![]() |
![]() |
[ VOLTAR ] |
Isaac e Cristo - A Sombra e a Figura.
Regina Brasil (UFSC)
O sacrifício, a oferta de vítimas ou de donativos à divindade, revestida de certo ritual, para expiação da culpa ou para implorar auxílio, a imolação, o sofrimento, a privação voluntária em benefício de outrem, a renúncia, a abnegação, tudo parece ser pouco, quando se fala da entrega do próprio filho, em nome de um Ser superior, para a prova, incontestável, da própria Fé.
Segundo Jack Miles, "no começo da história de Abraão, ele pertence ao Senhor; no fim, é o Senhor que pertence a Abraão", nesse aspecto, o divino passa a pertencer ao humano.
Abraão é o ancestral comum do Cristianismo, Islamismo e Judaísmo, sua prova foi tão grande, que ele tornou-se pai de 12 milhões de judeus, dois bilhões de cristãos e 1 bilhão de muçulmanos. Por isso é considerado o Pai da civilização ocidental e o umbigo do mundo e primeiro monoteísta da história. O sofrimento por que passou era sinal da estima de Deus e não da fúria; Deus só põe à peova os fortes e os eleitos.
Quando Abraão leva Isaac à montanha indicada por Deus, na terra de Moriá, já é o sacrifício em si, quando o coloca na posição para a morte, também já é o sacrifício, porém, a prova maior, seria quando a mão baixa, armada que está, para o golpe final, fatal.
Isaac é sim, sacrificado! Psicologicamente falando, dá-se o sacrifício, a ordem é dada ao cérebro, que baixa a mão para o desfecho trágico da história. Porém, um anjo do Senhor segura a mão de Abraão! Um enviado do Ser Maior impede a morte do rapaz! Será? A morte, em si, já havia acontecido, na mente do patriarca, portanto, provada estava sua Fé incontestável, inabalável, apenas o ato final não se dá, mas o golpe foi desferido, psicologicamente, o pai sacrifica o filho. Assim veremos tempos depois, quando a sombra se refaz em figura, com uma diferença, porém, o golpe final é dado, a morte torna-se explícita, assim como também explícita é a ressurreição.
Em Gênesis 22, 1-19, temos alguns pontos interessantes a serem discutidos,
"Depois desses acontecimentos, Deus pôs Abrão à prova, e lhe disse: 'Abraão, Abraão!' Ele respondeu: Estou aqui'. Deus disse: 'Tome seu filho, o seu único filho Isaac, a quem você ama, vá à terra de Moriá e ofereça-o aí em holocausto, sobre uma montanha que eu vou lhe mostrar.'
Abraão se levantou cedo, preparou o jumento, e levou consigo dois servos e seu filho Isaac. Rachou a lenha do holocausto, e foi para o lugar que Deus lhe havia indicado. No terceiro dia, Abraão levantou os olhos e viu de longe o lugar. Então disse aos servos: 'Fiquem aqui com o jumento: eu e o menino vamos até lá, adoraremos a Deus e depois voltaremos até vocês'.
Abraão pegou a lenha do holocausto e a colocou nas costas do seu filho Isaac, tendo ele próprio tomado nas mãos o fogo e a faca. E foram os dois juntos. Isaac falou a seu pai: 'Pai'. Abraão respondeu: 'Sim, meu filho!' Isaac continuou: 'Aqui estão o fogo e a lenha. Mas onde está o cordeiro para o holocausto?' Abraão respondeu: 'Deus providenciará o cordeiro para o holocausto, meu filho!' E continuaram caminhando juntos. Quando chegaram ao lugar que Deus lhe indicara, Abraão construiu o altar, colocou a lenha, depois amarrou seu filho e o colocou sobre o altar, em cima da lenha. Abraão estendeu a mão e pegou a faca para imolar seu filho.
Nesse momento, o anjo de Javé o chamou lá do céu e disse: 'Abraão, Abraão!' Ele respondeu: 'Aqui estou!' O anjo continuou: 'Não estenda a mão contra o menino! Não lhe faça nenhum mal! Agora sei que você teme a Deus, pois não me recusou seu filho único'. Abraão ergeu os olhos e viu um cordeiro, preso pelos chifres num arbusto; pegou o cordeiro e o ofereceu em holocausto no lugar de seu filho. E Abraão deu a esse lugar o nome de 'Javé providenciará'. Assim, até hoje se costuma dizer: 'Sobre a montanha, Javé providenciará'.
O anjo de Javé chamou do céu uma segunda vez a Abraão, dizendo: 'Juro por mim mesmo, palavra de Javé: porque você me fez isso, porque não me recusou seu único filho, eu o abençoarei, eu multiplicarei seus descendentes como as estrelas do céu e a areia da praia. Seus descendentes conquistarão as cidades de seus inimigos. Por meio da descendência de você, todas as nações da terra serão abençoadas, porque você me obedeceu'.
