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A VIAGEM: aproximação/distanciamento entre o turismo e a televisão
Cíntia Paula Andrade de Carvalho (UESC)
Sandra Maria Pereira do Sacramento
(UESC)
A temática da viagem constitui-se um dos assuntos mais discutidos na atualidade. Está presente nas investigações sobre turismo, migração e comunicação - para citar apenas alguns dos muitos núcleos de debate preocupados com a idéia de trânsito. Sua relevância parte do princípio de que as diversas sociedades e culturas estão submetidas a constantes deslocamentos - reais ou imaginários.
Qualquer um dos usos e acepções que o termo "viagem" encerre na contemporaneidade, este deve ser interpretado no contexto da globalização, processo que, nas últimas décadas, ganha dimensão e passa a atingir a sociedade, não apenas em suas relações econômicas, mas em todos os segmentos e valores: na política, na cultura, na ética e na tecnologia. Dentre as várias mudanças demandadas pela recente fase do processo de globalização, estão as novas relações sociais que se estabelecem a partir das movimentações fronteiriças.
Boaventura de Sousa Santos 1 ( Por uma concepção multicultural dos direitos humanos , 1997), centralizando a concepção de globalização a partir da análise das relações sociais que se estabelecem por conta das movimentações fronteiriças, define o fenômeno como sendo um processo que combina situações e condições assimétricas. Postula que as movimentações tanto podem se consumar por parte dos grupos que exercem influência sobre a globalização - como no caso das multinacionais - quanto por parte daqueles que não controlam os rumos do processo - por exemplo, refugiados e trabalhadores migrantes. Distinge ainda grupos que contribuem para o comércio global, ao distribuírem sua produção pelo mundo, embora permaneçam "localizados" como sempre estiverem. Sousa Santos cita ainda, como estando em uma outra perspectiva, algumas comunidades que se vêem forçadas a fazer o uso turístico de suas manifestações culturais e tesouros históricos - enquanto especificidade local - apenas para atender ao apelo do exótico presente no mercado global do turismo. É interessante notar, diante da caracterização proposta pelo autor, que todos os tipos de movimentação contribuem para a prática da viagem, na medida em que estimulam o trânsito de idéias, de produtos e/ou de pessoas.
A globalização das comunicações também contribui para o fomento da viagem, tanto em termos físicos quanto virtuais. No primeiro caso, porque a divulgação massificada de informações acerca de determinadas localidades e culturas é constante na atual conjuntura da sociedade do consumo. As imagens evocadas pela mídia estimulam nas pessoas o desejo e a necessidade de viajar para conhecerem esses espaços que, devido ao intenso fluxo de idéias e signos a respeito dos mesmos, já integram o seu imaginário. Paradoxalmente, no segundo caso, as imagens disseminadas pela mídia - ainda que prescindindo do deslocamento físico - também propõem viabilizar a experiência de descoberta do "outro". Como exemplo, cita-se a contemplação de narrativas sobre diferentes povos e culturas que se consubstancia tanto através da literatura, como do cinema e da televisão, ou ainda, dos jogos de simulação em realidade virtual.
Delimitando o foco de análise no espectro das narrativas televisivas, considera-se que boa parte dos assuntos diluídos nos diferentes formatos de programas é marcada por critérios mercadológicos característicos do meio, ou seja, a televisão tende a produzir relatos totalizantes e superficiais a respeito das temáticas que propõe retratar. Assim sendo, o objetivo desse estudo é discutir a relação de aproximação/distanciamento entre duas instâncias promotoras da "viagem": o turismo e a televisão.
A hipótese levantada é de que, guardadas as devidas diferenças entre ambas, a programação voltada para o grande público e o turismo de massa se assemelham, em virtude da maneira como freqüentemente recortam particularidades de determinadas culturas e as elegem como referenciais identitários das mesmas. Com esse procedimento, as demais características identitárias das culturas são negligenciadas para atender aos interesses das indústrias do turismo e da televisão.
A complexidade da relação entre as citadas instâncias reivindica, portanto, o esclarecimento tanto das especificidades de cada uma delas, quanto das interseções e complementaridades que estabelecem entre si. Nesse sentido, a reflexão tem início com a apresentação das implicações da reorganização do tempo e do espaço na configuração das sociedades contemporâneas - em especial para a prática da viagem -, com base em Anthony Giddens (1991) e John B. Thompson (1998), e segue com a exposição dos aspectos que aproximam ou distanciam o turismo da televisão, sustentando-se em considerações dos teóricos John Urry (2001) e Jesús Martín-Barbero (1999).
