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Fragmentos de uma realidade estilhaçada
Carlos Batista Bach (UFRGS)

O que se buscou nesse estudo dos contos do livro Passaporte foi uma nova forma de análise desses textos, uma vez que os mesmos não se encaixam em uma classificação tradicional, portanto, não podem ser analisados por esse viés teórico. Fernando Bonassi, em Passaporte , rompe com a estrutura, a forma, canônica do conto. Seus textos não contêm a estrutura de começo, meio e fim do tipo de conto que Herman Lima, em seu livro Variações sobre o conto 1, chamou de conto clássico. Dessa forma, também não se encaixam no conto de enredo, citado por Walnice Galvão, no seu artigo Cinco teses sobre o conto 2, já que esse pressupõe a mesma estrutura. Não é possível também encaixá-los no conto moderno, citado por Herman Lima, nem no conto de atmosfera, citado por Walnice Galvão, uma vez que esses pressupõem que se vivencie um drama psicológico na vida da personagem, mas o leitor de Passaporte vivenciará esse drama em sua própria vida, em seu cotidiano. No entanto, crê-se que outros valores/conceitos podem ser utilizados para análise dos textos desse autor, uma vez que a teoria utilizada para a análise, por exemplo, de contos de atmosfera e de enredo não abarca o tipo de texto como o de Fernando Bonassi. A fim de se fazer uma análise dos contos, utilizar-se-ão os conceitos citados por Leyla Perrone-Moisés, em seu livro Altas literaturas , que, supõe-se, poderão servir para análise de contos contemporâneos. Leyla Perrone-Moisés, em seu livro, faz uma descrição dos valores comuns aos escritores-críticos modernos. São eles: Maestria técnica, Concisão, Exatidão, Visualidade e Sonoridade, Intensidade, Completude e Fragmentação, Intransitividade, Utilidade, Impessoalidade, Universalidade, Novidade. Destes, interessam a este trabalho: a Concisão, a Visualidade e Sonoridade, a Intensidade, a Completude e Fragmentação e a Novidade.

Pode-se dizer que é pertinente a análise desses contos através desses conceitos, pois quando se fala em Concisão, Visualidade e Sonoridade, Intensidade, Completude e Fragmentação, Novidade, o que se está de uma certa forma analisando é o discurso, que é o que regula também a sociedade em que se vive. Segundo Foucault, toda a sociedade é regulada pelo discurso. O indivíduo é coagido, é doutrinado pelo discurso. Logo, ao se fazer a análise dos valores/conceitos a que se refere Leyla Perrone-Moisés, deixa-se de dar ênfase a funções como personagem, tempo e espaço, que poderiam não ser elucidativas, para se perceber a força desse texto, para, na verdade, observar como elas são construídas dentro do discurso e se não o são, por quê. Enfim, parte-se para uma análise baseada na caracterização do discurso através dos referidos valores/conceitos. E isso é importante para a análise de um tipo de texto como o de Fernando Bonassi, no qual existem lacunas a serem preenchidas pelo leitor, dentro do discurso.

 

UM PASSAPORTE PARA A CONTEMPORANEIDADE

 

A sociedade brasileira hoje é corrompida pela violência que não mais escolhe esta ou aquela classe para se espraiar. Há uma convulsão social, que desacredita valores e instituições. E a literatura acaba por refratar em si a imagem dessa realidade estilhaçada. Há uma busca pela identidade: quem somos? E é nessa busca de autoconhecimento e, através disso, conhecimento do mundo ao nosso redor que partimos para uma viagem, para a qual Fernando Bonassi fornece o Passaporte . Nesse livro, que tem o formato de um passaporte e que traz na capa o desenho de uma gilete, Fernando Bonassi consegue reunir mini-contos sob a forma de relatos de viagem. Dessa forma, a própria apresentação externa já difere do tradicional. A cor assemelha-se também à de um passaporte original, verde. O livro é composto por 137 mini-contos, que são classificados pelo editor como instantâneos sórdidos da pós-modernidade, cartões-postais da desilusão 3. Assim, tem-se em mãos um passaporte, uma licença de viagem. Então, a obra é uma licença para uma viagem ao interior dela mesma. E, neste interior, trava-se o contato com diversas realidades. Mas, se são realidades diversas, de lugares diferentes, algo, no entanto, é semelhante em todas: a fragmentação dessas realidades, a violência, a banalização da vida.

Violência e banalização da vida são elementos que se percebem no conto "001 radial leste " , no qual também se pode observar a presença do valor/conceito intitulado Concisão, o qual, segundo Leyla Perrone-Moisés, ocorre quando o escritor é capaz de dizer muito em poucas linhas, de forma condensada. E condensada quer dizer não apenas breve, mas saturada de sentido(s) 4 .

A Radial Leste tinha duas curvas e três cruzes no acesso à Penha. Nunca se soube a que mortes se referiam e só se podia imaginar a razão de cada uma delas: as curvas eram inclinadas pro lado errado. Nada deliberado. Não se cortavam os morros na época. As ruas eram simplesmente jogadas em cima da terra. Então as máquinas tiraram as curvas da Radial e as cruzes foram soterradas. Acharam que a avenida poderia ter um nome e deram o nome de alguém. O nome não pegou, os acidentes continuam acontecendo, mas agora nós já temos certeza de quem e por que se morre. (São Paulo - Brasil - 1996) (p. 7)

 

Observe-se que o conto é traçado em poucas linhas, concisamente. No entanto, apesar de ser curto, é pleno de significados, carregado de sentidos. Tem-se, presente nesse conto, a banalização da vida em detrimento do progresso: construiu-se uma auto-estrada mas não se pensou na manutenção para preservar a vida; muito pelo contrário a vida teve pouco valor, como as cruzes soterradas. Percebe-se, assim, a presença do valor de Concisão citado por Leyla Perrone-Moisés: um texto mínimo, mas saturado de sentidos. Cada palavra dentro deste texto é importante como a ironia presente na expressão Nada deliberado , ou no termo simplesmente, que se refere ao modo como no passado as ruas eram construídas, mas que está implícito no presente, porque simplesmente reconstruíram a avenida, sem pensar em como evitar os acidentes. É uma linguagem crua, são períodos curtos, mas densos. A mesma banalização da vida encontra-se em todos os textos. O narrador utiliza um olhar incisivo para desnudar as mazelas do cotidiano, seja em São Paulo, seja em Berlim.

Há em todos os textos do livro uma linguagem crua, que choca o leitor, mas é nessa forma fria de narrar que se consegue perceber a amargura da vida relatada. Outro texto que pode exemplificar as mesmas características do conto anterior é o "002 tiradentes " :

No início dos anos 70, os garimpeiros arrancavam seus próprios dentes. A sangue frio, é claro. De modo que quando Paulão viajou pro norte com uma bolsa cheia de Citanest teve sucesso imediato. Mesmo quando os veios de ouro secaram, Paulão continuou oferecendo anestesia. Agora seus maiores fregueses são os índios. A maioria nem tem mais dentes pra tirar. Ele ainda vem pra São Paulo e volta com duas ou três malas da coisa (a aplica em troca do pagamento que houver). Pra ele, o caso é que os índios não estão suportando o gosto de sua própria saliva nesses tempos. (Jiparaná - Brasil - 1987) (p.8)

 

 

Nesse conto, há uma perfeita alusão à vida entediante e sem objetivos. O índio, assim como o homem branco, necessita do uso de drogas que lhe amenize o sofrimento de uma vida sem sentido. Hoje, as pessoas fogem do cotidiano que lhes causa angústia através de "drogas" que lhes entorpecem os sentidos. É mais fácil fazer de conta que está tudo bem. Entorpecer-se com programas de televisão, que remetem a um mundo imaginário mais bonito do que o real. Se os índios do conto não suportam sua saliva, é porque as palavras apodreceram em suas bocas, pois não puderam ser pronunciadas, não lhes foi permitido pronunciá-las. Assim, também, no dia-a-dia, o povo impedido de se pronunciar sufoca-se com a palavra não dita. É preferível que os índios (e o povo) estejam drogados, para que não criem problemas, não ofereçam resistência ao sistema que cerceia sua liberdade. Está aí a banalização da vida, novamente em detrimento do progresso. Presentes também: a concisão, o texto é mínimo, mas repleto de sentidos, e a linguagem irônica e crua. Pode-se citar, também, como exemplo da Concisão e da banalização, o conto "014 são Petersburgo 1998 " :

