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Diálogos e travessias - Jean-Jacques Rousseau e as mulheres
Cristina Martinho (USS - PELPLUSS)
"Como poderia eu esquecer essa preciosa metade da república que faz a felicidade da outra metade, e cuja doçura e sabedoria nela mantêm a paz e os bons costumes" (Jean-Jacques Rousseau)
As obras de Jean-Jacques Rousseau tratam, de uma maneira ou de outra, da natureza, papel e educação das mulheres e da relação mais ampla de uma política sexual, base das diferenças de gênero e das relações de poder entre os sexos. A visão da mulher apresentada pelo filósofo é multifacetada, contraditória e complexa, cheia de ambigüidades e descontinuidades. Sua interpretação também é diversificada. Com o desenvolvimento da crítica literária feminina nas últimas décadas, a política sexual de Rousseau volta a ser objeto de interesse renovado e de muita controvérsia. Alguns críticos acentuam seu caráter misógino e paternalista; outros comentam a plena aceitação de suas idéias por mulheres escritoras, que reagem de forma favorável a suas idéias políticas, sociais, embora em relação à temática feminina tenham se mostrado um pouco reticentes.
A burguesia em ascensão precisa de uma nova imagem da mulher. O tipo característico de mulher no Antigo regime, a camponesa, embora oprimida, detém algum poder social, ou político, pois, além de ocupar-se dos afazeres domésticos, controla uma serie de atividades econômicas indispensáveis à sobrevivência da família. Seu confinamento no lar não é completo. As mulheres da nobreza, por sua vez, além de freqüentar a corte européia com sua elegância e refinamento, são versadas nas belas artes e nas belas letras, e desempenham o papel de protetoras de artistas e intelectuais. No século dos amores galantes, retratados por Fragonard, os costumes e a liberdade sexual não convêm à nova família burguesa. Que tipo de mulher, então, poderia servir à burguesia enriquecida, aos proprietários, aos detentores do poder econômico?
O capitalismo precisa articular as relações de parentesco com as demais relações sociais de acordo com suas necessidades. Precisa separar a esfera da produção da esfera da reprodução; precisa manter separados o mercado e o mundo dos negócios da família. A função social da mulher reduz-se à maternidade e, para isso, torna-se indispensável sua reclusão e sua especialização nos trabalhos domésticos. Não é por acaso que a burguesia cria a imagem da mulher menina e exalta a mulher mãe.
E por que a inocência, a imagem da mulher-menina convém à nova mulher? Porque as crianças são, por definição, frágeis e dependentes, portanto, mais fáceis de subjugar. E também porque a inocência serve de máscara à ignorância a que serão, doravante, condenadas as mulheres. Por ironia, no inicio da era industrial, foram precisamente as crianças e as mulheres, das classes trabalhadoras, as grandes vítimas da exploração capitalista. Georges Duby e Michelle Perrot, em seu volumoso estudo sobre a História das Mulheres, afirmam
É conveniente lembrar que no século seguinte, os ingleses proibiram as mulheres de reunir-se e ordenaram aos maridos que retivessem suas esposas em casa, o que nos leva a pensar que as idéias de Rousseau também são o resultado de um processo: o confinamento estava em marcha. Assim, após terem sido tecelãs, artesãs, e mesmo senhoras feudais capazes de defender seus feudos (na ausência ou invalidez do marido), fabricantes de cerveja e comerciantes, além de herboristas e parteiras, as mulheres tiveram seu espaço reduzido e seus movimentos tolhidos. Proibiram-lhes o acesso ás universidades, condenaram ao esquecimento suas produções artísticas e cientificas, e perseguiram-nas como feiticeiras. (1994: 384)
As mulheres, as grandes leitoras da época do Iluminismo, reagem favoravelmente às idéias defendidas por Jean-Jacques Rousseau. Como explicar o fato surpreendente de que as opiniões de Rousseau sobre a natureza, papel e educação - idéias que parecem reacionárias, paternalísticas, e ruidosamente misóginas encontram aprovação entusiasmada entre algumas escritoras do final do século XVIII, e consistem num tremendo impacto nos ideais, comportamento e vida familiar das mulheres das gerações seguintes?
Esboço, neste trabalho, algumas considerações sobre estas questões, abordando inicialmente a obra de duas escritoras inglesas, Mary Wollstonecraft e Mary Shelley, mãe e filha, aquela a primeira articulista feminista da história inglesa, e esta, a autora da obra mais intrigante do século XIX.
