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O Diabo por Fernando Pessoa e Walmor Santos
Andréa Lúcia Padrão (UFSC)
Acho que se o Diabo não existe, sendo portanto criação humana, o homem o fez conforme sua própria imagem.
Ivã Karamazov
A literatura se ocupou sempre de temas teológicos e, nos últimos tempos, observa-se uma verdadeira explosão de estudos em torno da figura de Cristo. Pesquisadores dos mais variados credos, ateus, marxistas, têm revisitado a sua vida e se preocupado em saber quem era este homem chamado Jesus. Entretanto, para milhares de cristãos que vêem Cristo como o Filho de Deus, existe também o Diabo, seu contraponto, figura muitas vezes negligenciada pelos estudos literários. Alguns autores se preocupam em questionar sua existência e em descrevê-lo, quase sempre de forma pejorativa. O Diabo realmente existe? Quem é ele? Qual sua missão na Terra? Ao contrário do que ocorre com a figura de Cristo, bem poucos autores demonstram-lhe simpatia. Chamado muitas vezes de Maligno, Cão, Maldito,Tinhoso, Rabudo e outros adjetivos pejorativos raramente tem voz em textos ficcionais.
Neste artigo, selecionamos dois contos de autores de língua portuguesa, um representante do modernismo português e outro representante do pós-modernismo brasileiro, nos quais Satanás é o protagonista: A Hora do Diabo de Fernando Pessoa e Nostalgia do Amor Ausente de Walmor Santos. Procuramos, também, estabelecer outras possíveis aproximações entre os textos. 1
Os originais de A Hora do Diabo, conforme nota prévia do editor, encontram-se no Espólio do autor, depositado na Biblioteca Nacional de Lisboa, em forma de folhas soltas, sem data, algumas manuscritas e outras datilografadas.
O conto, narrado inicialmente em terceira pessoa, tem como protagonistas o Diabo, na forma de um personagem mascarado vestido de Mefistófoles e uma mulher, Maria, grávida de três meses, que se encontram em um baile de Carnaval. Na saída, sob um luar claríssimo, ele escolhe aquela mulher comum, sem qualquer individualidade, retira-a do seu cotidiano e transporta-a para uma viagem insólita, fora do espaço e do tempo, quando sobrevoam o mundo: Em baixo, a uma distância mais que impossível, estavam, como astros espalhados, grandes manchas de luz - cidades, sem dúvida, da terra.
Nessa viagem sem um propósito aparentemente definido, nada acontece a não ser os longos monólogos (raramente a mulher fala) dos quais o Diabo se utiliza para ministrar ensinamentos, através da mulher, ao seu filho que vai nascer.
" Não estou falando contigo mas com teu filho..."
"Não tenho filho...Isto é, vou tê-lo daqui a seis meses, se Deus quiser..."
Ao longo da viagem, ao sobrevoarem um píncaro, o Diabo esclarece que, há muito tempo atrás, daquele mesmo lugar, tinha em vão tentado Jesus. Aquilo, minha senhora, é o mundo. Foi de aqui que, por incumbência de Deus, tentei seu filho Jesus. Mas não deu resultado (...)
Agora, o Diabo, nesse mesmo lugar, através do Verbo, fecunda o fruto do ventre de Maria, arranca-o da condição de um ser comum, sagrando-o homem muito inteligente - um talento, talvez um gênio. E a mulher, como a Virgem Maria da Igreja de Roma, assume o papel da escolhida, da eleita para carregar em seu ventre não o filho de Deus, mas o filho do Diabo. E a memória dessa viagem estranha permanece como um sonho na mente de mãe e filho.
