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Intercessões entre história e literatura na obra Selva trágica, de Hernâni Donato
Jérri Roberto Marin (UFMS)
Selva Trágica: a gesta ervateira no sulestematogrossense , de Hernâni Donato, foi editada pela primeira vez em 1959, pelas Edições Autores Reunidos Limitada, e pertencia ao terceiro volume da coleção "Romances de Agora". 2 Selva Trágica retrata a história dos trabalhadores da empresa argentina Matte Larangeira, arrendatária das terras devolutas do sul de Mato Grosso e dos ervais ali existentes, de 1890 a 1940. A trama se passa no rancho Bonança, nas primeiras décadas do século XX. O substantivo selva e o qualificativo trágico significam, respectivamente, lugar onde se luta duramente pela sobrevivência e acontecimento funesto, sinistro, que desperta lástima ou horror. Seria um outro lócus , ermo, às avessas, onde o ser humano é colocado à prova. Em suma, a área controlada, sob regime de monopólio, pela Matte Larangeira, era representada como uma selva brutal, infernal, isolada, um pesadelo no qual todos viviam e do qual desejavam libertar-se. A exploração da erva mate gerava relações sociais desiguais, contraditórias e beneficiava uma minoria estrangeira. Ali, os homens estavam desamparados e a Matte Larangeira podia impor suas leis e uma rígida disciplina de trabalho que resultavam num alto índice de mortalidade. Entre as denúncias que Donato formula sobressaem-se as vinculações entre as esferas pública e privada, entre governo de Mato Grosso e a empresa, a fluidez da presença do Estado e da Igreja no extremo oeste do Brasil e, por fim, a ascendência dos grandes potentados e empresas estrangeiras que ocupavam esse vácuo.
A produção ficcional de Donato caracteriza-se por mesclar, nas narrativas, elementos factuais e fictícios e temas regionais e universais. Entre suas características pessoais, sobressaem-se as de pesquisador, ficcionista e de historiador e esses ofícios têm limiares tênues em sua trajetória intelectual. Selva Trágica é um romance histórico. O gênero duplo e ambíguo da Obra torna fluidos e elásticos os limiares entre História e Literatura. Donato aproxima a escrita literária da histórica, ao escrever inspirado em fatos reais e dramatizar em cima deles. Ao conferir um estatuto de verdade às suas obras, nega-lhes o caráter ficcional, afastando-as do irreal e da imaginação. Em seu texto, realidade e ficção estão entrelaçados e se confundem.
Donato recria e reinventa a história dos ervais no fazer poético a partir do que vivenciou, ouviu e registrou, ou seja, de relatos de fatos que não presenciou, das vivências de homens e mulheres que conheceu e de quem tornou-se amigo, de leituras e pesquisas que realizou, da bagagem cultural que adquiriu nas viagens pelas terras mato-grossenses e de sua experiência como proprietário de um erval. Ele preocupa-se com a pesquisa em arquivos e com a investigação historiográfica e utiliza uma multiplicidade de fontes (orais, sonoras, visuais e escritas) como recurso para construção da narrativa literária. Dessa forma, os limiares entre os gêneros estão diluídos e ameaçam os critérios que diferenciam fato e ficção, objetividade e subjetividade, memória e imaginação e os critérios que estabelecem a verdade.
Donato, como romancista, age como se fora um historiador. Para tal, cerca-se de várias estratégias discursivas para conferir plausividade ao enredo. O Autor, ao citar os intertextos que utilizou no processo criativo, recorre a um reforço de autoridade que confere consistência e legitimidade à narrativa, ao fazer crer que seu registro ficcional da realidade era verossímil, plausível, objetivo e apreendia o objeto em sua essência e concretude. O leitor é cativado a crer, por meio de "garantias do real" e de estratégias que comprovam a veracidade da narrativa ficcional, que o romance se baseia em fatos verídicos e personagens reais e identificáveis. Ao pretender excluir a dimensão subjetiva, garante à narrativa um estatuto de verdade e uma dimensão ética, ao narrar o acontecido. A acurácia da narrativa fundamenta-se nas múltiplas fontes coletadas, no testemunho pessoal do Autor e em uma série de citações, remissões, notas, datas e depoimentos. Porém, ao indistinguir fato, ficção e verdade, o escritor cria, intencionalmente, incertezas entre o que é real e invenção na narrativa.
Donato, no afã de criar um leitor ideal e de convencê-lo de que seu texto se baseava no factual e não no ficcional, esmerou-se, como demonstramos, em criar efeitos de real, acercando-se de inúmeras provas de consistência: a Obra foi elaborada em bases teóricas e metodológicas científicas que conferem à trama uma versão neutra, objetiva, verdadeira, inédita, original e denunciadora de um passado nacional ainda desconhecido pelo grande público. Os temas estariam expostos de forma realista, refletindo, como um espelho, o real. Essas estratégias discursivas conferem consistência ao enredo, que deve ser lido como História, ou seja, como uma representação verdadeira e definitiva do acontecido. 3 Enfim, Donato reconhece a importância do receptor/leitor e atribui a ele um papel relevante, convencendo-o a aceitar sua narrativa ficcional como histórica.
O contrato narrativo do Autor com o leitor, que o guia na leitura, é realizado por uma advertência no paratexto. Nesse "protocolo de leitura", o Autor dissemina a forma que considera correta de interpretação do seu texto. O leitor "ideal" é aquele que decodifica o sentido preciso do texto impresso pelo Autor, que orienta a forma correta de ler, homogeneizando as práticas de leitura. Os Editores, no "protocolo de edição", também procuram reforçar a forma correta de ler a Obra, assemelhando-se ao sentido já impresso anteriormente pelo Autor, ou seja, Selva Trágica seria a verdadeira e definitiva história dos ervais mato-grossenses. Enfim, desde o prefácio, cria-se uma cumplicidade, uma relação simultânea e produtiva entre o Autor, editor e leitor. Os "protocolos de leitura" não impedem que os leitores façam outras apropriações, mais ou menos criativas, e até diferentes daquelas desejadas pelo Autor e pelos editores.
Selva Trágica é analisada, neste artigo, como uma narrativa que preserva a dimensão estética da Literatura, além de constituir-se um testemunho de uma época, a partir das representações dos ervais realizadas pelo Autor. Donato é um arguto intérprete da história dos ervais mato-grossenses e um excelente ficcionista. A preocupação em escrever a verdadeira e definitiva história dos ervais estende-se às representações religiosas. Donato recuperou comportamentos, crenças, hábitos, danças, festas, gostos, saberes, valores e práticas religiosas, entre outros aspectos do universo simbólico dos ervateiros. As vivências religiosas, ponto central de nossa análise, permeiam toda a narrativa, pois faziam parte nas mais diversas esferas do cotidiano. Donato, no afã de reforçar a tragicidade dos ervais mato-grossenses, registrou a ausência de padres, a inexistência de edifícios religiosos e o desamparo religioso em que viviam os trabalhadores da Matte Larangeira. Por estarem fora do alcance da Estado e da Igreja, estavam submetidos por relações de poderes que os desumanizavam. 4 Donato empenhava-se em demonstrar que o sul de Mato Grosso era um Brasil onde o Estado não era soberano, onde a Igreja não exercia nenhum controle, com fronteiras geográficas imprecisas, destituído de uma unidade lingüística e cultural, supersticioso, avesso à moral e, sobretudo, controlado por uma empresa estrangeira movida por cobiças insaciáveis. Faltava ao Brasil uma unidade moral, mental e cultural aos brasileiros e nem todos aderiam conscientemente ao Estado e às suas leis. Em suma, o extremo oeste do Brasil estaria distante do que seria autêntico ou genuinamente nacional.
Os trabalhadores dos ervais criavam e viviam seus valores e festas de forma dinâmica, complexa e política. Suas práticas religiosas apropriavam-se de rituais e devoções católicas e reinterpretavam as tradições herdadas de forma livre, pouco oficial e criativa. A inexistência de um controle clerical e os intercâmbios interculturais e interétnicos favoreciam as reinvenções das tradições católicas. A religião, diante das condições de trabalho e dos conflitos individuais e coletivos, os confortava e possibilitava solucionar conflitos imediatos.
Donato destacou a semana santa realizada no rancho Bonança, único feriado anual. Durante a semana santa os trabalhos produtivos eram suspensos e todos festejavam. A festa se apossava da rotina e excedia sua lógica. Para a Matte, servia para desafogar as tensões sociais e permitia a continuidade da superexploração, pelo endividamento, dos trabalhadores. 5 Nesses dias todos poderiam sair dos padrões vividos e reconhecidos como regulares e carregam consigo a possibilidade, ainda que por tempo determinado, de dar vazão a sentimentos, sensações, desejos e ações constrangidos durante todo o ano. Possibilitava, também, o breve ofício ritual da transgressão. 6 A festa estabelecia uma nova ordem de comportamentos e hierarquias. Significa um tempo de renovação da fé, de agradecimentos e pedidos de graças celestiais, mas significa, também, oportunidade de distração, de descontração, de alargar as fronteiras do cotidiano, de fortalecer os laços de amizade, de namorar, de realizar desejos sexuais reprimidos, de dançar, comer e beber à vontade. Um tempo propício para o surgimento de fatos novos, onde o cômico manifesta-se de forma mais presente e o trabalho para preparar a festa adquire caráter festivo. Era uma forma de diversão, de inter-relação social mas também de expressão religiosa.