A popularidade de Rousseau entre seus contemporâneos resulta em parte da moral profundamente enraizada e do conservadorismo social condicionado à mulher pela sociedade, a partir do tácito apoio do status quo . As mulheres se identificam principalmente com seus personagens romanescos porque eles expressam, em nível existencial, as profundas aspirações e desejos do mundo real da mulher - o amor ideal, a realização pela maternidade, e a felicidade doméstica. Numa época em que casamentos eram feitos por conveniência, Rousseau levanta uma bandeira de ordem moral, cujo centro aponta para a uma nova organização da família. A mulher deve devotar-se aos filhos e ao marido, cuidar da vida doméstica; estas são as novas atitudes para se tentar regenerar a moral no seio da sociedade. Este culto do feminino celebrado por Rousseau "parece" oferecer uma nova dignidade à mulher. (grifos meus)
Além de Rousseau, os ideais dos filósofos franceses Voltaire e Diderot propõem um discurso de igualdade entre os gêneros, articulado no século XVIII, marca da verdadeira aurora da família burguesa. Temos, com esta nova filosofia, a constituição de uma idéia de família realmente sólida, composta por uma família consagrada a uma pequena e monogâmica reprodução. Hoje compreendemos que estas idéias estão destinadas, a meu ver, a esmagar, ainda mais, a mulher transgressora de seu papel de esposa e filha. Esta é uma situação que traz outras conseqüências, pois, público é tudo aquilo que merece ser mostrado, que possuí um valor independente da época ou da situação. É por meio dele que os indivíduos se eternizam e transcendem; enquanto que o privado identifica-se com o que não deve ser iluminado, que precisa ser protegido, escondido, guardado. (Gusdorf, 1976)
Paul Hoffmann (2000), ao estudar o problemático do corpo e da alma no século do Iluminismo, discute esta nova postura do feminino ligada aos diferentes fatores de ordem econômica e social. A burguesia ascende social e politicamente, a ciência médica influencia novas práticas higienistas, a filosofia demonstra uma preocupação com a família e com uma nova concepção da felicidade. a sensibilidade passa a interferir sobre a inteligência discursiva e abstrata. Explicita:
Para os médicos, a condição da mulher é balizada por signos não equívocos e sua felicidade é bem mais certa que a do homem, contanto que ela saiba se esquivar do imaginário. Os modelos de mulher propostos para ela - modelos mecanicista, animista, vitalista, ideológico são estruturas inteligíveis, coerentes, significantes, onde as leis do corpo são definidas de modo normativo; onde a função de maternidade é citada como uma referência irrecusável. (76)
A cultura moderna apresenta uma etapa de profunda transformação com a descoberta do mundo sensível. A sensibilidade começa a estar presente, intensa em suas manifestações na arte, na filosofia, nos discursos médicos. No passado, a experiência epicurista e as idéias de Aristóteles degradaram o mundo sensível, considerado uma instância inferior. Por isso, é bastante profunda a revolução iniciada pela cultura iluminista. Ligado à retórica de reforma moral, e ao culto da domesticidade, está o culto da sensibilidade romântica, celebrada nos romances. Rousseau exalta a sensibilidade com as palavras de Julie, personagem de seu romance A Nova Heloísa:
La sensibilité porte toujours dans l'ame um certain contentement de soi-meme independant de la fortune et dês eévenements. Que j ai gemi. Que j ai verse de larmes! Hébien, s il fallait renaitre aux memes conditions, le mal que j'ai connu serait le seul que je voudrais retrancher: celui que j ai souffert me serait agréable encore. (1976, 456.)
Este culto à sensibilidade foi bastante imitado por escritores de ambos os sexos, gerando enorme entusiasmo, principalmente entre as mulheres. Rousseau busca vias para liberar a mulher de sua condição na sociedade patriarcal, não tanto pela mediação da razão, quanto pela sensibilidade. A mulher tem um papel essencial; a maternidade não é apenas uma função fisiológica, mas uma vocação metafísica. A maternidade cria um espaço utópico de inocência para a criança e um espaço de segurança e paz para a mulher, evitando que ela possa usufruir de qualquer tipo de liberdade vã, indesejada, inútil. É neste sentido que devemos interpretar o discurso normativo de Rousseau em sua Carta a d'Alambert , no romance A Nova Heloisa , no livro V de Emílio, em que a mulher aparece inteiramente absorvida pela marca ontológica de retomar a função primordial da natureza, no seio de um mundo desnaturado, o homem se lembra de uma felicidade perdida, e o amor pode recuperar a utopia perdida. O mito, na obra de Rousseau, toma seu sentido como oposição à história.