Durante o cerco de Leningrado, Yuri gostava do inverno por três razões: parava os alemães, alguma coisa chegava pela trilha do Ladoga congelado e os cadáveres deixavam de feder. Enquanto esperavam por isso, a mãe de Yuri lhe dava um cinto para chupar. Era uma época em que as pessoas morriam tanto que estavam sempre se despedindo. Yuri e sua mãe também comeram outras coisas que não eram exatamente de comer... mas ele não quer falar sobre seu pai. O que importa é que pelo menos os dois sobraram e hoje Yuri nem liga que suas calças fiquem caindo. (Colônia - Alemanha - 1998) (p.20)

 

Atente-se que a linguagem nesse conto também diz muito em poucas linhas, ou melhor, nas entrelinhas. É nos interstícios que devem ser preenchidos pelo leitor que se encontra uma mensagem mais chocante: Yuri e sua mãe comeram o cadáver do pai. Não está dito, mas subentende-se, uma vez que pessoas morriam, e ele e sua mãe comeram coisas que não eram exatamente de comer, mas ele não quer falar sobre seu pai . Os períodos estão justapostos de forma que nenhuma palavra possa ser retirada, pois é no encadeamento dessas palavras, na ordem em que estão que se vão compreendendo os subentendidos. Há aqui também referência a questão da sobrevivência humana como um instinto animal. É um texto que produz um choque um desconcerto em seu leitor, efeito esse que comprova a existência de outro valor apontado por Leyla Perrone-Moisés: a Intensidade, que, segundo a autora, pertence ao âmbito dos efeitos psicológicos produzidos, no leitor, pelo texto 5. Os textos de Fernando Bonassi detêm essa característica, pois conseguem suscitar no leitor um mal-estar, um estranhamento. Cite-se, ainda, como exemplo, o texto 013 encomenda , há nesse texto uma alusão ao tráfico de drogas, mas isso é feito de modo irônico e com um certo humor, o que bem caracteriza o valor Intensidade, pois, segundo Perrone-Moisés, a intensidade é uma questão de manutenção do ritmo pelo manejo da surpresa, do estranhamento, do humor . Produz-se, assim, no leitor, um mal-estar por defrontá-lo com a cena viva de como os chamados mulas transportam as drogas dentro de si, o que eles sentem enquanto transportam tal conteúdo e como fazem para retirá-lo do seu corpo. Todavia, se causa um mal-estar a cena relatada, da forma como o é, detém também um certo humor (irônico), pelo ridículo da cena que se visualiza do traficante tentando "expelir" a encomenda. Aqui está presente também a violência que o ser humano pratica, muitas vezes contra si mesmo em função do TER. No texto "051 natureza-morta com são paulo " , também se percebe a presença da Intensidade. Nesse conto, os períodos curtos dão uma visão rápida de todas as cenas, mas suscitam na mente do leitor todo um universo de sensações. São flashes rápidos do cotidiano de São Paulo. Há, novamente, a ironia, a surpresa, o estranhamento diante da forma e da escrita do conto. Além disso, esse conto bem exemplifica também outro valor apontado por Leyla Perrone-Moisés, a Completude e Fragmentação. Segundo a autora, a Completude está presente quando a obra detém uma coerência interna, não depende de uma lógica referencial, é uma relação entre as partes que se mostra, no conjunto, como necessária ao todo 6, assim como a Fragmentação é a reconstrução desse todo através dos pedaços que compõem essa realidade. No conto "051 natureza-morta " , estão presentes os dois valores, uma vez que os períodos curtos estão dispostos coerentemente para compor a colcha de retalhos do texto. Assim, um texto coerente é construído pela fragmentação, pois fragmentada está também a realidade. Completude e Fragmentação fazem parte da obra de Fernando Bonassi também como um todo, pois será unindo os pedaços que são cada texto do livro Passaporte que se terá uma visão completa do roteiro dessa viagem: o cotidiano.