Este conto contraria os vários mitos que se criaram em torno do Diabo, apresentando-o como o vilão, o corruptor, o malvado. Pode-se dizer que Pessoa quer redimir a figura de Satanás, provando que ele não é tão mau como o faz a Igreja Católica. Eu sou de facto o Diabo. Não se assuste, porém, porque eu sou realmente o Diabo, e por isso não faço mal . 2
Antes de Fernando Pessoa, outros escritores de renome já tinham conferido ao Diabo papel de destaque em seus textos. O próprio Diabo, ao se lamentar dos insultos e calúnias que tem recebido desde o princípio do mundo faz referência a esses poetas, ressaltando, porém, que quem o deveria ter defendido (os poetas são por natureza seus amigos), não o fizeram bem. Assim, Pessoa define os poetas como seres naturalmente ligados ao diabólico. Goethe é mencionado pelo Diabo, que se ressente do papel de alcoviteiro numa tragédia de aldeia, que lhe é atribuído pelo autor. Aliás, Pessoa inicia o conto com uma referência clara à obra Fausto, de Goethe, ao "fantasiar" o Diabo de Mefistófoles, no baile de máscaras. Milton também é lembrado, na batalha indefinida que nunca se travou e que, segundo o Diabo, este o fez perder . 3
Ceder o ponto de vista aos renegados pela teologia parece ser a marca da literatura de alguns escritores de literatura portuguesa. Saramago, por exemplo, no seu Evangelho Segundo Jesus Cristo, além de ceder voz a Cristo para que conte a sua versão dos fatos, o que não ocorreu nos outros quatro Evangelhos, faz do Diabo o grande herói do seu evangelho profano. Numa das principais cenas do livro, a cena da barca, o diabo comparece para tentar "salvar" o Salvador e, por extensão, a toda a humanidade e, ainda, exorcizar o próprio mal que é Deus. O Diabo aqui se apresenta generoso, humilde, arrependido, bondoso, negando todos os atributos que lhe foram secularmente conferidos. Assim, o Diabo incorpora a figura do Bem. Mas Deus não o perdoa e o quer ainda pior, já que o bem que Deus é não existiria sem o contraste do mal que o Diabo representa. Agindo assim, Deus transforma o Diabo num seu heterônimo, à maneira de Fernando Pessoa. 4
No afã de redimir sua imagem perante mãe e filho, o Diabo do conto A Hora do Diabo desnuda-se, apresentando-se como é realmente. Inicialmente, define-se como um cavalheiro, incapaz de uma palavra, de um gesto que ofenda a uma senhora ; ou como um ironista, inofensivo porque não diz a verdade (a ironia só ofende quando insinua a verdade); ou, ainda, como um anjo assexuado - garantia de que a mulher não será desrespeitada. Se ele corrompe, é através do sonho, da imaginação. Os sonhos são sua grande arma e a fraqueza do homem.
A música, o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas. (...). Só os sonhos são sempre o que são. É o lado de nós em que nascemos e em que somos sempre naturais e nossos.
"(...) O sonho (...) é uma ação que se tornou idéia e que por isso conserva a força do mundo (...) Não é verdade que somos livres no sonho?"
"Sim, mas é triste acordar.."
"O bom sonhador não acorda".(...)
O Diabo utiliza-se do paradoxo para apresentar sua verdade (relativa, porque a verdade eterna, essa nem Deus conhece ):
Sou o negativo absoluto, a encarnação do nada. O que se deseja e se não pode obter, o que se sonha porque não pode existir(...)
Sou o esquecimento de todos os deveres, a hesitação de todas as intenções.
Sou naturalmente poeta porque sou a verdade falando por engano.
Não sou, como disse Goethe, o espírito que nega, mas o espírito que contraria .
E justifica as várias concepções tecidas em torno da sua figura, alegando que, por ter-se rebelado, sua presença neste universo é a de quem não foi convidado sendo, por isso, o eterno Diferente, o eterno Adiado, o Supérfluo do Abismo . E conclui: fiquei fora da Criação.
A rebelião do anjo que caiu em desgraça também é tema do conto Nostalgia do amor ausente, do escritor Walmor Santos, que pode ser lida como uma paródia 5 da passagem bíblica da expulsão de Lúcifer do paraíso, na visão do próprio Lúcifer e manifesta com clareza a interação entre universos de valores diferentes e antagônicos. Assim, a história bíblica é recontada de forma irônica, algumas vezes impregnada de lirismo, estabelecendo um liame invertido entre duas culturas diferentes, a sagrada e a profana. O conto é narrado em primeira pessoa, onde o Diabo, aqui denominado Lúcifer fala em seu próprio nome, sob a máscara de um "diálogo", de uma "conversa", dirigindo-se ao leitor/ouvinte, com a clara intenção de conduzi-lo a uma reação reflexiva. Cabe aqui salientar a ousadia do autor, ao permitir que o episódio bíblico seja recontado sob o ponto de vista de um execrado pela teologia. 6
A personagem narradora, apesar de anjo/demônio, incorpora as características de um homem, com seus amores, fraquezas, sentimentos e medos. 7
Em alguns momentos, sinto-me terrivelmente só...
