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The Coup e Brazil: um exercício de mapeamento cognitivo
Carla Alexandra Ferreira (UNESP)

Dada a importância e a singularidade que John Updike possui no contexto da literatura norte-americana contemporânea, sua crescente presença na mídia brasileira e, conforme apresento neste trabalho, a necessidade que apresenta sua obra de um modelo de interpretação mais completo - o político como proposto por Fredric Jameson - ess e trabalho vem dar sua contribuição e justificar sua relevância. O objetivo é, deste modo , mostrar como os romances The Coup (1978) e Brazil (1994), de John Updike, muito mais que apresentar contradições dos países onde estão ambientados, lidam com os Estados Unidos - tema constante do autor. Ambos romances mostram, por meio de uma organização formal diversa ao restante da obra de Updike, uma visão que países centrais têm dos países periféricos e, ao apresentar sua percepção do Outro, o Norte fala de si mesmo. Assim, por meio de uma leitura política - como proposto por Fredric Jameson - desses romances verifica-se como elementos como a Guerra Fria, o expansionismo, irreversibilidade histórica, igualdade racial, por exemplo, demonstram o movimento do modo de produção capitalista na qual os Estados Unidos são protagonistas e a dificuldade de figuração do romance em nosso tempos. É essa revelação, escondida pelas estratégias de contenção e contida na forma dos romances, que procuro mapear na (re)leitura desses textos literários.

Vale mencionar, contudo, que ao se destacar a forma como elemento de estudo dessa diferenciação na estrutura dos textos, não se pretende valorizar uma abordagem formalista. É idéia social de forma "travejada pela relação histórica e pelos seus dinamismos, intra e extraliteratura" 1, conforme nos aponta Roberto Schwarz, que será considerada neste artigo.

Ao mostrar os limites entre a crítica e sociologia e os equívocos que cometem estudiosos que trafegam por ambas as áreas, Antonio Candido enfatiza que o social deve ocorrer na estrutura da obra. Para este crítico, a prioridade é "a análise estética, ou formal, mas sem que esta se dessocialize [...]." 2

Fredric Jameson, mais atentamente, vem confirmar a validade do modelo de interpretação que considere o texto literário como ato simbólico. Ele ensina que a proposta apresentada em O Inconsciente Político concentra-se na "rewriting of the literary text in such a way that the latter may itself been seen as the rewriting or restructuration of a prior historical or ideological subtext , it being always understood that that 'subtext' is not immediately present as such, not some common-sense external reality, nor even the conventional narratives of history manuals, but rather must itself always be (re)constructed after the fact." 3

Essa imanência já detectada por Antonio Candido e Roberto Schwarz, no contexto da crítica literária brasileira, e apresentada com mestria por Jameson ocorre por meio da verificação da forma que para este crítico, como para Adorno, é "conteúdo sócio-histórico decantado".

Concentrar-se no "conteúdo da forma" não significa também que o conteúdo da obra literária seja descartado. Sean Homer, ao comentar the logic of content para Jameson, escreve que "Form [.] is nothing less than content working itself out in the realm of the superstructure; the evolution of forms [.] represents the emergence of new types of content as they force their way to the surface and displace the older obsolete forms." 4

Para que se possa lidar com o conteúdo e forma desses romances de modo a perceber suas estratégias de contenção e o que encobrem nesses textos literários, a releitura de The Coup e Brazil acontece em três níveis: um primeiro que lida com os elementos africanos e brasileiros no conteúdo manifesto dos romances e a tentativa de se harmonizar essas contradições. O segundo nível trata das contradições norte-americanas trazidas à tona num diálogo entre as duas realidades; nesta camada pode-se verificar que os textos, na verdade, lidam com a busca de uma identidade para a sociedade norte-americana, embora seja ainda de modo fragmentário. No terceiro nível de leitura, percebe-se finalmente que os romances são sobre os Estados Unidos, não somente em alguns de seus aspectos particulares, mas como país central na escritura da história.

O último estágio de análise ocorre com a observação das "estratégias de contenção" que em The Coup trata-se da escolha por determinado tipo de texto (um livro de memórias), pelo emprego da nostalgia, do mito e sua racionalização por meio da sátira; e em Brazil , pelo emprego do romanesco que funciona como um campo de forças resistente à interpretação; pela secularização do mito de Tristão e pelas fontes duais escolhidas para composição do romance.

De fato, as estratégias de contenção presentes nos romances e em nosso modo de interpretá-los desviam nosso olhar do que importa: identificar os fragmentos e pensamentos truncados, imprecisos e opacos nesses romances para, finalmente, reinseri-los na totalidade da História e verificar qual é a "história" contada nesses romances.

