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Personagens bíblicos adaptados para o público infantil
Roselara Zimmer Soares (UFSC)

As versões infantis atuais da Bíblia surgem em um momento de efervescência religiosa. Os temas relacionados aos assuntos de religião, religiosidade, relações entre o sagrado e o profano, estão sendo explorados por revistas, livros, jornais, enfim, os mais diversos meios de produção cultural, informativa, retomam as idéias, preceitos, aspectos simbólicos, dúvidas e diferenças a cerca das religiões. Religião no sentido real subjetivo, nas palavras de Irineu Wilges: "reconhecimento pelo homem de sua dependência de um ser supremo pessoal, pela aceitação de várias crenças e observância de várias leis e ritos atinentes a este ser" 1.

Assim como os aspectos teológicos, o novo gênero da Literatura Infanto-juvenil está sendo explorado de diversas formas: livros de poesias, de contos, de crônicas. As editoras produzem até livros emborrachados, que podem ser usados também como brinquedos na água. Inclusive, há também aquelas que se empenham em apresentar coleções apenas direcionadas ao pequeno leitor. Enfim, nunca se falou tanto em hábito de leitura, em textos próprios para as crianças e adolescentes, os quais tratam de assuntos pertinentes ao universo dos pequeninos, desde quando a Literatura Infanto-juvenil foi classificada como gênero literário, no século XVIII.

Desse modo penetramos no âmbito das relações estabelecidas pela Literatura Comparada. Algo muito complexo para ser aprofundado neste momento.

A Literatura Infantil, portanto, não poderia deixar de estar presente nessa discussão e destinar alguns de seus escritos para as crianças, adaptando o texto Sagrado e ilustrando-o com ricas imagens, os episódios mais citados nos ensinamentos religiosos. Enfim desvelando a Teopoética, a qual para fins deste trabalho analisa a literatura em questão, por meio de uma reflexão teológica presente em algumas Bíblias e coleções adaptadas aos pequenos leitores. Assim como COELHO no início a literatura infantil foi a adaptação de literatura para adultos e acabou se transformando em entretenimento para crianças (grifo da autora) p. 35.

O objetivo principal deste trabalho é de tentar verificar em qual dos segmentos: Literatura Infanto-Juvenil ou Teopoética, podemos classificar as Bíblias Infantis e coleções que apresentam episódios bíblicos? Na Literatura Infanto-juvenil por apresentar características próprias ao universo lúdico, área do mágico-maravilhoso, e na Teopoética por estar tratando com o texto Sagrado.Seu objetivo maior seria instruir ou divertir? Conforme Khéde 2:

A literatura infanto-juvenil contemporânea realiza-se segundo as premissas básicas que nortearam seu aparecimento, porém já apresentando características novas diretamente ligadas à existência de um mercado de bens culturais onde o livro passou a integrar a sociedade industrial e de consumo.

 

Os personagens bíblicos mostrados nesta comunicação são apresentados com uma imagem bastante próxima aos heróis cinematográficos modernos, guerreiros medievais e até de deuses como THOR. E ainda em algumas, aproximam os traços das ilustrações com os desenhos animados e heróis dos quadrinhos japoneses, os chamados Anime, que no Brasil são conhecidos como POKEMÓN.

Para nossa discussão serão mostradas apenas as figuras de Moisés, Sansão e Davi (comparado com o gigante Golias), personagens do Antigo Testamento e que apresenta traços de caráter ou comportamento bem nítidos.

São personagens fortes e de fundamental importância para os acontecimentos bíblicos. Citando KOTHE estas figuras são "personagens da história de um povo que personifica a 'alma' desse povo" 3. Embora o Kothe não esteja falando de personagens bíblicos estes heróis/ personagens representam, por meio de suas ações, a história do povo de Israel. Representados por pessoas que passam por dificuldades, provações, sofrimentos e sacrifícios vários, acontecimentos que os ajudam a construir com plenitude divina sua grandeza. Grandeza que os transfiguram em heróis bíblicos. As imagens aqui analisadas procuram transformam o negativo de suas características físicas, tais como músculos fracos e traços faciais em pontos positivos, ou melhor, no aspecto físico definido como esteticamente perfeito para o "mundo ocidental", tais como músculos fartos e um olhar de vitória e extrema confiança em algo Maior.