Que sabeis da vida e do amor? Jamais experimentastes da saudade que me vitima.
Sou amado, afirmei. Mais amado do que Deus, ouso blasfemar. (...)
Estabelecendo uma comparação entre as duas concepções de Diabo, podemos afirmar que como o Lúcifer de Walmor Santos, o Diabo de Fernando Pessoa também apresenta características humanas, embora este seja mais triste, mais cansado e menos arrogante do que aquele. Ouçamo-lo:
Nunca tive infância, nem adolescência, nem portanto idade viril a que chegasse. Sou o negativo absoluto, a encarnação do nada. O que se deseja e se não pode obter, o que se sonha porque não pode existir - nisso está meu reino nulo e aí está assente o trono que me não foi dado.
"E como se sente?"
"Cansado, principalmente cansado. Cansado de astros e de leis, e um pouco com a vontade de ficar para fora do universo e recrear-me a sério com coisa nenhuma.(...)"
O Diabo de Pessoa declara a Maria do fundo do cansaço de todos os abismos que inveja a condição de homem e tem saudades imaginárias da terra onde nunca esteve: Mais vale a calma e a paz de uma noite da família à lareira que toda esta metafísica dos mistérios (...)
Ao contrário, o Lúcifer de Santos despreza os homens:
Vós, humanos, retratais-me de um feio assemelhado a vossa mesquinhez. Que sabeis da vida e do amor?
Se vos revelei o pecado foi porque desvelei vossa hipocrisia, livrando-vos dos extremos entre o Bem e o Mal, estreitos limites da ignorância (...)
O conto Nostalgia do Amor Ausente inicia-se quando Lúcifer fala da solidão que sente longe do paraíso e, principalmente, longe da presença do anjo Gabriel, que depois vem a Terra e se encarna como Filho de Deus. 8 Lúcifer fala também da esperança de reencontrar Gabriel/Cristo e do amor que os unia: amor como o nosso não caberia no céu. E ao explicar ao leitor o motivo de sua expulsão, ele blasfema, alegando que Deus o expulsou movido pelo medo: temeu que nosso amor ofuscasse o amor da Humanidade por Ele, e pelo ciúme provocado entre os anjos: Éramos um, e nosso amor ofendia a paz inútil dos anjos . E nesse dia foram criadas as palavras Saudade, para descrever um eterno "vir a ser", e Esperança , como o motivo condutor para o reencontro de Cristo com Satanás.
Walmor apresenta, assim, um Diabo que blasfema, que nutre rancor por Deus, responsável por sua expulsão do paraíso. Pessoa, de forma diferente, contraria a habitual concepção dicotômica do universo como campo de batalha entre o Bem e o Mal, entre Deus e o Diabo:
Eu não sou o que pensam. (...) Nem sou um revoltado contra Deus, nem o espírito que nega. (...) Deus criou-me para que eu o imitasse de noite. Ele é o Sol, eu sou a Lua.(...) Talvez, no fundo imenso do abismo, Deus mesmo me busque, para que eu o complete, mas a maldição do Deus Mais Velho - o Saturno de Jeová - paira sobre ele e sobre mim, separa-nos, quando nos deveria unir, para que a vida e o que desejamos dela fossem uma só coisa.
O Diabo não assume, portanto, o papel de inimigo de Deus, como no conto Nostalgia do Amor Ausente , mas declara-se o avesso de Deus. Assim, Deus e o Diabo completar-se-iam, como o Sol e a Lua, o dia e a noite, a terra e a água, o côncavo e o convexo. .