Participavam da festa todos os trabalhadores e funcionários do rancho Bonança e pessoas oriundas de outras localidades, rurais ou urbanas, que de cavalo, carroça ou a pé, se deslocavam para festejar, além de outras intenções. Também podiam participar os foragidos e criminosos, exceto os changa-y . 7 A semana santa no erval era o prelúdio de folganças e alegrias. Era visto como uma concessão divina que fazia com que a rígida disciplina nos ervais se afrouxassem e os homens e mulheres não pensavam mais em dormir, somente em se divertir, pois não havia nenhum outro feriado. O cotidiano nos ervais era marcado pelo trabalho e pelo sofrimento e a semana santa apenas por diversões. 8 Para Curê, administrador do rancho, a semana santa nos ervais se distinguia daquela das cidades, onde o religioso predominava sobre o profano. Lá segundo Curê, era "coisa séria. A gente muda o jeito de viver. Quase que só reza! Fecham as casas de jôgo, não fazem música nem amor. Choram a morte de Deus, em casa, nas ruas, nas igrejas." 9 Nos ervais, ao contrário, o mundo recriava-se às avessas.
No imaginário dos trabalhadores a semana santa era uma concessão divina aos homens. Jesus permitia que a festa se realizasse daquela forma e que não estariam condenados pelos pecados cometidos durantes os festejos. Os mineiros acreditavam que Jesus, após ser crucificado, estava morto ou ignorava as ações dos homens até sua ressurreição. Do domingo de Ramos ao domingo da Páscoa, todos os momentos, sem parar um só instante, até o último momento, eram usufruídos com namoros, sexo, conversas prolongadas e preguiçosas, jogos, danças, bailes, canções, churrascos, rezas e com o consumo de bebidas. Havia pequenas pausas para banhos nas lagoas, para conversar ou dormir.
As mulheres que durante o ano eram raras e valiosas, privilégio de poucos, durante os festejos apareciam em grande número. Todas se sentiam desejadas e poderiam receber dinheiro e presentes que valiam pelo ano todo. Mesmo as donas (prostitutas desterradas para as piores casas) encontravam quem delas se agradasse, as casadas ou arranchadas não eram vigiadas pelos seus maridos ou companheiros. Em suma, os costumes ficavam mais soltos e na moralidade dos ervais, ninguém se interessava pelo procedimento do outro. Todos condenavam apenas a trapaça nos jogos. Isto era visto como crime contra a coletividade e era punido com desprezo, espancamento ou com a morte. 10
O festeiro era eleito no domingo de Ramos. A escolha recaía sobre a pessoa mais idosa e bilíngüe. A primeira reza era realizada à noite, quando todos subiam à colina tendo à frente o rezador, seguido pela comissão organizadora e pelas mulheres que sabiam ou queriam rezar, e, por fim, outros homens e mulheres. A maioria das pessoas continuava a festejar. Ao pé do cruzeiro o festeiro acendia uma vela e implorava para que Jesus perdoasse a maldade dos homens. Apenas cinco mulheres lhe respondiam enquanto a maioria permanecia jogando, comendo, namorando ou dançando. A reza era breve, para não interromper os jogos, bailes e banquetes. 11 O rezador entrava em cena todos os dias, apenas à noite, quando iniciava a ladainha. A quinta-feira era o dia mais concorrido da festa, com os músicos mais afamados, as prostitutas mais caras, os jogadores mais atrevidos. 12
Trabalhar na sexta-feira santa era considerado pecado de "abalar o mundo" e não perdoado por Deus. Quem não respeitava "Deus morto" não teria proteção o ano todo. Nesse dia, os festejos continuavam e à tarde ocorreu a via-sacra. O festeiro organizava uma procissão, carregando uma cruz, seguido pela maioria das pessoas. A ladainha lembrava os homens do sofrimento e a crucificação de Jesus Cristo. Sua morte era atribuída aos pecados dos homens, porém, ao sofrer e morrer na cruz teria perdoado todos os pecados e salvo a humanidade. Na via-sacra dos ervais os homens se responsabilizavam pela morte de Jesus, porque eram pecadores e ruins. Ao chegar no topo da colina todos se persignaram e em "filas silenciosas, homens descobertos, mulheres de xale ou manta beijavam os quatro cantos da cruz, persignando-se a cada beijo." Conclui o narrador: "Era tudo o que sabiam fazer na Sexta-Feira Santa." 13