A ilustração dialoga com o texto e sugestiona às crianças a oportunidade de imaginação, recriação do episódio bíblico, ou seja, a sua interpretação vai além do desenho.

Os heróis Bíblicos submetem-se ao plano que lhes foi dado por Deus. Alguns relutam em aceitar, dizem não se acharem capazes de realizar os pedidos de Deus - Moisés, por exemplo-, porém acabam se entregando à luta por um ideal que compreendem ser universal e justo.

O que chamaria mais atenção da criança nos dias atuais: um Moisés esquálido, de estatura baixa ou um grande Moisés alto, musculoso e capaz de derrotar multidões de Faraós, mesmo que ele apenas fale e use o seu cajado? Conforme COELHO 4:

Lembra a psicanálise que a criança é levada a se identificar como herói bom e belo, não devido à sua bondade ou beleza , mas por sentir nele a própria personificação de seus problemas infantis: seu inconsciente desejo de bondade e de beleza e, principalmente, sua necessidade de segurança e proteção. Identificada como heróis e heroínas do mundo do maravilhoso, a criança é levada, inconscientemente, a resolver sua própria situação, - superando o medo que a inibe e ajudando-a a enfrentar os perigos e ameaças que sente à sua volta e assim, gradativamente, poder alcançar o equilíbrio adulto.

 

A primeira coleção a ser apresentada foi a editada pela Ekos/ Todolivro, que tem vasta produção dirigida ao público infantil. São duas coleções; uma de bolso, denominada "As mais belas histórias da Bíblia" e a outra de tamanho normal: "Histórias Bíblicas Favoritas". Também, utilizando as mesmas imagens dessas coleções, reuniram os episódios mais significantes e editaram dois livros: "Minha primeira Bíblia"e "As mais belas histórias da Bíblia". Depois apresentaremos a Bíblia da Criança, da Editora Vida.

A história de Moisés encontra-se no Livro do Êxodo, nome grego que significa saída. É o segundo Livro do Pentateuco - os cinco primeiros Livros dos ensinamentos religiosos. Moisés é aquele que fora escolhido por Deus para tirar o povo israelita do Egito e mostrar ao Faraó o poder do Pai com as suas dez pragas. Salvou-os da escravidão e levou-os a atravessar o Mar Vermelho, guiando Povo de Deus à Terra Prometida, a qual emanaria pão e mel.

Em uma das coleções aqui analisadas: As Mais Belas Histórias da Bíblia , da Editora Ekos/Todolivro, o personagem Moisés é apresentado na figura de uma criança com traços carismáticos e simples que o aproximam da visão infantil e assim representam o leitor como interagindo com o texto. Em um segundo momento mostra um Moisés pastor, adulto, mas não muito idoso, falando com Deus, aquele que é o que é (grifo nosso), através da sarça ardente, que mais parece uma grande árvore em chamas, diante de nosso pequeno herói, que permanece sereno, calmo. Depois mostra Moisés e o Faraó conversando e o texto apenas assim diz: "Então Deus fez cair sobre o Egito muito sofrimento, pragas e morte. O Faraó foi vencido" 5. Não especificando nenhuma das pragas e nem mostrando através das imagens, o sofrimento do povo. E termina com Moisés atravessando o Mar Vermelho. Essa coleção faz uso constante de pequenos animais, para ilustrar suas narrativas: peixes, passarinhos, borboleta, por exemplo. Penetrando assim no âmbito da literatura infantil no que diz respeito ao uso do lúdico, do imagético.Ultrapassa o texto puramente bíblico, recria-o, acrescentando e descrevendo novas imagens.

Enquanto que na Bíblia da Criança , o mesmo é representado nos seus estágios de vida: criança, jovem e depois bem mais velho. Quando fala com Deus, através da sarça em fogo que não se consome, já é um homem de barbas e cabelos brancos, e agora demonstra até um pouco de receio com o que vê. E quando o Faraó decide não deixar os israelitas saírem do Egito, a cada página apresenta cada uma das pragas. Acontecimentos que geram dor e medo no povo egípcio. E após a passagem do Mar Vermelho, continua a história conforme os acontecimentos narrados na Bíblia, diferentemente da coleção de bolso anteriormente analisada.

Diríamos que a primeira é mais branda nos seus relatos, enquanto a última busca a verdade e o aprofundamento do texto Sagrado.

A Bíblia Sagrada apresenta o herói Sansão, no Livro dos Juízes e divide suas "aventuras" em pequenos capítulos. Conhecemos Sansão como aquele que apresenta uma extraordinária força, alguém que acredita em Deus, apesar de todo o sofrimento, pois lhe tiram a visão e passa por diversas humilhações, impedindo-o de seguir os planos de Deus, estabelecidos para ele. Destacamos dois momentos particulares, pois os mesmos são aqueles explorados pelas Bíblias Infantis: o nascimento de Sansão e o momento em que ele destrói as colunas do templo antes de morrer.

O primeiro no qual um anjo do Senhor, assim anuncia nas palavras Sagradas 6:

Eis que és estéril, e nunca tiveste filho; porém conceberás, e darás à luz um filho. Agora, pois, guarda-te, não bebas vinho, ou bebida forte, nem comas coisa imunda; porque eis que tu conceberás e darás à luz um filho sobre cuja cabeça não passará navalha; porquanto o menino será nazireu consagrado a Deus desde o ventre de sua mãe: e ele começara a livrar a Israel do poder dos filisteus.

 

O segundo episódio que fala da morte de Sansão e do castigo de Deus para com os filisteus 7:

Abraçou-se, pois, Sansão com as duas colunas do meio, em que se sustinha a casa, e fez força sobre elas, com a mão direita em uma, e com a esquerda na outra. E disse: Morra eu com os filisteus. E inclinou-se com força, e a casa caiu sobre os príncipes e sobre todo o povo que nela estava: e forma mais os que matou na sua morte do que os que matou na sua vida.

Na coleção de bolso da referida editora a anunciação do nascimento do herói não é descrita. É a partir de seu nascimento que começa a narração: Sansão era muito forte. Quando ele nasceu, sua mãe recebeu a visita de um anjo que lhe disse: - Este menino será especial para Deus. Mas seu cabelo nunca deverá ser cortado. 8 Nem ao menos fala da esterilidade da mãe de Sansão. Entretanto na outra coleção da mesma editora assim começa o texto 9:

Vivia em Zorá um homem chamado Manoá. Sua esposa não podia ter filhos. Ela e Manoá esperavam de Deus um milagre acontecesse. Um certo dia, apareceu um anjo para Manoá e sua esposa e disse: - Manoá, sua mulher terá um filho. Ele será consagrado a Deus, seus cabelos não deverão ser cortados.

 

Esta última aproxima-se mais da narração bíblica, mas em ambas, como na Palavra Sagrada, há a idéia de não poder cortar o cabelo de Sansão. O cabelo simbolizando a ligação espiritual entre Deus e nosso herói e demonstrada através de sua extrema força e virilidade.

No momento da morte de Sansão, a coleção de bolso assim descreve 10: "Aí abraçou as colunas do templo, e com grande força as derrubou. Finalmente os filisteus foram vencidos. A oração e o pedido de perdão de Sansão foram ouvidos e atendidos por Deus".

Enquanto na segunda coleção analisada o texto é assim apresentado 11: "E, abraçando as colunas, derrubou o templo, destruindo-o e acabando com os filisteus que ali estavam. Deus ouviu a oração de Sansão e lhe concedeu a última vitória". Mas não especifica como acabaram os filisteus.

Novamente percebemos que é na segunda que o texto aproxima-se ao texto bíblico. Porém ambas não mencionam a morte do herói. Seria aí um abrandamento da violência tão presente nos relatos do Antigo Testamento? Pois não a menção do número de mortos, mais ou menos três mil pessoas, entre homens e mulheres, um verdadeiro massacre.

Referindo-se a imagem do herói, observamos que em ambas o personagem é forte. A ilustração da primeira não explora o físico e se preocupa também, em mostrar pequenos animaizinhos assustados com o ocorrido, assim como em um segundo plano, o povo filisteu. Ao contrário da segunda coleção, na qual a imagem é centrada em um Sansão musculoso que possui um corpo bem definido.