Retornando ao texto de Walmor Santos, o narrador/demônio esclarece o significado do nome Lúcifer, "aquele que traz a luz". E novamente deixa claro seu desprezo pela humanidade ao explicar que os homens o apelidaram, injustamente, Satanás, aquele que arma ciladas, como forma de justificar seus erros e suas fraquezas; no entanto, os seres humanos sabem perder-se por si mesmos, dispensando o auxílio do demônio .
O autor utiliza-se de inúmeras metáforas para exprimir a intensidade da dor de Satanás. Fenômenos da natureza são mensageiros de um amor impossível. Fortes, intensos, apavorantes, ligados ao demônio: os trovões em noite tempestuosa são vozes, clamando por Cristo; a chuva intensa são lágrimas chicoteando a Terra. Ao contrário, o que se refere a Cristo está ligado ao sol, ao brilho, à luz: E, nos dias de sol, ouvireis a voz de Gabriel palpitando na luz: para ele meu nome é melodia e em seus olhos luminosos me vereis indescritível.
Lúcifer blasfema novamente ao afirmar que é mais amado que Deus, inclusive por Cristo. O homem, e Cristo enquanto homem, não se afasta das tentações por sua vontade. O ser humano se sente mais atraído pelo prazer e pelo amor, associados a Satanás, do que pelos milagres, pelos sacrifícios, dor e desespero, associados à figura de Deus. Vede os tempos vazios nos dias santos e as ruas superlotadas nos carnavais . 9 Isto porque a Igreja Católica prega o paraíso na outra vida, enquanto a felicidade terrena é vista como coisa do demônio. Para Satanás, a Igreja Católica, intermediária entre Deus e o homem, embora o ataque (chama-o de besta, dragão, serpente) pratica também sua filosofia e sabe que nele está a Vida e a Sabedoria, a plenitude do Belo e do Prazer. Pelo pecado, desvelamento da hipocrisia, chega-se ao conhecimento; e por ambos chega-se a Deus.
O Diabo fala da eterna busca de sua alma gêmea, Gabriel, que veio à Terra como Filho de Deus e fez prodígios como um mágico 10. E ao se encontrarem no deserto, onde Cristo fora jejuar, Satanás o tenta. Nega, entretanto, tê-lo desafiado a jogar-se das montanhas, como contam as Escrituras, porque sabia de suas asas, enquanto anjo. Mas o desafiou, sim, a transformar pedra em pão 11.
A passagem da tentação de Cristo pelo demônio é enfocada com ênfase nas duas obras abordadas: em Walmor Santos, Lúcifer lamenta não ter convencido Gabriel a segui-lo; em Fernando Pessoa, o Diabo fecunda Maria pelo Verbo e faz do seu Filho um seguidor. A tentação de Cristo no deserto é abordada, também, de um ângulo totalmente inusitado na versão de Saramago. Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo , Cristo passa quatro anos no deserto, aprendendo com o Diabo. Também se aprende com o Diabo. Deus, como um déspota, de forma surpreendente, tenta Cristo e o obriga, numa atitude extremamente egoísta, a sacrificar uma ovelhinha, a preferida de Jesus. É a instauração do mundo às avessas: o Diabo ocupando o papel de mestre; e Deus, o papel de um tirano cruel. Porquê, Porque ma vais sacrificar como penhor da aliança que acabo de celebrar contigo, Esta ovelha, Sim, Sacrifico-te outra(...) Não me contraries, quero esta ... . 12
Nos textos de Pessoa e Santos, para Satanás, o pão está também associado a outros prazeres do homem como vinho, música e sexo. Em ambos, o demônio, além de tentador, é irônico. Em Nostalgia do Amor Ausente, quando afirma que a resposta de Cristo nem só de pão vive o homem é bonita, mas inútil; também é irônico ao lembrar que o primeiro milagre de Cristo foi o das bodas de Caná, quando transforma a água em vinho 13; é sedutor, quando, de mãos dadas, ele e Cristo sobrevoam as belezas terrenas (sem o marketing da indústria do turismo) e ele recita para Cristo salmos e se oferece, vencido, pedindo em troca que Cristo renuncie a sua missão e fique com ele.
Cristo resiste à tentação. E o narrador sabe que embora ambos procurem a felicidade, são incompossíveis; luz e trevas, não se reencontrarão, apesar de continuarem a se amar.