The Coup e Brazil : aparentes rupturas

Uma apresentação da vida e obra de John Updike pode parecer descabida e fortuita quando se declara que o objeto de estudo neste trabalho é o texto literário. De fato, Jameson nos ensina que não é a evolução pessoal (do autor) puramente que conta para o ato interpretativo da obra, tampouco somente mudanças na estrutura interna da obra, nem causas externas imediatas, mas esses elementos somados à "estrutura de sentimento" que determina o texto são relevantes para se iniciar a análise de uma determinada narrativa. 5

Considerar a obra de Updike como um todo nos possibilita perceber em que momento a ruptura formal, que Brazil e The Coup representam, acontece e em que sentido diferem dos outros romances do autor. Ao se retomar a trajetória literária deste autor, vê-se que seu projeto literário tem sido marcado por traços neo-realistas a ponto de sua obra ser classificada dentro dessa vertente. Considerado o representante da vida doméstica da classe média norte-americana, Updike tem sua obra rotulada e circunscrita ao neo-realismo.

Neste sentido, The Coup e Brazil surgem em momentos distintos e descontínuos como romances diversos do restante da obra do autor tanto em nível de conteúdo como formal. Neles, Updike sai de seu ambiente doméstico, da apresentação da família de classe média norte-americana, e emprega o elemento fantástico nesses textos literários. The Coup e Brazil acontecem em países do Sul, subdesenvolvidos, repletos de contrates, de passado colonial, com personagens nativas.

Esse movimento excêntrico (que se desvia do centro) no conjunto da obra de John Updike não foi bem recebido por parte da crítica acostumada com o modo neo-realista de narrar do autor. Pautados na esfera da autenticidade, consideram The Coup (menos que Brazil ) e Brazil projetos mal-sucedidos na carreira literária de Updike e, portanto, os relegam ao silêncio.

O primeiro movimento de análise desses romances deve, portanto, ser o de desconfiar dessa mudança na trajetória literária de John Updike e na crítica apoiada na mímesis para explicar (ou recusar) Brazil e The Coup . Há de se considerar que essas disfunções encerram muito mais do que aparentemente se percebe; são sintomáticas de um movimento maior.

The Coup e Brazil : uma releitura

No estágio inicial de contato com os romances, o que se pode verificar é a história (entendida como eventos passados e presentes) da África e do Brasil.

Por meio de um enredo muito semelhante ao de muitos países africanos na década de 70, The Coup mostra-nos as contradições locais como a seca, a pobreza advinda da forte estiagem, a conseqüente usurpação do poder e uma sucessão de golpes pelos quais passou a África; a coexistência do primitivo (costumes tribais, superstições e crenças) e do moderno (aparatos tecnológicos e automobilísticos) no país ficcional de Kush. Por essa apresentação, o que se pode apreender é, portanto, que o tema desse romance é o retrato dos problemas de nações africanas no período pós-colonial.

Em Brazil , o que se detecta, num primeiro nível de leitura, é uma história de amor em terras brasileiras que paralelamente revela aspectos do país onde se ambienta. Traz relatos de nossa história, remontando a nosso passado colonial e apresenta contrastes de desenvolvimento do país, em que algumas regiões são mais industrializadas que outras.

Além disso, pode-se notar, já nesse primeiro nível de leitura, que esse retrato do país parece limitado e, em alguns momentos, estereotipado e exótico. Trata-se não da história do Brasil, mas de 'visões de Brasil' que podemos destacar como a de Euclides da Cunha (a coexistência de dois 'brasis', um primitivo e outro civilizado) e de Gilberto Freyre, no que diz respeito à formação do povo brasileiro, marcada pela miscigenação. Essas fontes moldaram o modo de ver de Updike para a composição do romance, como ele mesmo afirma no posfácio de Brazil .

A permanência neste nível de leitura deixa-nos lacunas e pontos que precisam ser verificados para que se perceba que há um diálogo oculto entre Estados Unidos e os países periféricos África e Brasil, nos romances. Portanto, no que se nomeou de segundo nível de leitura, o que aparece nos romances é a realidade norte-americana já pré-anunciada. Por meio desses romances sobre o Sul, pode-se perceber oculto um jeito de ler do Norte. Nesse momento da interpretação, observa-se que algumas características atribuídas aos Estados Unidos aparecem naquilo que está ausente ou escondido em Brazil e The Coup .

Desse modo, em The Coup , resgata-se o diálogo entre Primeiro e Terceiro Mundos contido nas contradições localizadas no país africano. As contradições internas de Kush, atribuídas ao um modo errôneo de governar conferido aos países africanos pelo Banco Mundial, no período subseqüente à descolonização, revelam essa outra parte. Nessa formulação, estavam ausentes a política norte-americana de apoio à descolonização da África e sua resposta - para uma recuperação de sua hegemonia ameaçada - à crise de 1970, a qual desenvolveu a Guerra Fria. Nesse nível de leitura, portanto, há a possibilidade de se ver que The Coup traz a posição desses países da África diante desse conflito mundial e suas conseqüências.

Em Brazil a presença do Norte vem na busca da democracia racial nos Estados Unidos. O diálogo entre as duas realidades pode ser percebido naquilo que falta ao outro. O Brasil apresentado como um país de tolerância racial, nos remete a um outro lugar em que isso não ocorre, em que a inclusão é um desejo. A história de Tristão e Isabel, protagonistas do romance, poderia acontecer neste país, uma vez que, segundo Gilberto Freyre, isso faz parte de nossa formação enquanto povo. A história norte-americana de desigualdade racial vem à tona quando se tenta harmonizar essa questão pelo amor em Brazil .

O que se detecta, nesse segundo nível de leitura, apresenta-se como um avanço em relação ao que se apreende somente ao se considerar o conteúdo manifesto desses textos. Contudo, trata-se ainda de uma leitura de fragmentos e não resolve a questão da ruptura formal apresentada pelos romances. Necessita-se, portanto, de partir para um terceiro momento de leitura, no qual é possível reinserir esses fragmentos detectados nos níveis anteriores na totalidade histórica e verificar que a forma desses textos literários "narra" o momento histórico protagonizado pelos Estados Unidos. Desse modo, pode-se perceber que The Coup e Brazil contam a história do expansionismo capitalista, cujo processo aparece em The Coup para ser desenvolvido em Brazil . Naquele romance aparece o expansionismo liderado pelos Estados Unidos enquanto estado hegemônico, no século XX e o sucesso "neo-imperialista" desse processo. Em Brazil , o expansionismo é entendido como dominação global do mercado, ou seja, o mercado livre em escala global. Essa História norte-americana (uma vez que é o estado-nação representante desse movimento do capital) vem envolta num discurso de irreversibilidade histórica que atribui a todo esse movimento caráter natural, inevitável, sem possibilidades de mudanças e alternativas. As sugestões utópicas trazidas pela escolha do romanesco e do livro de memórias, por exemplo, são desautorizadas pela própria ambivalência desses tipos de texto, demonstrando essa idéia de naturalização dos acontecimentos.

O livro de memórias, em The Coup , pode fazer do passado um lugar de reflexão e de resistência ao esquecimento. Contudo, trata-se da memória de um só, de uma única personagem, o que de antemão gera variações no grau de veracidade das informações. A isso se soma a caracterização do protagonista que ao longo do romance nos é apresentado como um ditador místico, radical, com momentos de loucura, e numa evocação ao mito de Édipo, como aquele que deve ser afastado do poder e de sua terra para que a chuva traga de volta a fertilidade da terra e do país. O anti-americanismo heróico dessa personagem é ineficaz quando o conjunto do romance mostra que sua resistência é motivo de desgraça para seu povo. A escritura de um livro de memórias no exílio pode parecer, portanto, um ato de resistência a sua derrota e à vitória norte-americana. Contudo, essa é uma arma fraca por ser dual. O protesto é ineficaz diante da inevitabilidade histórica.

Além disso, a memória também permite e incursão dos elementos norte-americanos no romance, pois as reminiscências de Elleloû, quando de sua estada naquele país trazem esses elementos para o leitor e para a composição do romance. O livro de memórias, neste caso, é um tipo de texto incerto para lidar com questões de mesma ordem. De fato, a dificuldade de captarmos as mudanças vindas dessa "nova expansão" do capital, que se expande além das fronteiras dos estados-nação aparece na escolha por esse tipo de texto e pelos elementos mágicos, principalmente na revisitação do mito.

Essa contradição de nossos tempos, maior quando alcança escala global, reaparece em Brazil , que tem no romanesco e sua estrutura a melhor (ou única) forma para se lidar com questões que aparecem no cerne da proposta da globalização, como uma de suas fabulações: o desejo pela inclusão e a união. Esse tipo de texto também apresenta uma possível resistência somente em nível de transcendência; o que se oferece como resistência a irreversibilidade histórica é a transcendência. Já não há exploradores e explorados, as diferenças de qualquer ordem ficam diluídas, a saída está fora da História.

Além disso, no romance, por meio da racionalização do mito, a possibilidade de mudança pela transcendência, a dissolução das contradições do mundo material por meio do elemento mágico e mitológico traz o pressuposto de que no mundo concreto, que a narrativa mitológica tenta contar e entender, isso não ocorre. Na tentativa da inclusão, encontra-se a exclusão declarada. Na impossibilidade de ver mudanças a não ser numa esfera fora da história, há um elemento mais forte que, mesmo não intencionado por John Updike aparece para conter o romance em sua apresentação de alternativas e críticas sociais.

A irreversibilidade histórica, outro elemento do discurso de consolidação do pensamento único global, na sua coexistência com o mitológico no texto, vem disfarçada de revisão do mito e de uma versão moderna dele. Ela aparece, não apenas quando se tem a transcendência como possibilidade de mudança, mas principalmente quando, em Brazil , o mitológico vai por todo o romance sendo secularizado.

Ao longo desse texto literário, assim como aconteceu com Ellelloû em The Coup , os votos solenes de Tristão e Isabel são desautorizados pelo quotidiano. A busca dos heróis vai gradualmente sendo desprovida de valor para no final ser derrotada pelo mundo. Neste romance, apesar do desejo, o amor não vence no final, a busca do herói é ironicamente destituída de sentido. O amor é interrompido pelas contingências sociais e históricas e, no final das contas, parece, mesmo num ambiente neutro, mitológico, ou num país de tolerância racial e entre classes maior que nos Estados Unidos, não ser possível vencer as barreiras.

Essas resoluções, geralmente não percebidas, nos níveis anteriores de leitura e camufladas pela forma de Brazil , ao mesmo tempo em que denunciam um retorno da esfera mitológica ao mundano , trazem a visão norte-americana que não consegue ver saída para essas questões. Na verdade, confirmam os textos como produtos de um discurso de irreversibilidade em que não é possível se imaginar alternativas, a não ser deixar a História seguir seu curso "natural". De fato, o desejo de inclusão tem seu contraponto na impossibilidade dessa inclusão contida no próprio discurso que busca a uniformidade. Nesse sentido, Brazil revela essa contradição em que se buscam "coisas do bem", mas se aceita que não acontecem de fato. Essa característica está, como já mencionado, na contradição do romanesco que encerra em si a esperança por alternativas e também a impossibilidade de acontecerem na história, principalmente quando essa forma é deslocada da sociedade e período histórico na qual surgiu.

Nesse nível de leitura, portanto, a prioridade foi a interpretação do conteúdo da forma de The Coup e Brazil , ou seja, a verificação e o desvendamento dessas estratégias de contenção inscritas na estrutura desses trabalhos de ficção e do conteúdo que esses elementos estruturais encerram.

Além disso, ao se empreender a leitura política desses textos realiza-se um metacomentário do modelo interpretativo que as estratégias de contenção levam a crítica a usar: o mito-crítico. A intenção não é a de desautorizar esse método de análise, mas de mostrar que para os romances em questão não são adequados por, principalmente, contribuir com a naturalização do discurso de irreversibilidade do movimento do capital e por levar a interpretação desses romances a categorias universais como a luta do bem contra o mal, por exemplo.

Trazidas essas questões, pode-se perceber que uma leitura do conteúdo da forma desses romances, além de restituir o lugar desses textos no conjunto da obra do autor, pode, de certo modo, colocar-se como uma intervenção para a necessidade de se resistir ao "pensamento único" e de se pensar alternativas, além de tentar contribuir para um debate sobre a criação literária e o contexto histórico, buscando, por meio de análises de textos, comprovar que "estudar a narrativa na História é fundamental para todos nós." 6

 

Referências Bibliográficas

CEVASCO, Maria B.P. S. Jameson revaloriza leitura política do texto literário. Folha de São Paulo . São Paulo 27-12-1992, p.7

HOLMER, Sean. Fredric Jameson - Marxism, Hermeneutics, Postmodernism. New York, Routledge,1998

JAMESON, Fredric. The Political Unconscious. Ithaca, New York, Cornell University Press, 1988.

SCHWARZ, Roberto. Seqüências Brasileiras: ensaios . SP, Cia. das Letras, 1999.

 

Notas:

SCHWARZ, Roberto. Seqüências Brasileiras: ensaios . SP, Companhia das Letras, 1999, p. 31.

Idem, pp. 9-16

JAMESON, Jameson. The Political Unconscious. Ithaca, New York, Cornell University Press, 1988. p. 81.

HOMER, Sean. Fredric Jameson. Marxism, Hermeneutics, Postmodernism . New York, Routledge, 1998, p. 27.

Idem, ibidem.

CEVASCO, Maria. Jameson revaloriza leitura política do texto literário. Folha de São Paulo . São Paulo 27-12-1992, p.7