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Ciência, Religião e Ideologia: O olhar distópico de Margaret Atwood em A História da Aia e Oryx e Crake
Bárbara Maia das Neves (UERJ) e Lucia de La Rocque (FIOCRUZ/UERJ)

Quando se pensa nos desastres ecológicos que têm ganho as manchetes dos jornais nas últimas décadas, o ser humano é sempre levado a considerar as conseqüências mais imediatas de tais problemas como o buraco na camada de ozônio, o desmatamento das florestas e a perda de água potável e do ar de boa qualidade. No entanto, o que maioria não dá muita atenção é ao fato de que há outros problemas que podem estar intimamente ligados, embora não sejam tão óbvios à primeira vista. Ecologia, mais do que um modismo, é assunto de todos sim e as implicações de seus problemas dizem respeito a muitos, independente de classe social, gênero ou qualquer outro fator hierárquico.

A literatura, como arte que está sempre ligada a tudo que concerne ao ser humano, não poderia ficar afastada desta preocupação mundial. Inclusive, ela chega mais recentemente, na ecocrítica, a possuir uma corrente devotada a quesitos ambientais. Conforme mencionado por Scott Slovic em seu artigo "Giving Expression to Nature: Voices of Environmental Literature" (SLOVIC, 1999) 1, a ecocrítica visa explorar a relação entre a humanidade e seu meio ambiente. Além disso, Slovic também fala de como a vertente ecocrítica em várias obras pode ter uma abordagem sutil, em oposição à escrita de cunho mais abertamente didático e panfletário.

Esse aspecto crítico parece ser bastante apropriado ao se considerar obras de cunho distópico, em particular as feministas, nas quais o leitor pode encontrar uma série de argumentos que visam chamar a atenção para fatos que podem já até ter sido tomados como lugar comum na vida diária. No entanto, esses fatos precisam ser debatidos de modo a fazer com que se questione sua validade e sua aplicação na sociedade atual. Essa argumentação é sustentada por Ildney Calvalcanti em seu artigo "A Distopia Feminista Contemporânea: um Mito e uma Figura" (2002); apesar desse trabalho se concentrar mais especificamente na opressão do universo feminino pelo masculino, a autora menciona um ponto que pode ser aplicado às críticas de forma geral, um apelo contra a banalização dos erros humanos:

 

Em outras palavras, eles [os escritores] trazem à luz atitudes e valores androcêntricos que na maioria dos casos passam despercebidos. E questionam tais valores e atitudes através do exagero motivado pelo princípio crítico e indicativo da proximidade existente entre as distopias e as sátiras. (CAVALCANTI, 2002: 247) 2

 

Um dos aspectos mais considerados nas distopias é justamente o processo de degradação ambiental que vem sofrendo o mundo através dos tempos. Problemas tais quais a poluição das águas e do ar, a extinção de alguma espécie animal, a utilização do espaço que resta no planeta e, em especial, a questão do controle da natalidade são questões freqüentemente tratadas nesse tipo de produção literária. As distopias feministas pós-modernas encaram de forma bastante sombria a problemática da reprodução humana e da maternação dos novos seres. Ao contrário dos cenários quase pastorais, quase tribais como define Joanna Russ (RUSS, 1995: 139) 2, em que se desenrolam as utopias anteriores, obras mais recentes, como Parable of the Sower (1993) 4, de Octavia Buler, Dreaming Metal (1997) 5, de Melissa Scott e He, She, and It (1991) 6, de Marge Piercy, ocupam ambientes urbanos extremamente hostis, pós apocalípticos, nos quais suas protagonistas, normalmente órfãs ou abandonadas pelas mães, enfrentam todo tipo de dificuldade.

A maternidade se torna um fardo inegável nesses tenebrosos futuros imaginários, mais especificamente se considerarmos o aspecto da reprodução bastante presente nas duas obras distópicas de Margaret Atwood: A História da Aia (1987) 7 e Oryx e Crake (2004) 8. Na primeira vemos os Estados Unidos convertidos em um república teocrática chamada Gilead, onde o principal problema se torna o nascimento de crianças, em uma sociedade afetada ao extremo por guerras nucleares e doenças sexualmente transmissíveis. Já na sua obra mais recente, Atwood apresenta um mundo divido em grupamentos fechados, em que os melhores - os Complexos -, obviamente são reservados aos que têm condições sócio-econômicas para tal, relegando o resto da população a um degradante estado de miséria e superpovoamento, que nos leva ao questionamento de se realmente a terra agüentaria uma exploração desenfreada.

Levando-se em conta apenas estes breves comentários, as duas obras não são percebidas em sua totalidade. Os meios para o controle da natalidade estão subentendidos em outros discursos de cunho teológico e científico, que visam subjugar os que são membros de grupos tidos como "inferiores" aos olhos de uma maioria totalitária, seja de ordem de gênero, de classe social ou qualquer outro parâmetro utilizado para fins de discriminação. Em A História da Aia Atwood apresenta um mundo aparentemente similar ao atual, porém com um pequeno detalhe:

 

A relva é bem cuidada, as fachadas são elegantes, bem conservadas; parecem aquelas gravuras bonitas que saíam nas velhas revistas de casa, jardim e decoração. Há a mesma ausência de gente, o mesmo ar entorpecido. A rua é quase um museu, ou uma rua de cidade-modelo, construída para mostrar como as pessoas viviam antigamente. Tal como naquelas gravuras, naqueles museus, naquelas cidades-modelo, não há crianças. (ATWOOD, 1987: 30)

 

A ausência de crianças é, como já foi dito, o maior problema da República de Gilead, versão cristã-fundamentalista dos antigos Estados Unidos da América. Defred, a narradora e protagonista, é uma "Handmaid" (em português "Aia") nessa república. As Aias são obrigadas a copular com os "Comandantes" de Gilead - os que orquestraram o estabelecimento do novo regime - na presença de suas próprias esposas, numa "Cerimônia", sendo que a descrição dessa atrocidade nos fornece uma das cenas mais grotescas do livro. Qualquer criança que nasça dessas uniões deve ser entregue ao casal poderoso. Além de serem submetidas a essa humilhação, as Aias são prisioneiras literais na casa dos Comandantes. A função das Aias é serem "úteros bípedes", como definem as "Tias", mulheres mais velhas que treinam as jovens, antes mulheres independentes, para essa desprezível função, em "Centros" que combinam a atmosfera de dormitório de estudantes com a de um cárcere. O uso degradante dessas moças é justificado pelo relato bíblico, em que Raquel, que não conseguia dar filhos a Jacó, lhe ofereceu sua serva Bala e disse que os filhos que dela nascessem lhe pertenceriam. Atwood, aliás, deixa bem claro, em suas entrevistas, que por mais que o inferno de Gilead soe exagerado, todas as práticas nele perpetradas já ocorreram em diversos momentos através da história do planeta.

Já em Oryx e Crake a paisagem remete mais à visão apocalíptica eternizada em filmes, em especial nos que foram exibidos desde a década de 60, tais como Mad Max (dirigido por George Miller, em 1979), e O Sobrevivente ( The Running Man, dirigido por Paul Michael Glaser em 1987). Mesmo antes de ocorrer a destruição em massa, após a qual se situa o cenário em que o presente de Oryx e Crake transcorre, percebe-se que o apocalipse não estaria mesmo muito longe, sendo que assim eram as cidades onde as pessoas comuns viviam:

 

Jimmy nunca tinha estado na cidade. Ele só a havia visto pela TV - intermináveis

cartazes e placas de néon e fileiras de prédios, incontáveis veículos de todos os tipos, alguns deles com nuvens de fumaça saindo da traseira; milhares de pessoas, correndo, gritando, protestando. Havia outras cidades também, perto e longe; algumas tinham bairros melhores, seu pai disse, quase igual aos Complexos, com muros altos cercando as casas, mas estas não apareciam muito na TV. (ATWOOD, 2004: 35)

 

 

Nas cidades vivia toda a espécie de marginalidade em ambientes não muito seguros, tanto do ponto de vista criminal como sanitário. Já nos Complexos a vida lembrava uma viagem ao passado: havia total segurança para todos para que pudessem passear e fazer compras, entre outras atividades da vida quotidiana. Ainda assim, havia um preço a ser pago por esta comodidade: a perda de liberdade, já que ir para fora das paredes seguras significava entrar em um ambiente imprevisível. Além disso, havia também a questão da fidelidade à companhia que mantinha esses condomínios fechados, independente de se concordar ou não com o trabalho que era lá produzido.

Tendo então o cenário de cada obra mais detalhado, faz-se relevante entrar na questão da reprodução propriamente dita nas duas distopias. Em A História da Aia ocorre o que Toril Moi apresenta em sua obra What is a Woman? And Other Essays como determinismo biológico, ou seja, a crença de que as normas de conduta social são ou deveriam ser regulamentadas de acordo com fatores biológicos. (MOI, 1999: 369) 9 Ela argumenta que, de acordo com essa ideologia, o ser humano está preso a aspectos básicos de sua natureza, independente do quanto evolua. Moi prossegue falando que o determinismo biológico pode ser relevante ao se abordar questões que sejam concernentes a todos os seres humanos, por exemplo: não importa o progresso da medicina, ainda somos uma raça de seres mortais, fato que pode ter diferentes implicações para diferentes pessoas. No entanto, o perigo dessa crença determinista está no fato de que um grupo mais poderoso pode se utilizar de um fato anatômico, manipulando-o para dominar outro menos privilegiado, fazendo-o corresponder às suas expectativas e necessidades egoístas.

A reprodução em especial se encaixa na abordagem de Moi, tendo em vista que muitas mulheres são aprisionadas no papel de mãe; em A História da Aia, tal aprisionamento é levado às últimas conseqüências. As mulheres têm apenas algum valor de mercado enquanto são úteis à sociedade, servindo como incorporação de estereótipos do feminino: são as mães (biologicamente retratadas pelas Aias e socialmente pelas Esposas, já que são as últimas que ficam com os bebês), Esposas em si mesmas, empregadas (as Martas), algumas incorporam todas estas funções (as Economoesposas), e há até mesmo prostitutas (ou Jezebels), ainda que não sejam oficialmente admitidas pela República. Quando as mulheres perdem seu valor econômico, centrado em sua função, e se tornam inúteis neste mundo visceralmente patriarcal, elas são consideradas Antimulheres e enviadas para as Colônias, onde a vida é dura e muito perigosa. Moira, atualmente uma Jezebel - profissão que fora obrigada a abraçar ao ser capturada quando tentava fugir de Gilead - revela à amiga Defred, a Aia narradora da História , em um raro e breve encontro no livro:

 

Nas Colônias passa-se o tempo todo fazendo faxina. Eles têm verdadeira mania de limpeza hoje em dia. Às vezes, são apenas cadáveres, no fim das batalhas. O pior é nos guetos negros, onde lês ficam espalhados por mais tempo, e ficam mais podres. Nessa o pessoal não gosta de cadáveres espalhados, têm medo de peste, esse tipo de coisa. Então, as mulheres das Colônias são encarregadas da cremação. Mas há Colônias ainda piores, com lixeiras tóxicas e depósitos radioativos. Calcula-se que, nelas, em três anos, no máximo, teu nariz cai e a tua pele sai como uma luva de borracha. Não se dão ao trabalho de te alimentar bem, nem de te dar roupas protetoras, nem nada, fica mais barato sem isso. Além do mais, quase todos são pessoas de quem eles querem se livrar. (ATWOOD, 1987: 264)

 

Numa sociedade onde o direito de casar e a capacidade de ter crianças - de forma distinta de procriar - se tornam sinal de status e de prestígio, vê-se um mundo onde a destruição do ambiente se torna muito perigosa, mais do que simplesmente um desastre biológico. As conseqüências podem ter um alcance muito maior do que se espera, causando novas formas de manifestação de poder totalitário e submissão que estão longe de corresponder a uma visão otimista de evolução da espécie humana.

Na mais recente obra de Atwood, Oryx e Crake , verifica-se que os riscos da reprodução desenfreada são extremamente preocupantes. O ser humano pode ter evoluído no que se refere a aspectos tecnológicos, no entanto manifestações de poder ainda estão presentes se levarmos em conta a dominação econômica e a já mencionada boa qualidade de vida somente para aqueles que podem pagar por ela, ou se sujeitar ao preço que é necessário pagar para tê-la. Aspectos que tornam o ser humano mais humano, tal qual mostras artísticas ou rasgos de compaixão para com o semelhante, se tornam totalmente inexistentes ou são relegados a um plano inferior na sociedade, como se pode observar na enorme diferença que existe na escola artística onde o protagonista Jimmy vai estudar (Martha Graham) e na escola devotada à tecnologia, que Crake freqüenta (Watson-Crick), sendo a primeira parecida com um hotel de quinta categoria e a segunda, com um palácio. Nesta sociedade, o sistema totalitário não se faz tão óbvio se comparado com a distopia anterior de Atwood, no entanto ele está lá para acabar com qualquer elemento não conformista; por exemplo, tal sistema leva a mãe do protagonista a fugir por não concordar com as idéias do Complexo onde vive com o marido e o filho.