No sábado com o sol, gritava-se "Aleluia!" e davam-se tiros de regozijo. Após, todos se entregavam à festa. No domingo de páscoa ainda havia muito para beber e comer. Os músicos convidavam para o último baile e os jogadores para a última aposta e a maioria das pessoas não tinha mais disposição para festejar. À tarde iniciava o último cerimonial. O festeiro subia até o cruzeiro e colocava fogo no curusu-paño. 14O festeiro, persignando-se, pedia piedade pela mal praticado pelos homens durante a festa. Na procissão, alguns participantes carregavam velas, a maioria estava embriagado, outros tinham as mãos untadas com a gordura do churrasco e alguns com o corpo suado do último baile ou da última relação sexual. De joelhos, sentados e, sobretudo, deitados cantavam pedindo piedade pelos seus pecados. 15 Após a cerimônia, terminava o feriado e todos partiam silenciosos, cansados e com muitas lembranças boas e más. Conclui o narrador: "Isso era a vida do erval. Só mesmo confiando na piedade do Bom Senhor!" 16
Assim, as convicções religiosas do Autor permeiam a narrativa e as práticas religiosas dos ervateiros são representadas com tons negativos. Os mineiros são detratados ao serem representados como uma turba promíscua sexualmente, instintiva, alcoolizada e profana. Suas manifestações religiosas foram vistas como ilegítimas, afetivas, antintelectual, e supersticiosas, como se estivessem em oposição a uma religião oficial, ortodoxa e correta. Rezar seria a única coisa séria que os mineiros faziam, uma vez que a maioria dos participantes priorizava a satisfação dos desejos instintivos. 17 Estariam, dessa forma, mais próximos à animalidade do que da humanidade. Por outro lado, essas representações negativas eram importantes para reforçar o olhar de que a região seria um outro lócus , ermo, onde o mundo recriava-se às avessas e não incorporado à nacionalidade.
Os trabalhadores dos ervais pensavam, agiam, criavam e transformavam seu próprio mundo (valores, gostos, crenças) e tudo o que era imposto em função das heranças culturais e das suas experiências de vida. Como atores sociais, criavam, partilhavam e apropriavam-se de valores, hábitos, atitudes, crenças, músicas. A cultura, como um produto histórico, dinâmico e flexível, é pensada como um campo de lutas, de conflitos e de contradições sociais e culturais. Os mineiros apropriavam-se de forma criativa dos mesmos bens, idéias, tradições nem sempre redutíveis à vontade dos produtores de normas, disciplinas e discursos. Assim, recebiam, compreendiam, produziam, transformavam de diversas maneiras os objetos e normas que circulam na sociedade, que são apropriadas de modos diferenciados, tornado-os criadores e difusores culturais. Na semana santa desconsiderava-se as regras vigentes permitindo novas formas de sociabilidades e de liberdades. Jesus Cristo, por sofrer e morrer na cruz, teria redimido os pecados da humanidade e todos poderiam, sem restrições, comemorar, se divertir e descomprometer-se com os valores, regras e disciplinas. Abria-se espaço para o imprevisível, para o inesperado, para o criativo, para o novo e, por fim, para a extrapolação do existente. A lógica da festa era específica, marcada pela contradição e pela resistência às diferentes racionalizações impostas aos mineiros. A semana santa significava para os trabalhadores a transgressão, luta e resistência frente a rígida disciplina imposta pela Matte Laranjeira e a exclusão social a que estavam expostos.
Por fim, nas obras literárias, valor estético e forma de conhecimento reúnem-se, tornando os limiares entre História e Literatura móveis e fluidos. Como representação do real, o cenário, as histórias e as personagens de Selva Trágica não podem ser lidas como se fossem reais, mas como uma representação desse real, que o escritor criou e simbolizou.
DONATO, Hernâni. Selva Trágica : a gesta ervateira no sulestematogrossense . Autores Reunidos, São Paulo, 239p, 1959.
Prefácio. In: DONATO, Hernâni. Selva Trágica : a gesta ervateira no sulestematogrossense . Autores Reunidos, São Paulo, 239p, 1959. não pág.
A região controlada, sob regime de monopólio, pela Matte pertencia à jurisdição da diocese de Cuiabá e, posteriormente, à diocese de Corumbá, criada em 5 de abril de 1910, pela bula pontifícia Novas Constiture , do Papa Pio X.
Durante a semana santa os armazéns da Matte Larangeira liberavam o crédito para endividar os trabalhadores.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues, A cultura na rua . Papirus, Campinas, 220p, 1989. p. 09.
DONATO, Hernani. Op. cit., p. 151-166.