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O mistério da obra aberta: Valêncio Xavier e o conto "O mistério da porta aberta - esboço para uma teoria literária"
Assionara Medeiros De Souza (UFF)

"Obra Aberta", expressão que nos remete à estética da recepção e a termos como "Horizonte de Expectativa" ou "Repertório", Jauss e Iser, respectivamente, é o livro no qual o semiólogo Umberto Eco expõe ou tenta expor a potencialidade de "abertura" ou poder de operação da experiência estética de determinada obra de arte. Para tanto, deve-se ter instalada a "estrutura" - termo que embora o autor chame atenção para equívocos que possa causar, acaba usando ou algumas vezes substituindo por "forma":

Talvez valha a pena esclarecermos melhor o sentido que queremos dar à noção de "estrutura de uma obra aberta", pois o termo presta-se a numerosos equívocos e vem sendo usado (inclusive neste mesmo livro) em acepções não completamente unívocas. Falaremos da obra como de uma "forma": isto é, como de um todo orgânico que nasce da fusão de diversos níveis de experiência anterior (...). Uma forma é uma obra realizada, ponto de chegada de uma produção e ponto de partida de uma consumação que - articulando-se - volta a dar vida, sempre e de novo, à forma inicial, através de perspectivas diversas. 1

A referência à tal instalação, condicionante a priori da experiência estética, não é prerrogativa de Eco. Em A Origem da Obra de Arte, Heidegger observa que o objeto-arte se perpetua e se revigora na sua interação com aqueles que a salvaguardam:

Ao ser-criado na obra pertencem tão essencialmente como os criadores também os que a salvaguardam. Mas a obra é o que possibilita os criadores na sua essência, e o que, a partir da sua essência, precisa dos que a salvaguardam. Se a arte é a origem da obra, então quer isto dizer que deixa surgir, na sua essência, a co-pertença essencial da obra dos que criam e dos que salvaguardam. 2

 

No campo da estética da recepção, que reafirma a excelência do fruidor da obra (analogicamente denominado de salvaguarda, em Heidegger), Antoine Compaignon nos lembra do triângulo proposto pelo crítico do romantismo M. H. Abrams: para que a comunicação literária acontecesse, fazia-se necessária essa peculiar instalação triangular que tinha em seu centro de sustentação a obra e nos três vértices da figura se configuravam: o mundo, o autor, e o leitor 3 . Ao que Eco propõe como sistema edificado " produção/obra/fruição" 4 , e que teremos em Heidegger artista/obra/salvaguarda.

Postulados convencionais à parte, propomos aqui o esboço de uma teoria literária semelhante à de Umberto Eco que surge a partir de substratos do próprio texto literário. Mais precisamente, como já antecipa o título desta monografia, no conto O Mistério da Porta Aberta, daí o trocadilho inevitável: O Mistério da Obra Aberta. Atestaremos aqui, portanto, a genialidade do escritor responsável pelo conto: Valêncio Xavier, que em menos de oito páginas suplanta, a meu ver, o que muitos teóricos da literatura se desdobram para conceituar em volumes grandiosos. Como é o caso de Obra Aberta , de Eco, que na edição brasileira (editora Perspectiva) se compõe de 284 páginas.

Já o livro " 13 mistérios + O mistério da porta aberta" compõe-se de contos publicados inicialmente entre agosto de 1983 e julho de 1990 em periódicos (jornais e revistas paranaenses) e que mais tarde tiveram sua publicação, distribuição e campanha de divulgação nacional em grande estilo, amparadas pelo luxuoso selo editorial Companhia das Letras, em 1998. Uma mostra ampliada da obra do autor, que trazia a " novella" O Mez da Grippe como livro de abertura: O Mez da Grippe e outros livros, sendo estes: Maciste no inferno, O minotauro, O mistério da prostituta japonesa & Mimi-Naschi-Oischi e 13 mistérios + O mistério da porta aberta.