A Visualidade e Sonoridade são outros valores mencionados por Leyla Perrone-Moisés e sobre estes a autora diz que as imagens evocadas ou tipograficamente trabalhadas dos escritores são imagens que ensinam a ver melhor, de modo mais seletivo e eventualmente crítico 7. Assim, a presença de muitas vozes em um texto, caracteriza a Sonoridade. A esta se alia a Visualidade, que é a capacidade que um texto tem de criar visões nítidas e surpreendentes. Observe-se que Fernando Bonassi constrói seu livro com vários mini-contos, que se agregam nesse quebra-cabeça, para construir o roteiro dessa viagem. Há neles a presença de vozes que, muitas vezes, não são ouvidas pela sociedade: os marginalizados. Assim, nos textos de Bonassi, aparecem os índios, os homossexuais, as prostitutas, enfim aqueles que não tem voz dentro da sociedade. Então, seus textos detêm a característica da Sonoridade, assim como também é indiscutível que a Visualidade se faz presente em seus contos, porque conseguem suscitar no leitor uma surpresa diante das imagens criadas pelo encadeamento das palavras nos textos.

Pode-se acrescentar que todo os contos do livro Passaporte detêm o valor/conceito intitulado como Novidade, que, segundo Leyla Perrone-Moisés, se apresenta em um texto pela forma como esse rompe com antigos paradigmas e consegue causar surpresa no leitor. Os contos desse livro encaixam-se perfeitamente nesse conceito.

Assim, percebe-se que é o fel do dia-a-dia, a realidade de um mundo desestruturado, que se vê em cada conto do livro. Vive-se em um mundo que não sabe medir o valor da vida, um mundo em que o ser humano vale não pelo ser, mas pelo ter. Nesta sociedade globalizada, predomina o individualismo, o egocentrismo. Cada vez mais as pessoas se sentem isoladas, com se fossem ilhas. Em uma sociedade assim, há muitas pessoas que ficam à margem do sistema. Marginalizados, não têm vez, nem voz dentro dessa comunidade. É sobre esses marginalizados, criados pela sociedade capitalista, que Nizia Villaça, em seu livro Paradoxos do pós-moderno: sujeito & ficção , faz referência ao dizer que as suas vozes estão se fazendo ouvir, de uma forma ou de outra.

À descoberta de que o capitalismo produzia classes soma-se agora a de que também produz diferença sexual e racial. Os discursos femininos, homossexuais, negros e das minorias em geral crescem significativamente dentro de uma engrenagem fabricante de diferenças. 8

 

O medo, a insegurança diante de uma realidade violenta, a falta de respeito pela vida, o esfacelamento das relações humanas estão presentes na obra Passaporte . Entende-se, assim, a gilete estampada na capa do livro de Fernando Bonassi: a violência. É um passaporte para a realidade do mundo, para que se entre em contato com o cotidiano agonizante. Tanto a lâmina traduz essa violência, como também são lâminas os contos presentes no livro: cortam, ferem a indiferença do ser humano. A leitura da obra Passaporte injeta na mente do leitor um instantâneo de um cotidiano amargo, que é repetido em qualquer lugar. Não há, nos contos de Passaporte, uma estrutura formal convencionada no papel; ela se formará na mente do leitor através das conexões feitas com a sua história, a sua vivência. É nesse ponto que se chega ao cerne da leitura da obra: não é uma leitura saborosa, mas amarga. Ler Passaporte , devido ao alto comprometimento a que se submete o leitor, é angustiante. Nessa viagem, o leitor se interará de um roteiro pelo qual viaja todos os dias, sem no entanto desfrutar da "paisagem", que é cruel, nauseante.

Se o conto revela o que está oculto, não o faz de maneira clara e simples. Assim como as lembranças, percepções e sentimentos do ser humano são desconexos diante de um mundo desestruturado, o conto, que é produção desse ser humano, não pode ser amalgamado dentro de uma determinada estrutura, perfeitamente perceptível e classificável. Note-se, então, que o conto não mais obedece ao esquema rígido de uma narrativa canônica (início, desenvolvimento, desfecho). Muitas vezes, uma das partes é suprimida. Essa técnica, ao mesmo tempo em que suprime uma parte da narrativa, enche de significados o restante do texto. O leitor é convidado a participar do texto.

 

Este, como ocorre na ficção moderna, é por vezes incluído nos arredores temáticos do texto, apela-se para a sua co-participação nas situações dramáticas construídas. 9

 

Observe-se que o conto, muitas vezes, pode até omitir o nome do personagem central 10, e nessa omissão imprimir uma personalidade múltipla a esse personagem. Ele não será o João, mas todos os joões, paulos e severinos. Despersonifica-se para se personificar.