Satanás questiona o maniqueísmo, segundo o qual o Universo foi criado e é dominado por dois princípios antagônicos e irredutíveis: Deus ou bem absoluto, e o mal absoluto ou o Diabo. Para ele, são menores os seres que se regem pelos limites do bem. E considera-se mais feliz e talvez maior que Cristo ao adotar uma posição intermediária entre os extremos do bem e do mal.
Fala novamente da infinita tristeza e da solidão que sente em certas noites ao escutar o cosmo e sentir vibrar nas estrelas instrumentos desconhecidos dos homens, mas que ele identifica e deixa-os plangendo as fibras do seu triste coração. Nesse momento, ele se identifica com os homens e se sente um pobre mortal em sua hora de absoluta prostração . E como acontece com o homem, o consolo em uma amante, em uma bebida ou em cigarros torna-se inútil e insípido. Nesse momento de desespero ele sobrevoa a Terra em busca da sensibilidade dos artistas, toca-lhes as almas e os inspira. Assim, as obras de arte são fruto da inspiração fundada no pranto e na angústia.
Pessoa também se refere à angústia do Diabo que sente saudades da Terra onde nunca veio e que talvez para poder se sentir como homem e aquecer-se nas noites de lareira se encarne no ser humano que pulsa há três meses no ventre da mulher.
Para Santos, a grande tragédia amorosa não foi o romance de Adão e Eva, Romeu e Julieta, Tristão e Isolda ou quaisquer outros amantes cantados na literatura universal. Para ele, a maior de todas as tragédias amorosas foi a de Lúcifer e Cristo, fonte de toda a tragédia do ser humano: a queda de Adão, a perda da imortalidade do homem, a necessidade da Encarnação do Verbo, o Apocalipse. Ou seja, a história da humanidade resume-se num romance impossível - Lúcifer e Cristo - e nos ciúmes da excelência desse amor.
Como já apontamos no decorrer deste trabalho, há pontos comuns às duas obras. Em ambos, o Diabo tem voz e é protagonista. Em A Hora do Diabo, embora a narração ocorra em 3ª pessoa, domina o diálogo entre os protagonistas - praticamente um monólogo do Diabo, com poucas interferências da mulher. No texto de Santos, o Diabo é o narrador. Os dois autores tentam redimir a figura do Diabo, apresentando-o não mais como um anjo rebelde ou a personificação do mal. Também a passagem bíblica da tentação de Cristo ocupa lugar de destaque nos dois textos. Na obra de Pessoa, ela é referida, quando a mulher é levada a uma viagem insólita e o Diabo se encarna no filho de seu ventre. No texto de Santos, a tentação de Cristo também ocorre através de uma viagem, quando Lúcifer e Gabriel sobrevoam o mundo de mãos dadas. Ambos os autores impregnam a fala do Diabo de ironia, ressaltando, assim, a função "diabólica" dessa figura de estilo, e os dois autores também se referem à associação historicamente feita da música, da festa e do riso como coisas do Diabo.
Assim, ao indicarmos evidentes pontos em comum nas obras analisadas de Fernando Pessoa e Walmor Santos, ousamos acreditar que o escritor gaúcho leu o escritor português - fator que não o desabona nem diminui o valor da sua obra, mas, ao contrário, a intertextualidade identificada o enriquece assim como ajuda-nos a conhecê-lo melhor. Nas palavras de Julia Kristeva, (...) todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de outro texto. 14Certamente, para um ensaio de maior fôlego sobre o autor - que não é a nossa pretensão neste trabalho - é importante identificar de que fonte Santos bebeu. Só assim saberemos por que o escritor exprime determinado sentimento, sendo também mostrado o seu processo de composição e iluminado o seu pensamento. E ao estudarmos as possíveis influências de um autor, indiscutível representante do modernismo de Portugal, sobre outro, respeitado escritor pós-modernista brasileiro, estaremos buscando semelhanças escondidas e parentescos secretos entre duas visões de mundo separadas no tempo e no espaço, mas unidas pelo mesmo tema em duas belas peças literárias: a reabilitação do demônio - anjo caído - como uma criatura maravilhosa na sua inteligência e vontade.
