análise ou interpretação. E é assim que a questão filosófica termina por imiscuir-se dentro das próprias narrativas, que por si só, já tem suas respostas e seus caminhos, que são uma autêntica e forte meditação dentro da literatura . Escrever para Blanchot era um ato radical de criação, impregnado do "divino", porque o escritor explana em suas obras críticas, que o espaço que é penetrado no momento da escrita seria um espaço "separado e sagrado".

Da mesma forma, Jean-Luc Nancy (2000:138) escreve sobre a questão da literatura e a voz divina, ratificando assim o que Blanchot vinha desenvolvendo em sua literatura, isto é, afirmando que neste momento que a palavra do autor é invadida pela escritura, observa-se que, não é ele quem escreve, e sim o divino dentro dele, servindo-se ao chamado de uma nova inscrição no real, sempre a ser renovada. Os escritos de Nancy fundamentam-se na concepção de que o sujeito seria aquele passível de se conhecer quando atravessado por uma alteridade no momento da escrita, e o escritor como sendo aquele que é mandado dizer algo através das suas palavras, isto é, aquele que daria espaço à voz da escritura. Essa relação ocorreria ao acaso e este acaso não deixaria de produzir sentido e conhecimento. Nancy demonstra em seus textos que escrever é um compromisso com essa tal voz dentro de uma ressonância que a fazia humana.

L'écriture" est le nom de cette résonance de la voix: l'appel, la rencontre, et l'engagement que supposent l'appel et à la rencontre. En ce sens, toute écriture est l' "engagée" en un sens qui précède la notion d'un engagement politique ou moral, au service d'une cause. Écrire est engager la voix dans la résonance qui la fait humaine: mais "humaine" ne signifie dans ce cas rien d'autre que "ce qui se tient- ou ce qui arrive - dans la résonance" 9

 

Blanchot não estará mais preocupado com o que a tradição literária ou filosófica havia negado ou deixado como prática. Mas o autor demonstrará definitivamente, que sua atenção estaria voltada para o que o encontro da subjetividade com a alteridade poderia trazer de positivo, isto é, o que a inspiração para a poesia poderia vir revelar do "outro" em nós.

Existe uma força criativa, segundo Maurice Blanchot, atrás da obra de arte, ou seja, uma instância responsável pela elaboração da escritura, instância esta que aconselha o autor, que conversa com o autor, que o faz anotar coisas que o levam a um maior entendimento de si mesmo. É no momento desta comunicação, quando afloram a angústia e a solidão, trazendo revelações sofridas, que o autor penetraria no indeterminado ambiente do espaço da literatura, onde existiria uma fala sem paradeiro algum e que estaria sempre querendo se colocar fora de si mesma.

Seria neste estágio do processo que o autor se encontraria numa relação com uma alteridade. John Greg (1994:433) em sua leitura de L'attente l'oubli , livro que faz parte da obra ficcional de Maurice Blanchot, observa com relação à narrativa do livro em questão que,

"(...) although the narrator is absolutely alone, his writing has the effect of filling his room with voices that belong to many differents beings and implicates him in a rapport with alterity that is played out in the text of the direct dialogues between his alter ego, the male lead, also a writer, and a woman, the mysterious, unknowable, unseizeable figure of dehors." 10

 

Esta relação com o "outrem", observamos que para Blanchot, será considerada como a relação com uma força superior, com a transcendência, com o que está mais próximo de Deus e que ocorre, numa socialização impessoal, com aquilo que sempre é, e será.

(....) Quando estou só, eu não estou só mas, nesse presente, já volto a mim sob a forma de Alguém. Alguém está aí, onde eu estou só (...) Alguém é o que está ainda presente quando não há ninguém. Aí onde estou só, não estou aí, não existe ninguém, mas o impessoal está: o lado de fora, como aquilo que antecipa e precede, dissolve toda a possibilidade de relação pessoal. Alguém é o ele sem fisionomia, o coletivo impessoal de que se faz parte, mas quem faz parte dele? Nunca tal indivíduo, nunca tu e eu. 11

Blanchot quer reverter este procedimento de aceitação geral de uma poesia "floreada", e para isso "desconstrói" conceitos clássicos com a finalidade de reinscrever a poesia, e expõe o que deva ser linguagem poética, lugar de um intrincado e incessante movimento entre som, "poder de ouvir" e sentido "poder de dizer" que devem sempre estar presentes no momento da inspiração.

Assim, para Blanchot, em seus livros críticos, a poesia é o grande espaço para o conhecimento dar-se, porque ela está ligada ao "non-savoir", ao silêncio da descoberta e ao verdadeiro ato de criação, isto é, a poesia está para o escritor ligada à uma pureza que é própria do conhecimento e à uma ligação com o divino, como podemos observar abaixo,

"O POEMA - a Literatura - parece vinculado a uma fala que não pode interromper-se porque ela não fala, ela é. O poema não é essa fala, é começo, e ela própria jamais começa mas diz sempre de novo e sempre recomeça. Entretanto, o poeta é aquele que ouviu essa fala, que se fez dela o intérprete, o mediador, que lhe impôs o silêncio pronunciando-a (...) Jamais o poeta, aquele que escreve, o "criador", poderia exprimir a obra a partir da ociosidade essencial; jamais por si só, do que está na origem, ele pode fazer brotar a pura palavra do começo. É por isso que a obra somente é obra quando ela se converte na intimidade aberta de alguém que a escreveu e de alguém que a leu, o espaço violentamente desvendado pela contestação mútua do poder de dizer e do poder de ouvir. E aquele que escreve é igualmente aquele que "ouviu" o interminável e o incessante (...)" 12

 

Concluímos que, tanto para Blanchot quanto para Nancy, o papel que o espírito ou o divino desempenham no pensamento de qualquer escritor, que se atenha a um trabalho poético, marca a pureza da "experiência interior", e é o essencial neste processo. É mais do que isso, é também ponto fulcral da obra desses dois autores.

Notas:

Medeiros de Carvalho, L. F. A experiência ficcional do filósofo. Notas para um estudo das relações entre filosofia e literatura , In: Cadernos de Pedagogia , Niterói, 6, p. 78, 1997.

Derrida, J. Points de suspension. In : Medeiros de Carvalho, L. F. A Experiência ficcional do filósofo. Notas para um estudo das relações entre filosofia e literatura. In: Cadernos de Pedagogia, Niterói, 6, p. 79, 1997.

Benjamin, W. "Le Narrateur " In: Poésie et révolution . In : Ricoeur, P. O Si-Mesmo como um outro, São Paulo, Papirus, p. 193, 1991

Levinas, E. Sur Maurice Blanchot, Paris, Fata Morgana, 1975 p.47

Nancy, J. L. Être Singulier Pluriel , Paris, Galilée, 1996 p. 13

Nancy, J. L. La pensée dérobée. Paris, Galilée, 2001 p.164

Na língua francesa é aceitável este termo tanto com a acepção de "nú", como de "derrubado" ou "desnudado".

Nancy, J.L. Répondre du sens . In: Revista Po&sie no. 92. Paris, Ed Belin, 2000 p. 139.

Ibdem p.138

Gregg, John , Maurice Blanchot and the literature of transgression, Princeton , Princeton Univ. Press,

1994.p.433

Blanchot. M. O espaço Literário , Rio de janeiro, Rocco, 1987 p.21/22

Ibdem p.29