Está aí impressa a contradição: omite-se para se dizer. O conto é uma narrativa que encerra uma história secreta 11, mas qual? A história secreta de cada um e ao mesmo tempo de todos. O conto desestrutura-se, desobedece a normas rígidas, para comunicar, para contar. Ou seja, se a forma é desestruturada, se não observa mais o rigor canônico, é porque isso, de alguma forma, tem significado. A forma também comunica, juntamente com a escrita. Se o conto desfaz-se de suas partes é porque a sociedade também está em pedaços. Hoje, um livro de contos é como se fosse um quebra-cabeça, um mosaico, cujos pedaços é preciso que se vá juntando para se compreender a mensagem. Uma colcha de retalhos, em que cada parte é necessária para formar um todo.

Segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, em seu livro O mal-estar da pós-modernidade , no qual analisa a sociedade contemporânea, a sociedade atual perdeu seu rumo, tudo é incerto num mundo em que o capital e o lucro assumiram o poder. Dessa forma, compreende-se que a sociedade regula-se pela indústria, seus produtos e subprodutos. Perdeu-se a hierarquia dos valores. A vida e seus pressupostos de bem-estar foram banalizados. O progresso, em seu avanço incontrolável, em nome do fictício bem-estar mundial, vai deixando em seu caminho um mundo estilhaçado pelas rajadas certeiras do lucro.

Modernizar a maneira como a empresa é dirigida consiste em tornar o trabalho flexível - desfazer-se da mão-de-obra e abandonar linhas e locais de produção de uma hora para outra, sempre que uma relva mais verde se divise em outra parte, sempre que possibilidades comerciais mais lucrativas, ou mão-de-obra mais submissa e menos dispendiosa, acenem ao longe. 12

 

É uma realidade cruel, em que as pessoas violentam-se a si mesmas, sem se darem conta. Aí está o choque que abala o leitor, quando ele percebe que não é a arte que está banalizada ou fragmentada, não é ela que detém a violência, mas é o próprio mundo em que se vive. Essa percepção fere mais do que os contos de Fernando Bonassi. Há um Passaporte para uma viagem: qual é ela? Só o leitor poderá dizer. Na forma de cada conto, no subentendido de cada linha, há uma rota possível. As palavras são os guias que vão desnudando as paisagens e revelando as suas histórias. Mas será o leitor quem descobrirá o caminho. Não há uma rota definida. Não há uma mensagem explícita. Há várias rotas, vários significados, várias mensagens. Nos fragmentos está o todo.

Se, no princípio, o homem contava histórias para explicar fenômenos que julgava sobrenaturais, hoje, cercado de todo o conhecimento que a ciência lhe dá, o homem conta histórias para entender-se a si mesmo. Assim, mudou-se a forma de contar porque a história a ser contada é outra. Alteraram-se a estrutura e a forma do conto. Questiona-se hoje: o que é arte? Da mesma forma, a arte questiona seu observador: quem é você?. A fim de se decifrar essa charada e montar esse quebra-cabeça, há que se juntar os fragmentos de uma realidade estilhaçada .

 

 

LIMA, Herman. Variações sobre o conto . Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1952.

GALVÃO, Walnice Nogueira. Cinco teses sobre o conto. In: Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, 1, 1982, São Paulo. O livro do seminário . São Paulo: LR Editores, 1982.

BONASSI, Fernando. Passaporte . São Paulo: Cosac & Naify, 2001.140p.

PERRONE-MOISÉS, Leyla. Altas literaturas . São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 238p.

Ibidem, p.159

Ibidem, p.160

Ibidem, p.158

VILLAÇA, Nizia. Paradoxos do pós-moderno: sujeito e ficção . Rio de Janeiro: UFRJ, 1996.

LUCAS, Fábio. Do barroco ao moderno . São Paulo: Ática, 1989, p.119

KENNER apud MAGALHÃES JÚNIOR, 19, R. A arte do conto . Rio de Janeiro: Bloch, 1972.

PIGLIA, Ricardo. O laboratório do escritor . São Paulo: Iluminuras, 1994.

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade . Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. 272p.