A viagem na contemporaneidade
Estudos atuais analisam o esvaziamento progressivo do tempo e do espaço "desencaixados" de seu contexto concreto. Anthony Giddens 2 ( As Conseqüências da Modernidade , 1991) define o "desencaixe" como o "deslocamento das relações sociais de contextos locais de interação e sua reestruturação através de extensões indefinidas de tempo e espaço". As incertezas e os riscos do deslocamento das relações sociais, a partir do advento da modernidade, são diminuídos cada vez mais por meio dos mecanismos de desencaixe, como as fichas simbólicas e os sistemas peritos. As fichas simbólicas são os meios de intercâmbio capazes de circular com legitimidade entre os indivíduos, sem que precisem manter características específicas destes. Os sistemas peritos são "sistemas de excelência técnica ou competência profissional que organizam grandes áreas dos ambientes material e social em que vivem hoje" (p. 35).
Nessa perspectiva, em relação à noção de espaço, entende-se que a viagem turística apóia-se em mecanismos de desencaixe. Há o uso de fichas simbólicas, como dinheiro e cartões de crédito, e de sistemas peritos, como transporte, estradas, hotéis, mapas, restaurantes e vários outros. Quanto ao tempo, por força de seu "esvaziamento", o desencaixe surge a partir de uma série de eventos contingentes e desconectados do presente, ou seja, os deslocamentos proporcionam viagens ao passado ou ao futuro. Os parques temáticos, os sítios arqueológicos, as encenações de eventos - como ocorre no Museu de Petrópolis - são exemplos claros da tentativa de o turismo proporcionar experiências deslocadas no tempo.
O uso dos meios técnicos de comunicação também alterou as dimensões de espaço e tempo da vida social. Como salienta John B. Thompsom 3 ( A mídia e a modernidade, 1998), em períodos históricos mais antigos, a experiência da simultaneidade - que pressupunha localidade - exigia a ocorrência de eventos "ao mesmo tempo" e "no mesmo espaço". Mas, com a disjunção dessas categorias, em virtude do advento da telecomunicação, a simultaneidade passou a prescindir de seu condicionamento espacial. Foi possível experimentar eventos simultâneos em lugares totalmente distintos.
Quando a comunicação estava subordinada ao transporte físico da mensagem, o sentido de distância estava relacionado ao tempo de viagem necessário entre a origem e o destino. Com a separação entre o espaço e o tempo trazida pela telecomunicação, o sentido de distância foi gradualmente sendo considerado à parte de uma restrita dependência do tempo de viagem. Desde então, conforme Thompson, o sentido de distância tornou-se dependente de duas variáveis - tempo da viagem e velocidade da comunicação - que não necessariamente coincidem.
Entre os meios eletromagnéticos com o poder de desvincular a comunicação do transporte físico das mensagens, está a televisão. A TV alterou a compreensão da sociedade contemporânea de ver o mundo. Esta afirmação encontra confirmação no pensamento de Jesús Martín-Barbero 4, em texto publicado em Mediatamente (1999), quando este destaca que a televisão se transformou no meio que desordena de forma mais radical a idéia e os limites do campo da cultura.
Martín-Barbero, ao tematizar os "novos regimes de visualidade" com os quais as massas latino-americanas estão se incorporando à modernidade, postula que as gerações mais jovens apresentam simpatia pela linguagem das novas tecnologias, caracterizada por uma "plasticidade neuronial", que lhes permite o desenvolvimento da capacidade de absorção de informação e de uma facilidade para manejar as redes informativas. Nesse ínterim está, portanto, a televisão.
No entanto, segundo o autor, as novas gerações se aproximam da linguagem televisual não apenas devido à facilidade de se relacionarem com as tecnologias audiovisuais e informáticas, mas também porque encontram seu ritmo e seu "idioma" nos relatos e imagens dessas tecnologias, em sua sonoridade, fragmentação e velocidade. Configurou-se uma espacialidade, cujas delimitações já não se baseiam na distinção entre interior, fronteira e exterior e, por isso, não emerge da viagem que tira alguém do seu mundo, mas exatamente de seu contrário: a experiência doméstica convertida pela televisão e pelo computador em território virtual.
A descentralização produzida pela televisão acerca dos regimes do saber e do sentir remete, dessa forma, ao fenômeno do desencaixe (GIDDENS, 1991) 5, uma vez que o telespectador, então um viajante virtual, espera conhecer o "outro", dispondo do conforto de ter, do cenário doméstico - protegido do frio, do calor, do trânsito, entre outras coisas -, o aparente controle de ver o que quer. Considerando a busca da comodidade, talvez seja este o primeiro aspecto que aproxima a prática de ver televisão da convencional viagem turística, tendo em vista que o turista de massa também procura conhecer o diferente, desde que disponha de uma experiência que não o afaste totalmente do que lhe é familiar. O hotel, o restaurante, entre outros suportes de infra-estrutura, lhe asseguram um serviço padronizado e próximo do que está acostumado a usufruir no dia-a-dia, em seu local de origem.