Em outra Bíblia: A Bíblia da criança , editada pela Vida, Sansão já se parece com um guerreiro "medieval", com seus longos cabelos em tranças. Também os traços utilizados pelo ilustrador são parecidos com os desenhos orientais, os Anime.

A vida de Davi é narrada no Livro 1 de Samuel, também chamado de 1 Reis e faz parte de um conjunto de livros históricos.

Ele tornou-se rei, porque Deus o amava, apesar das dificuldades que encontrou. Morava em Belém e era bem quisto por todos. Também gostava de tocar sua harpa enquanto guardava os rebanhos de seu pai Jessé.

O povo de Deus ainda estava em luta contra os filisteus e o rei Saul teria que enfrentar o exército de seus inimigos. Porém há entre os filisteus um gigante chamado Golias e Davi resolve enfrentá-lo, apenas com uma funda e algumas pedras apanhadas no riacho, e para surpresa de todos derrota o grande guerreiro filisteu.

Na coleção de bolso, o personagem é apresentado como um jovem alegre e bom, que gosta de tocar harpa e cantar. Um dia venceu um grande leão que queria devorar suas ovelhas e a partir disso pensa ser possível derrotar o gigante Golias, que estava a ameaçar o Exército de Deus. Em uma das páginas, Golias é tão grande que somente suas botas aparecem, contrastando com o pequeno Davi. No momento do confronto ficam frente a frente e Davi vence, acertando uma pedra na testa do gigante.

No relato da Bíblia sabemos que após a vitória, Davi degolou seu inimigo, cena cruelmente representada por uma pintura de Caravaggio: Davi com a cabeça de Golias (1605 - 1606). Porém em nenhuma das coleções aqui analisadas a decapitação de Golias é citada. Apenas assim termina a coleção de bolso 12: "Ao verem seu gigante-campeão caído e derrotado por Davi, os filisteus fugiram correndo. Os israelitas expulsaram os inimigos. Davi venceu o gigante Golias, e por sua fé em Deus foi salvo".

E a Bíblia da Criança 13: "O gigante caiu pesadamente no chão. Foi vencido por um menino, mas um menino que tinha confiança em Deus. Esse foi o segredo da vitória. O povo de Israel ficou admirado e comemorou a derrota do inimigo".

A comunicação apresentada tem por objetivo de verificar a aproximação entre o texto Sagrado e a Literatura Infantil, a partir de uma suavização das palavras da Bíblia e do acréscimo e riqueza das ilustrações nas coleções e Bíblias analisadas.

 

 

WILGES, Irineu. Cultura religiosa : as religiões no mundo. 8 ed. Rio de Janeiro: Vozes, p. 15.

KHÉDE, Sonia Salomão. Personagens da literatura infanto-juvenil . 2 ed. São Paulo: Ática, p. 5.

KOTHE, Flávio R. O Herói . 2 ed. São Paulo: Ática, 1997, p.55.

COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil : teoria, análise e didática. 6 ed. São Paulo: Ática, p. 51.

COLEÇÃO AS MAIS BELAS HISTÓRIAS DA BÍBLIA . Adaptação de Valéria Freitas. [s.l.] Edições Todolivro, [s.d.].

A BÍBLIA SAGRADA . Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, 1963.

  8 IBIDEM.

COLEÇÃO AS MAIS BELAS HISTÓRIAS DA BÍBLIA . Adaptação de Valéria Freitas. [s.l.] Edições Todolivro, [s.d.].

COLEÇÃO HISTÓRIAS DA BÍBLIA . Adaptação de Melissa Probst Stamm. Blumenau: Edições Chocolate, [s.d.].

 11 COLEÇÃO AS MAIS BELAS HISTÓRIAS DA BÍBLIA . Adaptação de Valéria Freitas. [s.l.] Edições Todolivro, [s.d.].

  12 IBIDEM.

COLEÇÃO AS MAIS BELAS HISTÓRIAS DA BÍBLIA . Adaptação de Valéria Freitas. [s.l.] Edições Todolivro, [s.d.].

  14 A BÍBLIA DA CRIANÇA . Roteiro de Carlos Alberto Silva. São Paulo: Editora Vida, 2002, p. 123.