NOTAS:
Walmor Santos é escritor gaúcho, autor do romance A Noite de Todas as Noites , e do livro de contos Além do Medo e do Pecado , entre outros. O conto com que trabalhamos, Nostalgia do Amor Ausente, foi extraído da obra Além do Medo e do Pecado, publicado pela Editora Mercado Aberto, em 1996.
Fernando Pessoa, considerado o mais importante poeta da língua portuguesa do século XX, nasceu em 1888 e faleceu em l935. Apesar de não se ter a data de escritura do conto A Hora do Diabo , certamente mais de 60 anos separam a produção dos dois textos.
Aqui Pessoa refere-se ao poema O paraíso perdido , no qual Milton atribui a Satanás o papel de protagonista, relegando Adão a um papel quase que secundário, ao enfocar a rebelião do anjo caído.
FERRAZ, Salma . O quinto evangelista: o (des)evangelho segundo José Saramago . Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998, p. 129.
Segundo a visão de Hutcheon, na adição da paródia, escrita sobre outra escrita, o escritor inscreve um texto em outro texto, estabelecendo um diálogo entre as visões de mundo que eles expressam. HUTCHEON, Linda. A poética da pós-modernidade . Rio de Janeiro: Imago, 1992.
Luther Link utiliza para designar o Diabo também os termos Satã e Lúcifer. Esclarece que teólogos, historicamente, não apresentam um uso sistemático ou uniforme dos três termos. Chaucer, por exemplo, julgava que o anjo Lúcifer, depois de sua queda do Céu, tornou-se Satã. Lord Byron usa Lúcifer, Diabo e Satã indiscriminadamente.LINK, Luther. O Diabo: a máscara sem rosto. São Paulo: Cia das Letras, 1998, p. 13-14.
A existência de anjos e demônios é ponto de fé da Igreja Católica, sendo sua existência uma constante bíblica desde os mais antigos documentos (Cf. 1 Rs 22,19; Is 6,3). O Novo Testamento apresenta anjos e demônios em anunciações (Lc 1,19-26), no esclarecimento da ressurreição (Mt 28,5 ss; Jo 20,12-13), na libertação de Pedro (At 12,7-10). Jesus lembra-se espontaneamente dos anjos (Mt 18, 10; 22,30; 26,53; Lc 15,10); encontra-se com demônios: em Cafarnaum (Mc 1,23-27) e em Gerasa (Mc 5,1-10). Satã aparece para tentar Jesus (Lc 4, 3 ss) e o Senhor faz denúncias contra ele (Jô 8,44; Mt 13,39; Mc 4,15). Segundo Mons. Dr. Roberto Mascarenhas Roxo, no parecer para o Nihil Obstat e Imprimatur do Novo Catecismo - obra redigida pelo Instituto Catequético Superior de Nijmegen - a fé não define a natureza "filosófica" dos anjos e demônios. Afirma-os "espíritos", i.e., de natureza diversa do homem, simultaneamente espiritual e material.
Lc 1, 26-35. A Bíblia conta que o anjo Gabriel, mensageiro de Deus, anunciou a Maria que ela seria mãe de Jesus, o Filho de Deus.
Pessoa, como já foi visto anteriormente, também liga o Diabo à música e ao prazer.
A música, o luar, os sonhos são minhas armas mágicas.
Note-se que Satanás não fala em milagres de Cristo, mas em prodígios , comparando Cristo a um mágico. A teologia tradicional conceitua os milagres como intervenções divinas "excepcionais" ante as leis da natureza. Os Evangelhos falam de "alguns" milagres operados por Jesus, mas afirmam que Ele praticou muitos outros (Jo 20,30-31; Mt 4,23-24; Mc 132-134; 3, 10-12).
Lc 4,3-4 Mt 4,1-11 Mar 11, 12s
SARAMAGO, José. O Evangelho Segundo Jesus Cristo. São Paulo: Cia das Letras, 1991, p.260-265.
KRISTEVA, Júlia. Introdução à Semanálise . Trad, Lúcia Helena França. S. Paulo: Perspectiva, 1970.