Outro aspecto que aproxima o turismo da prática de ver televisão é a experiência da viagem, através de recortes superficiais dos locais e das culturas alvo de apreciação. Na visão de John Urry ( O olhar do turista, 2001), as representações que o turismo faz de um local, de uma cultura, geralmente se aproximam dos princípios da metonímia, em que a parte passa a corresponder o todo. Do mesmo modo, a televisão - assim como outras extensões da mídia - antecipa e dirige o olhar para determinados pontos eleitos como principais referenciadores daquela localidade. A mídia global ajuda na construção da imagem do produto a ser consumido. Citam-se como exemplos os programas sobre turismo disponíveis na televisão - patrocinados por agências de viagem, companhias aéreas, empresas hoteleiras - que têm por objetivo despertar no telespectador o desejo de conhecer as destinações turísticas.
O olhar turístico é, portanto, (re)construído através de imagens que têm valor de mercadoria. Vende-se a natureza, vende-se a cultura, à escolha do consumidor. A respeito da prévia exposição aos signos do local através da mídia, Thompson 7 (1998, p. 38-39) declara:
... quando viajamos pelo mundo para lugares mais distantes como visitante ou turista, nossa experiência vivida é muitas vezes precedida por um conjunto de imagens e expectativas adquiridas através de nossa prolongada exposição aos produtos da mídia. Mesmo naqueles casos em que a nossa experiência de lugares distantes não coincide com nossas expectativas, o sentimento de novidade ou surpresa muitas vezes confirma o fato de que nossa experiência vivida foi precedida por uma série de idéias preconcebidas e derivadas, pelo menos em parte, das palavras e imagens transmitidas pela mídia.
A exemplo do imaginário construído em torno de Ilhéus, na Bahia, a maioria dos signos da cidade são imagens cristalizadas na narrativa ficcional de Jorge Amado. Muitas de suas histórias foram adaptadas para o cinema e a televisão, o que permitiu ao escritor notoriedade. A adaptação de Gabriela, Cravo e Canela, pela Rede Globo, em 1975-76, vale ressaltar, explorou a idéia de sensualidade da mulher brasileira através de cenas com Sonia Braga, insinuando-se em pequenos modelitos ou seminua na cama ou, ainda, equilibrando-se na escada para alcançar uma pipa no alto do telhado.
Gabriela passou, então, a representar não apenas a mulher nordestina, mas também a integrar o imaginário nacional e internacional como síntese da figura feminina brasileira. Tal imagem persiste na atualidade com tamanha força que, Guel Arraes, diretor da minissérie A Invenção do Brasil (Rede Globo, 2000), revela em entrevista a Gonçalo Silva Júnior 8 ( O país da TV, 2001):
O que fantasiamos, o que temos de índio? Liberdade sexual, praia. Fizemos três personagens índios - além de Moema e Paraguaçu, havia o pai das duas, Itaparica. Elas seriam uma espécie de "Gabrielas", de brasileiras. Claro que eram personagens de época, mas poderiam ser encontradas em Ipanema e são índias, mas o subtexto delas é de uma "Gabriela", uma menina da praia.
Hoje o turismo também promove a imagem de Ilhéus, mesclando elementos reais e fictícios. Graças à obra amadiana, a cidade tornou-se uma das destinações turísticas baianas mais visitadas. As personagens dos romances de Jorge ultrapassaram os limites da ficção e se transformaram em signos do imaginário local. Boa parte dos turistas que visitam Ilhéus busca conhecer os lugares por onde as personagens circularam, esperando encontrar nas ruas as "Gabrielas".
John Urry 9 (2001, p. 17) afirma que as práticas de consumo de imagens no turismo envolvem a idéia de uma "ruptura limitada da rotina", permitindo que os sentidos "se abram para um conjunto de estímulos que contrastam com o cotidiano e o mundano". Nesse sentido, a seleção de alguns pontos, em detrimento de outros, ocorre porque a viagem turística coloca-se como um momento de afastamento das práticas cotidianas que remetem, geralmente, ao trabalho.
Por sua vez, os próprios turistas também fazem um recorte da realidade. Capturam detalhes através de fotografias. Com o olhar "colonizado" pela prévia construção publicitária do lugar, os turistas, muitas vezes, registram apenas alguns signos do lugar. Não percebe a complexidade do "outro", simplificando-o. Embora se diga que o turismo é uma forma de descobrir o "outro", é necessário considerar que o olhar do viajante geralmente está comprometido com a sua visão de mundo.