É desta edição (incluindo ilustrações e recursos gráficos que integram a narrativa) que nos valeremos para analisarmos a forma como Valêncio Xavier nesse relato, em primeira pessoa, da experiência estética constrói o esboço de uma teoria literária. Prática esta freqüente nos discursos de autores modernos, como bem observou Julien Greimas, em sua obra da Imperfeição, no capítulo Uma Mão Uma face , em que faz a análise do conto Continuidad de los parques , de Julio Cortázar,

(...) o objeto que se oferece aqui ao sujeito é um artefato, um objeto literário construído - não falamos evidentemente do texto de Cortázar, mas do texto no texto - que consegue substituir progressivamente a "realidade" contextual descrita. À tentativa do sujeito e do objeto acrescenta-se, desse modo, uma interrogação paralela sobre o estatuto "ontológico" deste simulacro, sobre as condições para ele "ser levado a sério" e a maneira pela qual se sobrepõe à realidade ambiente. O que era somente um gizzo [inquietação] se converte num problema [mistério]. 5

 

A literatura combinatória de Valêncio Xavier, ao colocar o leitor diante de múltiplos estratagemas lingüísticos e visuais, revigora discursos da modernidade propostos por uma tradição que não se satisfazia somente em dominar o processo de produção do artefato literário, mas que se permitia, assim como o mágico que quase revela os misteriosos truques de seu número, a cumplicidade angustiante com esse leitor. Poe, com a sua Filosofia da Composição (O Corvo); Cortázar e a Continuidad de los Parques; Valêncio Xavier e O Mistério da Porta Aberta. Textos como portas, passagens que permitem o trânsito ao que se revela na moldura textual. Estar diante das margens, esquerda e direita do objeto livro aberto, e atingir a experiência estética que se desdobra na terceira margem: a obra aberta.

Compreendendo - não importa se intuitivamente - que, entre os mistérios mostrados no livro, o da Porta Aberta funciona como condição primeira para que os outros se revelem (uma espécie de preparação da platéia que possibilita garantir a recepção dos textos seguintes), Valêncio Xavier o destaca dos demais:

 

É justamente aqui que começa a prática ilusionista do autor. O momento do pacto; quando um primeiro estranhamento se denuncia ainda que sutilmente. Na apresentação inicial temos uma seqüência distinta da que consta no sumário. Justapondo as duas páginas de apresentação dos contos, temos:

    

(fig. 01)           (fig. 02)

 

Perceba-se que a expectativa do leitor é quebrada nessa simples mudança de disposição do que estava previsto na primeira página do livro. Em vez de O Mistério da Porta Aberta vir depois dos 13 outros mistérios que formam o livro, o sumário o localiza como mistério (porta) de abertura a que se seguirão os demais.

Em O ato da leitura, Wolfgang Iser retoma Ingardem para avaliar, na ordem do pacto obra-leitor, o "impacto" que uma quebra de expectativa na seqüência da leitura pode significar:

 

Quando nos vemos [...] confrontados com o fluxo do pensamento da frase, ficamos dispostos, após recorrer uma frase, a pensar também sua "continuação" na forma de uma frase, a saber, como frase, ligada àquela que acabamos de pensar. Assim, o processo da leitura de um texto prossegue sem esforços. No entanto, se por acaso a frase seguinte não tem uma ligação perceptível com a frase que acabamos de pensar, detém-se o curso do pensamento. Uma surpresa mais ou menos viva ou simplesmente indignação acompanha tal hiato. Este obstáculo que deve ser superado, se o leitor quiser prosseguir com a sua leitura. 6

 

É de se considerar que não estamos lidando, até esse momento, com a estrutura textual continuada (seqüência de frases). No entanto, essa quebra de expectativa desencaminha o que chamaremos de comodidade situacional instigando o leitor a multiplicar de forma caleidoscópica a perspectiva de alcance ao que está por vir:

 

Os vários artifícios de perspectiva representavam exatamente outras tantas concessões feitas às exigências da situacionalidade do observador para levarem-no a ver a figura no único modo certo possível, aquele para o qual o autor (arquitetando artifícios visuais) procurava fazer convergir a consciência do fruidor. [...] Uma obra assim entendida é, sem dúvida, uma obra dotada de certa "abertura", o leitor do texto sabe que cada frase, cada figura se abre para uma multiformidade de significados que ele deverá descobrir; inclusive, conforme seu estado de ânimo, ele escolherá a chave [grifo nosso] de leitura que julgar exemplar, e usará a obra na significação desejada (fazendo-a reviver, de certo modo, diversa de como possivelmente ela se lhe apresentara numa leitura anterior). 7

 

Recorrendo à autoridade crítica em Valêncio Xavier, Flora Süssekind em sua obra Papéis Colados confirma que o autor, à maneira de Magritte - Isto não é uma "porta"?, intervenção nossa - , reconstrói a estrutura pictórico verbal:

 

(..) no caso de Valêncio Xavier é para um processo de montagem que chamam a atenção as colagens de O Mez da grippe [...] é olhos nos olhos da palavra imagem (verdadeiros papiers collés) que se define [...] uma forma particular, em mão dupla, de expressão. Marcada por uma espécie de tensão necessária entre elementos de extração bastante diversa, alteridades indescartáveis. Muitas vezes mutuamente irônicas. Muitas vezes tirando ases do colete do leitor. 8

 

Temos, portanto, multiplicadas as valências interpretativas ao ver instaurada a traição das palavras e imagens que se sucedem, o que instiga o leitor a seguir as pistas do mistério; forçando-o a buscar novas direções (perspectivas) na trilha do que é mostrado.

Não à toa, a epígrafe do livro (que se coloca entre as páginas 203 e 209) sinaliza um deslocamento que dimensionará ao leitor o poder de montagem desse colecionador moderno, que, a exemplo de Duchamp, Joan Brossa ou Oswald de Andrade, decalca, do real mais diverso, um pretexto para o que se quer mostrar.

Ei-la: "Uma mentira minha vale por dez verdades tuas", dito por um criminoso no programa de Algaci Túlio. Revelação que reforça o caráter fulminante e acertivo do discurso ficcional (mentiroso, portanto, disso ningém duvida) diante das outras "ordens discursivas" (as dez verdades de nós, que teorizamos a literatura, ou das 284 páginas de Umberto Eco).

 

(fig. 03)

 

Diante da porta, dita como aberta, resta o próximo passo, entrar no jogo; aceitar o pacto, amparado sempre pela autonomia de rompê-lo a qualquer momento que se queira e deixar que a porta, que se encontra aberta, se feche completamente. O problema é que o jogador que propõe as regras do jogo já se anuncia/denuncia a princípio como um mentiroso que pode blefar com o seu parceiro (leitor) condenando-o à perdição. Deixai toda a esperança, ó vós que entrais. 9

A que ponto o jogador que se aproxima da obra se interessa pelo jogo? Inevitavelmente haverá, nesta entrada, se esta for a porta certa, um porteiro prontamente preparado, tal como na parábola kafkiana Diante da Lei; ele estará lá para medir a que ponto chega o desejo do que se põe diante da porta.

O leitor, homem simples, vê-se diante de um dilema que precisa ser decifrado: Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta e o porteiro se põe de lado o homem se inclina pra olhar o interior através da porta. Quando nota isso, o porteiro diz: - Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. 10 Há sempre um porteiro impedindo que os leitores entrem.

(fig. 04)

 

Diante da "Obra Aberta", um novo blefe quebra de maneira implacável a expectativa do que havia sido projetado anteriormente. É largar o jogo ou continuar; pois o título que afirmava tratar-se do mistério da porta aberta, é relativizado: " ... na verdade entreaberta. mas muito ou pouco aberta uma porta, fechada ela não está." 11

Então o jogo já estava valendo? Pode o parceiro enganado indagar.

O jogador-mor, ignorando-o, distribui novas cartas e prossegue com a partida: " Observe pelo tempo que julgar necessário a porta mostrada abaixo".

Depois de tanto apanhar, o leitor mais atento perguntará desconfiado : Qual das duas portas? A que se insinua pelo texto emoldurado pelas bordas da página ou a porta das três velas?

 

 

(fig. 05)

Observe pelo tempo que julgar necessário... Não é assim que o vendedor de livro nos fala quando nos locomovemos pelas muitas "portas" lançadas no mercado? Pode olhar à vontade. O jogador continua a nos instigar: O que nos espera lá dentro? Sentiremos medo pois a escuridão sempre nos sugere um mistério que precisa ser aclarado, antes de criarmos a necessária coragem para entrar. Às vezes um mistério exasperadamente simples. 12Se os leitores soubessem! Ah, por que não lhes dizer que é simples entrar nas diversas portas misteriosas dos textos ainda não lidos.