Abraão voltou até seus servos, e juntos foram para Bersabéia. E Abraão ficou morando em Bersabéia."
A Fé é uma das questões aqui a serem discutidas, até que ponto inabalável, para que o bem maior, o mais amado dos seres fosse sacrificado, sem nem mesmo questionar-se a causa, sem, a princípio, envolvimento maior que a própria crença? Alguns artistas, através dos séculos tentaram recriar a imagem da doação maior, a análise dessas imagens passa-nos um pouco do "inquestionável" da Fé.
Através da face, seja de Isaac, seja de Abraão, temos desde a esperança (que Deus providenciasse o Cordeiro), passando pela dor (da perda, mesmo na fé), até a redenção, a motivação maior, a quase incredulidade, por exemplo, em Caravaggio (fig. 1), quando do fato do Anjo do Senhor impedir o sacrifício.
Imagem é comunicação, transmite fatos, pensamentos, ideologias, visões, espacial e temporalmente, psicológica ou racionalmente influenciadas, é o que percebemos na análise das que seguem.
Se formos observar atentamente as direcionadas ao público infantil 2e3 , verificaremos que o "trauma" maior, aquele do "tirar a vida", é deixado subentendido, há uma espécie de eufemismo pictórico, talvez para que esse público específico não se choque com algo tão trágico quanto a morte, com algo tão trágico quanto a mão do Pai que se levanta contra o Filho. Como explicar a uma criança que a questão, no caso, não seria de violência, porém, de algo muito maior, a Fé?! Temos, então, recursos que passam pela suavização das cores (fig. 2 e 3) e, no caso da imagem Infantil 3 , até a omissão da própria faca, além, é claro da "surpresa" na face de um Abraão "aliviado" com a provisão do Cordeiro, aliás, a "comicidade" estampada na face do cordeiro, ainda na imagem Infantil 3 , é também um eufemismo pictórico, já que sua função ali seria tornar-se o alvo do sacrifício, algo bastante pesado para ser entendido por uma criança.
Afastando-nos das imagens ditas "infantilizadas", temos a visão adulta de um ato adulto, seja em Donatello (fig. 4), na escultura de um Abraão que, repousando o pé sobre a fogueira, segura pelos cabelos um Isaac aparentemente tranqüilo, enquanto uma faca bastante ameaçadora pousa sobre seus ombros. Se uma espécie de paz parece existir na figura do filho, a face do pai transmite dor. Seria o sacrifício maior aquele do Pai ou aquele do Filho, o ato ou a aceitação do ato?
Já em Domeniquino (fig. 5), percebe-se um movimento maior. Os olhares de ambos, Pai e Filho, direcionados ao céu, não mais a faca, porém a espada, que se levanta e está prestes a baixar, e a figura do anjo que intercede, segurando a mão do sacrifício. O cordeiro aqui já aparece, não em meio a arbustos, como no texto bíblico, porém, sem amarras, como se predestinado fosse para o ato e, consciente ou inconscientemente, apenas aguardasse o fato. Um ponto interessante, na imagem em questão, é o plano mais afastado do cordeiro, observado, também, em outras criações, como se a representar um "Terceiro" tempo na narrativa pictórica. O primeiro caberia à mão que se levanta, o segundo, ao anjo que retém a mão e o terceiro, finalmente, ao cordeiro que a Providência Divina remete.
Há, dentre todas as imagens colhidas, uma única que nos remete a um Isaac não criança (fig. 6), como se faz crer até pela referência no texto bíblico "menino", um Isaac adulto ou, pelo menos, bem mais velho que a representação comumente utilizada pelos grandes nomes da pintura universal; talvez um Isaac que se aproxime mais de Cristo na questão de faixa etária, quando da crucifixão.
Já em Rembrandt (fig. 7) temos o ato de cobrir o rosto do filho, enquanto o anjo segura de tal forma a mão de Abraão, que lhe cai a faca, em movimento bastante interessante, não mais necessária a arma, já que a fé teria sido provada.
Uma única imagem se nos apresenta com o momento anterior ao sacrifício (fig. 8), aquele em que Isaac carrega a lenha para a fogueira até o alto da montanha. Como Cristo carregou sua cruz, Isaac carrega a lenha para o próprio sacrifício.
Em Cigoli (fig. 9), novamente a dor do Pai, em oposição à redenção do Filho, já em Andrea Del Sarto (fig. 10), deparamo-nos com um Isaac quase que em desespero, enquanto em Tiziano (fig. 11), se não temos a face de Abraão, vemo-nos frente a frente com o pânico de um Isaac bastante criança, em relação às outras imagens dele representadas.