Entretanto, o filosofo é o principal teórico da desigualdade natural entre os sexos. É preciso respeitar a hierarquia imposta pela própria Natureza, diz ele, em vários momentos: a mulher foi feita para agradar e para dar filhos ao marido; para deixar-se subjugar e aceitar até mesmo a injustiça; para encontrar sua razão de ser na maternidade; para realizar-se no seio da família. Essas são as atribuições e devem ser as únicas aspirações de Sophia, a companheira de Emile. Este será educado para exercer seus talentos na esfera pública, no mundo exterior. O contrato social não é um contrato entre indivíduos, mas de fato, entre homens chefes de família.
No conjunto, o Século das Luzes é menos audacioso em relação à mudanças. A persistência dos preconceitos sobre o belo sexo é tanto mais paradoxal quanto o espírito das luzes combate abertamente qualquer opinião que não seja fundada na razão, qualquer sistema que não legitime as suas premissas. É ainda Duby e Perrot (1994) que enfatizam como é paradoxal sustentar a desigualdade intelectual das mulheres no momento em que algumas mulheres animam os salões onde se propaga o espírito filosófico. A marquesa de Chatelet traduz os Principia mathematica philosophiae naturalis de Newton. Madame Lepaute, membro da Academia das Ciências de Béziers publica Mémoires d'Astronomie e uma Table des Longueurs de Pendules . É bastante considerável o trabalho intelectual feminino.
Mas, as idéias verdadeiramente revolucionárias de Jean-Jacques Rousseau dizem respeito à valorização da vida interior do ser humano, de sua sensibilidade e experiência afetiva. Sua influência mais marcante se dá em obras autobiográficas. Algumas mulheres chegaram a transgredir convenções sociais e literárias, revelando em seus escritos, como o faz Jean-Jacques, pensamentos íntimos, emoções, chocando seus contemporâneos. Mary Wollestonecraft é um exemplo dessa escrita inovadora, refletindo a politização cada vez maior do discurso, numa época que permeou a revolução francesa, fazendo o rompimento gradual das fronteiras entre o público e o privado, o masculino e o feminino.
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Mary Wollstonecraft e Mary Shelley
Vivendo em Londres na época da queda da Bastilha, Mary Wollstonecraft trabalha como revisora para um jornal pro-jacobino. Liga-se á pensadores e filósofos do momento, discutindo assuntos como a monarquia e a democracia, a revolução americana, os acontecimentos revolucionários em Paris. Aplaude as demandas por liberdade e igualdade contra os credos de riqueza e privilégios aristocráticos, como também a possibilidade da liberação feminina. Advoga a defesa de Thomas Paine, um dos escritores panfletários mais discutidos na época dos momentos conturbados da Revolução Francesa. Paine publica The Rights of Man em 1790, conclamando os ingleses a se livrar das algemas da monarquia tal como os americanos e os franceses o estavam fazendo. Por sua vez, Wollstonecraft fundamenta suas opiniões em A Vindication of the Rights of Men , publicada em novembro de 1790. Insistindo que toda autoridade política deve basear-se na razão e na justiça, ela demanda
" que cada pessoa deve ter a capacidade para aproveitar os frutos de seu próprio trabalho, que a desigualdade de classe seja eliminada, e em lugar de um exagerado respeito pela autoridade dos nossos ancestrais canônicos, possamos substituir por uma compreensão independente e um julgamento sadio. (1978, 23)
Wollstonecraft tenta iniciar suas idéias revolucionarias, as quais denominou explicitamente uma Revolução das maneiras femininas, em contraste com a ideologia romântica masculina, que afirma os direitos e sentimentos do homem natural. Propõe uma ideologia igualmente revolucionária, mas bastante diferente, uma ideologia romântica feminina, baseada na crença da capacidade racional e da igualdade das mulheres. Ataca explicitamente a definição canônica de gênero que configura a mulher como um ser basicamente emocional, intuitivo, ilógico, capaz de sentimento moral, mas não de uma compreensão racional.
Ligando-se aos filósofos racionalistas do Iluminismo, ela baseia sua revolução social com um argumento rigorosamente lógico. Wollstonecraft parte da premissa de que se a mulher é moral e legalmente responsável por seus pecados ou crimes - como acontecia na França e na Inglaterra - então ela deve ter alma e capacidade mental de pensar correta ou eticamente. E se a mulher é capaz de pensar, ele deve ter uma faculdade racional. E se ela tem uma faculdade racional capaz de guiar e desenvolver sua personalidade e ação, então aquela faculdade racional deve ser desenvolvida até atingir sua capacidade maior.
Com este argumento racional, filosófico, rigorosamente lógico pela igualdade das mulheres, Wollstonecraft inicia um discurso inflamado sobre a educação feminina. Diz o texto:
Pois somente sendo educadas tão completamente quanto os homens serão elas capazes de realizar suas capacidades inatas para a razão e a virtude moral. Quando mais educada for a mulher, mas virtuosa, melhor mãe, esposa mais interessante e companheira ela será, além de cidadã responsável. (1976b, 35)
A autora devota grande parte do texto descrevendo o casamento ideal, baseado em respeito, auto-estima, afeição e compatibilidade. É um casamento do amor racional, e não de paixão erótica ou desejo sexual. Ao identificar a mulher racional com a repressão do desejo, Wollstronecraft inicia um legado de negação feminina. Ela não sustenta uma fidelidade à completa racionalidade, despida de paixão ou emoção, tanto na vida real ou quanto em seus textos. Mary Poovey (1984) demonstra que a retórica e as figuras de A vindication of the Rights of Women, (1976b) apresentam continuamente uma tensão entre o esforço da escritora negar a idéia de que as mulheres são essencialmente seres sexuais e suas convicções que a mulher deseja e necessita de uma relação permanente, em termos sexuais como também emocionais.
Além de um casamento mais igualitário para a mulher, Wollstonecraft fala sobre o voto, (que deve ser estendido aos trabalhadores e a todas as mulheres), o direito civil e legal (como possuir e distribuir a propriedade), o direito de trabalhar nas profissões de mais prestígio (como Economia, Direito, Medicina, Educação e Política). Acima de tudo, ela pleiteia que crianças entre 5 e 9 anos devem mantidas pelo Estado, em sistemas educacionais públicos, recebendo o ensino de leitura, escrita, matemática, história, botânica, mecânica, astronomia e ciência geral. Se estas demandas agora nos parecem práticas e justas e tão comuns, é porque a reforma educacional, por ela proposta, realmente aconteceu na Inglaterra.
Mary Wollstonecraft não somente articulou uma visão utópica da mulher racional do futuro, como também descreveu com detalhes os erros e os perigos de uma definição de gênero burguês da fêmea como alguém subordinado ao macho. Em relação a Rousseau, ela se entusiasmou com a doutrina política e educacional do filósofo, especialmente com o realce dado ao desenvolvimento da razão e das emoções e com seu compromisso com a escolha individual, com o pensamento criativo e o contrato social. Mas ficou particularmente desapontada com o sketch da mulher ideal construído em Emile: Rousseau descreve Sofia - a sabedoria feminina - como submissa, amante e sempre fiel .
Muito de A Vindication se devota a ilustrar o dano sofrido pela mulher com esta definição de gênero que reforça a natureza e o papel social da mulher como essencialmente sexual. As mulheres são submissas à pais e maridos, mas em troca, são cruéis e tiranas com filhos e empregados. Indolentes como esposas, mães inconsistentes, abertamente indulgentes ou hostis com os filhos, chegam a ser responsáveis pela grande incidência de doenças e mortalidade infantil. Wollstonecraft conclui a sua Vindication com uma lista de tolices comuns às mulheres: a crença em superstição e jogos da sorte, um gosto excessivo pelas histórias de amor, a preocupação excessiva com a aparência, a falta de domínio na casa, o tratamento dado aos empregados, a negligência ou o pouco caso em relação às crianças. Enquanto que a crítica feminina aponta estas situações como uma maneira da autora rejeitar a mulher de seu tempo, devemos ter em mente que Mary Wollstonecraft culpa os homens por este comportamento feminino tolo, já que não há uma educação justa e adequada para a mulher:
a escravidão histórica da mulher corrompe o homem, que investido do papel social de patrão, se comporta como um chefe arrogante e tirânico. Tratar a mulher como um dependente inferior enfraquece a habilidade do homem poder compreender as necessidades dos outros, agir com justiça, ou compaixão, e ser um bom líder. Se existe a relação de submissão quase que escrava entre marido e mulher, há tensões e perigos para ambos os sexos. Como podem as mulheres ser justas ou generosas quando elas são as escravas da injustiça? (1976b: 189)
A revolução por ela pregada iria dramaticamente mudar o homem e a mulher. A mulher racional, o amor racional, o casamento igualitário, a preservação das afeições domésticas, a responsabilidade pelo bem estar mental, moral e físico da família - estas são as bases do feminismo de Wollstonecraft, definido hoje como um feminismo liberal, comprometido com um modelo de igualdade, e não da diferença. Ao escolher a imagem da família igualitária como o protótipo da democracia genuína, a família na qual marido e mulher, não somente se consideram iguais em inteligência, sensibilidade, poder, mas também participam igualmente na educação dos filhos, Wollstonecraft introduziu um programa político verdadeiramente revolucionário.
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Vivendo numa época que já mostra sinais da decadência de uma ordem que não satisfaz às demandas do real, Mary Shelley parece impregnada das idéias da mãe e delas se serve para criar uma fantasia que fala sobre os efeitos periculosos e perniciosos da manutenção rígida das esferas masculina e feminina do domínio público. Em Frankenstein (1991) , trabalho x lazer, razão x imaginação são a tônica que impulsiona subversivamente o real ficcional. Inocência x marginalidade são eixos determinantes dos narradores que fazem a história de uma das obras mais discutidas do século XIX .
Frankenstein é a experiência dos extremos e representa uma consciência exacerbada por aspectos recalcados que organizam a representação mental do imaginário. Apresenta figurações escatológicas e apocalípticas que servem de referente para uma identidade pessoal vinculada ao nível político, filosófico, científico e histórico. É uma obra que otimiza a dialética reveladora dos valores travestidos e mascarados da sociedade patriarcal no agenciamento do comportamento dos seres humanos.
No mesmo século marcado pelo ressurgir de ideologias e utopias, em que o homem descobre-se com suas potencialidades, engajando-se em processos sociais, humanos e viabilizando diversos conhecimentos, Frankenstein ficcionaliza um imaginário que apresenta a inconsistência fundamental causada por tantas contradições advindas do individualismo e da subjetividade. O mito que Mary Shelley criou é único, em sua origem, no conteúdo e na forma. O jovem cientista Victor Frankenstein reúne partes de cadáveres; e o ser resultante desta experiência única é diferente de outras criações míticas que, fazendo parte do imaginário popular, como Drácula, Tarzan, Super-homem, derivam do folclore e práticas rituais comunitárias. Estas, ora dependem da participação feminina, ora de algum tipo de intervenção divina, de rituais mágicos ou dos nomes das diversas escrituras sagradas. A idéia de um monstro inteiramente humano é unicamente invenção da própria escritora e é singular na história literária.
Mary Shelley trabalha a dialética do imaginário propondo três narrativas que se interconectam, contadas por homens totalmente desligados do sentimento de vida familiar. Cada um deles apresenta a perspectiva de negação desta experiência. O capitão Walton está determinado a encontrar regiões no Pólo Norte para nelas viver; deseja partilhar sua descoberta com a humanidade. O estudante de medicina Victor Frankenstein quer gerar uma vida artificial para auxiliar a humanidade. A criatura, centro da narrativa, por sua vez está colocada como um marginal na sociedade. Abandonado por seu criador desde o momento em que "nasceu", apreende o mundo pelos livros e perseguido pelo ser humano, resolve aniquilar seu criador e os seres que vivem a seu lado. Sua história é uma dramatização do "nobre selvagem", de Rousseau, o ser incorruptível, se comparado ao homem civilizado. Mas a humanidade não é benevolente para com a criatura; ninguém vislumbra a nobreza de sentimentos por trás daquela aparência grotesca. As pessoas atacam-na, ferem-na, com pedras, paus e até tiros. O ser criado por Victor é o primeiro de todos os alienígenas que aparecerão posteriormente na ficção científica e que os terráqueos atacam, antes mesmo de estabelecer uma tentativa de comunicação. Também é o primeiro dos mutantes que acabam sobrepujando os povos da cultura dominante, mas são rejeitados porque são diferentes.
Da mesma forma que Rousseau, a criatura acredita no impacto da autobiografia, pensando que tudo depende da habilidade em comover o coração do ouvinte, inflamar a paixão, elicitar sua compaixão. A história de sua vida depende da piedade . Este entendimento está no centro de sua tragédia. Frankenstein pode ser lido como uma parábola sobre o fracasso da solidariedade humana. As três narrativas concêntricas impõem um desdobramento linear da linha do enredo. Inicia e termina com Walton, escrevendo para sua irmã inglesa, da periferia exterior do mundo civilizado, no limite entre o conhecido e o desconhecido. Deste ponto, caminhamos para dentro do círculo da civilização, as regiões rurais de Genebra, centro da ética protestante, com o discurso de Victor Frankenstein.. Neste lugar, homens e mulheres demonstram os bons sentimentos, a compostura e o decoro decorrentes das convenções tradicionais. E por fim, temos o relato pungente da criatura, espezinhada, maltratada
O argumento em questão, em Frankenstein não é se os personagens podem ser encontrados na natureza- o livro discute a transgressão das fronteiras da natureza; o problema dramatizado aqui é como, apesar da desfiguração, podemos reconhecer o homem neste quadro de humanidade, como podemos delinear, entre as figuras deste quadro, a figura humana com as características comuns aos homens; como podemos traçar limites precisos entre o homem e o monstro. Frankenstein está obcecado com os misteriosos segredos da natureza humana; deseja banir a doença da face da terra; investiga a estrutura da vida humana.
Entretanto, se reconhecermos, na obra, uma alegoria sobre o status da mulher como uma criatura de espécie diferente, também devemos reconhecer a maneira como Mary Shelley inscreve a si mesma no diálogo literário e filosófico com sua mãe sobre a possibilidade de do sentimento de solidariedade humana. Ao tentar continuar a investigação filosófica e literária, Mary Shelley encontra em Rousseau formulações sobre a percepção da semelhança, o reconhecimento da semelhança entre os homens, e o transporte da simpatia.
No E nsaio sobre a origem das línguas , Rousseau descreve o ato de ativar a piedade pelo transporte da imaginação e a identificação :
A piedade, ainda que natural ao coração do homem, permaneceria eternamente inativa sem a imaginação que a põe em ação. Como nos deixamos emocionar pela piedade? - Transportando-nos para fora de nós mesmos, identificando-nos com o sofredor. Este ato de identificação que acompanha a imaginação e a reflexão é a pré-condição para o sentimento em relação ao outro.Como poderia sofrer vendo outro sofrer, se nem soubesse que ele sofre? Se ignoro o que existe de comum entre ele e mim? [... ]. A reflexão nasce das idéias comparadas. (1976: 478)
Sem este ato de comparação o homem está só em meio ao gênero humano; não sente mais do que a si próprio. Não tem a habilidade de perceber semelhanças e de compreender que partilha o mundo com o seu semelhante. Aproxima-se do homem em seu estado primitivo
Mary Shelley inverte estas convenções: a educação da criatura tem um propósito. Ela é instintivamente benevolente no início, capaz de reconhecer o bem utilizando apenas seus sentidos e aprende a distinguir, sem grande esforço, a virtude do erro. Mas depois, estes princípios educacionais, embora o tornem mais humano, não a fazem virtuosa. Toda a educação e sensibilidade desaparecem com sua exclusão do mundo social.
O nobre selvagem, de Rousseau, uma figura popular, com sensibilidade espontânea, facilmente corrompido pelo homem civilizado, é o padrão que Mary Shelley modifica, mostrando que o homem virtuoso é sempre maltratado pela civilização, um padrão que reforça a crítica contra as instituições humanas. Sem negar a possibilidade de existir uma benevolência natural, ela considera que a atração espontânea que o ser humano busca, a bondade, é insuficiente se o homem não tiver o apoio da moralidade convencional.
Mary Wollstonecraft e Mary Shelley articulam suas obras a partir destas idéias do filosofo francês: a amizade, a solidariedade, a fraternidade e a união sexual construídas a partir das relações de semelhança entre os homens. Em Wollstonecraft, certos padrões convencionais são mantidos, apesar de pedirem por modificações. Em Mary Shelley, os padrões do real se invertem e protagonizam uma paródia de todas as idéias filosóficas da emoção e da percepção, elos necessários à vida em sociedade.
BIBLIOGRAFIA
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POOVEY, Mary. The Proper Lady and the Woman Writer . Chicago / London , University of Chicago Press, 1984.
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