A partir dessa premissa, surgem, então, as seguintes questões: É possível "viajar" - seja via televisão, seja via turismo - numa extensão que ultrapasse a absorção de recortes estereotipados dos locais turísticos e das diversas culturas? É possível promover a viagem sem apelar para simplificações como a que ocorre com a figura de Gabriela?
Alguns teóricos acreditam na possibilidade de desenvolvimento de uma prática turística pautada mais em uma participação ativa por parte do viajante-turista do que em uma fruição consumista. Brian Goodey 10, em artigo publicado no livro Interpretar o Patrimônio : um exercício do olhar (2002), defende que esse tipo de turismo reclama mudanças tanto por parte das instituições que organizam a viagem quanto por parte do turista. No tocante ao turista, a mudança de postura está relacionada a ações educativas voltadas para a conscientização desses viajantes. Sobre as possibilidades de concretização de experiências culturais mais intensas através do turismo, Goodey (p. 136) diz:
A única esperança do turismo cultural e ecológico é que ele ofereça exatamente o contrário, em todos os níveis: menos gente, visitando menos lugares, mais devagar; reunindo menor número de experiências, com maior qualidade, recebendo mensagens mais detalhadas sobre o significado de lugares e manifestações.
O turismo cultural, portanto, não concebe a viagem como uma simples experiência de busca do novo, do exótico, ou de aventura, mas como a conquista de uma compreensão mais inteligível do presente, do passado e do futuro das populações que o adotam e que o praticam. A despeito do tratamento televisivo, também se verificam possibilidades. A qualidade da programação disponível na TV pode mudar. No entanto, a alteridade, de certa forma, estará mais comprometida, uma vez que o conteúdo das novelas, filmes, matérias jornalísticas é sempre processado sob o ponto de vista de roteiristas, diretores, cinegrafistas e produtores.
A comparação entre a experiência turística e o modo de ver televisão mostra que em muito essas práticas se aproximam, uma vez que tanto o turismo de massa e a televisão costumam fazer um recorte superficial de alguns signos dos locais e das culturas alvo de apreciação. Nesse sentido, o conhecer o "outro", tido como uma das principais motivações à viagem, fica comprometido. Nem o turismo - com o deslocamento de pessoas para certos locais, onde esses viajantes conhecem superficialmente o lugar e não se afastam da infra-estrutura de conforto cotidiano - nem a televisão - na qual as informações estereotipadas sobre culturas complexas se condensam em um espaço de tempo de menos de uma hora de exposição -, são capazes de proporcionar uma experiência mais completa e verdadeira sobre o lugar.
É óbvio que não cabem generalizações a respeito de toda a programação televisiva. O que se constata é que, boa parte dela, por conveniência aos interesses mercadológicos do meio, primam por uma retratação fragmentada dos assuntos, ou seja, para alcançar o grande público, a televisão recorta e emoldura a realidade. Nesse sentido, o turismo é uma prática que detém um número maior de possibilidades de oferecer ao viajante uma experiência mais detalhada de descobrimento do "outro". O ver e o ouvir complementam-se com os demais sentidos: tocar, cheirar e provar. Embora todos essas possibilidades, quando utilizadas como parte de um pacote simplificado de aproximação e troca com o "outro", percam a intensidade. O turismo cultural talvez seja um contraponto às experiências vazias proporcionadas tanto pelo turismo de massa quanto pela televisão.
SOUSA SANTOS, Boaventura de. Por uma concepção multicultural de direitos humanos. In: Revista Crítica de Ciências Sociais , nº 48, junho, 1997, pp. 11-25.
GIDDENS, Anthony. As Conseqüências da Modernidade. Trad. Raul Fiker. São Paulo: Ed. Unesp, 1991. p. 11-60
THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade. uma teoria social da mídia. Trad. Wagner de Oliveira Brandão. 4. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998
MARTÍN-BARBERO, Jesús. Novos regimes de visualidade e descentralizações culturais. In: SECRETARIA DE EDUCAÇÀO À DISTÂNCIA. Mediatamente! Televisão, cultura e educação. Trad. Renato Resende. Brasília: Ministério da Educação - MEC, SEED, 1999.
URRY, John. O olhar do turista: lazer e viagens nas sociedades contemporâneas. Tradução: Carlos Eugênio Marcondes de Moura. 3. ed. São Paulo: Studio Nobel., SESC, 2001 (Coleção Megalópolis)
SILVA JÚNIOR, Gonçalo. O país da TV: A história da TV brasileira contada por Gonçalo Silva Júnior. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2001.
GOODEY, Brian. Turismo cultural: novos viajantes, novas descobertas. In: MURTA, S. M.; ALBANO, C. (org.) Interpretar o Patrimônio: um exercício do olhar . Belo Horizonte: UFMG; Território Brasilis, 2002, pp.47-57