A sociedade de Oryx e Crake pode ser vista de forma extremamente consumista e apenas superficialmente preocupada com questões de manutenção do planeta. A vida parece seguir seu rumo normal, apesar de aqui e ali aparecerem sinais de que certas coisas estão erradas, como a vida miserável das cidades e os atos dos aparentes lunáticos que estão lá para tentar fazer com que todos vejam que a vida não é o paraíso dos Complexos. Sinais de desespero vão se fazendo presentes ao longo da obra até que culminam com a criação do amigo do protagonista, o cientista Crake: uma espécie humana híbrida, com características de animais e mais ecologicamente consciente. As "crianças de Crake", como são chamadas, pescam apenas para poder alimentar o que seria o último humano vivo, Jimmy. Elas também foram geneticamente projetadas para permanecerem inocentes e alheias a aspectos sociais considerados nocivos pelo cientista que as criou, tais quais humor, ironia e religião. Sua forma de reprodução foi intensamente trabalhada, dando-se exclusivamente de forma controlada, apenas para a manutenção da espécie. Entretanto, a produção desses seres é, na realidade, o apogeu da crescente preocupação de Crake com o mundo. A princípio, Crake desenvolve a pílula chamada de BlyssPluss, que supostamente funcionaria como um potentíssimo estimulante sexual; esse medicamento, porém, leva ao não mencionado efeito colateral de deixar quem o toma estéril, o que faria a taxa de natalidade cair vertiginosamente. Segundo Crake, tal efeito seria algo que traria mais benefícios que prejuízos, já que o número de pessoas que assolam o planeta com suas necessidades seria diminuído, como ele revela a Jimmy:

 

(...) Como espécie, nós estamos muito encrencados, muito mais do que se imagina. Eles estão com medo de liberar as estatísticas porque as pessoas poderiam simplesmente desistir, mas escuta o que eu estou dizendo, o espaço-tempo está se esgotando. A demanda por recursos vem excedendo a oferta há décadas em regiões geopolíticas marginais, por isso a seca e a fome; mas muito em breve a demanda vai exceder a oferta pra todo mundo. Com a Pílula BlyssPluss, a raça humana terá uma chance maior de sobrevivência.

- De que maneira? - Talvez Jimmy não devesse ter tomado aquele drinque extra. Ele estava ficando um tanto confuso.

- Menos gente, portanto mais espaço. (ATWOOD, 2004: 272)

 

Mais tarde, uma grande praga toma conta do planeta, fazendo com que todos no mundo morram, à exceção de Jimmy, que havia sido secretamente imunizado por Crake, já que Jimmy seria aquele que deveria tomar conta das "crianças de Crake" que ainda viviam em um mundo experimental no laboratório. A praga, acredita-se, estava também inserida nas pílulas BlyssPluss, facilitando assim sua propagação. A humanidade extinta é então substituída por uma nova espécie, fisicamente melhor e mais preparada para o mundo apocalíptico que resta.

Parece exagero imaginar mundos nos quais as mulheres sejam totalmente controladas em castas de acordo com suas funções, ou em que um Dr. Frankenstein pós-moderno possa liquidar toda a humanidade, substituindo-a por uma espécie que desconhece totalmente as alegrias e dores que nos tornam humanos. As duas obras, no entanto, podem assumir um caráter mais assustador, especialmente porque se referem a situações vividas pela humanidade hoje que podem colaborar para que o mundo se converta em algo perigosamente próximo dessas versões terrenas do inferno. Elas podem ser vistas como sinais de alerta para o fato de que tudo que a humanidade faz com seu semelhante ou com seu mundo pode ter conseqüências mais desastrosas do que se percebe a princípio. A destruição do ambiente e o controle da reprodução humana terminam por ser apenas mais uma arma de dominação do Outro na cabeça de pessoas que se recusam a aprender com os erros do passado. Como se observou recentemente na produção hollywoodiana dirigida por Roland Emmerich, O Dia Depois de Amanhã ( The Day After Tomorrow , 2004), empurrar os problemas para adiante só serve para torná-los maiores e com conseqüências mais desastrosas. Os avisos existem, só resta dar-lhes alguma atenção.

 

- SLOVIC, Scott. "Giving Expression to Nature: Voices of Environmental Literature." (1999) http://www.findarticles.com/cf_0/m1076/2_41/5 4 141177/p1/article.jhtml?term=ecocriticism (acessado em 01/07/2004)

CAVALCANTI, Ildney. "A Distopia Feminista Contemporânea: um Mito e uma Figura". In: Boletim do GT da ANPOLL: "A Mulher na Literatura" . Florianópolis, Vol. 9, 2002, pp 247-262.

RUSS, Joanna. To Write Like a Woman: Essays in Feminism and Science Fiction. Indiana University Press: Bloomington, 181p., 1995.

BUTLER, Octavia. Parable of the Sower. Warner: New York, 232 p., 1993.

SCOTT, Melissa. Dreaming Metal. Tom Doherty: New York, 187 p., 1997.

PIERCY, Marge. He, She and It . Knopf: New York, 432 p., 1991. (Esta e as duas obras anteriores não foram traduzidas para o português; por esta razão, mantivemos seu título original no trabalho).

ATWOOD, Margaret. A História da Aia. Marco Zero: São Paulo, 329p., 1987.

ATWOOD, Margaret . Oryx e Crake . Rocco: Rio de Janeiro. 342 p., 2004.

- MOI, Toril. What Is a Woman?: And Other Essays. Oxford University Press: Oxford , 288p, 1999.