 

(...) cada obra de arte, ainda que produzida com uma explícita ou implícita poética da necessidade, é substancialmente aberta a uma série virtualmente infinita de leituras possíveis, cada uma das quais leva a obra a reviver, segundo uma perspectiva, um gosto, uma execução pessoal. (...) A validade das execuções possui, pois, seu fundamento na complexa natureza tanto da pessoa do intérprete quanto da obra a executar... Os infinitos pontos de vista dos intérpretes e os infinitos aspectos da obra se correspondem e se encontram e se esclarecem reciprocamente, (...) 13

 

O porteiro ainda está lá, na entrada da porta, esperando cada um daqueles que se cheguem a ela. Diz o jogador: Eu estou sentado numa cadeira contemplando a porta aberta (...). Vejo claramente as velas. (...) Atrás de mim uma porta que dá para a rua. Esta, sim, fechada. (...) Como é noite e estou sozinho nesta casa, é possível que seja alguém querendo me assaltar, e até mesmo tirar minha vida. (...) Me assusto com barulhos fortes e continuados da porta da rua às minhas costas. 14

As representações se multiplicam. A porta das três velas e a porta da rua, ambas assustando esse que tenta nos deixar pistas do mistério que o envolve. Temor de assalto que se assemelha ao eu-lírico de Edgar Allan Poe, no clássico poema O Corvo, em que, numa meia-noite agreste , batem à porta.:

 

Em certo dia, à hora, à hora

Da meia-noite que apavora,

Eu caindo de sono e exausto de fadiga,

Ao pé de muita lauda antiga

De uma velha doutrina, agora morta

Ia pensando, quando ouvi à porta

Do meu quarto um soar devagarinho

E disse estas palavras tais:

"É alguém que me bate à porta de mansinho;

Há de ser isso e nada mais" 15

 

Ao contrário do destino do personagem de Poe, o narrador do Mistério da Porta Aberta encontra o que ele chama de explicação racional - científica até - para os estranhos barulhos 16

Mas, e a porta das três velas?, ele indaga em seguida.

A partir daí, novas pistas do mistério surgem:

Desde tempos imemoriais, a colocação de portas obedece a um princípio imutável: as portas sempre se abrem para o lado de dentro! À exceção a essa regra universalmente estabelecida se encontra no cinema, no teatro e na televisão, artes da representação . 17

Aí está, dentro de minha casa, esse mistério. E eu tenho de resolvê-lo.

Você não pode me ajudar, pode? (...) Sou o que sou. Eu sou eu.

Posso, devo e vou fazer alguma coisa. Tenho.

Para isso, preciso me levantar desta cadeira imóvel. Para isso, devo largar a caneta e o papel. Devo deixar de me comunicar com você que, já vi, em nada pode me ajudar. Sozinho tenho que aclarar este mistério. Depois, sim, posso retomar a caneta e o papel, e descrever para você aquilo que aconteceu, quando eu me levantar desta cadeira e me encaminhar em direção da porta entreaberta das três velas. Depois. 18

Esqueceu o nosso jogador (terá esquecido?) de mencionar uma outra arte da representação por excelência cuja porta se abre para o lado de fora: o livro. Eis o mistério das três velas.

 

1 ECO, Umberto. Obra aberta. 8 ª edição. São Paulo. Ed. Perspectiva, 2001.

2 HEIDEGGER, Martin. A Origem da obra de arte. Lisboa,.Ed. 70, Coleção Biblioteca de Filosofia Contemporânea. Lisboa, 1992.

3 COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria: Literatura e senso comum. Belo Horizonte. Ed. UFMG, 1999. p. 138, cap. V

4 ECO, op.cit. pág. 28

5 GREIMAS, Julien. Da imperfeição. São Paulo. Hacker Editores, 2002. pág. 55.

6 ISER, Wolfgang. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. São Paulo: Ed. 34, 1999; pág. 18.

7 ECO, op. cit. pág. 43.

8 SÜSSEKIND, Flora. Papéis colados. Rio de Janeiro. Ed. UFRJ, 1993; pág. 272.

9 DANTE, Alighieri. A divina comédia. São Paulo. Ed. 34, 1998; pág. 37.

10 KAFKA, Franz. Diante da lei, in: Um médico rural. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1990; pág. 43.

11 XAVIER, Valêncio. O mez da gripe e outros livros. São Paulo. Ed. Companhia das Letras, 1998. pág. 213

12 ECO, op. cit; pág. 64.

13 XAVIER, op. cit. pág. 215.

14 POE, Edgar. O corvo e suas traduções. Trad. Machado de Assis. Rio de Janeiro. Lacerda Ed. 1998. pág. 15.

15 XAVIER, op. cit. pág. 215.

16 XAVIER, op. cit. pág. 215.

17 XAVIER, op. cit. pág. 218.