Nessas três últimas imagens, assim como em Domeniquino (fig. 5), a faca é substituída pela espada, símbolo mais viril, de maior dominação e representativo de toda uma época histórica que nos remete à lembrança da Idade Média, embora as pinturas lhe sejam posteriores. O fato de em Cigoli (fig. 9) termos botas, atesta o afastamento da realidade histórica, espacial e temporalmente falando; botas são de criação de locais frios - Europa, algumas regiões da Ásia - não especificamente de uma montanha na terra de Moriá. As vestes também, principalmente em Del Sarto (fig. 10), Domeniquino (fig. 5), Cigoli (fig. 8) e Tiziano (fig. 11) trazem-nos a idéia de elementos pesados - lãs, veludos -, tecidos quentes, com desenho e movimento bastante próximos, de novo, de uma Idade Média repleta de Cavaleiros bem vestidos.
A próxima imagem (fig. 12) já é a conscientização de um Isaac-Cristo, de um Abraão-Deus perante o sacrifício maior, a mão espalmada sobre o rosto, como a não querer ver o que necessariamente iria acontecer, o cordeiro de Deus finalmente sacrificado, aquele que tira os pecados do mundo.
E, finalmente, o templo, em duas visões (fig. 13), a sombra e a figura. Em Mateus 26, 60- 63 vemos a metáfora do templo:
"E nada encontraram, embora se apresentassem muitas falsas testemunhas. Por fim, se apresentaram duas testemunhas, e afirmaram: 'Esse homem declarou: 'posso destruir o Templo de Deus, e construílo de novo em três dias.' Então o sumo sacerdote levantou-se, e perguntou a Jesus: 'Nada tens a responder ao que esses testemunham contra ti?' Mas Jesus continuou calado."
Cristo se faz figura, com a sombra do templo, assim como sombra foi Isaac, ao carregar a lenha para o próprio sacrifício, em oposição à figura de um Cristo que carrega às costas a cruz, ou como a sombra na caminhada de três dias até o lugar indicado por Deus, e os três dias de julgamento da figura, ou ainda, Moriá na sombra, Calvário na figura; Isaac, psicologicamente, morre, Cristo, humanamente, morre; Isaac é trocado por um cordeiro, Cristo é Agnus Dei.
Talvez, caiba, aqui, uma última reflexão, se tornarmos ao sacrifício em si, a oferta de uma vítima à divindade, para expiação da culpa, a imolação, o sofrimento, a privação voluntária em benefício de outrem, a renúncia, a abnegação, perceberemos que realmente tudo parece ser pouco, quando se fala da entrega de si mesmo. Não nos esqueçamos que, na Santíssima Trindade, temos o Pai, o Filho e o Espírito Santo unidos em um único ser, o Ser que se imola, sacrifica-se, abnega-se, renuncia-se, vitima-se em prol de outrem, em prol da humanidade.
É tudo uma questão de convicção. É tudo uma questão de Fé. Deus Proverá!
Bibliografia
ALMEIDA, João Ferreira de (trad.). A Bíblia Sagrada - Ed. Revista e corrigida. Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, s/d.
FEILER, Bruce (trad. Maria Luíza Silveira). Abraão, uma jornada ao coração de três religiões . Rio de Janiero: Ed. Sextante, 2003.
MILES, Jack (trad. José Rubens Siqueira). Deus. Uma biografia . São Paulo: Ed. Cia das Letras, 1997. Pág.85
Iconografia
Figura 1: O sacrifício de Isaac - Caravaggio 1603
Figura 2: Infantil 1. in Histórias Bíblia . Ed. Sabida. Blumenau, SC, s/d.
Figura 3: Infantil 2. in A Bíblia Júnior - Historinhas da Bíblia para Crianças . Ed. Paulinas. São Paulo, 1995.
Figura 4: Escultura Abraão leva Isaac ao sacrifício - Donatello
Figura 5: O sacrifício de Isaac - Domeniquino 1630
Figura 6: MAXWELL, Arthur S. As Belas Histórias da Bíblia . Casa Publicadora Brasileira, São Paulo, 1982.
Figura 7: O sacrifício de Isaac -Rembrandt 1635
Figura 8: www.a2zcds.com/images/cb44_small.jpg acessado em 15/07/2004, às 12h40min.
Figura 9: O sacrifício de Isaac - Cigoli 1607
Figura 10: O sacrifício de Isaac detido pelo anjo - Andrea Del Sarto 1529
Figura 11: O sacrifício de Isaac - Tiziano 1542-44
Figura 12: Apocalipse . Casa Publicadora Brasileira, São Paulo, 1988.
Figura 13: Apocalipse . Casa Publicadora Brasileira, São Paulo, 1988.
Anexo Iconográfico

Figura 1 : Caravaggio

Figura 2 : Infantil 1

Figura 3 : Infantil 2

Figura 4 : Donatello

Figura 5: Domeniquino

Figura 6:

Figura 7: Rembrandt

Figura 8: Isaac carrega lenha

Figura 9 : Cigoli

Figura 10: Del Sarto

Figura 11: Tiziano

Figura 12:
